terça-feira, 13 de abril de 2010

A Homenagem

[Sá d’Albergaria, O segredo do Eremita, vol. 3, 1902, págs. 38-41, 67-82.
Como já foi dito acerca d'"O Café Lisbonense", O segredo do Eremita é um romance, mas o autor chama-lhe "romance de costumes" e diz no prefácio que "os seus personagens existiram" e "tudo que aí se conta sucedeu" (vol. 1, 1902, págs. 6-7). Sou bastante céptico relativamente à veracidade da estória aqui contada. No entanto, não me parece de todo irrelevante uma estória passada num meio estudantil, apresentada pelo autor como verdadeira – inspirando-se possivelmente em situações e ambientes reais.]


[...] o estudante [Roberto] entrou no Lisbonense seriam oito horas da noite.

- Ora ainda bem! Ainda bem que apareces! - gritaram algumas vozes, saídas de um grupo de rapazes sentados à volta de uma mesa, ao centro da sala.

- Então o que há?

- Há que vamos fazer uma patuscada de mão cheia e é preciso que não faltes.

- Eu afianço-o! Este é dos nossos, não falta! - exclamou o Veiga, na sua voz de stentor. E acrescentou logo: - Ponha para aqui um charuto!

Antes, porém, que Roberto tivesse tempo de lho dar ou de o recusar, já o Veiga lhe introduzia a mão no bolso e se apoderava do charuto.

- Este é rico, este é proprietário... pode bem com a multa... Não é como vocês, seus pelintras, que só fumam cigarros de oito... É dos de trinta e Flor de Creta - continuava, admirando-o, antes de o acender.

- Mas vamos a saber... De que se trata?

- Trata-se de glorificar um poeta, oferecendo-lhe uma ceia.

- Uma ceia?

O Joaquim d’Araújo, com um sorriso meio aberto, meio fechado, que lhe dá à boca o aspecto rugoso de uma rosa de Alexandria, explicou com voz melíflua:

- Sim. Existe aí um poeta assombroso, um poeta piramidal, que se chama o sr. Anastácio Gomes... Ora este poeta queixa-se de que não é suficientemente apreciado o seu estro; e nós resolvemos oferecer-lhe um banquete lauto... isto é... encher-lhe a barriga, coisa de que ele muito precisa em verdade, e por fim entoar-lhe um hino... Já fizemos o cálculo e deita a coisa, com troça e tudo, lá para dez tostões por cabeça... o banquete é de cinquenta talheres; mas o nosso poeta não paga nada.

- Deve ser uma noite cheia! - observou o Paranhos.

- Já se encomendou uma coroa de cascas de alhos para lhe ser oferecida no fim...

- Mas quem é esse Anastácio Gomes?

- É um parvo que faz versos muito engraçados, pelas calinadas monumentais de que os recheia.

- Mas ele em que se ocupa? - insistiu Roberto, cada vez mais interessado em saber quem fosse a vítima daquela brincadeira de rapazes, por suspeitar que o Anastácio Gomes se relacionasse de perto com o primo das Gomes, seu rival e proposto noivo de Camila.

- É um súcio que se emprega no comércio, onde parece que não está mal, mas que tem a mania de ser poeta.

- É do Porto?

- É. Chamam-lhe até o Primo das Gomes, porque está sempre a falar nas suas primas Gomes - umas seresmas que prometeram deixá-lo herdeiro quando morressem...

- Ah! Tenho ouvido falar.

- Mas vamos a saber, podemos contar contigo?

- Talvez... Amanhã darei resposta.

- Não senhor! Há de ser hoje... porque é preciso que tudo fique combinado.

- Pois bem, contem comigo.

- Viva! - bradaram todos os rapazes alegremente.

- Olha que hás de botar discurso, ouviste? - preveniu o Bonga. - Olha que o discurso é obrigado...

- É verdade - afirmou o Joaquim d’Araújo - o poeta também recita... Eu comprometo-me a fazê-lo recitar... Isso vai ser muito bom! [...]

[ Entretanto, Roberto fala a Camila da “homenagem” ]


A ceia tinha sido encomendada no restaurante conhecido pela denominação da D. Ana das ... gordas, em Entre-Paredes.

O avultado seio da proprietária, uma mulher quarentona, mas ainda fresca, tanto quanto o pode ser uma mulher nessa idade, robusta e nutrida, tinha dado ao retaurante e à D. Ana a denominação comum.

Esse restaurante, que já hoje pertence a novo proprietário, conserva ainda agora a antiga denominação; e posto a tabuleta o anuncie aos transeuntes como Restaurante Português, o certo é que o boémio portuense desse tempo não o conhece senão pelo Restaurante da D. Ana das ... gordas.

Omite-se por um resto de amor à decência... escrita, o que a decência falada nas ruas do Porto repete em voz alta.

As reticências não se fizeram para outra coisa, senão para servirem de parra à nudez, às vezes mais que paradisíaca, de certas frases ou fórmulas populares.

Vamos adiante.

É o Restaurante da D. Ana um amplo barracão de madeira, que outrora foi construído para servir de vacaria e que mais tarde foi convertido em restaurante.

À entrada, sob uma ramada, ao ar livre, estão colocadas algumas mesas toscas de madeira que, nas noites calmosas, são preferidas pelos frequentadores.

E no mesmo plano, divididas por frágeis tapamentos de madeira, há duas ou três salas bastante espaçosas, com umas mesas sempre sujas e escassamente iluminadas a gás.

O resto do edifício subdivide-se em quartos reservados, com a sua negra e suja cortina de chita a tapar-lhes a entrada e a vedar das vistas indiscretas o seu velho bico de gás saído da parede, a esclarecer a toalha nojentamente enodoada, estendida sobre a tábua de pinho assente em quatro pernas e pomposamente crismada com o nome de mesa.

