domingo, 23 de maio de 2010

O "Dr. Quinterra"

Os estudantes da Escola Médica que, em 1902, participaram na brincadeira carnavalesca do Dr. Quinterra (sátira a um clínico que receitava uma "badiana fosfatada de Sued" como cura para a tuberculose), junto com um frasco da "Badiana Sulfatada de Uva Preta", distribuída nessa ocasião [foto da colecção da AAAUP].

Versos do "Grande e órrivel querime praticado por uma grande maurvada", vendidos ainda na mesma ocasião [Porto Académico, n.º único de 1962, pág. 27].

Esta sátira é relatada nos textos "Os académicos do meu tempo" e "Já lá vão mais de 50 anos!...".

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Já lá vão mais de 50 anos!...

[Prof. Dr. António de Almeida Garrett, Porto Académico, n.º único de 1962, págs. 27-29.
Suprimi algumas passagens, que consistem na listagem de professores e colegas (do mesmo ano ou de anos próximos) do autor.]


Mais de meio século decorreu sobre a minha passagem pelos bancos da Escola Médica, daquela querida pequena casa, tão diferente da que encobriu com lavrado granito os seus muros singelos, que o que possa escrever a bem poucos poderá interessar. Só servirá para activar saudades dos alegres tempos da mocidade aos velhos de perto dos oitenta ou que já os ultrapassaram, e esses poucos são. Basta atentar em que do meu curso, de 1901-06, que era de cinquenta, só restam onze; e nos cursos vizinhos, foi semelhante a razia. Aos mais novos apenas poderá fazer lembrar médicos que conheceram ou que todavia conhecem, por ainda por aqui andarem, aguardando a eterna despedida. Tudo isto é bem pouco para justificar estas laudas, mas já que V. as quer, assim mesmo, aí vão, despretensiosamente, ao correr da pena.

Começarei pelo primeiro passo: o ingresso dos caloiros da Médica. Matulões dos últimos anos juntavam os neófitos à porta da Politécnica, frente à Cordoaria, e de ali os levavam em cortejo, num alarido de gaitas estridentes e álacres chalaças, até à entrada da Escola, para a simbólica adopção de discípulos de Esculápio. Escolhiam os mais graúdos para pegar na tosca padiola, destinada ao bobo da festa, ao penico e competente vassourinha, a peça essencial do cortejo. Naquele ano fui eu o padiolado, por determinação do grupo organizador, chefiado por um barbaças, o Teixeira Bastos, mais tarde colega na docência e queridíssimo amigo.

Principiava para nós, com entusiasmo e certa repugnância, o estudo da anatomia, que era preciso saber bem, pois no exame era profusa a chumbaria. Depois, as dificuldades iam abrandando, até ao acto final, o da consabida tareia da defesa da dissertação inaugural.

Ao tempo, o ensino era quase todo teórico, livresco, excepto na anatomia e nas clínicas. O regímen continuava o do Liceu: frequência obrigatória com marcação das faltas, lição designada para a aula seguinte, chamada dos alunos para exporem a matéria da lição, entremeada ou seguida pelos comentários dos professores. Na anatomia trabalhava-se a valer, no teatro anatómico, sob o vigilante olhar estrábico do velho Ferreira, o «rapa-caveiras»; como que estou a ver o quadro, com o mestre Viegas entrando imponente, de sobrecasa sobre o vistoso colete de fantasia, reluzente cartola, para investigar, de mesa em mesa, apontanto com a bengalinha a peça que estávamos dissecando: o que é isto? e isso? Nas clínicas, as aulas decorriam nas enfermarias, com a leitura dos relatórios feitos pelos alunos a quem os doentes foram distribuídos para estudo, e sequente prelecção do professor, comentando e acrescentando os relatórios; a parte teórica já vinha sabida das cadeiras de patologia, interna e externa, estudada pelos respectivos compêndios.

Tudo mudou quando veio a Faculdade, vieram assistentes, se desenvolveu o restrito ensino das ciências laboratoriais; a verdade, porém, é que, para o que então era a medicina, a preparação dos alunos inteiramente ombreava com a das outras escolas e mesmo com a das estrangeiras, em vários pontos, mormente o da anatomia, que já em 1885 (como apontou Ricardo Jorge) se ensinava no Porto como se não ensinava em Paris, trinta anos mais tarde.


Era notável a galeria dos mestres, que recordo com sentida veneração, todos desaparecidos, e quase todos há muito, da cena deste mundo.
[...]


Quando andava no primeiro ano, estava no quinto um curso que deu brado, o último curso do Dr. Lebre, a quem prestaram memorável homenagem, o primeiro curso que se abalançou a dar uma récita de despedida, espectáculo que teve um êxito retumbante. Havia nele muitos valores de real mérito, de alguns dos quais me tornei amigo certo, anos depois, como foram Carteado Mena, Raúl Outeiro, Pacheco de Miranda, Manuel de Castro, José Gomes, Vitorino de Magalhães, César Machado, todos destacadas figuras do nosso meio médico; e ainda o primoroso espírito e cintilante literato que foi Campos Monteiro. Lembro-me do incorrígivel boémio João Pinto, cujas «partidas» ficaram famosas na história das garotices académicas. Lembro-me das irmãs Pratas, e do epigrama (seguramente da autoria de Campos Monteiro) que entre gargalhadas deu a volta à Escola:
Diz a Prata, a Guilhermina,
Que o Vitorino nasceu
De um osso sesamoideu
Que a mãe tinha na vagina...

É que Vitorino de Magalhães era muito baixo, o que não o impediu de vir a ser distinto médico militar. Pelo contrário havia no curso um agigantado, o Eduardo de Oliveira, que por isso tinha a alcunha de «Danton», e foi urologista considerado.

[...] Aarão de Lacerda [...] foi meu professor de Zoologia na Politécnica e [...] já em adiantada idade se fez aluno de Medicina. Por essa altura frequentavam a Escola três figuras invulgares, que despertavam a atenção da estudantada: o poeta Manuel Laranjeira, com a sua gaforina e completo desprezo pela indumentária, Manuel de Oliveira, que tinha fama de invulgar inteligência e vasta cultura, e o boémio Trinta, com grandes barbas e não menor pilhéria.

[...]

Suspendi, para recordar mestres e estudantes, o apontamento sobre a vida dos escolares da Médica nesses primeiros anos do século. Retomo o tema com breves notas, arrancadas às profundidades da memória.

Como sempre sucedeu e sucederá, em cada curso há um pouco de tudo: filhos de abastados e de mal remediados, cuidadosos e desmazelados, fragoeiros e pacatos, de gostos vários e várias preocupações; mas há geralmente uns quantos, de temperamento mais vivo, que exibem carácter destacante, a deixar especial lembrança. São eles os agitadores do conjunto, os promotores dos folguedos violadores da quotidiana rotina.

Já aludi à récitade despedida dos quintanistas de 1902, acontecimento famoso nos anais da academia. Foi à cena uma farsa em verso de Campos Monteiro, «Os Filhos de Minerva», com trechos musicais de Manuel Monterroso e Lima Elias, seguida por uma paródia à Ceia dos Cardeais, em que actuaram Armindo Chaves, Pacheco de Miranda e Raúl do Carmo Pacheco. E o espectáculo findou com Manuel Monterroso a desenhar em largos traços espirituosas caricaturas dos mestres. Festa de arte e graça, como tinha de ser a de um curso de escol.

