[José Souto Teixeira, Porto Académico, n.º único de 1962, pág. 19]
A corresponder ao pedido dum velho companheiro da minha geração académica, cá estou a escrevinhar qualquer coisa, como se fora uma página de memórias dos bons tempos em que frequentei a nossa Universidade.
Para ela entrei, já lá vai mais de uma quarentena de anos[1], pode dizer-se, pelo braço do Modesto Osório que tão vincadamente marcou a sua personalidade como regente da Tuna Académica e que todos os do meu tempo recordam com respeito e saudade. Frequentávamos ambos o Liceu de Viseu. Lá tinhamos a nossa Tuna. Ele o regente, eu o chefe dos violões. Cursava o sétimo ano quando Modesto Osório me escreveu um postal do Porto onde dizia: «não vás para Coimbra; foge dos «canelões» e das «troupes»; aqui sou caloiro e regente da Tuna; os violões são fracos e aqui fazes um figurão».
Segui o conselho e numa fria noite de inverno, de banza ao tiracolo, cheguei ao Porto e quando Modesto Osório me encaminhava para uma pensão da Rua dos Caldeireiros, fomos, ao dobrar duma esquina, cercados por um grupo de embuçados.
Que biltre, este Modesto Osório, pensei com os meus botões!... E dizia-me que no Porto não havia «troupes» e prega-me esta partida!... Insultei-o. «Cala-te, disse-me em surdina, em tom enérgico mas um tanto apavorado. São os «trauliteiros». Não nos fizeram mal mas não ganhei para o susto.[2]
A primeira aula a que assisti foi a de Química Inorgânica, regida pelo Conselheiro José Arroio. Ainda o estou a ver no seu fraque impecável, a sua pêra grisalha, com dois pares de lunetas de vidros muito espessos cavalgando no nariz, escrevendo fórmulas químicas com giz envernizado para não sujar as mãos.
A seu lado, o preparador Aprígio Dantas, de esponja em punho pronto a apagar, a um sinal do mestre, o que no seu quadro se tornava desnecessário. O tempo tornou-me admirador do Conselheiro e amigo do Dantas, esta figura incomparável que o Zeferino, no «Porto Académico» de 1938, assim retratou: «baixo, muito gordo, cara rapada, com uma cicatriz no lábio superior produzida por queimadura de qualquer ingrediente químico, o Dantas, que a todos tratava por tu, gozava duma propriedade: dormia de pé».
O ano tinha corrido agitado. O tifo exantemático, a pneumónica, as greves, as consequências sociais e políticas que sucederam à primeira guerra mundial, pertubaram os trabalhos escolares e o Conselheiro Arroio só conseguira, do programa, dar os metalóides e dois únicos metais: o ferro e o alumínio. Nas vésperas dos actos[3], o bom do Dantas avisou os alunos que era da praxe ir a casa do Mestre pedir benevolência. Desgraçado aquele que o não fizesse. Eu era o último a fazer exame e todos os que me antecederam seguiram o conselho do Dantas. E assim, na véspera do primeiro exame que is fazer na Universidade, meti-me no eléctrico e lá fui até à Foz, a casa do Mestre.
Recebeu-me no cimo da escada, embrulhado num roupão de seda. Já com a porta da rua aberta e quando fazia a vénia final da despedida, o Mestre diz-me lá de cima: Oiça lá, creio que durante o ano só fizemos o estudo de dois metais, mas não me lembro quais. Respondi-lhe: o senhor Conselheiro deu o ferro e o alumínio, mas não tem feito perguntas sobre eles nos exames já feitos. O Mestre sorriu-se e retorquiu: não tenho feito perguntas sobre esses metais por esquecimento, mas de futuro não me esquecerei. Saí radiante. O Mestre simpatizara comigo e indirectamente tinha-me dado o ponto para o exame.
Vim para o quarto e toda a noite só estudei o ferro e o alumínio. Chegou o exame. Uma hora decorrida e o Mestre só me tinha feito perguntas sobre os metalóides. No final do acto, disse-me: «Está terminado o seu exame; não lhe fiz perguntas sobre os metais porque tenho a certeza de que o senhor os estudou toda a noite». E tinha acertado, mas nos exames sequentes – química-qualitativa e química-física – tomei as devidas precauções.
Os tempos corriam agitados nos primeiros anos em que frequentei a Universidade. Entrei para a pensão da Rua dos Caldeireiros a pagar vinte escudos por mês e pouco mais de um ano decorrido pagava oitenta. A situação, por vezes, para os comensais da pensão, quase todos estudantes, tornava-se aflitiva em face do rápido aumento do custo de vida. Enquanto uns iam pagando como podiam, ou pediam moratórias, outros pagavam em géneros que tinham escondidos nos quartos debaixo das camas, arranjados a preço baixo ou gratuitamente quando o povo amotinado assaltou os armazéns dos açambarcadores.
E sucedeu o inevitável. A pensão rebentou e, quando num dia ansiosamente esperávamos o jantar, o dono da pensão veio ter connosco e disse: «Não lhes posso dar hoje de comer»; e, dando a cada qual vinte e cinco tostões, continuou: «Com este dinheiro, o dinheiro do jantar, podereis ir comer aonde quiserdes». Assim foi, fomos todos para um tasco da Rua de Trás e jantámos castanhas assadas regadas com bom vinho verde. Foi, talvez, a refeição de toda a minha vida de que guardo mais grata recordação.
Estoicamente enfrentámos a realidade e resolvemos fundar uma «República». Descobrimos um estupendo colaborador na pessoa do Sr. João Loureiro, galego de origem, dono duma casa de comidas e bebidas num rés-do-chão, na Rua de S. João Novo, em frente do velho Tribunal. Fundou-se assim a «Douta Assembleia dos Capelos», que se manteve durante uns três anos, regida por «Constituição» própria a que todos deviam cega obediência. Os iniciados admitidos eram sujeitos a duras provas.
À volta da «Douta» girava toda a vida académica do Bairro: ruas das Taipas, do Calvário, S. Miguel e Belomonte. A população associava-se às nossas festas, principalmente quando um de nós era feliz no exame feito ou da parvónia chegava, dos pátrios lares, pitéu de respeito. Cada grande festa era seguida de baile. Tudo tinha entrada – pax intrantibus – principalmente as raparigas. E quando a casa não chegava, bailava-se na rua. Lembro-me, duma vez, que entre elas estava a filha do regedor da freguesia que morria de amores por um «douto». De súbito, – no auge da festa, entra o regedor com ar imponente e autoritário e prega uma bofetada na filha.
E enquanto a rapariga, em altos gritos dizia: – «Bata, meu pai, que o amor batidinho é quanto sabe melhor», – armou-se tal zaragata que alvoroçou todo o bairro. Entram na liça alguns «futricas»[4] despeitados, ouvem-se apitos e a polícia dificilmente conseguiu serenar os ânimos. Tudo dispersou, mas pouco depois, um polícia, o «111», quando alguns de nós pretendiam fazer uma serenata ante a casa do regedor, prendeu-nos a todos. Obedientes, lá fomos parar à esquadra da Bolsa. O chefe, uma excelente criatura, deu-nos minutos depois a liberdade. Protestámos. Só a aceitávamos e estávamos decididos a não abandonar a esquadra, mesmo à força, a não ser que o «111» nos pedisse desculpa. O chefe estava um tanto embaraçado, tanto mais que se estavam juntando, em frente da esquadra, bastantes populares.
O «111», ante a feição que os acontecimentos estavam tomando, pediu-nos desculpa. O chefe fez que não percebeu e deu-nos as boas-noites e conselhos. Alguns dias depois, o «111» foi convidado de honra da «Douta». Comeu-se e bebeu-se bem e a alegria reinou. O «111» apresentou-se à paisana, ficou nosso amigo sincero e pediu que o não metessem em sarilhos quando estivesse de giro no bairro, porque «ordes» são «ordes» para se cumprirem.