Não era em nenhum dos quartos reservados, onde apenas podem estar à vontade duas pessoas - ainda que os bancos indicam lugar para quatro - que havia de ser servida a ceia.

Escolheram os rapazes a sala da entrada, à direita, por ser a mais espaçosa e a mais isolada de todas; e para aí se dirigiram às 10 horas da noite todos os convivas.

O Joaquim d’Araújo, que se encarregara do menu, dava ordem ao criado - um galego grosso e gordo - para que fosse dispondo a mesa, pois que o banquete, às 10 e meia em ponto, devia principiar com os convivas que estivessem.

- A hora marcada era para as 10 - dizia. - Concedemos meia hora de espera. Quem chegar mais tarde entrará na altura em que estiver o banquete.

O Veiga, fazendo sempre muito barulho, intrometia-se nas atribuições do Araújo e dava ordens ao criado.

- Ò Juan! Ò Romão! Ò galego! - berrava ele - E vinho! Vê lá, deita bastante vinho nessa água, ouviste?

- Meus senhores, - disse o Araújo aos convivas já reunidos - proponho que façamos as coisas com a solenidade e respeito devido ao eminente vulto que pretendemos honrar neste banquete. Acho para isso indispensável que se nomeie uma comissão que vá receber à porta e introduza na sala do festim o poeta extraordinário que vem proporcionar-nos a mais bela noite que ainda temos passado desde que somos gente de andar de noite!

- Apoiado! Apoiado! - bradaram várias vozes.

- Vejo com muito prazer - continuou o Araújo, com voz macia, de ronha espirituosa - que sou secundado pelos meus ilustres companheiros neste sentimento de respeito e admiração que nutro pelo favorito das Musas que hoje desce até nós! Proponho, portanto, que a comissão se componha dos senhores...

- Eu quero ser da comissão! - berrou o Zé Veiga. - Eu e o Monstro... Tu queres, ò Monstro?

- Valeu! - respondeu o Monstro, com voz nasal

- Bem! Já há dois... quantos são precisos?

- Pelo menos três... - redarguiu o Joaquim de Araújo - três são da praxe.

- Quem há de ser? - Interrogou o Veiga, circunvagando os olhos pelos circunstantes - Hás-de ser tu, Roberto! - disse ele.

- Eu não, não conheço o poeta, e não desejo atrair sobre a minha humilde individualidade o seu divino olhar... Tenho medo de fazer loucuras sob a irradiação ardente do seu estro inspiradíssimo... Reconhecendo-me pequeno ao lado dele, receio arrancar-lhe a lira das unhas e... partir-lha na cabeça!

- Pode, se quiser, fazer isso no fim... Mas primeiro deixe-lhe encher a barriga... - advertiu o Bonga.

- Que coma à vontade... essa é boa!

- Venha o Queirós Veloso! - intimou o Veiga.

- Pronto! - disse o Veloso - Eu não posso recusar-me a honrar a Besta nacional na figura do mais alto e ilustre poeta que os comunicados a pataco a linha jamais cantaram em suas colunas!

Organizada a comissão, foi ela postar-se à porta.

- Rapazes! - disse o Veiga, voltando à sala - não se arranjará por aí uma campainha?

- Para quê?

- Essa é boa! Quero tê-la na mão para a tocar em sinal de aviso, logo que o poeta dê entrada no templo...

- Essa é boa! - bradaram alguns.

O Veiga continuou:

- Logo que ouçam o primeiro repique, vocês levantem-se... hein? E em chegando à porta da sala repico com mais força... Então vocês, de pé, ou em cima dos bancos, entoam a Maria Cachucha... Valeu?

- Ò diabo! Mas isso será forte!

- Qual forte! - tornou o Veiga. Depois dele cá estar denttro, há-de cantar e dançar enquanto nós comemos... e no fim... come ele!

- Nada; não senhor!... Seriedade, seriedade... - recomendava o Araújo - Nada de ferir a sentimentalidade do poeta a ponto de o fazer chorar...

- Mas ao menos podemos recebê-lo com um hino? - insistiu o Veiga.

- Vocês sabem o coro da taberna do Roberto do Diabo? - inquiriu o Araújo.

- Nada de Roberto... Música portuguesa... Canta-se a Maria da Fonte! - gritou belicosamente o Veiga.

- Voto pela Cachucha! É mais lírica e mais expressiva! - observou um.

- Está dito! Seja a Cachucha! - aprovaram outros.


Enquanto isto se passava no Restaurante, o poeta Anastácio Gomes, prevenido pela carta de Camila, escoava-se surrateiramente do Lisbonense e, cosido com as paredes das casas, procurava o seu domicílio.

- Que grandes pandilhas! - murmurava ele. - Vá lá um homem fiar-se nestes bandidos que não têm talento nenhum e que não suportam que os outros o tenham! [...]


Dez horas e meia dadas e o poeta sem aparecer. Começavam os convivas já todos reunidos a inquietar-se.

- O homem tarda! - disse o Araújo, vindo à porta.

- Assim que ele chegar, ferro-lhe um ponta-pé - bradava o Veiga furioso, - para o ensinar a ser mais delicado para outra vez!

- O melhor - optou o João Novais - é dar princípio ao banquete... E se o homem vier até à sobremesa, come; senão, quando chegarmos ao fim, nomeia-se uma comissão que o vá procurar e que o traga aqui, vivo ou morto, a dar explicações... Não vale a pena deixar arrefecer o bacalhau!

- Sim, vamos ao bacalhau! - clamaram várias vozes.