Logo no ano seguinte outra récita de despedida, espécie de revista - Visita de Mestre -, encheu o Teatro de S. João, em risonha festa. A letra era de Damião Lourenço que foi distinto clínico em Caminha, e a música de Lobo das Neves e Henrique Teles, este, notável médico bracarense. Entraram na função alguns que do Porto eram ou que por cá ficaram: Costa Miranda, Manuel Bragança, Simões Pina, Manuel José Pereira, Pinto da Silva, João Vieira; e nos coristas figurou Aarão de Lacerda, o lente estudante.

Campos Monteiro já então mostrara aquela garra do escritor de raça, que veio a dar uma pujante obra em prosa e verso, que vai desde o terno lirismo à sátira mordaz. Na geração do meu tempo foi sem dúvida a maior figura literária, a de mais excelsas e polimorfas faculdades. Só João de Meira as possuía semelhantes, mas a morte, que precocemente o levou, só permitiu que deixasse amostras de um talento e cultura excepcionais, de variados matizes.

Já que atrás citei um epigrama de Campos Monteiro, aqui fica outro de João de Meira. Um dos mais espertos rapazes do meu curso era Serafim de Barros, trasmontano de Alijó, alegre folião, noctívago jogador, estudando o mínimo possível para passar, o que obtinha facilmente e com regulares notas. À sua cabulice dedicou Meira esta engraçada quadra:
O Serafim está doente
De tanto e tanto estudar.
Com certeza vai a lente,
Vai a lente... de aumentar.

Outros, porém, embora então com menor saliência, escreviam também.
Desses especifico António Patrício, do curso a seguir ao meu, que ao sair da Escola publicou os discutidos versos do «Oceano» e veio a ser o favorito duma alada e trágica musa. Faziam roda, por vezes, os mais dados às coisas literárias, e Patrício era no grupo a voz dominante, com sua acerada verve. Vou nesta recordação juntar-lhe outra figura cujo nome ficou, Manuel Laranjeira, evocando uma sua resposta a tempo. Patrício, dândi e amaneirado, presumindo grandezas, voltado para Laranjeira, de jeitos inteiramente opostos: «Ontem comi faisão. Ó Laranjeira, V. já comeu faisão?». Ao que este logo retruca: «Eu, nem de pu...». Sicalítico, mas chistoso a mais não.

De resto, o amor pela leitura e pelas ideias gerais era moeda corrente. Vivia-se mais introspectivamente do que em tempos posteriores. Como todos sabem, uma série de factores, entre os quais avulta a progressiva expansão do automóvel, do cinema e dos desportos, foi modificando os hábitos de toda a gente; a vida tornou-se apressada e voltada mais para fora do que para dentro. Tínhamos poucas horas de escolaridade, havia vagar para o comércio espiritual da conversa e da leitura.

Isto vinha já do Liceu, em regra havia apenas duas aulas por dia, e raro se cursavam mais de três disciplinas, cujos exames se faziam no fim do ano. Por certo escandalizarei os pedagogos dizendo que os rapazes saíam com uma preparação melhor do que a de hoje, com a prolixidade desorientadora dos programas e diluição por vários anos. Estudava-se somente o básico, essencial, e este ficava-se sabendo com segurança. Com um ano de português e outro de francês, não havia estudante de curso superior que não soubesse redigir correctamente (hoje, em regra, que desgraça!) e não pudesse ler, sem grandes dificuldades, os romances que então andavam nas nossas mãos, tais os de Balzac, Flaubert, Zola, Daudet, etc. Estudavam-se duas disciplinas nos primeiros anos do Liceu, mas o que se aprendera ficara tão gravado que facilmente, na Politécnica, liam os compêndios franceses, de física, botânica e zoologia, e aprendiam a respectiva matéria, os que se haviam contentado com os escritores nacionais em voga, Camilo, Eça, Fialho, etc.

Entre as aulas que não eram seguidas, repassavam-se, ou passavam-se... as lições marcadas, sob as árvores da Cordoaria ou do Palácio de Cristal; os do meu curso muita vez jogando, no pequeno terreiro ladeante do Teatro Anatómico, uma curiosa variedade do «fito» que o António Lobo trouxera de Valpaços e ao qual demos o pouco decente nome de «pico».

À tarde, em regra depois do jantar que então era pelas cinco horas ou pouco mais, era uso geral a frequência de cafés, de casas que há muito desapareceram. Os mais concorridos eram o Central, que ficava ao lado da Farmácia Birra, onde hoje é parte do Imperial, e o Chaves que ficava na esquina das ruas de D. Pedro e do Laranjal, demolidas para dar lugar à Avenida dos Aliados. A grande maioria só de longe a longe saía do ramerrão diário, com recolha à casa familiar ou à «república», por volta das nove ou quando muito das dez, para ir ao teatro ou para ceata alegre num dos vários comedoiros de nocturno serviço, como os do João do Buraco ou do Faria dos Bigodes, para não falar no célebre Túnel, de freguesia mais endinheirada.

Além das duas festanças de todos os anos, a da entrada dos caloiros e a da entrega da pasta ao findar do quinto ano, em que a feição agarotada tinha certo ar literário (sem o tumultuoso alarido que foi vulgar muito mais tarde), no carnaval do meu primeiro ano houve uma função de estrondo, em que entraram alunos de todos os cursos. Foi no Teatro Anatómico, adrede engalanado, para se desenrolar o funeral da «Vadiana», produto do «Dr. Qu'enterra», em cáustica flagelação do reclamo que um clínico portuense (Quintela) fazia de uma «Badiana Fosfatada de Sued», como curadora da tuberculose. Lembro-me de discursos de irresistível comicidade, e que foram tremendas as gargalhadas quanto entrou o supliciado na forma de um jumento branco; e também que no final uns pseudo-cegos cantaram o fado da autoria de Arnaldo Braga, intitulado «Grande e órrivel querime praticado por uma grande marvada», letra que se vendeu a pataco, sendo o produto destinado a tuberculosos pobres.

Nos começos de 1902 a Academia de Coimbra lançou uma greve de carácter político, a propósito de qualquer medida governamental de ordem financeira, greve que foi secundada pelos alunos da Politécnica, da Médica e do Instituto, mas em dois dias furada pela grande maioria dos alunos de medicina, o que deu azo a que a manifestação em breve terminasse. Era o tempo dos comícios republicanos, quadra de forte agitação política, em que participavam muitos dos meus contemporâneos; mas dentro da Escola essa agitação não penetrava, não porque não houvesse uma geral simpatia pelas aspirações de renovação nacional, mas porque a rapaziada interessava-se mais por arte, literatura e medicina do que pelas coisas da política, que pouco entravam nas nossas conversas.

Também não existia a brotoeja juvenil de pretensão a reformadores do ensino, a que modernamente se deu o nome de «reivindicações da classe», tendo chegado, há coisa de uns trinta anos, a organizar-se uma associação «profissional» dos estudantes de medicina. No meu tempo, essas questões eram para os mestres, que as discutiam entre si, e por vezes acesamente.

Nós tínhamos mais adequadas e realizáveis preocupações, e tínhamos, sobretudo, o espírito de uma franca camaradagem, que não consentia propagandas desunidoras. Por isso foram tão famosas as alegres festas que recordei, como o foi a garraiada do meu curso, de terceiranistas, na Praça de Touros em Matosinhos. Organizada pelo Mata, alentejano e aficionado, que morreu coronel-médico reformado, e pelo grande animador de todos nós que era o Arnaldo Braga e nela fez de bandarilheiro; outros do Porto entraram no elenco «artístico», portando-se frente aos cornúpetos com garbo e valentia, como fossem Jorge de Oliveira (cavaleiro), Feiteira (D. Tancredo), Joaquim Nóbrega (cabo de forcados) e este vosso criado (abegão).