A «Douta» também era considerada entre a Academia. A ela pertenciam, em determinado ano, o presidente da Associação dos Estudantes, o director do jornal académico do tempo e um dos dirigentes da Tuna. Por outro lado, a «Douta» sempre se associava a qualquer iniciativa popular das gentes do bairro, nas comissões para as festas do S. João, festas de caridade para socorrer um necessitado ou qualquer outra iniciativa. Por todos era olhado com respeito aquele «grupo de almas gémeas e irmãs», ao qual o primeiro «douto» que dela saiu, o António Fernandes, de Vinhais, ofereceu a sua tese de doutoramento e os seus actos de altruísmo e humanidade muito nos honravam e desvaneciam.
Fiel a estes sentimentos estava no pensamento de todos socorrer os infelizes e infelizes eram os inofensivos animais que a empresa do Palácio de Cristal mantinha em jaulas no seu jardim, para gáudio da pequenada e admiração dos basbaques: uns vinte ou trinta macacos, um porco bravo e dois faisões.
Chegou o momento de actuar. Reuniu-se no restaurante do Palácio um V ano médico, em festa de confraternização e despedida. A «Douta» foi convidada para a festa. O jantar terminou já noite adiantada. Os da «Douta» resolveram discretamente abrir as jaulas dos animais. Estes preferiram, de momento, o sono à liberdade. Porém, de manhã, havia grande alvoroço para os lados do Palácio. Os macacos eram por toda a parte, o povo ria às gargalhadas com as momices dos libertados, vieram os bombeiros e o caso até foi falado nos jornais. O javali mais uma vez provou a pouca inteligência com que são tidos os da sua raça. Não tinha saído da toca. Os faisões, porém, um prateado e outro dourado, nunca mais foram encontrados. Foram libertados de vez do seu martirizante cativeiro.
O espírito de amizade e solidariedade que existia na D. A. C. acompanhou-nos pela vida fora. Alguns já lá vão e o primeiro a partir foi o mais jovem de todos, o João Ribeiro. Enterre-se o passado com piedade e demos à saudade o que é do tempo, como disse o grande Antero.
O último exame que fiz, ou melhor, que tentei fazer na Universidade, foi com Mestre Bonifácio. Foi a única desistência, ou melhor, reprovação que tive na minha vida académica. Do Mestre Bonifácio contavam-se, no meu tempo, muitas anedotas. O seu tom de voz inconfundível, a sua lealdade, o seu aprumo e o seu saber marcavam em todos os seus alunos um sentimento de respeito. Creio que todos os exames de geometria analítica[5] dos seus alunos, e podem contar-se por milhares, principiavam invariavelmente com a frase: trace a Linha-Terra. Só duma vez me sorri quando ele disse a um meu condiscípulo que examinava: ponha essas rectas mais paralelas...
Depois de ter cursado em duas faculdades e ser assistente duma delas, resolvi, um tanto por diletantismo, frequentar as cadeiras de Geometria Descritiva e Mecânica Racional, ambas regidas por Mestre Bonifácio. Na Descritiva a coisa não correu mal. Presidia ao acto o assistente Queirós. E enquanto Mestre Bonifácio com ele conversava, e de costas voltadas para mim, o examinando, fui lentamente traçando a Linha-Terra. Mestre Bonifácio volta-se e diz-me, com voz de trovão: «Quem lhe mandou fazer esse risco? Nos meus exames o carro não anda diante dos bois...» Apaguei o risco. «Vamos principiar o exame – diz Mestre Bonifácio –, trace a Linha-Terra.
Porém, um ano depois, apresentei-me a acto de Mecânica. Foi um fracasso. Para tal concorreu, talvez, a má disposição momentânea do Mestre e o facto de me ter estendido nas equações de Lagrange. A certa altura do exame, o Mestre diz-me com sisuda carantonha, que lhe era tão peculiar: «Desista do seu exame e venha cá na próxima época; o senhor merece um dez, mas como tem responsabilidades nesta casa deve cá voltar de novo mas mais bem preparado».
Alguns dias depois, o João da Biblioteca veio dizer-me que Mestre Bonifácio me queria falar. E quando o procurei disse-me afavelmente: «O senhor não sabe nada de cálculo; estou pronto a dar-lhe algumas lições». Agradeci-lhe mas nunca mais o procurei, não sei bem porquê, talvez por timidez ou porque novos rumos orientassem a minha vida. Alguns anos decorridos, já Mestre Bonifácio, segundo creio, estava jubilado, encontrei-o casualmente e, quando cerimoniosamante o cumprimentava, disse-me secamente: «Afinal nunca cheguei a ensinar-lhe a integrar». Desculpei-me um tanto confuso e nunca mais o vi.
Eram assim os mestres do meu tempo. De todos guardo grata recordação. A eles devo o que tenho sido na vida. Quase todos já lá vão. Que os que cá estão ainda, somente dois, me continuem olhando com a simpatia com que sempre me distinguiram.
Lisboa, 6-12-61.
[1] Isto é, antes de 1922. Por uma referência abaixo aos trauliteiros, é de supor que o autor tenha chegado ao Porto em 1919.
[2] Não é claro no texto, mas convém esclarecer: os trauliteiros não eram um grupo académico, e sim bandos de arruaceiros ligados à revolta monárquica de 1919 (conhecida como Monarquia do Norte ou Reino da Traulitânia).
[3] "Acto" ainda tinha o significado de exame.
[4] "Futrica", na gíria académica de Coimbra, designava alguém que não é estudante. Como se vê aqui, o termo chegou também ao Porto.
[5] Deve ser gralha. Estes exames deveriam ser de Geometria Descritiva. Em Geometria Analítica não há linha de terra.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Capa e Batina: a roupa do estudante
[A primeira versão deste texto, com o nome "A Capa e Batina - O Símbolo da Universidade", foi publicada no Guia do Caloiro da AEFCUP de 1994; a versão aqui reproduzida apareceu no Guia do Caloiro de 1998, mas infelizmente com um sério erro de edição: desapareceu uma linha, alterando consideravelmente o sentido de uma frase; essa linha foi aqui reposta. O texto deve ser lido tendo em atenção que se destinava essencialmente a caloiros e em particular aos da Faculdade de Ciências. Resisti à tentação de reescrever algumas partes, mesmo as que necessitariam de uns ajustes gramaticais.]
Muitas vezes, quem vê uma Capa e Batina pela primeira vez fica convencido que aquilo é uma roupa de cerimónia e de luxo, extremamente elitista. Nada mais falso. A Capa e Batina é para ser usada em (quase) qualquer situação (na praia não dá muito jeito); pode, também, ser usada como roupa de gala em certas condições (v. abaixo). Normalmente é para usar com simplicidade como uma roupa do dia-a-dia que é. A sua ideia é ser uma roupa para qualquer estudante, independentemente do poder económico (é barata considerando a qualidade e as vezes que se pode usar) e da altura do ano: se chover traça-se a capa, se fizer sol, tira-se o colete e põe-se a capa ao ombro, etc. A capa dá muito jeito para abrigar do frio da madrugada quando se volta a casa de uma noite de boémia, e eventualmente também para abrigar outras pessoas (o que pode ser bastante interessante).
É provável que ouças muitas regras sobre o uso do traje. Não podes fazer isto, tens que fazer aquilo, aqueloutro tem que ser em número ímpar, etc., etc., etc. A maior parte dessas regras são invenção de gente que não tem mais nada que fazer. Como distinguir as regras a mais das que têm fundamento? É com certeza muito difícil para um caloiro (até mesmo para a maior parte dos doutores). O que é preciso é ter bom-senso, perguntar a várias pessoas, combinar as várias respostas e tentar seguir as que pareçam ser mais tradicionais e fazer mais sentido dentro do espírito académico e praxístico. Ninguém disse que a Praxe era uma coisa imediata, embora muita gente pareça agir assim.
Mas pode-se dar já algumas ideias gerais. Fundamentalmente, o traje académico é para ser usado com sobriedade. Por exemplo, não há qualquer regra sobre tamanhos de brincos, mas já se sabe que não são admissíveis brincos que dêem demasiado nas vistas; brincos discretos não trazem problemas. Objectos de luxo em geral estão postos de parte.
Há também questões de boa educação e de bom gosto no uso do traje académico: por exemplo, é de má educação não ter a capa pelas costas em alguma ocasião um pouco mais solene, e demonstra uma certa dose de parolice ter a capa sempre muito dobradinha ao ombro, mesmo que esteja a chover ou um frio de rachar, mostrando uma quantidade de emblemas comprados na esquina, como quem diz: "sou muito académico porque tenho muitos emblemas".