Sobre a mesa foram postas três enormes travessas de bacalhau cozido com batatas e ovos.

- Vamos, meus senhores! - comandou o Araújo. - Está aberta a sessão... Os cavalheiros que preferirem boroa não têm mais do que prevenir o criado...

- Venha a boroa! - berrou o Bonga. - Quem diabo é que come bacalhau cozido com pão de trigo? Isso não é para mim, transmontano, que não preciso do molete dos tripeiros para ser filho de boa família!

O galego trouxe uma enorme boroa, que os rapazes desfizeram e deglutiram com uma voracidade de corvos sobre animal morto.

- Eia! Isto sim! Isto é que é banquete! - berrava um.

- Pedaço de asno de poeta! - gritava outro - Perder a ocasião de tirar o ventre de misérias! Não apanha outra em toda a sua vida!

- E então o vinho? - exigiu o Veiga - Isto vai a seco?

- É verdade! - clamou o Araújo - Rapaz! Serve o néctar dos deuses a estes senhores!

O galego, atarantado com a vozearia infernal dos estudantes, corria de um lado para o outro, já trazendo um talher, já um guardanapo, e gritando sempre:

- Pronto!

Foi trazido um garrafão de vinho, e as canecas cheias eram prontamente despejadas pela rapaziada.

Os ditos alegres esfusiavam, as gargalhadas estrugiam, e de vez em quando uma voz bradava:

- O pulha do poeta não vem! Mal sabe o que perdeu!


Do bacalhau cozido com batatas passara-se à pescada cozida, à pescada frita, aos bolinhos de bacalhau, a toda essa comezaina indigesta que só o estômago de rapazes pode suportar vitoriosamente numa noite de patuscada.

A esta pândega, pretexto para algumas horas de alegre convívio por pouco dinheiro, chamara o Araújo pomposamente - um banquete.

No fim, quando as travessas vazias davam lugar aos vinhos finos do Armazém da Estrela a dois tostões a garrafa, com os quais vinhos se faziam brindes de valor extraordinário pelo bom humor que os ditava, o Paranhos propôs que uma comissão fosse procurar o poeta e, fazendo-lhe compreender quanto a sua ausência fora notada e sentida, ali o levasse morto ou vivo, afim de ver com seus próprios olhos e ouvir com os seus ouvidos tudo quanto o seu alto génio inspirava de admiração e respeito àquela mocidade ardentemente entusiasta pelos maus versos e pelas boas orelhas.

Muito aplaudido o Paranhos, a cuja cara inimitável o vinho ia dando uma expressão cada vez mais picaresca, nomeou-se a comissão.

- Conservemo-nos em sessão permante, esperando a vinda do poeta... - propôs um.

- Como se disseramos a vinda do Messias! - acrescentou outro.

- Venha o poeta! Urge que o glorifiquemos! - bradaram várias vozes.

- Amigos e companheiros! - berrou o Veiga, que era um dos da comissão - aqui vos juramos solenemente, pelo vinho do Armazém da Estrela que, para o preço, vamos lá que não é má pinga, que não voltaremos aqui sem o poeta ou quem quer que seja que o represente!

E voltando-se para o grupo dos comissionados:

- Vamos!

- Hurra! - bradaram os convivas tocando os copos.


Passado um quarto de hora, o Veiga reentrou na sala e, impondo silêncio com um gesto, falou assim:

- Senhores e companheiros: não tendo podido haver às mãos o poeta Anastácio Gomes, o puro e autêntico Anastácio, em cuja honra esta festa é, eu e os meus colegas, vossos comissionados, tomámos o alvitre de o fazer representar aqui por um indivíduo da sua família e, posto que algum tanto dissimilhante na figura, perfeitamente igual a ele no engenho e arte e talvez mais que ele admirável na grande voz com que soe cantar o vasto poema de seus anelos e de seus amores! Ei-lo!

E apontando para a porta da entrada, apresentou aos circunstantes um magro jumento, em pelo, que, ladeado pelo resto da comissão descoberta e em atitude respeitosa, dava entrada na sala.

- De pé! De pé! - intimou o Veiga com voz de stentor, agitando os braços hercúleos. - De pé e entoemos o hino!

Chegou o burro até á mesa e estacou.

Os estudantes, de pé sobre os tamboretes e empunhado os copos, berraram furiosamente umas coplas que o Araújo havia composto e adaptado à música de um hino antigo que a companhia do Dallot cantava nas Carmelitas.

Fosse pelo efeito das luzes e pelo cheiro do vinho, fosse animado pela gritaria dos estudantes, o certo é que no fim da cantata o asno rompeu num zurro atroador e prolongado.

- Bravo, poeta! Bravo, Anastácio Gomes! - berravam os estudantes todos à uma, batendo as palmas.

E acto contínuo, o Araújo, grave e solene, pegou na coroa de cascas de alhos e aureolou com ela a cabeça do animal, bradando:

- Glória ao burro!

Nova e mais ruidosa gargalhada.

O motim dos estudantes havia atraído às portas da sala os criados do restaurante e os frequentadores curiosos de verem que pagode era aquele. E todos riam a bandeiras despregadas desta extravagância dos endemoinhados rapazes.

De repente um vulto alto, esguio e pálido, sinistramente entrajado de preto, sobrecasaca, chapéu alto amassado em partes e bengala de cana da Índia na mão, entra na sala e, dominando o tumulto, brada com voz cava, roucamente diabólica:

- Eu sou Falstaff!

E sem mais preâmbulos, cavalga o burro, bate-lhe com os calcanhares na barriga, dá-lhe um murro nas orelhas para lhe imprimir direcção e sai.