Que mais hei-de dizer? Parece-me que o que destaviadamente fui lançando ao papel é mais que suficiente para avivar lembranças queridas aos cabelos nevados; e aos que ainda estão longe da velhice para mostrar a diferença entre aqueles tempos da minha mocidade e os que com o dobrar dos anos e a mudança nos costumes tão diversos se tornaram. E que diferença! Tão grande como a que vai dos fartos bigodes e do chapéu de coco às caras rapadas e cabeças ao léu.

Melhores tempos? Piores? Não sei. Para nós, os da geração que há mais de meio século passou pela Escola Médica, têm um comovedor encanto; avivam o resto da chama que nos abrasava, enchem-nos o coração de infinitas saudades.

ANTÓNIO DE ALMEIDA GARRETT

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Académicos do Porto de capa e batina em 1890


Capa da pauta do "pasa-calle" Amor da Pátria, "brinde aos académicos do Porto". Deve datar de 1890, o ano em que se deu a crise do Ultimatum. O medalhão em que os académicos do Porto aparecem de capa e batina (com gorro, capa traçada à tricana e ainda batina fechada sem lapelas) é a imagem mais antiga que conheço de estudantes do Porto com traje académico.
(O "movimento patriótico Luso-Britânico" aqui aludido seria antes um movimento patriótico Luso e anti-Britânico, como se pode imaginar e se comprova por uma quadra de C. Lagôa que aparece no interior e que se refere a um "ódio tamanho [...] por essa astuta, hipócrita Inglaterra".)

"A Mocidade de Hoje"
A introdução no Porto de capa e batina.

[José Pinto de Queiroz Magalhães, Capa e Batina, n.º 1 (20/2/1930), págs. 1-2.]


«Recordar é viver».

Seja-me, pois, lícito evocar a lembrança, para mim saudosa, dum pequenino hebdomadário que se publicou na cidade do Porto no ano de 1883, a que o brilhante escritor António de Lemos, seu antigo colaborador, se referiu já há tempos no jornal «O Tripeiro» e mais recentemente no «Mundo» os ilustres escritores Albino Forjaz de Sampaio e o Dr. João Barreira, hebdomadário do qual foram redactores o signatário destas mal alinhavadas linhas e José Carlos Ehrhardt, hoje, depois de longos anos de labuta médica, facultativo aposentado da Câmara de Sertã.

Era este um jornal académico, que tinha como redacção um modesto quarto de estudante, alcandorado no 2.º andar, frente, do prédio n.º 137 da rua dos Caldeireiros, onde a mocidade académica desse tempo se reunia, numa ânsia fremente de liberdade, disposta a lutar por todas as ideias generosas, num adorável convívio de quasi irmãos.

Era de lá que aos domingos saía para os seus numerosos assinantes, com pontualidade britânica, pelo braço do seu entregador, «A Mocidade de Hoje».

De entre os periódicos académicos que nesta cidade do Porto viram a luz da publicidade por aquele tempo, e não poucos foram eles, recordando-me ainda com enternecida saudade de «A Ideia» de António Ferreira Neves Júnio, «O Jornal de Calíope» de Francisco Xavier de Sousa Pinto Leitão, «A Pérola» de António Rigaud Nogueira, «O Intermezzo» de Eduardo Artayett, «A Alma Nova» de Aureliano Cirne, etc., logrou «A Mocidade de Hoje» ser o que teve mais longa e próspera existência, chegando a publicar-se 32 números que dentro em breve se esgotaram por completo, constituindo por isso hoje esta publicação para os bibliófilos uma colecção rara e ipso facto de apreço.

Teve o aludido periódico a colaboração de brilhantes penas de reputação já feita, que muito concorreram para o prestigiar, tais como o Dr. Júlio de Matos, Dr. José Leite de Vasconcelos, Dr. Alves da Veiga, Jacob Bensabat, Madureira de Vasconcelos, Dr. Artur Cardoso Pereira, Dr. Aureliano Cirne, D. Clorinda de Macedo, etc., constituindo simultaneamente o escrínio onde ficaram arquivadas as primeiras produções de nóveis poetas e prosadores de fino quilate, parte dos quais já hoje são extintos, ocupando os que felizmente ainda vivem, lugares de destaque no seio da família portuguesa.

Entre os primeiros, seja-me permitido proclamar os nomes indelevelmente gravados no coração de todos que os conheceram de António Nobre, Eduardo Coimbra, José de Oliveira Macedo, Henrique José Martins Ferreira, João Zagalo Ilharco, Heliodoro Augusto Salgado, Augusto Geraldes de Mesquita (Gusanto), Guilherme Braga, filho, Hamilton de Araújo, Alexandre Braga, Eduardo Arteyett, Joaquim de Lemos, Dr. Adolfo Arteyett e tantos outros espíritos cintilantes duma élite intelectual que marcou; entre os segundos, o Dr. Augusto Nobre, ilustre professor e ex-reitor da Universidade do Porto, o Dr. José Leite de Vasconcelos, sábio professor da Faculdade de Letras de Lisboa, eminente filólogo e director do museu etnológico português, o Dr. Artur Cardoso Pereira, distinto médico-analista do Mercado Central de Produtos Agrícolas e abalizado professor da Universidade de Lisboa, o Dr. Bernardo Lucas, António de Lemos, Artur Mendes de Magalhães Ramalho, Alberto Baltar (Sereno Hírcio) e muitos mais, que ora me não ocorrem.

Pois foi neste mesmo quarto de estudante e redacção de «A Mocidade de Hoje» que a mesma geração de imberbes moços, como lhe chamou Raúl Sampaio, passados 4 anos realizou as reuniões preparatórias para a substituição das irrisórias casacas por um uniforme académico mais consentâneo com o espírito moderno, nos actos a realizar.

Ali apareceram vários modelos de uniformes com desenhos do ilustre pintor visiense José de Almeida e Silva, então aluno da Academia de Belas-Artes e redactor do «Charivari», optando-se alfim pela capa e batina, em virtude das tradições que andavam ligadas.

Depois de devidamente aprovada pelo Conselho da Escola Médica-Cirúrgica, onde a defendeu com entrain o célebre Urbino de Freitas, foi enfim esta autorizada, embora apenas facultativamente, sendo pela primeira vez usada no ano de 1889 pelos alunos da Escola Médica-Cirúrgica do Porto, sendo os estudantes do 3º ano médico dessa referida data quem, para dar o exemplo, se antecipou a romper com o preconceito citadino, envergando pela primeira vez no Porto, roçando pelo escândalo, o tradicional uniforme académico da velha universidade coimbrã.

Entre esses terceiranistas reformistas, contam-se José de Oliveira Serrão de Azevedo, Aníbal Barbosa de Pinho Lousada, Scipião José de Carvalho, José Jorge Pereira, Francisco da Silva Garcia, João Leite de Castro, Francisco Xavier Couto de Amorim Novais e o autor desta pequenina memória - sem dúvida um dos mais entusiastas apóstolos de tal ideia.