Mas para quem gosta de regras, mesmo, leiam o seguinte. Nalgumas coisas há opiniões diferentes, mas em geral se seguirem estas indicações não devem ter problemas. Algumas não são regras em si mesmas, mas aplicações particulares de regras gerais, que mudam se as condições particulares mudarem. Agora, por amor de Deus (Baco), não tentem interpretar as vírgulas!
Traje Académico Masculino:
- Capa preta;
- Batina preta de formato não eclesiástico;
- Calças pretas;
- Colete preto (dispensável em caso de muito calor);
- Gravata preta;
- Camisa branca com colarinhos normais;
- Meias pretas;
- Sapatos pretos de formato simples;
- Gorro preto (facultativo), sem borla e sem terminar em bico.
A batina deve ter um botão na parte de trás da lapela direita (e a casa correspondente na outra), para fechar em caso de luto.
Há uma versão de gala, com colarinhos de bico e laço preto em vez de gravata.
Traje Académico Feminino:
- Capa preta;
- Casaco preto;
- Saia preta travada;
- Gravata preta;
- Camisa branca;
- Meias pretas;
- Sapatos pretos de formato simples;
- Gorro preto (facultativo), sem borla e sem terminar em bico.
Há divergências quanto à cor das meias: é, no entanto, unanimemente aceite que as orfeonistas usem meias cor de pele.
Não existe versão de gala.
Quando se usa a capa pelas costas, esta deve ter algumas dobras no colarinho. Há quem indique o número correspondente ao ano do curso em que se está, mas não se preocupem muito com isso.
A capa deve ter colchetes no colarinho, para apertar em caso de luto. Há quem diga exactamente o contrário, mas parece-nos, analisando as suas razões, que esta é a opinião mais correcta dentro do espírito tradicional.
Há quem diga que à noite a capa deve ser traçada ou, pelo menos, estar pelas costas. Numa serenata, tem absolutamente que estar traçada. Em qualquer ocasião de maior solenidade ou em que se deve mostrar respeito, a capa deve ser usada pelas costas e (embora menos importante), a batina apertada.
Na Missa, a capa põe-se pelas costas, sem dobras (mas não com os colchetes apertados).
Há muitas tradições diferentes relacionadas com os rasgões na capa. O fundamental é que se refiram a coisas muito importantes e que são feitos com os dentes (nada de tesouras!).
Pode-se ter emblemas cosidos no lado de dentro da capa, na parte inferior esquerda, desde que não se notem os pontos do lado de fora, nem os próprios emblemas quando a capa estiver traçada ou pelas costas.
Considera-se que os emblemas se devem referir a aspectos importantes da vida académica, ou muito importantes da vida pessoal. Por exemplo, um sítio onde se foi em digressão de algum organismo académico (se a ida foi mesmo académica), mas não um sítio onde se foi no Verão, de Interrail.
Os emblemas deviam ser, em princípio, isso mesmo: emblemas. Não exagerem nos "penduricalhos"! Em particular os grelos, nabiças, etc. na capa são dispensáveis.
Insígnias:
- semente: usa-se (só) nos cursos de cinco anos, durante o segundo ano. É uma fita pequena de algodão, com um nó, presa por um alfinete ao bolso superior esquerdo da batina ou casaco.
-nabiça: usa-se no segundo ano dos cursos de quatro anos, e no terceiro nos cursos de cinco. É uma fita pequena de algodão, com um laço, presa por um alfinete ao bolso superior esquerdo da batina ou casaco.
- grelo: usa-se no terceiro ano dos cursos de quatro anos e no quarto nos cursos de cinco. É uma fita de algodão que circunda a pasta onde esta dobra para fechar, terminando em laço.
- fitas: usa-se no último ano de qualquer curso. São oito fitas de seda dispostas ao redor da pasta.
(Nota: estes anos referem-se aos anos do curso e não ao número de inscrições. Há casos em que é difícil calcular o ano em que se está, mas apelamos ao bom senso).
Todas estas insígnias se colocam na Imposição de Insígnias da Queima das Fitas do ano anterior ao respectivo (se se calcular que se vai passar de ano). Obviamente só se usa insígnias (excepto cartola e bengala) estando de capa e batina.
Também se considera como insígnia a cartola e bengala, que se usa durante a Queima das Fitas em que se é finalista. Com a cartola e bengala os homens usam um laço e as raparigas uma roseta na lapela.
A cor de todas as insígnias é a da faculdade respectiva (no nosso caso azul claro).
As insígnias devem ser recolhidas à noite (normalmente exclui-se da obrigatoriedade a Queima e as Serenatas Monumentais).
Só se usam insígnias entre o início oficial do ano lectivo e a Queima das Fitas.
Não se usam insígnias fora do Porto (enfim, Grande Porto).
João Caramalho
P.S.: Antes que ouçam asneiras: os caloiros podem e devem usar traje académico e podem traçar a capa.
Muitas vezes, quem vê uma Capa e Batina pela primeira vez fica convencido que aquilo é uma roupa de cerimónia e de luxo, extremamente elitista. Nada mais falso. A Capa e Batina é para ser usada em (quase) qualquer situação (na praia não dá muito jeito); pode, também, ser usada como roupa de gala em certas condições (v. abaixo). Normalmente é para usar com simplicidade como uma roupa do dia-a-dia que é. A sua ideia é ser uma roupa para qualquer estudante, independentemente do poder económico (é barata considerando a qualidade e as vezes que se pode usar) e da altura do ano: se chover traça-se a capa, se fizer sol, tira-se o colete e põe-se a capa ao ombro, etc. A capa dá muito jeito para abrigar do frio da madrugada quando se volta a casa de uma noite de boémia, e eventualmente também para abrigar outras pessoas (o que pode ser bastante interessante).
É provável que ouças muitas regras sobre o uso do traje. Não podes fazer isto, tens que fazer aquilo, aqueloutro tem que ser em número ímpar, etc., etc., etc. A maior parte dessas regras são invenção de gente que não tem mais nada que fazer. Como distinguir as regras a mais das que têm fundamento? É com certeza muito difícil para um caloiro (até mesmo para a maior parte dos doutores). O que é preciso é ter bom-senso, perguntar a várias pessoas, combinar as várias respostas e tentar seguir as que pareçam ser mais tradicionais e fazer mais sentido dentro do espírito académico e praxístico. Ninguém disse que a Praxe era uma coisa imediata, embora muita gente pareça agir assim.
Mas pode-se dar já algumas ideias gerais. Fundamentalmente, o traje académico é para ser usado com sobriedade. Por exemplo, não há qualquer regra sobre tamanhos de brincos, mas já se sabe que não são admissíveis brincos que dêem demasiado nas vistas; brincos discretos não trazem problemas. Objectos de luxo em geral estão postos de parte.
Há também questões de boa educação e de bom gosto no uso do traje académico: por exemplo, é de má educação não ter a capa pelas costas em alguma ocasião um pouco mais solene, e demonstra uma certa dose de parolice ter a capa sempre muito dobradinha ao ombro, mesmo que esteja a chover ou um frio de rachar, mostrando uma quantidade de emblemas comprados na esquina, como quem diz: "sou muito académico porque tenho muitos emblemas".
Mas para quem gosta de regras, mesmo, leiam o seguinte. Nalgumas coisas há opiniões diferentes, mas em geral se seguirem estas indicações não devem ter problemas. Algumas não são regras em si mesmas, mas aplicações particulares de regras gerais, que mudam se as condições particulares mudarem. Agora, por amor de Deus (Baco), não tentem interpretar as vírgulas!
Traje Académico Masculino:
- Capa preta;
- Batina preta de formato não eclesiástico;
- Calças pretas;
- Colete preto (dispensável em caso de muito calor);
- Gravata preta;
- Camisa branca com colarinhos normais;
- Meias pretas;
- Sapatos pretos de formato simples;
- Gorro preto (facultativo), sem borla e sem terminar em bico.
A batina deve ter um botão na parte de trás da lapela direita (e a casa correspondente na outra), para fechar em caso de luto.
Há uma versão de gala, com colarinhos de bico e laço preto em vez de gravata.