Era Alfredo Carvalhais, o poeta impecável, o boémio da penumbra, que o acaso levara ali nos caprichos da embriaguez.

A estudantada no auge do entusiasmo, saudou o poeta da Beatrice com aplausos ardentíssimos e vivas prolongados. E vendo-o partir pela porta fora, naquela burlesca atitude de Apolo cavalgando o Pégaso, seguiu atrás dele entoando um hino patriótico.


A patuscada findou na Batalha para não ir findar no Aljube.

domingo, 11 de abril de 2010

O Café Lisbonense

[Sá d’Albergaria, O segredo do Eremita, vol. 3, 1902, págs. 31-35][1]


O Café Lisbonense era [por volta de 1885] o ponto de reunião da estudantada do Porto.

E que bons e alegres espíritos eram muitos desses rapazes [...]. O Zé Veiga, um latagão moreno, com as cores do presunto da sua província - Trás-os-Montes - a dar-lhe à face sempre risonha e alegre o aspecto da força e da saúde.

Alto, espadaúdo, compleição vigorosa de transmontano, falando muito alto, com grande ruído, como se o mundo todo fosse feito para ele e só ele vivesse e falasse nele. Na rua ou no café, à porta da aula ou em casa, ele chamava os amigos de um ao outro extremo da sala ou de um ao outro ponto da rua, com o mesmo metal de voz forte, como se estivesse num deserto. E ao chamamento seguia-se logo o gracejo, o dito espirituoso, como se ninguém mais o ouvisse.

Não via, não conhecia mais ninguém senão as pessoas a quem se dirigia - que eram sempre condiscípulos, amigos ou companheiros de quarto.

- Ò Paranhos! Ò bêbedo, já estás com a turca?

E daí, quatro pernadas de gigante, um amplexo vigoroso dos seus fortes braços musculosos e o pedido formulado numa voz de trovão:

- Ponha para aqui um charuto! Estou depenado.

E charuto aceso e primeiras fumaças tiradas, lá estava ele voltado para outro:

- Ò seu Novais, ò seu malandro, fica intimado para pagar a ceia! Você tem dinheiro, não negue... Venha daí...

E lá agarrava no pobre João Novais, um excelente rapaz, a esse tempo meio médico e meio republicano, e já hoje médico completo e republicano inteiro, e levava-o a pagar a ceia.

O Paranhos, um ratão de bom gosto, que frequentava a Escola Médica por obediência à família e que sabendo que o lente, o Dr. Lebre, era surdo como uma porta, quando este o chamava à lição, levantava-se, começava a gesticular vivamente e a mexer os beiços, sem pronunciar palavra, conservando assim por muito tempo o lente com os olhos arregalados e a mão na orelha em forma de corneta acústica, fazendo esforços sobre-humanos para perceber as palavras que ele não proferia. Ah! o Paranhos! Contavam-se as ratices dele entre os rapazes, e por mais sisudo que fosse ou por mais triste que estivesse, não podia deixar de rir a bom rir.

- Não sabes o que fez hoje o Paranhos na aula? - dizia-se.

- Não, o que foi?

- Levantou-se, dirigiu-se ao Lebre e disse-lhe: “João, quero-te ir aos queixos, e vou esperar-te lá fora... posso ir?”

E o lente, muito sério, persuadido de que ele lhe pedia licença para ir à retrete:

- Pode ir...

- Mas vê lá - replicava o Paranhos, com uma cara impagável - se vês que não aguentas duas solhas calado... esntão não vou!...

- Pode ir! - berrava o lente exasperado pela insistência do pedido.

- Bem, nesse caso vem cá ter.

E saía.

Os estudantes riam, e o Paranhos, impertubável, saía da sala, dizendo:

- Vou-lhe aos queixos... Vocês ouviram que ele deu licença...

Havia o Marcondes, uma bela figura de rapaz, sempre muito janota, muito correcto no porte e no vestuário, mas sem afectação nem desdéns para com os mais modestos ou mais estroinas.

Havia o Bonga, o Monstro - um transmontano, negro e bexigoso, com um grande nariz plantado no meio de um enorme carão, iluminado por dois olhos negros, vivos e bondosos; rindo muito, trocando piadas com os companheiros, que lhe chamavam alternadamente o Bonga e o Monstro.

O Queirós Veloso, com o seu olhar doce, aveludado, grande suavidade na voz e que parece a música ao som da qual dança o sorriso que lhe acompanha as palavras.

A estes boémios de escola, juntavam-se os boémios do jornalismo, na literatura.
[Seguem-se vários nomes, entre os quais Sampaio Bruno, e o seguinte, que toma parte no relato da "Homenagem".]
Joaquim d’Araújo que já então preparava a Lira íntima.




[1] O segredo do Eremita é um romance, mas o autor chama-lhe "romance de costumes" e diz no prefácio que "os seus personagens existiram" e "tudo que aí se conta sucedeu" (vol. 1, 1902, págs. 6-7). Esta passagem refere pelo menos quatro personagens históricas: o dr. João Dias Lebre, professor da Escola Médica, José Maria de Queirós Veloso, Sampaio Bruno e Joaquim d'Araújo. É possível que alguns dos outros nomes tenham sido alterados, mas é razoável supor que as caracterizações se inspirem em personagens reais.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Academia Politécnica, c.1880

Fotografia publicada no Annuario da Academia Polytechnica do Porto, ano lectivo de 1881-82 (disponível na página do Fundo Antigo da Biblioteca da FCUP).