José Pinto de Queiroz Magalhães
Médico e Professor da Escola Normal Primária do Porto.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Os académicos do meu tempo
(a propósito do aniversário da Academia Politécnica)

[Alberto de Aguiar, Porto Académico, n.º único de 1937, págs. 31-32]


Solicitaram a minha participação neste número único do Porto Académico, no louvável intuito de colher elementos evocadores de vibratilidade académica da minha geração quase a meio termo do centenário que este número único comemora.

Devia furtar-me a tal colaboração, tão fracas e imprecisas as minhas reminiscências desse período, tão pouco me envolvi, por feitio, educação e meio em que decorreu a minha mocidade, nas manifestações académicas do meu tempo, embora batidas e agitadas por movimentos grandiosos e de repercussão formidável e profundamente modificadora da vida social e política da minha Pátria – como o do Ultimatum e a revolução do 31 de Janeiro, sua inevitável consequência.

Estes movimentos nortearam e definiram sem dúvida os meus ideais e convicções políticas, como a dos meus contemporâneos: a Academia do meu tempo era convicta e entusiasticamente republicana, sob o impulso duma fé ardente nos destinos gloriosos da Pátria, mas a sua intervenção, mais teórica do que prática, mais de reacção do que de acção, era essencialmente doutrinária e evolutiva.

E a minha então, absolutamente apagada, embora tão enraizada, ou mais, do que a dos mais sinceros crentes (e por isso talvez me alcunhassem de velhinha), não justificaria uma reminiscência a que eu não posso dar o calor e o relevo de participante activo.

Mas a vida académica não foi só isso e eu acedo à solicitação que me fizeram e porque ma fizeram, considerando um dever lavrar o meu depoimento, por mínimo e insignificante que seja, confiado em que outros, muito melhor e com mais entusiasmo, farão reviver uma época que gloriosa e agitada para tantos é para mim profundamente saudosa, pelas recordações de camaradagem e de convívio académico que elas evocam.

Estava eu no meu 2.º ano médico quando se desencadeou, em 1889[1], o chamado movimento do Ultimatum que nascido gloriosamente na Academia do Porto rápido alastrou pelas demais Academias, numa onda de brio, de exaltação e de redenção.

Iniciada pelos académicos maiorais dos últimos anos dos cursos e dirigido por um quintanista de medicina, o Dr. Reis Santos[2], vincou-se no meu, como no espírito da minha geração, a admiração profunda por quem tão enérgica, disciplinada e inteligentemente dirigiu e orientou esse movimento até o entregar à alta personalidade de Antero de Quental.

Lembro-me nitidamente da elevada consideração, respeito e acatamento com que Reis Santos era acolhido na Academia que, mercê dele, se elevou no conceito da nação como força disciplinadora, nobre, progressiva e persistente, como até então não fora nenhuma outra manifestação académica.


Foi um dos períodos áureos da Academia, cheio de elevação, nobreza e sequência: não teve, como muitos outros movimentos académicos, a fugacidade duma explosão que tanto menos dura quanto mais intensa nasce e mais rápido deflagra, mas a persistência duma reacção que continuamente exotérmica, só se extingue quando terminada a causa que a provocou: iniciada em 1889 propaga-se até 31 de Janeiro de 1891, para se extinguir no movimento redentor de 5 de Outubro de 1910.

Recordo com admiração num misto de saudade e fé patriótica a acção de Reis Santos sempre na brecha, activo, firme e progressivo e associo-lhe os nomes de tantos outros, como o de Artur Vaz Pereira, o académico fogoso que com o verbo ardente, inflamado e fluente mantinha o fogo sagrado das reuniões académicas verberando a inércia e a covardia daqueles que, conforme ele dizia, não tinham nervos mas tripas de viola, nem sangue, mas capilé dessorado, de Scipião José de Carvalho que continuamente alegre e de bem e humorada eloquência, aproveitava todas as oportunidades para animar o movimento, aligeirando-lhe ou solucionando-lhe as responsabilidades mais graves, de Ricardo Nogueira Souto, um vencido da vida, que na placidez e ponderação do seu temperamento foi um esplêndido auxiliar e secretário de Reis Santos.

E a par destes ocorrem-me, neste perpassar de reminiscência evocadora, os nomes de Fernando de Almeida, José Guedes Júnior, José Vicente de Araújo, e de Castro Soares, o condiscípulo querido que pondunoroso, correcto, digno e aprumado repudiou formalizado em reprimenda elevada e castiça – ou ele não fora alcunhado de recta-pronúncia – a brincadeira duns camaradas estúrdios que pretendiam envolvê-lo, ao engano, em atitudes enérgicas que, diziam, o movimento exigia: caído em si, prega-lhes um tremendo sermão, que com coisas sérias não se brinca.[3]

Mas agora reparo que sem querer, nem ser minha intenção, pelas razões que expus ia resvalando no perigoso pendor de invadir domínios que não me pertencem nem percorri, quando tantos outros, ainda em plena actividade o podem pormenorizar com minúcias inéditas que bem o merece esse grandioso e simpático movimento académico, expressão espontânea da nossa dignidade ofendida.

Que outros o façam com o devido conhecimento de causas senão tanto para salientar a grandeza dum movimento cuja finalidade patriótica está bem evidenciada, pelo menos para tirar do esquecimento muitos dos valores académicos que mais o abrilhantaram, imprimindo-lhe fecundas energias de sucesso.


Passo sobre os acontecimentos de 31 de Janeiro em que a Academia não interveio directamente, muito embora neles participassem, individualmente, alguns estudantes, meus condiscípulos e contemporâneos, nomeadamente aspirantes de marinha, para me referir, entre muitas outras brincadeiras de estudantes, a duas formidáveis charges, reveladoras da exuberância, da vida, espírito crítico, justiça, sentimento e correcção, características da mocidade académica de todos os tempos, mas em que a minha geração me pareceu mais fértil, talvez porque melhor pude apreciar as suas manifestações.

A primeira refere-se a uma graciosa paródia de doutoramento, realizada no final do ano escolar de 1890-1891: teve como protagonista um antigo empregado da Imprensa Portuguesa, o falecido António Augusto de Sousa Vieira, homem de toda a confiança do saudoso Anselmo de Morais seu director e a quem ele confiara a ingrata e delicada missão de acompanhar às aulas as suas filhas Aurélia e Laurinda Morais Sarmento que foram, com D. Maria Tavares Pais Moreira (do mesmo tempo, mas que defendeu tese um ano depois), as primeiras senhoras que no Porto conquistaram o seu diploma de Medicina e Cirurgia, passando pela antiga Escola Médico-Cirúrgica, onde igualmente me formei um ano após elas.

Esta vigilância, produto da época e da novidade (hoje ridícula pela banalidade), aliada à natural comoção que as simpáticas académicas despertaram no meio dos seus condiscípulos, foi desempenhada com todo o escrúpulo pelo guardião, que os rapazes respeitaram embora o alvejassem com naturais piadas e alcunhas inofensivas.

O bondoso Vieira cumpriu a preceito as suas funções: acompanhava às aulas as filhas do seu amigo e director, assistia às respectivas lições, silencioso, resigando e cônscio do seu papel e retirava-se com elas indiferente às inofensivas chalaças, piadas ou alcunhas com que os mais irrequietos condimentavam, de longe, sempre a meia voz e correctos, a evangélica paciência de tão fiel servidor.