Traje Académico Feminino:
- Capa preta;
- Casaco preto;
- Saia preta travada;
- Gravata preta;
- Camisa branca;
- Meias pretas;
- Sapatos pretos de formato simples;
- Gorro preto (facultativo), sem borla e sem terminar em bico.
Há divergências quanto à cor das meias: é, no entanto, unanimemente aceite que as orfeonistas usem meias cor de pele.
Não existe versão de gala.
Quando se usa a capa pelas costas, esta deve ter algumas dobras no colarinho. Há quem indique o número correspondente ao ano do curso em que se está, mas não se preocupem muito com isso.
A capa deve ter colchetes no colarinho, para apertar em caso de luto. Há quem diga exactamente o contrário, mas parece-nos, analisando as suas razões, que esta é a opinião mais correcta dentro do espírito tradicional.
Há quem diga que à noite a capa deve ser traçada ou, pelo menos, estar pelas costas. Numa serenata, tem absolutamente que estar traçada. Em qualquer ocasião de maior solenidade ou em que se deve mostrar respeito, a capa deve ser usada pelas costas e (embora menos importante), a batina apertada.
Na Missa, a capa põe-se pelas costas, sem dobras (mas não com os colchetes apertados).
Há muitas tradições diferentes relacionadas com os rasgões na capa. O fundamental é que se refiram a coisas muito importantes e que são feitos com os dentes (nada de tesouras!).
Pode-se ter emblemas cosidos no lado de dentro da capa, na parte inferior esquerda, desde que não se notem os pontos do lado de fora, nem os próprios emblemas quando a capa estiver traçada ou pelas costas.
Considera-se que os emblemas se devem referir a aspectos importantes da vida académica, ou muito importantes da vida pessoal. Por exemplo, um sítio onde se foi em digressão de algum organismo académico (se a ida foi mesmo académica), mas não um sítio onde se foi no Verão, de Interrail.
Os emblemas deviam ser, em princípio, isso mesmo: emblemas. Não exagerem nos "penduricalhos"! Em particular os grelos, nabiças, etc. na capa são dispensáveis.
Insígnias:
- semente: usa-se (só) nos cursos de cinco anos, durante o segundo ano. É uma fita pequena de algodão, com um nó, presa por um alfinete ao bolso superior esquerdo da batina ou casaco.
-nabiça: usa-se no segundo ano dos cursos de quatro anos, e no terceiro nos cursos de cinco. É uma fita pequena de algodão, com um laço, presa por um alfinete ao bolso superior esquerdo da batina ou casaco.
- grelo: usa-se no terceiro ano dos cursos de quatro anos e no quarto nos cursos de cinco. É uma fita de algodão que circunda a pasta onde esta dobra para fechar, terminando em laço.
- fitas: usa-se no último ano de qualquer curso. São oito fitas de seda dispostas ao redor da pasta.
(Nota: estes anos referem-se aos anos do curso e não ao número de inscrições. Há casos em que é difícil calcular o ano em que se está, mas apelamos ao bom senso).
Todas estas insígnias se colocam na Imposição de Insígnias da Queima das Fitas do ano anterior ao respectivo (se se calcular que se vai passar de ano). Obviamente só se usa insígnias (excepto cartola e bengala) estando de capa e batina.
Também se considera como insígnia a cartola e bengala, que se usa durante a Queima das Fitas em que se é finalista. Com a cartola e bengala os homens usam um laço e as raparigas uma roseta na lapela.
A cor de todas as insígnias é a da faculdade respectiva (no nosso caso azul claro).
As insígnias devem ser recolhidas à noite (normalmente exclui-se da obrigatoriedade a Queima e as Serenatas Monumentais).
Só se usam insígnias entre o início oficial do ano lectivo e a Queima das Fitas.
Não se usam insígnias fora do Porto (enfim, Grande Porto).
João Caramalho
P.S.: Antes que ouçam asneiras: os caloiros podem e devem usar traje académico e podem traçar a capa.
terça-feira, 25 de maio de 2010
Rapaziadas
[Artur da Cunha Araújo, Porto Académico, n.º único de 1938, págs. 3-4]
O “Central” e o “Chaves” eram os cafés preferidos pela Academia do meu tempo. No último, durante muitos anos instalado nos baixos do Hotel Francfort, entre o Laranjal e a rua de D. Pedro, bairros antigos que a Avenida do “bacalhau” fez desaparecer, juntavam-se quase todos os rapazes da Escola Médica em algazarra viva, a saborear o café da uma hora.
Havia um grupo de jogadores de xadrez com mais ou menos tineta para os intrincados lances do jogo espevitador por excelência da “substância cinzenta” e outro que preferia adestrar-se nas subtilezas das bolas a recuar e à massé, orientado pelo marcador, o “João do Lisbonense”, profissional aprumado e discreto, que já na casa dos setenta, ainda exibia as suas habilidades bilharistas.
Entre os habituais frequentadores do café do Chaves, figuravam comerciantes, empregados bancários que ali vinham de fugida sorver a goles apressados o moka rescendente e um ou outro janota de menos afazeres que procurava na convivência com estudantes um certo ar de intelectualidade.
Pertencia ao número destes últimos o sr. Guimarães, o homem mais bonito do Porto, como ele próprio se intitulava, perfeito “Don Juan” que só muito mais tarde teria competidor no sr. Cunha da Rasa. Aprumado nos seus fatos talhados pelo “Laranjeira”, com umas barbas bem cuidadas e que ao tempo faziam as delícias das costureiras dos “Hermínios” e do “Abel Brandão”, de botoeira sempre florida e um precioso chapéu à Rembrandt colocado com elegância, o “Cristo” como os rapazes lhe chamavam, fazia diariamente a “volta dos tristes” com a desenvoltura de um autêntico Brumell, a que não faltava sequer a nota arqui-mundana de umas irrepreensíveis polainas brancas.
Ora sucedeu uma vez que um estudante dos que mais de perto com ele conviviam, por necessidade de satisfazer qualquer inadiável compromisso, se abalançou a pedir-lhe uns cobres emprestados.
Solicitamente o nosso Cristo acedeu e ficou aguardando o prometido reembolso dentro do prazo estipulado. Os meses porém foram-se passando, o prazo findara há já bastante tempo e o rapaz nada de saldar a dívida. Invariavelmente o sr. Guimarães lá estava na porta do Chaves à hora marcada, mas o estudante é que jogava de porta com ele, evitando com astúcia o desagradável encontro.
Até que um dia fomos descortiná-lo cabisbaixo e sumido a um canto, receoso de ser abordado pelo impertinente credor.
Indagámos das causas de tamanha tristeza e logo ali se combinou a maneira de o libertar daquele pesadelo. Rabiscámos a lápis nas costas de um cartão do interessado um sonetilho de improviso que pouco depois, quando o Cristo apareceu, um criado reverente lhe foi entregar dentro de vistosa salva. Rezava assim:
O Cristo leu, releu, esboçou um sorriso tocado de leve azedume e saiu em direcção da Praça, guardando no bolso do colete, por saldo de contas, o bilhetinho. E nunca mais importonou o rapaz.
Entre os alunos do meu curso, destacava-se, não por ser oriundo de “San Tomé” mas pelo brilho
da inteligência e do espírito, o Luiz Gonçalves de Sousa Machado hoje médico distintíssimo naquela formosa ilha e que já há muitos anos não temos o prazer de abraçar.
Um dia o Luiz Machado apareceu à porta da Escola, radiante, exibindo uma riquíssima bengala de cavalo marinho, com castão de prata, onde artisticamente se entrelaçavam as iniciais do seu nome.
Os condiscípulos exaltaram a magnificência daquela obra de arte, e a bengala andou de mão em mão, com mal disfarçada vaidade do seu possuidor que, risonho, aceitava os remoques um tanto invejosos dos condiscípulos, empenhados em adivinhar a proveniência de tão luxuosa dávida.
Uns alvitraram que tinha sido presente de roceiro endinheirado; outros que era prenda de alguma azougada mulata, apaixonada pelo futuro doutor. Até que chegando às mãos de um, pôs-se este a ler com vagar as iniciais gravadas no castão e gritou entusiasmado: Eureka! Eureka!...
Correram para ele os condiscípulos na ânsia de decifrar a chave do enigma. L! G! S! M!