Trata-se de uma vista do lado norte, ou seja, da praça actualmente conhecida como "dos Leões; mas note-se que a Fonte dos Leões ainda não existia.
É ainda visível, no meio do edifício, a torre do sino da Igreja de Nossa Senhora da Graça, que ainda não tinha sido demolida.

terça-feira, 6 de abril de 2010

A Academia Politécnica nos anos 80 (do séc. XIX)

[Hemeterio Arantes, Mundo de Cristo, cit. in O Tripeiro, ano IX, pág. 273]


Quando, um dia destes, um amigo querido e professor ilustre me levou até à Faculdade de Ciências, onde deveres do cargo chamavam a sua presença, devo confessar que não foi sem certa comoção que penetrei no átrio do edifício que foi outrora, há uns bons 45 anos [este artigo foi escrito em 1929] a Academia Politécnica do Porto.

Entrei, ali, como quem entra num mausoléu... rico, pois que quando eu entrava diariamente naquela casa, por uma porta escusa que enfrentava o Mercado do Anjo, essa casa seria, quando muito, um casarão - bem desgracioso e pobre - para templo da ciência. Nela se albergavam, a um tempo, a Academia, o Instituto e o Colégio dos Meninos Órfãos. Estes meninos nunca os encontrávamos no nosso caminho e, apenas, eclesiasticamente vestidos, nalgum enterro, cujos ofícios se celebravam, com estrondo, ou na Lapa, ou na Trindade; depois sumiam-se, até que de novo fossem chamados a dar pompa aos fúnebres obséquios que. por alma do morto de importância social e monetária, se realizavam no Carmo ou em S. Francisco.

No edifício, e do lado posto ao Anjo, tinha-se estabelecido o Café do Chaves[1], onde nos reuníamos nos intervalos das aulas, excepto quando se tratava da aula de Botânica, porque, então, enquanto o professor (venerando velho, que por usar a cara rapada absolutamente escanhoada era chamado o Padre Sales e ele, por sinal era almirante) prelecionava, todos nós, menos três ou quatro que ficavam de plantão, serenamente íamos jogar o solo para o Chaves. Às vezes, as partidas eram subitamente interrompidas por este grito de desolação: - O Padre Sales mandou tirar segundo ponto! Tudo, de roldão, se precipitava na aula (que ficava perto) atrás do contínuo e quando este declarava que estávamos todos, Padre Sales abafava uma risadinha irónica no lenço de Alcobaça e nós, de novo, com a mesma serenidade e desvergonha, seguíamos em bicha atrás do contínuo a reatar a partida interrompida.




[1] No rés-do-chão, o edifício tinha “lojas de abóbada”, que eram alugadas.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Velhos Tempos

[Brito Camacho, De Bom Humor, cit. in Porto Académico, n.º único de 1962, pág. 17]


A minha “república” transferiu-se de Coimbra para o Porto e instalou-se na Rua dos Bragas, paredes-meias com a Aurifícia. Aparte dois rapazotes, em começo dos preparatórios, e o José Maria Parreira, irmão do almirante Ladislau Parreira, éramos todos alunos da Academia, excepto o Paulino Torres e Almeida, de Braga, que frequentava medicina.

Dos professores de então, os da secção filosófica[1] e os da secção matemática, já nenhum existe.

Outro dia, fazendo uma conferência na Faculdade de Ciências, a antiga Academia, senti uma grande saudade do tempo que ali passei e, rapidamente, como num filme, fechando os olhos para ver melhor, todos os pequenos sucessos da minha vida académica, aluno da Academia durante dois anos, perpassaram na minha memória, com todas as circunstâncias do tempo, modo... e pessoas.

Era professor de Física o conde de Campo Belo, tão aprimorado no seu trajar e tão adamado em suas maneiras, que lhe bastaria cortar o bigode para de conde passar a condessa.

Era professor de botânica o padre Sales... Ninguém estudava para a aula de botânica, cujo professor, oficial de marinha, rapado à moda actual, impunha a aprovação de todos os seus alunos que iam a exame, fosse qual fosse a sua frequência, quer respondessem alguma coisa, quer nada respondessem. Quem não perdesse o ano por faltas, com boas ou más notas nas lições, bem classificado ou mal classificado nos exames de frequência, tinha a certeza de ficar aprovado no exame, ainda que não abrisse a boca, ou só a abrisse para dizer asneiras.

O padre Sales não teria mais uma hora de felicidade desde que lhe reprovassem um aluno. Sucedia o mesmo com o dr. Arnaldo Braga, mau professor como o colega de botânica, pois que nada ensinava aos alunos.

Numa recepção oficial, nos Paços dos Carrancas, o padre Sales apresentou-se fardado, já almirante, tendo feito todos os tirocínios... a bordo da Academia.

Perguntou-lhe D. Luís:

- O almirante fez muitas viagens?

- Muitas não, meu Senhor, mas vim embarcado de Lisboa para aqui.

Na aula do padre Sales fiz como todos faziam - não estudei, chegando ao fim do ano com o meu Precis de Botanique, de Richard, intacto, como se fosse uma das onze mil virgens. Para as outras cadeiras tinha estudado a valer, e tanto assim que, não sendo estudante recomendado, me lambi com as mais altas classificações.

O padre Sales classificou-me como eu não merecia, e isso me determinou, retirando de vez para Lisboa, a ir a Matosinhos apresentar-lhe os meus agradecimentos e fazer-lhe as minhas despedidas.

- Eu sei que o senhor não abriu livro na minha aula; mas nas outras foi um grande estudante e, por isso, o classifiquei assim. Porque não estudou botânica, como estudou física, como estudou química, como estudou zoologia?

- Tive receio que V. Ex.ª levasse a mal. Como não era costume...

Abraçou-me com ternura o santo homem, desejando-me boa viagem e muitas felicidades no futuro.