Assim se passaram os 5 anos do curso médico, e no final, a ideia de diplomar em sessão magna quem com tanta assiduidade, zelo e “nula competência” assistira a todas as lições sem faltas, salvo as das suas pupilas, surgiu espontaneamente, rápido tomou vulto, alastrou e concretizou-se, dias volvidos, na grandiosa manifestação de homenagem a que o atingido assistiu com enorme aprazimento e contentamento, só percebendo no final que era o protagonista visado naquela memorável Assembleia.

O acto passou-se no Teatro Anatómico, para tal profusamente ornamentado e engalanado pelos rapazes, tomando o inocente homenageado o seu lugar de honra nas doutorais, com a assistência dos novos doutores, representantes das várias Universidades e Academias do país e do estrangeiro, das autoridade e figuras representativas que, em grande número, intensa alegria e satisfação, colaboraram na sessão a que davam o brilho da sua presença, entre as desafinações duma charanga académica, adrede preparada para a cerimónia.

Famosos os vários discursos pronunciados, entre os quais um em latim macarrónico, no género do palito métrico, pronunciado, suponho eu, por Scipião de Carvalho, o endiabrado boémio cujas graciosas partidas académicas mereciam relato especial e que com o meu condiscípulo José Guedes, ainda hoje apaixonado cultor das sentenças latinas com que abrilhanta a sua conversa animada, discípulos do Pe. António Pereira no afamado Colégio dos Roseirais que este dirigiu em Lamego.

Os esfusiantes comentários da assembleia, entusiástica, ruidosa e alegre, os aplausos, as gargalhadas espontâneas e sonoras da assistência, as notas estrídulas e vibrantes da charanga sublinhando as várias peripécias da cerimónia, as manifestações álacres da mocidade atingem o rubro quando é feita a entrega do diploma honorífico, com todas as suas fitas, selos e predicados ao novo e original doutor que só então atinge o objectivo de tão movimentada e aparatosa sessão.

Inolvidável o abraço final dos padrinhos: ela dama distinta, paramentada a rigor, na pitoresca viela dos Gatos, fronteiriça à Escola; ele, engalanado com todas as suas condecorações, pomposo e aprumado, ostentando brilhante, alva e luzidia a pera a parodiar a do seu afilhado.

No auge da comoção, ao cingir o paraninfo no simbólico abraço de Minerva, a madrinha trinca, mastiga e engole com delírio metade da pera do padrinho, que por sinal era de doce, bem disfarçados por entre as suíças os fios que a mantinham no seu lugar próprio.

Tudo isto não é mais que uma pálida e desbotada reminiscência do muito que presenciei e do que se passou nessa grandiosa e memorável sessão e do pouco e confuso que a minha memória retém, a cerca de meio século de distância, dum acto em que à originalidade do conceito se aliava uma opulência de pormenores e de facécias, no propósito sadio, alegre e inofensivo de focar um acontecimento único na história jocosa da Academia Portuense.

Tão correcta foi e tão graciosa que o novo e original doutorado, a princípio indiferente, embora interessado, se considerou lisonjeado e nada agastado com a elevada honra académica prestada à sua forçada assiduidade escolar.

Sirvam estas despretenciosas evocações de traço espiritual de união entre todos aqueles, e bastantes ainda são, que viveram esse inesquecido e alegre momento da sua vida académica e dela conservam perduráveis e gratíssimas recordações.


A outra do mesmo género, pomposa, mas bem mais cáustica homenagem, me foi dado assistir em 1902 na qualidade de incógnito, como substituto de medicina que era então.

Foi a formidável “charge” ao apregoado específico contra a tuberculose – “Badiana fosfatada de Sued” (Deus) – que os académicos crismaram ironicamente de Badiana sulfatada de uva preta, poderoso microbicida do médico Quinterra, conselheiro da Majestade, facultativo desonorário do Hospital de Santo António, etc., etc. e de que os promotores distribuiam pela assistência pequenos frascos com as indicações: Para uso interno às camadas. Preço segundo as praxes.

Esta contundente rubrica motivou o aparecimento dum poemeto A Banana da Suécia da autoria do meu condiscípulo saudoso, Dr. Manuel Augusto de Queiroz e Castro, poeta repentista, satírico e irónico, cujo espírito e talento, em plena ascensão, a morte abateu sob a forma duma infecção profissional aguda, roubando o infeliz moço ao carinho dos seus e à camaradagem dos condiscípulos e amigos que o estimavam.

Que a sua memória e a do “Dr. Lúcio Quinterra” por cuja boca fala, me perdoem a transcrição de alguns dos versos desse poemeto, alusivos ao custo da mercadoria, ao seu vistoso e sugestivo rótulo
Eu sou o hemorroidário D. Fiasco
Autor daquela sórdida mixórdia
Da qual, por obra de misericórdia
Estou vendendo a três mil reis o frasco!

Mas se for encomenda de espavento
Três, quatro frascos, cinco ou melhor seis
Então já a coisa, com abatimento
Pode ficar aí por dois mil reis!...

Agora quem quiser maior’s porções
Oito, dez frascos, doze ou cois assim,
Cada litro da choldra, quanto a mim,
Pode custar, o muito, dez tostões!!!

E se enfim apechinche for tão boa
Que me despeje um lote da fazenda,
Ficará cada pote da encomenda,
O muito, a arrebentar, por uma coroa!!!

...

Mas eu não durmo!! Para dar um corte
Da intrujice voraz no imundo tasco,
A cores fiz gravar em cada frasco
A imagem da Badiana em frente à Morte!

A Badiana, olímpica serena
Parece estar dizendo à morte crua,
– Nem mais um passo!!... Para trás, hiena!
Que vens cá tu fazer?!... olho da rua!!!

E a morte embaçada e confundida,
Assim a modos de quem está a perder,
Torcendo a negra boca, enraivecida
Parece resmungar... Vai-te coser!

...

Estão vivos, de saúde e em plena pujança de actividade muitos dos colaboradores dessa chistosa e cauterizante manifestação académica que o poemeto do meu querido condiscípulo sintetiza nos seguintes versos:
Em todo o caso, a lusa mocidade,
Por amor da justiça e não da esmola,
Mostrou ainda há pouco numa Escola
Tudo quanto me deve a Humanidade!

Ò que festa de truz! Que apoteose!
Como jamais a houve nas Espanhas!
Sua lembrança ainda me recose
E me baralha as húmidas entranhas!

Das mais longínquas terras atraídos,
Vieram, pelo cheiro do meu nome,
A par de vivos sábios conhecidos,
Outros muitos que a terra já consome!

Gente da Maia, do Hindustão, da Grécia,
Da Albânia, do Saará, de Mesão Frio
Desembarcaram no Porto, toda sécia,
Para honrar o sobrinho de meu brio!!?

...

A eles melhor do que a outrem convém fazer reviver algumas das peripécias mais famosas, em que o alvejado, considerado à rebelia, foi representado por um jumento coroado de louros.

Na Faculdade de Medicina em cujo teatro anatómico se desenrolou a hilariante apoteose, existem, no seu Museu Histórico, peças evocadoras da graciosa “charge”, nomeadamente os trágicos painéis com as descrições dos horríveis bichinhos da tuberculose e esse associado, a Badiana.

Limito-me pois aos excertos feitos e à reprodução do grupo cénico[4] em que o leitor facilmente identificará os componentes, como clínicos consagrados, sublinhando com um sentimento de saudade os desaparecidos, talvez sob o olhar fatídico da morte, convidada em recordação das vítimas imoladas à Badiana.