Não sabeis o que quer dizer?
- Lembrança do Gungunhana ao seu muleque!... Uma estrepitosa gargalhada ecoou e o Luiz Machado, honra lhe seja, não foi dos que menos se riu, com a maliciosa interpretação das lindas letras esculpidas no castão de prata da sua preciosa “badine”.
Já lá vão uns trinta anos seguros[1] depois que uma revista teatral, o A.B.C., se bem me lembro, lançou pela boca da mais desenvolta “estrela” de então, a Júlia Mendes, um fado que correu os salões da alta burguesia e chegou aos mais recônditos cantinhos da província: o fado liró!
Nas ruas, nos cafés, à porta dos mercados, por toda a parte enfim, só se ouvia assobiar o famigerado fadinho. A briosa[2], que nesse tempo não desdenhava de empunhar a sua guitarra, foi das primeiras a ir cantar à porta das várias “Dulcineas” as sextilhas delambidas impressas nas coplas da revista. Forçoso era libertar o espírito académico daquela ronceirice metrificada e nasceu então o “Fado da medicina” que correu anónimo por mãos de mestres e de alunos e onde uns e outros eram mais ou menos zargunchados com piadas certeiras.
Um professor sei eu que ao ver-se alvejado nas sextilhas mordazes, resolveu pagar um bom acto[3] de Patologia geral com uns míseros “onze valores”, aplicados à ciência do aluno que ele suspeitava ser o autor da brincadeira.
É que a sextilha irreverente dizia:
Embora o mestre não tivesse as tendências que os versos lhe atribuíam, fornecia invariavelmente a todos os seus cursos uns apontamentos, a que os rapazes chamavam o “fado”, que tinham que ser papagueados de lés a lés sem hesitações, durante o ano, e sob pena de um chumbo garantido a quem no acto os não trouxesse também na ponta da língua.
Daí o remoque e a respectiva... compensação...
.....................................................................................
As cólicas que alguém cortou por passar por autor da sátira inofensiva tinham sido atenuadas no ano anterior por um feriado na aula do Prof. Luiz Viegas, mais indulgente com as brincadeiras dos rapazes. Uma manhã, quase no fim do ano lectivo, quando uma lição de anatomia sobre “centros nervosos” trazia os “cepos” assarapantados e receosos de um estenderete raso, resolveu-se lá em baixo no porão, como os alunos chamavam ao teatro anatómico, organizar um grupo orfeónico. E quando o mestre entrou para dar aula, o tenor melhor da companhia, logo secundado pela malta, disparou-lhe esta comovente súplica, com música do liró:
O coro atroador na ressonância das paredes, respondeu:
Mal contendo o riso, o Prof. Luiz Viegas chamou o “Vitorino”, já pronto para para marcar faltas e dispensou os alunos nesse dia.
A alegria sentida na ocasião pelos rapazes, traduzo-a eu, hoje, pelas lágrimas que me afloram aos olhos, recordando a bondade do professor já morto e essa mocidade irrequieta e feliz que já morreu também!...
Nunca mais entrei depois de formado no vetusto casarão de aspecto conventual, rígido na espessura friorenta do seu granito, que é o Hospital da Misericórdia.
Aquelas enfermarias do meu tempo, e que decerto ainda não mudaram no seu aspecto típico, faziam-me calafrios e dispunham-me mal os nervos.
Perpassava nas galerias sombrias a ressumar água no inverno, um cheiro misto de desinfectantes e de comidas que me parece sentir às vezes na pituitária.
A aula e enfermarias de clínica médica eram lá em cima num ângulo quase virado ao poente e para lá chegar subiam-se uns infindáveis degraus de pedra onde as passadas ecoavam como pancadas lúgubres em caixão mortuário. O ar desconfortável daquelas salas enormes, onde uma ou outra enfermeira punha a nota sorridente duma jarrinha de flores para ter a impressão que nem tudo era doença e desconforto, aborreciam-me e afugentavam-me.
Quando pelas oito horas, pouco mais, o Prof.Tiago de Almeida entrava no Hospital e atravessava o átrio agasalhando na sua comprida peliça os pulmões ressentidos de velhos achaques, nós lá seguíamos atrás do mestre, por vezes a tiritar de frio e mortos por sair daquela geladeira.
Eram duas horas de sacrifício, só amenizadas pelas palestras científicas do Prof. Tiago, que punha meticulosos cuidados na maneira prática de nos ministrar os conhecimentos que deviam aproveitar mais tarde à nossa educação clínica.
Os doentes escolhidos para a nossa aprendizagem eram submetidos a um aturado exame por parte dos alunos a quem o mestre chamava um por um, para melhor fixarem os sintomas objectivos. Não fazia segredo das subtilezas da profissão, e tudo o que sabia, e como melhor podia, entregava generosamente à nossa natural curiosidade.
Esta confissão devemos à honrada memória do que foi, por assim dizer, o iniciador do estudo clínico prático na Escola Médica do Porto.
E porque assim foi e porque todo o nosso pouco saber de “João Semana” a ele o devemos e como respeitosa gratidão já confessamos, vá de contar uma partida passada na enfermaria de clínica médica.
Iam ali parar todos os anos, sobretudo no inverno, desgraçados a quem as profissões violentas e o frio faziam adoecer com pleurisias. Os derrames por vezes eram quase asfixiantes e o mestre adestrava-nos na extracção do líquido que abafava os doentes. Estes bem diziam dos rapazes quando os aliviavam de alguns litros daquela serosidade que lhes imprensava dolorosamente os pulmões e prometia sufocá-los. Antes porém, o professor fazia-nos auscultar cuidadosamente os doentes e percuti-los para termos a certeza que pleuríticos se tratava.
Havia um sinal característico que ele sempre nos obrigava a indagar: o sinal da moeda ou do Pitres, como era mais conhecido. O mestre tirava duas moedas de cobre da algibeira e com elas batia na parte anterior do tórax dos doentes, mandado-nos ouvir na parte posterior o som metálico nítido que se transmitia através da massa líquida. Depois, passava as moedas de mão em mão para que todos os alunos constatassem o fenómeno.
Alguém que propositadamente se deixava para o fim guardava os dois vinténs, e ía regaladamente com eles tomar café ao “Chaves”.
A peripécia repetiu-se algumas vezes, até que um dia o Prof. Tiago, já com a pedra no sapato, chamou o aluno useiro e vezeiro e disse-lhe: vamos lá observar este doente, mas puxe você pelo pataco, que eu já estou farto de lhe pagar cafés!... Omite-se por dispensável o nome do estudante, para só destacar com merecida evidência a figura inconfundível do Prof. Tiago de Almeida, que sabia fazer de cada aluno um amigo, naquele casarão húmido e triste da Misericórdia, onde ele estoicamente professou durante mais de vinte anos, com desusado brilho, a nobre arte de Hipócrates.
Vila do Conde, Maio de 38
[1] Recorde-se que este texto foi escrito em 1938.
[2] A palavra "briosa" é frequentemente usada para designar a Academia de Coimbra, ou mais precisamente a Associação Académica de Coimbra (principalmente, depois dos anos 20, a sua equipa de futebol). Aqui é usada simplesmente para referir a academia, neste caso a do Porto.
[3] A palavra "acto" é usada aqui ainda com o significado de exame.
O “Central” e o “Chaves” eram os cafés preferidos pela Academia do meu tempo. No último, durante muitos anos instalado nos baixos do Hotel Francfort, entre o Laranjal e a rua de D. Pedro, bairros antigos que a Avenida do “bacalhau” fez desaparecer, juntavam-se quase todos os rapazes da Escola Médica em algazarra viva, a saborear o café da uma hora.
Havia um grupo de jogadores de xadrez com mais ou menos tineta para os intrincados lances do jogo espevitador por excelência da “substância cinzenta” e outro que preferia adestrar-se nas subtilezas das bolas a recuar e à massé, orientado pelo marcador, o “João do Lisbonense”, profissional aprumado e discreto, que já na casa dos setenta, ainda exibia as suas habilidades bilharistas.
Entre os habituais frequentadores do café do Chaves, figuravam comerciantes, empregados bancários que ali vinham de fugida sorver a goles apressados o moka rescendente e um ou outro janota de menos afazeres que procurava na convivência com estudantes um certo ar de intelectualidade.