Dos meus condiscípulos na Academia, quantos vivem ainda?

De muitos já esqueci o nome, mas de quase todos me recordo, como se estivesse a vê-los em retrato, porque me dotou a Natureza com uma excelente memória de fisionomias. Dizem que esta prenda é vulgar nas pessoas desconfiadas, naturalmente porque elas, mais do que outras quaisquer, fixam com insistência as pessoas com quem tratam ou simplesmente se encontram, a ver se lhes conhecem as qualidades da alma, pelos caracteres da fisionomia.

Homem muito novo o Francisco Diogo de Sá, inteligência superior e carácter modelar, estudante que nunca entrou numa aula sem saber a lição e nunca foi para os exames sujeito às contigências de uma lotaria.

Mais novo do que ele morreu o Manuel Tavares, pois morreu aos dezanove anos, frequentava o quinto ano de matemática e fora meu condiscípulo em zoologia. A sua debilidade congénita impedia-o de ser um trabalhador; mas também ele não precisava trabalhar, porque tudo era fácil para a sua compreensão maravilhosa, eminentemente intuitiva, servida duma memória admirável.

O dr. Azevedo e Albuquerque, ao tempo professor de mecânica racional, via nele um génio matemático, superior ao Amorim Viana, consagrado como o Newton português, tão versado nas matemáticas como na filosofia.

Já não deve ser viva a senhora Miquelina, nossa criada, por assim dizer nossa patroa, porque ela punha e dispunha de tudo na “república”, todas as noites dando as despesas a rol, a menos que estivesse bêbeda a cair. Era o seu único defeito - entrar na pinga. Cascava-lhe às comidas, e nos intervalos, para enrijar a fibra, bebia copinhos de aguardente, alegando que o médico, lá na terra, lhe aconselhava esta medicação como tratamento duma urçula no estamego que, às vezes, lhe causava dores horríveis.

Chamavamos-lhe a mamífera desdentada, porque os dentes, uns agora, outros logo, tinham-lhe caído todos, e ao mesmo tempo, não se usavam como agora, dentaduras postiças.

Se ainda será vivo um boémio de Braga, de nome Custódio, que muitas vezes aparecia na Rua dos Bragas, à tarde, depois do jantar, a convidar-me para um passeio? Não resistia, o Custódio, passando por uma taverna, a enxugar uma caneca do verde, prática em que eu não o acompanhava, por ser fraquíssimo bebedor.

Era embaraçoso andar com o Custódio na cidade, porque ele tinha credores em quase todas as ruas.

- Afinal, onde é que tu podes andar sem receio?

- Sem receio, só por fora de portas, porque aí não fiam.


Hei-de voltar ao Porto, com vagar, na mais completa liberdade de movimentos, a ver se encontro, em evocações longínquas, um pouco da mocidade perdida.

E, então, repetirei a ascenção que outro dia fiz, da beira do rio à Praça da Batalha, tendo espreitado para dentro das cavernas trogloditas que ainda ilustram o cais, sempre a subir, podendo dar-se o caso feliz, para regalo dos meus olhos, de novamente me aparecer a desempenada moçoila que ainda outro dia ali encontrei, loira como um tipo de Veneza, os contornos bem desenhados, adivinhando-se por baixo das roupas pobrezinhas mas limpas, uma carnação fresca e sadia, com tonalidades de rosa e leite. Volta-se ao passar por mim; na canastra que leva à cabeça, cheia de roupa, branca, lavada de fresco, eu li esta palavra estranha - Veneza. Fecho os olhos e nitidamente vejo na minha frente, quase ao alcance da minha mão e dos meus desejos, a linda “Suzana” de Tintoreto, a sair do banho, em completa e estonteante nudez.

Que pena Satanás, por estar rico ou ter falido, ter-se retirado dos negócios, deixando de comprar almas ao preço duma prolongada juventude!

Dum Fausto sei eu que que lhe vendia a sua não regateando.




[1] “Filosofia (natural)” era uma expressão então usada com o sentido de ciências naturais.

segunda-feira, 29 de março de 2010

O Decreto 10290, de 12/11/1924, sobre a Capa e Batina

MINISTÉRIO DA INSTRUÇÃO PÚBLICA

Direcção Geral do Ensino Secundário

2.ª Repartição

––––

Decreto n.º 10:290


Considerando que o Estatuto Universitário de 6 de Julho de 1918, determinando no seu artigo 101.º, § único, que não é obrigatório qualquer traje académico para os estudantes, implìcitamente reconhece o uso facultativo de capa e batina para os alunos de ambos os sexos;
Considerando que se tem sempre reconhecido a capa e batina como traje escolar dos que freqüentam as Universidades, escolas superiores e liceus:


Usando da faculdade que me confere o n.º 3.º do artigo 47.º da Constituição Política da República Portuguesa:
Hei por bem decretar, sob proposta do Ministro da Instrução Pública, o seguinte:
Artigo 1.º É permitido aos estudantes de ambos os sexos das Universidades, liceus e escolas superiores o uso da capa e batina, segundo o modêlo tradicional, como traje de uso escolar.
Art. 2.º A todas as pessoas que indevidamente enverguem capa e batina são aplicadas as sanções estabelecidas pela legislação penal para o uso ilegítimo de uniformes, fardamentos e distintivos.
Art. 3.º Fica revogada a legislação em contrário.
O ministro da Instrução Pública assim o tenha entendido e faça executar. Paços do Govêrno da República, 12 de Novembro de 1924.– MANUEL TEIXEIRA GOMESAntónio de Abranches Ferrão.

terça-feira, 23 de março de 2010

D. Ana dos Estudantes

[Sá d’Albergaria, O segredo do Eremita, vol. 5, 1904, págs. 240-249][1]


A D. Ana dos Estudantes era [...] a mais conhecida, mais antiga e mais económica hospedeira dos académicos, no Porto.