Por estes dois escorços bem se poderá aquilatar das manifestações académicas – cortejos, festas da pasta, encerramento de aulas, paródias, etc., – em que se expandia o espírito irrequieto, audaz e alegre da mocidade académica do meu tempo.

Se lhe juntarmos algumas zaragatas célebres como a do franquismo, récitas teatrais entre as quais “Os Filhos de Minerva” e “O Auto das três barcas” do nosso saudoso e sempre relembrado colega Dr. Campos Monteiro, manifestações várias de arte, como música, poesia, caricaturas, etc. teremos uma ideia do grau de actividade, cultura e sentimento dos académicos da minha geração e de quanto contribuiram para manter, perpetuar e honrar as tradições de galhardia da mocidade estudiosa superior de todos os tempos.

Destas várias exteriorizações do potencial académico em que todos os cursos da minha geração comparticiparam já como figurantes, já como manifestantes, espectadores animados ou ouvintes chalaceadores, nasceu essa estreita e viva camaradagem que a todos nos une e que afirmada em reuniões periódicas mais ou menos espaçadas mas sempre animadas, esfusiantes de graça e evocadoras de pequeninos nadas da vida académica relembrados e exaltados à categoria de acontecimentos notáveis, constitui uma das mais gratas recordações da nossa mocidade e um momento ansiosamente esperado para aliviar as agruras da nossa profissão.

O meu curso (1892) tem sido fiel a esta tradição e desde a primeira convocação (autoria de Queiroz e Castro):
Foi num magno concílio resolvido
Pelos melros portuenses cá do curso
Que opíparo jantar seja roído
Cá pela tropa em máximo concurso

...

procura manter esperto e vivo o fogo sagrado destas encantadoras reuniões, embelezando-as e aureolando-as com os possíveis actos de benemerência a favor das famílias desprotegidas de condiscípulos falecidos.

Infelizmente a matéria prima destas reuniões vai rareando e prejudicando com mágoa a sua encantadora finalidade e ao terminar este singelo relato das minhas reminiscências académicas, não devo deixar de me referir ao último desaparecido após a reunião em 25 de Maio transacto.

Foi o Dr. Aguiar Cardoso que deve ser rememorado entre os mais brilhantes académicos da minha geração e do meu curso, e que só por si o honra e enche de prestígio e solidariedade, pois que académico cheio de originalidade e de bom senso – razão porque o cognominava de filósofo – foi um distinto e laureado cultor e compositor musical, um clínico eminente, polemista invulnerável, arqueólogo activo, apaixonado e sabedor na valorização da sua terra, terras de Santa Maria e seu famoso Castelo, um amigo e paladino dos pobres por cuja assistência se bateu com denodo, e acima de tudo, para nós, um camarada amigo, apreciador entusiasta das nossas reuniões e do nosso convívio.

Focando-o rapidamente, neste momento, sintetizo os valores da minha geração em um dos seus lídimos e superiores representantes, o último falecido[5] e saudosamente rememorado – o Dr. António Augusto de Aguiar Cardoso.

Porto, 22 de Março de 1937

ALBERTO DE AGUIAR





[1] De facto a crise do Ultimatum só começou em Janeiro de 1890. Deve haver confusão com o ano lectivo 1889/90.

[2] Refira-se que Reis Santos foi também regente da Tuna (Porto Académico, n.º único de 1937, pág. 33).

[3] [Nota original:] Na revisão deste artigo em 31 de Março fui dolorosamente surpreendido pela notícia brutal do falecimento de Castro Soares o condiscípulo querido que deu brado na Academia pela energia, nobreza e ímaculabilidade do seu carácter e que armado na vida pública com tais virtudes conseguiu a reforçada indepêndencia concelhia de Espinho, a admiração respeito e alta consideração dos seus conterrâneos e a estima e a gratidão dos seus doentes pela muita bondade, dedicação e saber do seu culto profissional.

[4] A versão original deste texto vem acompanhada de uma fotografia, que aparece também acima neste blogue, na primeira imagem da entrada O "Dr. Quinterra".

[5] [Nota original:] Já não é, pois posteriormente, como aludi em nota anterior, Castro Soares, outro grande e belo espírito, transpôs as fronteiras da Eternidade, talvez a reconciliar-se com Aguiar Cardoso neutralizando a repulsa resultante do choque de dois sonhos animado do mesmo mais alto potencial de simpático jornalismo.

terça-feira, 20 de abril de 2010

O edifício da Escola Médica


[Bilhete postal dos últimos tempos da Monarquia (o meu exemplar tem uma mensagem datada de 23/9/1910), da série Estrela Vermelha, de Carlos Pereira Cardoso.]

Durante perto de 50 anos, a Escola Médico-Cirúrgica do Porto (fundada em 1836) funcionou na ala nascente-sul do Hospital de Santo António (onde tinha já funcionado a sua antecessora, a Régia Escola de Cirurgia do Porto, fundada em 1825). Foi só por volta de 1884 que passou para um edifício próprio.

Este edifício foi depois substituído por outro, maior, no mesmo local, onde hoje ainda funciona o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar.

terça-feira, 13 de abril de 2010

A Homenagem

[Sá d’Albergaria, O segredo do Eremita, vol. 3, 1902, págs. 38-41, 67-82.
Como já foi dito acerca d'"O Café Lisbonense", O segredo do Eremita é um romance, mas o autor chama-lhe "romance de costumes" e diz no prefácio que "os seus personagens existiram" e "tudo que aí se conta sucedeu" (vol. 1, 1902, págs. 6-7). Sou bastante céptico relativamente à veracidade da estória aqui contada. No entanto, não me parece de todo irrelevante uma estória passada num meio estudantil, apresentada pelo autor como verdadeira – inspirando-se possivelmente em situações e ambientes reais.]


[...] o estudante [Roberto] entrou no Lisbonense seriam oito horas da noite.

- Ora ainda bem! Ainda bem que apareces! - gritaram algumas vozes, saídas de um grupo de rapazes sentados à volta de uma mesa, ao centro da sala.

- Então o que há?

- Há que vamos fazer uma patuscada de mão cheia e é preciso que não faltes.

- Eu afianço-o! Este é dos nossos, não falta! - exclamou o Veiga, na sua voz de stentor. E acrescentou logo: - Ponha para aqui um charuto!

Antes, porém, que Roberto tivesse tempo de lho dar ou de o recusar, já o Veiga lhe introduzia a mão no bolso e se apoderava do charuto.

- Este é rico, este é proprietário... pode bem com a multa... Não é como vocês, seus pelintras, que só fumam cigarros de oito... É dos de trinta e Flor de Creta - continuava, admirando-o, antes de o acender.

- Mas vamos a saber... De que se trata?

- Trata-se de glorificar um poeta, oferecendo-lhe uma ceia.

- Uma ceia?

O Joaquim d’Araújo, com um sorriso meio aberto, meio fechado, que lhe dá à boca o aspecto rugoso de uma rosa de Alexandria, explicou com voz melíflua:

- Sim. Existe aí um poeta assombroso, um poeta piramidal, que se chama o sr. Anastácio Gomes... Ora este poeta queixa-se de que não é suficientemente apreciado o seu estro; e nós resolvemos oferecer-lhe um banquete lauto... isto é... encher-lhe a barriga, coisa de que ele muito precisa em verdade, e por fim entoar-lhe um hino... Já fizemos o cálculo e deita a coisa, com troça e tudo, lá para dez tostões por cabeça... o banquete é de cinquenta talheres; mas o nosso poeta não paga nada.