Pertencia ao número destes últimos o sr. Guimarães, o homem mais bonito do Porto, como ele próprio se intitulava, perfeito “Don Juan” que só muito mais tarde teria competidor no sr. Cunha da Rasa. Aprumado nos seus fatos talhados pelo “Laranjeira”, com umas barbas bem cuidadas e que ao tempo faziam as delícias das costureiras dos “Hermínios” e do “Abel Brandão”, de botoeira sempre florida e um precioso chapéu à Rembrandt colocado com elegância, o “Cristo” como os rapazes lhe chamavam, fazia diariamente a “volta dos tristes” com a desenvoltura de um autêntico Brumell, a que não faltava sequer a nota arqui-mundana de umas irrepreensíveis polainas brancas.
Ora sucedeu uma vez que um estudante dos que mais de perto com ele conviviam, por necessidade de satisfazer qualquer inadiável compromisso, se abalançou a pedir-lhe uns cobres emprestados.
Solicitamente o nosso Cristo acedeu e ficou aguardando o prometido reembolso dentro do prazo estipulado. Os meses porém foram-se passando, o prazo findara há já bastante tempo e o rapaz nada de saldar a dívida. Invariavelmente o sr. Guimarães lá estava na porta do Chaves à hora marcada, mas o estudante é que jogava de porta com ele, evitando com astúcia o desagradável encontro.
Até que um dia fomos descortiná-lo cabisbaixo e sumido a um canto, receoso de ser abordado pelo impertinente credor.
Indagámos das causas de tamanha tristeza e logo ali se combinou a maneira de o libertar daquele pesadelo. Rabiscámos a lápis nas costas de um cartão do interessado um sonetilho de improviso que pouco depois, quando o Cristo apareceu, um criado reverente lhe foi entregar dentro de vistosa salva. Rezava assim:
Ò meu Cristo, ò meu senhor,
Redentor de nossos pais,
Só Te peço, por favor,
P’ra não me chateares mais.
Nem andes morto e exangue
Dos cafés, pelos portais,
A derramar o Teu sangue,
Por causa destes pardais...
Eu bem sei que És generoso,
Que um erário fabuloso,
Esgotaste até ao fundo...
Mas já que os justos apontas,
Bem sabes que as nossas contas,
Se pagam... no fim do mundo!...
O Cristo leu, releu, esboçou um sorriso tocado de leve azedume e saiu em direcção da Praça, guardando no bolso do colete, por saldo de contas, o bilhetinho. E nunca mais importonou o rapaz.
II
Entre os alunos do meu curso, destacava-se, não por ser oriundo de “San Tomé” mas pelo brilho
da inteligência e do espírito, o Luiz Gonçalves de Sousa Machado hoje médico distintíssimo naquela formosa ilha e que já há muitos anos não temos o prazer de abraçar.
Um dia o Luiz Machado apareceu à porta da Escola, radiante, exibindo uma riquíssima bengala de cavalo marinho, com castão de prata, onde artisticamente se entrelaçavam as iniciais do seu nome.
Os condiscípulos exaltaram a magnificência daquela obra de arte, e a bengala andou de mão em mão, com mal disfarçada vaidade do seu possuidor que, risonho, aceitava os remoques um tanto invejosos dos condiscípulos, empenhados em adivinhar a proveniência de tão luxuosa dávida.
Uns alvitraram que tinha sido presente de roceiro endinheirado; outros que era prenda de alguma azougada mulata, apaixonada pelo futuro doutor. Até que chegando às mãos de um, pôs-se este a ler com vagar as iniciais gravadas no castão e gritou entusiasmado: Eureka! Eureka!...
Correram para ele os condiscípulos na ânsia de decifrar a chave do enigma. L! G! S! M!
Não sabeis o que quer dizer?
- Lembrança do Gungunhana ao seu muleque!... Uma estrepitosa gargalhada ecoou e o Luiz Machado, honra lhe seja, não foi dos que menos se riu, com a maliciosa interpretação das lindas letras esculpidas no castão de prata da sua preciosa “badine”.
III
Já lá vão uns trinta anos seguros[1] depois que uma revista teatral, o A.B.C., se bem me lembro, lançou pela boca da mais desenvolta “estrela” de então, a Júlia Mendes, um fado que correu os salões da alta burguesia e chegou aos mais recônditos cantinhos da província: o fado liró!
Nas ruas, nos cafés, à porta dos mercados, por toda a parte enfim, só se ouvia assobiar o famigerado fadinho. A briosa[2], que nesse tempo não desdenhava de empunhar a sua guitarra, foi das primeiras a ir cantar à porta das várias “Dulcineas” as sextilhas delambidas impressas nas coplas da revista. Forçoso era libertar o espírito académico daquela ronceirice metrificada e nasceu então o “Fado da medicina” que correu anónimo por mãos de mestres e de alunos e onde uns e outros eram mais ou menos zargunchados com piadas certeiras.
Um professor sei eu que ao ver-se alvejado nas sextilhas mordazes, resolveu pagar um bom acto[3] de Patologia geral com uns míseros “onze valores”, aplicados à ciência do aluno que ele suspeitava ser o autor da brincadeira.
É que a sextilha irreverente dizia:
Qualquer faia canta o fado
Para ficar aprovado
No sábio patologista...
Fez um fado o Aguiar
Somente para provar
Que também era fadista!
Embora o mestre não tivesse as tendências que os versos lhe atribuíam, fornecia invariavelmente a todos os seus cursos uns apontamentos, a que os rapazes chamavam o “fado”, que tinham que ser papagueados de lés a lés sem hesitações, durante o ano, e sob pena de um chumbo garantido a quem no acto os não trouxesse também na ponta da língua.
Daí o remoque e a respectiva... compensação...
.....................................................................................
As cólicas que alguém cortou por passar por autor da sátira inofensiva tinham sido atenuadas no ano anterior por um feriado na aula do Prof. Luiz Viegas, mais indulgente com as brincadeiras dos rapazes. Uma manhã, quase no fim do ano lectivo, quando uma lição de anatomia sobre “centros nervosos” trazia os “cepos” assarapantados e receosos de um estenderete raso, resolveu-se lá em baixo no porão, como os alunos chamavam ao teatro anatómico, organizar um grupo orfeónico. E quando o mestre entrou para dar aula, o tenor melhor da companhia, logo secundado pela malta, disparou-lhe esta comovente súplica, com música do liró:
O fado tem tal meiguice
Que o Viegas se o ouvisse
Decerto não resistia...
Rapazes: cantai o fado,
Quando quiserdes f’riado,
Na aula de anatomia...
O coro atroador na ressonância das paredes, respondeu:
Cantam o fado as parteiras,
Boticários, enfermeiras,
Tudo num coro infernal...
E na própria Academia
O Arroio já assobia,
O fadinho em mineral...
Mal contendo o riso, o Prof. Luiz Viegas chamou o “Vitorino”, já pronto para para marcar faltas e dispensou os alunos nesse dia.
A alegria sentida na ocasião pelos rapazes, traduzo-a eu, hoje, pelas lágrimas que me afloram aos olhos, recordando a bondade do professor já morto e essa mocidade irrequieta e feliz que já morreu também!...
IV
Nunca mais entrei depois de formado no vetusto casarão de aspecto conventual, rígido na espessura friorenta do seu granito, que é o Hospital da Misericórdia.
Aquelas enfermarias do meu tempo, e que decerto ainda não mudaram no seu aspecto típico, faziam-me calafrios e dispunham-me mal os nervos.
Perpassava nas galerias sombrias a ressumar água no inverno, um cheiro misto de desinfectantes e de comidas que me parece sentir às vezes na pituitária.
A aula e enfermarias de clínica médica eram lá em cima num ângulo quase virado ao poente e para lá chegar subiam-se uns infindáveis degraus de pedra onde as passadas ecoavam como pancadas lúgubres em caixão mortuário. O ar desconfortável daquelas salas enormes, onde uma ou outra enfermeira punha a nota sorridente duma jarrinha de flores para ter a impressão que nem tudo era doença e desconforto, aborreciam-me e afugentavam-me.