Nova ainda, viera estabelecer-se com quartel de estudantes ao cimo da Rua da Fábrica, em frente à Praça de Santa Teresa, numa casa de dois andares, de modestíssima aparência e engrinaldada a frontaria com uma videira antiquíssima que todas as primaveras bracejava a verdura dos seus pampanos por todo o prédio, dando-lhe um aspecto pitoresco.

Era a casa da ramadinha.

A D. Ana, que se conservava sempre irrepreensivelmente honesta, sem que a sombra de uma suspeita pudesse jamais macular-lhe a reputação de casta vestal, que soubera conquistar e manter, vira passar e abrigar-se sob os seus tectos hospitaleiros sucessivas gerações de académicos, desde 1840 até 1892, em que morreu centenária.

Ali se hospedou também, quando estudante, Camilo Castelo Branco[2], a mais legítima e explendente glória das letras portuguesas, e não foram pouco amargas as reminiscências que o grande romancista deixou de si à heróica hospedeira, na sua passagem por aquela casa.

- Nunca cá veio um maldito mais endiabrado do que aquele! - comentava escandalizada.

E contava as partidas que ele lhe fizera.

A D. Ana cobrava um tanto de aluguer de cada quarto, mobilado à custa do hóspede, e cozinhava para os seus locatários, o que cada um queria comer, limitando-se a receber por esse trabalho 600 réis mensais.

Os estudantes forneciam os géneros ou pagavam-nos pelo preço do mercado, na razão do consumo.

Assim, cada qual media-se com as suas posses e, se era rico, comia bem, se era pobre, comia mal, e se não tinha dinheiro, não comia nada.

Camilo parece que era frequentemente dos últimos.

Um dia, um estudante abonado permitiu-se o luxo principesco de querer banquetear-se com uma galinha corada. Deu para isso dinheiro e ordem à D. Ana que, como boa e fiel hospedeira, tratou de cumprir a incumbência recebida.

Estava a galinha na fornalha do fogão, a dizer “comei-me, comei-me”, à espera do dono e a D. Ana a regalar-se de antemão com os gabos e louvores que a sua habilidade culinária ia render-lhe por parte do hóspede.

Nisto, chega Camilo. Vinha esfaimado e sem dinheiro. Atraído pelos rescendentes aromas de tão lauta petisqueira, espreita para a fornalha e, numa volta de mão, sem a D. Ana dar fé, passa a luva à galinha, safa-se com ela par o seu quarto e come-a mais sôfrego do que raposa em capoeira.

Quando a D. Ana deu pela ausência da ave, o Camilo quis meter-lhe em cabeça que talvez ela não estivesse bem morta e apanhando a fornalha aberta, voasse para algum quintal vizinho.

Mas a D. Ana, indignada, relacionando factos e traduzindo risos, lançou à responsabilidade de Camilo a negra acção.

O futuro romancista pagou mais tarde a galinha, mas não conseguiu reabilitar-se no conceito de D. Ana, que na estirada carreira de longeva e quando o nome de Camilo enchia, ele só, a literatura do seu país, contava ainda o horrendo caso, concluindo:

- A galinha pagou-ma, isso é verdade, mas eu nunca lhe perdoei nem posso perdoar o desgosto que me deu a mim e ao outro desgraçadinho!

O outro desgraçadinho era o estudante que devia comer e não comeu a galinha.

De outra vez a D. Ana tomara o pão ao padeiro, e viera colocá-lo na sala de jantar, onde já estavam vários estudantes reunidos à espera do almoço.

Entre eles, Camilo alegrava a conversação com os diots cintilantíssimos so seu espírito superior, que mais tarde devia afirmar-se em livros imorredouros.

A hospedeira infatigável andava numa dobadoura, da sala para acozinha, e da cozinha para a sala.

De repente, por um palpite secreto, vai contar o pão e acha um de menos.

- Falta aqui um pão! - bradou ela. - Qual de vocês foi que o tirou?

Todos responderam: “Eu não!” - incluindo Camilo, que foi um dos primeiros na negativa.

Mas a D. Ana, relanceando pelos rapazes um olhar investigador, exclamou:

- Foi você, seu Camilo!

E sem mais preâmbulos, atirou-se a ele, apalpou-lhe o casaco e sacou-lhe triunfante de um dos bolsos o pão que faltava na cesta.

- D. Ana, - respondeu impertubável o futuro autor do Amor de Perdição - a senhora está enganada, esse pão não lhe pertence.

- Ora essa, não me pertence e falta ali!...

- Garanto-lhe que esse pão é meu. Como sou muito devoto, rezo todas as manhãs o Padre Nosso. E como lá se diz: o pão nosso de cada dia nos dai hoje, Deus ouviu a minha súplica e fez saltar esse pão para o meu bolso sem eu dar por isso, porque estava na sua divina vontade e mais na minha que eu o comesse...

Os condiscípulos celebraram com grandes gargalhadas o gracejo; mas a D. Ana, que tinha um génio irascível, de mulher rude e analfabeta, tomou a sério a brincadeira e cobriu o endiabrado hóspede de imprecações e doestos.

Sob as aparências de criatura intratável, grosseira e egoísta, a D. Ana tinha contudo um fundo de bondade extrema.

Entre os seus hóspedes mais notáveis, figurava o Rosalino, o célebre autor do Diabo fechado na minha gaveta e de tantos outros livros que adiantaram 40 anos à literatura nefelibata que alguns moços esperançosos dos nossos dias ainda cultivam, ingenuamente persuadidos de que são originais e imprimem uma nova orientação às letras pátrias.