- Deve ser uma noite cheia! - observou o Paranhos.

- Já se encomendou uma coroa de cascas de alhos para lhe ser oferecida no fim...

- Mas quem é esse Anastácio Gomes?

- É um parvo que faz versos muito engraçados, pelas calinadas monumentais de que os recheia.

- Mas ele em que se ocupa? - insistiu Roberto, cada vez mais interessado em saber quem fosse a vítima daquela brincadeira de rapazes, por suspeitar que o Anastácio Gomes se relacionasse de perto com o primo das Gomes, seu rival e proposto noivo de Camila.

- É um súcio que se emprega no comércio, onde parece que não está mal, mas que tem a mania de ser poeta.

- É do Porto?

- É. Chamam-lhe até o Primo das Gomes, porque está sempre a falar nas suas primas Gomes - umas seresmas que prometeram deixá-lo herdeiro quando morressem...

- Ah! Tenho ouvido falar.

- Mas vamos a saber, podemos contar contigo?

- Talvez... Amanhã darei resposta.

- Não senhor! Há de ser hoje... porque é preciso que tudo fique combinado.

- Pois bem, contem comigo.

- Viva! - bradaram todos os rapazes alegremente.

- Olha que hás de botar discurso, ouviste? - preveniu o Bonga. - Olha que o discurso é obrigado...

- É verdade - afirmou o Joaquim d’Araújo - o poeta também recita... Eu comprometo-me a fazê-lo recitar... Isso vai ser muito bom! [...]

[ Entretanto, Roberto fala a Camila da “homenagem” ]


A ceia tinha sido encomendada no restaurante conhecido pela denominação da D. Ana das ... gordas, em Entre-Paredes.

O avultado seio da proprietária, uma mulher quarentona, mas ainda fresca, tanto quanto o pode ser uma mulher nessa idade, robusta e nutrida, tinha dado ao retaurante e à D. Ana a denominação comum.

Esse restaurante, que já hoje pertence a novo proprietário, conserva ainda agora a antiga denominação; e posto a tabuleta o anuncie aos transeuntes como Restaurante Português, o certo é que o boémio portuense desse tempo não o conhece senão pelo Restaurante da D. Ana das ... gordas.

Omite-se por um resto de amor à decência... escrita, o que a decência falada nas ruas do Porto repete em voz alta.

As reticências não se fizeram para outra coisa, senão para servirem de parra à nudez, às vezes mais que paradisíaca, de certas frases ou fórmulas populares.

Vamos adiante.

É o Restaurante da D. Ana um amplo barracão de madeira, que outrora foi construído para servir de vacaria e que mais tarde foi convertido em restaurante.

À entrada, sob uma ramada, ao ar livre, estão colocadas algumas mesas toscas de madeira que, nas noites calmosas, são preferidas pelos frequentadores.

E no mesmo plano, divididas por frágeis tapamentos de madeira, há duas ou três salas bastante espaçosas, com umas mesas sempre sujas e escassamente iluminadas a gás.

O resto do edifício subdivide-se em quartos reservados, com a sua negra e suja cortina de chita a tapar-lhes a entrada e a vedar das vistas indiscretas o seu velho bico de gás saído da parede, a esclarecer a toalha nojentamente enodoada, estendida sobre a tábua de pinho assente em quatro pernas e pomposamente crismada com o nome de mesa.

Não era em nenhum dos quartos reservados, onde apenas podem estar à vontade duas pessoas - ainda que os bancos indicam lugar para quatro - que havia de ser servida a ceia.

Escolheram os rapazes a sala da entrada, à direita, por ser a mais espaçosa e a mais isolada de todas; e para aí se dirigiram às 10 horas da noite todos os convivas.

O Joaquim d’Araújo, que se encarregara do menu, dava ordem ao criado - um galego grosso e gordo - para que fosse dispondo a mesa, pois que o banquete, às 10 e meia em ponto, devia principiar com os convivas que estivessem.

- A hora marcada era para as 10 - dizia. - Concedemos meia hora de espera. Quem chegar mais tarde entrará na altura em que estiver o banquete.

O Veiga, fazendo sempre muito barulho, intrometia-se nas atribuições do Araújo e dava ordens ao criado.

- Ò Juan! Ò Romão! Ò galego! - berrava ele - E vinho! Vê lá, deita bastante vinho nessa água, ouviste?

- Meus senhores, - disse o Araújo aos convivas já reunidos - proponho que façamos as coisas com a solenidade e respeito devido ao eminente vulto que pretendemos honrar neste banquete. Acho para isso indispensável que se nomeie uma comissão que vá receber à porta e introduza na sala do festim o poeta extraordinário que vem proporcionar-nos a mais bela noite que ainda temos passado desde que somos gente de andar de noite!

- Apoiado! Apoiado! - bradaram várias vozes.

- Vejo com muito prazer - continuou o Araújo, com voz macia, de ronha espirituosa - que sou secundado pelos meus ilustres companheiros neste sentimento de respeito e admiração que nutro pelo favorito das Musas que hoje desce até nós! Proponho, portanto, que a comissão se componha dos senhores...

- Eu quero ser da comissão! - berrou o Zé Veiga. - Eu e o Monstro... Tu queres, ò Monstro?

- Valeu! - respondeu o Monstro, com voz nasal

- Bem! Já há dois... quantos são precisos?

- Pelo menos três... - redarguiu o Joaquim de Araújo - três são da praxe.

- Quem há de ser? - Interrogou o Veiga, circunvagando os olhos pelos circunstantes - Hás-de ser tu, Roberto! - disse ele.

- Eu não, não conheço o poeta, e não desejo atrair sobre a minha humilde individualidade o seu divino olhar... Tenho medo de fazer loucuras sob a irradiação ardente do seu estro inspiradíssimo... Reconhecendo-me pequeno ao lado dele, receio arrancar-lhe a lira das unhas e... partir-lha na cabeça!

- Pode, se quiser, fazer isso no fim... Mas primeiro deixe-lhe encher a barriga... - advertiu o Bonga.

- Que coma à vontade... essa é boa!

- Venha o Queirós Veloso! - intimou o Veiga.

- Pronto! - disse o Veloso - Eu não posso recusar-me a honrar a Besta nacional na figura do mais alto e ilustre poeta que os comunicados a pataco a linha jamais cantaram em suas colunas!

Organizada a comissão, foi ela postar-se à porta.

- Rapazes! - disse o Veiga, voltando à sala - não se arranjará por aí uma campainha?

- Para quê?

- Essa é boa! Quero tê-la na mão para a tocar em sinal de aviso, logo que o poeta dê entrada no templo...

- Essa é boa! - bradaram alguns.

O Veiga continuou:

- Logo que ouçam o primeiro repique, vocês levantem-se... hein? E em chegando à porta da sala repico com mais força... Então vocês, de pé, ou em cima dos bancos, entoam a Maria Cachucha... Valeu?

- Ò diabo! Mas isso será forte!

- Qual forte! - tornou o Veiga. Depois dele cá estar denttro, há-de cantar e dançar enquanto nós comemos... e no fim... come ele!

- Nada; não senhor!... Seriedade, seriedade... - recomendava o Araújo - Nada de ferir a sentimentalidade do poeta a ponto de o fazer chorar...

- Mas ao menos podemos recebê-lo com um hino? - insistiu o Veiga.

- Vocês sabem o coro da taberna do Roberto do Diabo? - inquiriu o Araújo.