Quando pelas oito horas, pouco mais, o Prof.Tiago de Almeida entrava no Hospital e atravessava o átrio agasalhando na sua comprida peliça os pulmões ressentidos de velhos achaques, nós lá seguíamos atrás do mestre, por vezes a tiritar de frio e mortos por sair daquela geladeira.
Eram duas horas de sacrifício, só amenizadas pelas palestras científicas do Prof. Tiago, que punha meticulosos cuidados na maneira prática de nos ministrar os conhecimentos que deviam aproveitar mais tarde à nossa educação clínica.
Os doentes escolhidos para a nossa aprendizagem eram submetidos a um aturado exame por parte dos alunos a quem o mestre chamava um por um, para melhor fixarem os sintomas objectivos. Não fazia segredo das subtilezas da profissão, e tudo o que sabia, e como melhor podia, entregava generosamente à nossa natural curiosidade.
Esta confissão devemos à honrada memória do que foi, por assim dizer, o iniciador do estudo clínico prático na Escola Médica do Porto.
E porque assim foi e porque todo o nosso pouco saber de “João Semana” a ele o devemos e como respeitosa gratidão já confessamos, vá de contar uma partida passada na enfermaria de clínica médica.
Iam ali parar todos os anos, sobretudo no inverno, desgraçados a quem as profissões violentas e o frio faziam adoecer com pleurisias. Os derrames por vezes eram quase asfixiantes e o mestre adestrava-nos na extracção do líquido que abafava os doentes. Estes bem diziam dos rapazes quando os aliviavam de alguns litros daquela serosidade que lhes imprensava dolorosamente os pulmões e prometia sufocá-los. Antes porém, o professor fazia-nos auscultar cuidadosamente os doentes e percuti-los para termos a certeza que pleuríticos se tratava.
Havia um sinal característico que ele sempre nos obrigava a indagar: o sinal da moeda ou do Pitres, como era mais conhecido. O mestre tirava duas moedas de cobre da algibeira e com elas batia na parte anterior do tórax dos doentes, mandado-nos ouvir na parte posterior o som metálico nítido que se transmitia através da massa líquida. Depois, passava as moedas de mão em mão para que todos os alunos constatassem o fenómeno.
Alguém que propositadamente se deixava para o fim guardava os dois vinténs, e ía regaladamente com eles tomar café ao “Chaves”.
A peripécia repetiu-se algumas vezes, até que um dia o Prof. Tiago, já com a pedra no sapato, chamou o aluno useiro e vezeiro e disse-lhe: vamos lá observar este doente, mas puxe você pelo pataco, que eu já estou farto de lhe pagar cafés!... Omite-se por dispensável o nome do estudante, para só destacar com merecida evidência a figura inconfundível do Prof. Tiago de Almeida, que sabia fazer de cada aluno um amigo, naquele casarão húmido e triste da Misericórdia, onde ele estoicamente professou durante mais de vinte anos, com desusado brilho, a nobre arte de Hipócrates.
Vila do Conde, Maio de 38
Do livro em preparação
“Mestres e rapazes do meu tempo”
ARTUR DA CUNHA ARAÚJO
[1] Recorde-se que este texto foi escrito em 1938.
[2] A palavra "briosa" é frequentemente usada para designar a Academia de Coimbra, ou mais precisamente a Associação Académica de Coimbra (principalmente, depois dos anos 20, a sua equipa de futebol). Aqui é usada simplesmente para referir a academia, neste caso a do Porto.
[3] A palavra "acto" é usada aqui ainda com o significado de exame.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Em outros tempos
[Artur da Cunha Araújo, Porto Académico, n.º único de 1937, pág. 25]
No rodar dos últimos trinta anos a Academia do Porto foi perdendo pouco a pouco prestígio e aquela graça sadia e moça que dava aos estudantes do burgo foros de casta privilegiada.
Quando nos iniciamos na pesada tarefa de conseguir uma carta, ao transpormos pela primeira vez os ombrais da Politécnica, foi pela “porta do cavalo” que conseguimos escapar ao vexame do cachaço e da chacota acerada dos veteranos, capitaneados pelo “Trinta”!
O edifício de então só praticável na parte do sul e do nascente, albergava ainda do lado do passeio da Graça, a figura mavórtica do cavaleiro S. Jorge que perfeitamente compatibilizado com a algazarra dos rapazes, aguardava estoicamente que o fossem buscar uma vez em cada ano, em seu cavalo branco ajaezado de solene gualdrapa, para dar volta à Cidade no meio dos sons estridentes dos clarins da guarda e das fardas dos circunspectos vereadores do município.
Tampouco o importunava a vizinhança do botequim do Chaves onde a academia se deliciava com o saboroso café, verdadeiro segredo de fabrico, a que, segundo as más línguas do tempo, não era estranho o... rabo de bacalhau...
Daquele pequeno quarteirão da Graça há tanto já demolido, só nos ficou a viva recordação dum cavalo de pau que um ferrador que ali morava tinha à porta e cuja história merece um comentário.
Passava por certo, que ignoto escultor tirara do mesmo tronco de castanho, a golpes de talento, duas das suas melhores obras: uma a que de perto pudemos, era o imponente ginete, gáudio do rapazio; a outra, recolhida hoje não sei em qual igreja da cidade, representava a piedosa imagem de S. Francisco!...
Somos levados a acreditar que o artista se consubstanciou na figura da primeira e para desconto dos seus pecados, tentou redimir-se, fazendo-se santeiro! As casas foram abaixo e o burro lá foi também com as canastras... Onde parará esse monumento?...
Tal era o pequeno bairro onde se desenrolava a parte da vida académica com paragem forçada à porta do Âncora de Ouro e ceata obrigatória em dias de abastança no restaurante Portugal ao tempo entaipado pela viela do Assis.
Não curava de dandismos a mocidade de então. Toda a sua indumentária se reduzia a um amplo gabão de Aveiro, chapéu braguês, “lavaliére” preta e no braço o gancho de um cerquinho ferrado.
Ainda as giletes não escanhoavam diariamente as faces glabras do moderno estilo e a barba crescia na cara dos rapazes tão desenvolta como a relva nos canteiros da Cordoaria... Tinham uma aparência máscula que se traduzia em factos quando era preciso jogar a bordoada com a polícia, como na célebre “campanha do ovo” nas vésperas do entrudo, em que até o recheio do laboratório de química veio cá para fora, escacando-se com fragor junto das árvores seculares que escondiam os vultos de certos disfarçados mantenedores da ordem, alerta na repressão dos distúrbios carnavalescos.
Eram homens que se viam passar de livro debaixo do braço para os estabelecimentos de ensino superior.
Os caloiros tremiam ante as barbas patriarcais do Comendador e do Trinta e suavam ouvindo as injecções mordentes do Godide e do Serafim de Barros...
No recheio da longa carreira médica figuravam como abantesmas as duas químicas, verdadeiros cabos tormentosos onde os adamastores também se duplicavam nas pessoas de dois mestres ao tempo no fastígio da sua qualidade, desandando no fim do ano uma saraivada de chumbos sobre a cabeça dos rapazes que mais parecia castigo do Olimpo que vontade de Minerva...
Aquelas sabatinas das segunda-feiras em Química Orgânica ficaram memoráveis entre os rapazes do meu tempo.
O mestre, que Deus tenha em bom descanso, não perdoava a cabulice e quando o velho Borges naquela hora matutina fazia a chamada, os já “tapados” entravam a cortar umas cólicas que nem as provocadas pelo óleo de rícino aplicado alhures em prol de nova política.
Ao escaparmos das malhas de tão emaranhado labirinto, respirávamos e a vingança vinha a lume na zargunchada dos testamentos do Judas, outro costume tão tripeiro, também caído em desuso. Lembra-nos um, em que o Vergílio Ferreira talentoso rapaz que a morte levou ao concluir a sua formatura, caricaturava com inexcedível graça os alunos e os mestres e em que um poeta que ainda hoje se delicia nas sombras do anonimato, assim legava ao professor de Orgânica:
E os rapazes riam, frequentavam os cafés em vez das leitarias, iam aos teatros e por toda a parte a sua algazarra punha uma nota estrídula na mazombice do burgo.
Não sei se ainda há estudantes. Nas raras vezes que vou ao Porto e passo a matar saudades em frente da antiga Politécnica, nada me faz lembrar a minha já longíqua mocidade.