Ah! Se esses moços conhecessem o Rosalino! Se lessem o Jovem Ancião, a Besta dos Mil e Um Epítetos, Dois de Contra ao Snr. Doutor, e a Luz da razão, então veriam com grande surpresa sua, que estão atrasados quase meio século na escola de que Rosalino foi o precursor, em que pese à França, mãe fecunda das mais belas criações e das mais insólitas aberrações do espírito humano.

O Rosalino morreu há dias, no hospital de S. José, em Lisboa, talvez com 70 anos, 50 dos quais de vida boémia, passada no Porto, Coimbra e ultimamente na capital.

Ilustrou as diferentes gerações académicas das três cidades com os seus opúsculos literários e filosóficos que ele próprio ia entregar, cobrando altivamente o tostão, que era o preço da obra, sem aceitar nem mais um real - porque não recebia esmolas.

Era de um carácter íntegro, fundamentalmente honrado, incapaz de um pensamento sequer que não fosse ditado pelo mais rigoroso sentimento da dignidade própria e do respeito pela dignidade alheia.

A velha hospedeira, conhecendo que o Rosalino Cândido sofria impávido as mais cruéis privações, nada mandando cozinhar porque nada podia pagar, chamou-o e disse-lhe com tocante singeleza:

- Ò sr. Rosalino, você não quer comer?

- Estou tratando da preparação de um livro, e quando assim é, perco o apetite e nem me lembra que preciso de me alimentar - respondeu o filósofo.

- Bem, mas então se você quer, venha comer todos os dias e, quando arranjar lá a sua vida, me pagará.

- Pois sim...

O Rosalino passou daí em diante a alimentar-se a expensas da D. Ana.

Havia, porém, uma dificuldade a resolver: - era o quarto.

Rosalino não podia pagar e a D. Ana não podia prescindir do aluguer.

Mas pôr o poeta na rua, fazê-lo dormir ao relento nas noites nevoentas e frigidíssimas do Porto, era uma crueldade que repugnava ao coração da pobre mulher.

Como fazer? Ocorreu-lhe uma idéia salvadora.

O bibliómano João Vieira Pinto, delegado de saúde e solteirão excêntrico, sempre embrulhado em dois casacos e dois cache-nez, e todo entregue à pesquisa de livros e objectos raros, ocupava um prédio de dois andares no Campo dos Mártires da Pátria. Na ânsia de economizar mais dinheiro para poder comprar mais livros, o João Vieira encarregara a D. Ana de lhe fornecer a comida por preço módico.

A D. Ana mandava-lhe o jantar, ao fim da tarde, por uma das muitas velhas, criadas de servir desarrumadas, que sempre tinha em casa.

O Rosalino acompanhava a portadora e ficava oculto no portal, pelo lado de dentro da cancela, enquanto a servente subia com o jantar para o doutor.

Logo que este se sentava à mesa, o Rosalino subia a escada, pé-ante-pé, e enfiava-se na vasta biblioteca, onda havia um velho sofá de molas e muitos cobertores de estofo e antiguidade respeitável.

Era ali que ele dormia.

Às vezes sucedia, noite alta, o velho João Vieira Pinto, para tirar dúvidas de catálogo, dirigir-se à livraria com uma vela na mão.

Mal lhe sentia as moiras a arrastar, o Rosalino dava um pulo e resvalava para debaixo do sofá, afim de que o dono da casa não desse pela sua presença.

Assim que o via retirar-se, voltava para cima do sofá e lá ficava toda a noite, às escuras, a sonhar com a glória imensa que lhe adviria dos seus indignados protestos contra as misérias humanas.

Foi lá que ele meditou o seu curioso opúsculo: O mundo não se endireita, mas eu não largarei nunca o mundo!

Pobre visionário!

Isto durou meses, talvez anos.

Pois o Rosalino, podendo impunemente apropriar-se de um livro, de um objecto raro, que os havia lá aos milhares, sem que o dono desse por isso, porque na confusão daquele imenso amontoado de coisas não era fácil abrir falha sensível, abandonou ao cabo de muito tempo aquele abrigo com as mãos tão limpas como a consciência, nunca sombreada de um pensamento repreensível.

Contava isto a D. Ana, nos últimos anos da vida e quando Rosalino trocara já os seus passeios favoritos de S. Lázaro, Cordoaria e Virtudes, pelas poéticas inspirações do Penedo da Saudade, na Lusa Atenas.

Mal sabia a pobre mulher, que atestando a exemplar honradez de Rosalino, passava a si própria um curioso diploma de perspicácia que muitos dos que com ela privaram talvez lhe negassem.

Para completar o perfil desta excêntrica e singular patroa de estudantes, diremos que trabalhou até aos 103 anos de idade com que morreu. E tendo no Brasil dois sobrinhos que lhe enviavam regularmente uma mesada avultada, deixou na mão do procurador desses sobrinhos todo o dinheiro, sem utilizar um só real, porque, dizia ela, podia trabalhar e por isso não precisava.




[1] O segredo do Eremita é um romance, mas o autor chama-lhe "romance de costumes" e diz no prefácio que "os seus personagens existiram" e "tudo que aí se conta sucedeu" (vol. 1, 1902, págs. 6-7). Esta secção, envolvendo pelo menos duas personagens comprovadamente históricas (Camilo Castelo Branco e Rosalino Cândido), é bastante verosímil, pelo menos nos seus traços gerais .

[2] Provavelmente depois da sua passagem pelo “pardieiro” da Rua Escura.