- Nada de Roberto... Música portuguesa... Canta-se a Maria da Fonte! - gritou belicosamente o Veiga.

- Voto pela Cachucha! É mais lírica e mais expressiva! - observou um.

- Está dito! Seja a Cachucha! - aprovaram outros.


Enquanto isto se passava no Restaurante, o poeta Anastácio Gomes, prevenido pela carta de Camila, escoava-se surrateiramente do Lisbonense e, cosido com as paredes das casas, procurava o seu domicílio.

- Que grandes pandilhas! - murmurava ele. - Vá lá um homem fiar-se nestes bandidos que não têm talento nenhum e que não suportam que os outros o tenham! [...]


Dez horas e meia dadas e o poeta sem aparecer. Começavam os convivas já todos reunidos a inquietar-se.

- O homem tarda! - disse o Araújo, vindo à porta.

- Assim que ele chegar, ferro-lhe um ponta-pé - bradava o Veiga furioso, - para o ensinar a ser mais delicado para outra vez!

- O melhor - optou o João Novais - é dar princípio ao banquete... E se o homem vier até à sobremesa, come; senão, quando chegarmos ao fim, nomeia-se uma comissão que o vá procurar e que o traga aqui, vivo ou morto, a dar explicações... Não vale a pena deixar arrefecer o bacalhau!

- Sim, vamos ao bacalhau! - clamaram várias vozes.

Sobre a mesa foram postas três enormes travessas de bacalhau cozido com batatas e ovos.

- Vamos, meus senhores! - comandou o Araújo. - Está aberta a sessão... Os cavalheiros que preferirem boroa não têm mais do que prevenir o criado...

- Venha a boroa! - berrou o Bonga. - Quem diabo é que come bacalhau cozido com pão de trigo? Isso não é para mim, transmontano, que não preciso do molete dos tripeiros para ser filho de boa família!

O galego trouxe uma enorme boroa, que os rapazes desfizeram e deglutiram com uma voracidade de corvos sobre animal morto.

- Eia! Isto sim! Isto é que é banquete! - berrava um.

- Pedaço de asno de poeta! - gritava outro - Perder a ocasião de tirar o ventre de misérias! Não apanha outra em toda a sua vida!

- E então o vinho? - exigiu o Veiga - Isto vai a seco?

- É verdade! - clamou o Araújo - Rapaz! Serve o néctar dos deuses a estes senhores!

O galego, atarantado com a vozearia infernal dos estudantes, corria de um lado para o outro, já trazendo um talher, já um guardanapo, e gritando sempre:

- Pronto!

Foi trazido um garrafão de vinho, e as canecas cheias eram prontamente despejadas pela rapaziada.

Os ditos alegres esfusiavam, as gargalhadas estrugiam, e de vez em quando uma voz bradava:

- O pulha do poeta não vem! Mal sabe o que perdeu!


Do bacalhau cozido com batatas passara-se à pescada cozida, à pescada frita, aos bolinhos de bacalhau, a toda essa comezaina indigesta que só o estômago de rapazes pode suportar vitoriosamente numa noite de patuscada.

A esta pândega, pretexto para algumas horas de alegre convívio por pouco dinheiro, chamara o Araújo pomposamente - um banquete.

No fim, quando as travessas vazias davam lugar aos vinhos finos do Armazém da Estrela a dois tostões a garrafa, com os quais vinhos se faziam brindes de valor extraordinário pelo bom humor que os ditava, o Paranhos propôs que uma comissão fosse procurar o poeta e, fazendo-lhe compreender quanto a sua ausência fora notada e sentida, ali o levasse morto ou vivo, afim de ver com seus próprios olhos e ouvir com os seus ouvidos tudo quanto o seu alto génio inspirava de admiração e respeito àquela mocidade ardentemente entusiasta pelos maus versos e pelas boas orelhas.

Muito aplaudido o Paranhos, a cuja cara inimitável o vinho ia dando uma expressão cada vez mais picaresca, nomeou-se a comissão.

- Conservemo-nos em sessão permante, esperando a vinda do poeta... - propôs um.

- Como se disseramos a vinda do Messias! - acrescentou outro.

- Venha o poeta! Urge que o glorifiquemos! - bradaram várias vozes.

- Amigos e companheiros! - berrou o Veiga, que era um dos da comissão - aqui vos juramos solenemente, pelo vinho do Armazém da Estrela que, para o preço, vamos lá que não é má pinga, que não voltaremos aqui sem o poeta ou quem quer que seja que o represente!

E voltando-se para o grupo dos comissionados:

- Vamos!

- Hurra! - bradaram os convivas tocando os copos.


Passado um quarto de hora, o Veiga reentrou na sala e, impondo silêncio com um gesto, falou assim:

- Senhores e companheiros: não tendo podido haver às mãos o poeta Anastácio Gomes, o puro e autêntico Anastácio, em cuja honra esta festa é, eu e os meus colegas, vossos comissionados, tomámos o alvitre de o fazer representar aqui por um indivíduo da sua família e, posto que algum tanto dissimilhante na figura, perfeitamente igual a ele no engenho e arte e talvez mais que ele admirável na grande voz com que soe cantar o vasto poema de seus anelos e de seus amores! Ei-lo!

E apontando para a porta da entrada, apresentou aos circunstantes um magro jumento, em pelo, que, ladeado pelo resto da comissão descoberta e em atitude respeitosa, dava entrada na sala.

- De pé! De pé! - intimou o Veiga com voz de stentor, agitando os braços hercúleos. - De pé e entoemos o hino!

Chegou o burro até á mesa e estacou.

Os estudantes, de pé sobre os tamboretes e empunhado os copos, berraram furiosamente umas coplas que o Araújo havia composto e adaptado à música de um hino antigo que a companhia do Dallot cantava nas Carmelitas.

Fosse pelo efeito das luzes e pelo cheiro do vinho, fosse animado pela gritaria dos estudantes, o certo é que no fim da cantata o asno rompeu num zurro atroador e prolongado.

- Bravo, poeta! Bravo, Anastácio Gomes! - berravam os estudantes todos à uma, batendo as palmas.

E acto contínuo, o Araújo, grave e solene, pegou na coroa de cascas de alhos e aureolou com ela a cabeça do animal, bradando:

- Glória ao burro!

Nova e mais ruidosa gargalhada.

O motim dos estudantes havia atraído às portas da sala os criados do restaurante e os frequentadores curiosos de verem que pagode era aquele. E todos riam a bandeiras despregadas desta extravagância dos endemoinhados rapazes.

De repente um vulto alto, esguio e pálido, sinistramente entrajado de preto, sobrecasaca, chapéu alto amassado em partes e bengala de cana da Índia na mão, entra na sala e, dominando o tumulto, brada com voz cava, roucamente diabólica:

- Eu sou Falstaff!

E sem mais preâmbulos, cavalga o burro, bate-lhe com os calcanhares na barriga, dá-lhe um murro nas orelhas para lhe imprimir direcção e sai.

Era Alfredo Carvalhais, o poeta impecável, o boémio da penumbra, que o acaso levara ali nos caprichos da embriaguez.

A estudantada no auge do entusiasmo, saudou o poeta da Beatrice com aplausos ardentíssimos e vivas prolongados. E vendo-o partir pela porta fora, naquela burlesca atitude de Apolo cavalgando o Pégaso, seguiu atrás dele entoando um hino patriótico.


A patuscada findou na Batalha para não ir findar no Aljube.