Concluiu-se o antigo casarão, dando-lhe aspecto de casa de reclusos. Por entre as pesadas grades de ar conventual vê-se um ou outro vulto deslizando apressado como quem corre a toque de vésperas.
Na promiscuidade dos trajes aparece também um ou outro estudante de capa e batina a destoar nos hábitos tripeiros, como borrão de tinta em álbum de costumes.
Já não se distingue facilmente um estudante de um caixeiro do Chiado.
Ambos rapam a cara, ambos usam o cabelo lambido e lustroso à força das brilhantinas, ambos exibem os fatos desportivos mais ou menos cintados e para a miopia da graça e do espírito já não chegam todos os monóculos à venda nos oculistas da cidade.
As “matinés” dos cinemas acabaram com o passeio obrigatório das quinta-feiras nos jardins da Cordoaria e de S. Lázaro e as músicas regimentais passaram a tocar nas paradas dos quartéis.
Em vez do fado cantado a desoras, os rapazes contentam-se em ligar os impertinentes rádios, para o “retiro da Severa”.
As ceias do Ventura e do Marujo foram substituídas sem visível vantagem pelos chás na Arcádia e na confeitaria do Bolhão. E assim transmudada a Academia do Porto, nós que com ela vivemos o melhor da nossa mocidade sentimos indizível tristeza ao atravessar esse bairro do Carmo onde outrora acampava com alarido e balbúrdia a legião dos estudantes citadinos.
Agora que a inevitável ferrugem dos novatos nos vai mordendo as articulações por estas longas noites dum inverno rigoroso e gelado, apraz-nos no aconchego do fogão desfiar este rosário de lembranças, passando a letra de forma saudosas recordações da já centenária Academia Politécnica agora festejada e que nos leva a repetir, tanto a desconhecemos, o bafiento verso de Virgílio: quantum mutatus ab illo!...
Vila do Conde, Março de 1937
No rodar dos últimos trinta anos a Academia do Porto foi perdendo pouco a pouco prestígio e aquela graça sadia e moça que dava aos estudantes do burgo foros de casta privilegiada.
Quando nos iniciamos na pesada tarefa de conseguir uma carta, ao transpormos pela primeira vez os ombrais da Politécnica, foi pela “porta do cavalo” que conseguimos escapar ao vexame do cachaço e da chacota acerada dos veteranos, capitaneados pelo “Trinta”!
O edifício de então só praticável na parte do sul e do nascente, albergava ainda do lado do passeio da Graça, a figura mavórtica do cavaleiro S. Jorge que perfeitamente compatibilizado com a algazarra dos rapazes, aguardava estoicamente que o fossem buscar uma vez em cada ano, em seu cavalo branco ajaezado de solene gualdrapa, para dar volta à Cidade no meio dos sons estridentes dos clarins da guarda e das fardas dos circunspectos vereadores do município.
Tampouco o importunava a vizinhança do botequim do Chaves onde a academia se deliciava com o saboroso café, verdadeiro segredo de fabrico, a que, segundo as más línguas do tempo, não era estranho o... rabo de bacalhau...
Daquele pequeno quarteirão da Graça há tanto já demolido, só nos ficou a viva recordação dum cavalo de pau que um ferrador que ali morava tinha à porta e cuja história merece um comentário.
Passava por certo, que ignoto escultor tirara do mesmo tronco de castanho, a golpes de talento, duas das suas melhores obras: uma a que de perto pudemos, era o imponente ginete, gáudio do rapazio; a outra, recolhida hoje não sei em qual igreja da cidade, representava a piedosa imagem de S. Francisco!...
Somos levados a acreditar que o artista se consubstanciou na figura da primeira e para desconto dos seus pecados, tentou redimir-se, fazendo-se santeiro! As casas foram abaixo e o burro lá foi também com as canastras... Onde parará esse monumento?...
Tal era o pequeno bairro onde se desenrolava a parte da vida académica com paragem forçada à porta do Âncora de Ouro e ceata obrigatória em dias de abastança no restaurante Portugal ao tempo entaipado pela viela do Assis.
Não curava de dandismos a mocidade de então. Toda a sua indumentária se reduzia a um amplo gabão de Aveiro, chapéu braguês, “lavaliére” preta e no braço o gancho de um cerquinho ferrado.
Ainda as giletes não escanhoavam diariamente as faces glabras do moderno estilo e a barba crescia na cara dos rapazes tão desenvolta como a relva nos canteiros da Cordoaria... Tinham uma aparência máscula que se traduzia em factos quando era preciso jogar a bordoada com a polícia, como na célebre “campanha do ovo” nas vésperas do entrudo, em que até o recheio do laboratório de química veio cá para fora, escacando-se com fragor junto das árvores seculares que escondiam os vultos de certos disfarçados mantenedores da ordem, alerta na repressão dos distúrbios carnavalescos.
Eram homens que se viam passar de livro debaixo do braço para os estabelecimentos de ensino superior.
Os caloiros tremiam ante as barbas patriarcais do Comendador e do Trinta e suavam ouvindo as injecções mordentes do Godide e do Serafim de Barros...
No recheio da longa carreira médica figuravam como abantesmas as duas químicas, verdadeiros cabos tormentosos onde os adamastores também se duplicavam nas pessoas de dois mestres ao tempo no fastígio da sua qualidade, desandando no fim do ano uma saraivada de chumbos sobre a cabeça dos rapazes que mais parecia castigo do Olimpo que vontade de Minerva...
Aquelas sabatinas das segunda-feiras em Química Orgânica ficaram memoráveis entre os rapazes do meu tempo.
O mestre, que Deus tenha em bom descanso, não perdoava a cabulice e quando o velho Borges naquela hora matutina fazia a chamada, os já “tapados” entravam a cortar umas cólicas que nem as provocadas pelo óleo de rícino aplicado alhures em prol de nova política.
Ao escaparmos das malhas de tão emaranhado labirinto, respirávamos e a vingança vinha a lume na zargunchada dos testamentos do Judas, outro costume tão tripeiro, também caído em desuso. Lembra-nos um, em que o Vergílio Ferreira talentoso rapaz que a morte levou ao concluir a sua formatura, caricaturava com inexcedível graça os alunos e os mestres e em que um poeta que ainda hoje se delicia nas sombras do anonimato, assim legava ao professor de Orgânica:
Deixo ao Ferreira da Silva,
Um brinde que não esquece;
Um grande balão de vidro
Transbordando H2S!...
E os rapazes riam, frequentavam os cafés em vez das leitarias, iam aos teatros e por toda a parte a sua algazarra punha uma nota estrídula na mazombice do burgo.
Não sei se ainda há estudantes. Nas raras vezes que vou ao Porto e passo a matar saudades em frente da antiga Politécnica, nada me faz lembrar a minha já longíqua mocidade.
Concluiu-se o antigo casarão, dando-lhe aspecto de casa de reclusos. Por entre as pesadas grades de ar conventual vê-se um ou outro vulto deslizando apressado como quem corre a toque de vésperas.
Na promiscuidade dos trajes aparece também um ou outro estudante de capa e batina a destoar nos hábitos tripeiros, como borrão de tinta em álbum de costumes.
Já não se distingue facilmente um estudante de um caixeiro do Chiado.
Ambos rapam a cara, ambos usam o cabelo lambido e lustroso à força das brilhantinas, ambos exibem os fatos desportivos mais ou menos cintados e para a miopia da graça e do espírito já não chegam todos os monóculos à venda nos oculistas da cidade.
As “matinés” dos cinemas acabaram com o passeio obrigatório das quinta-feiras nos jardins da Cordoaria e de S. Lázaro e as músicas regimentais passaram a tocar nas paradas dos quartéis.
Em vez do fado cantado a desoras, os rapazes contentam-se em ligar os impertinentes rádios, para o “retiro da Severa”.
As ceias do Ventura e do Marujo foram substituídas sem visível vantagem pelos chás na Arcádia e na confeitaria do Bolhão. E assim transmudada a Academia do Porto, nós que com ela vivemos o melhor da nossa mocidade sentimos indizível tristeza ao atravessar esse bairro do Carmo onde outrora acampava com alarido e balbúrdia a legião dos estudantes citadinos.
Agora que a inevitável ferrugem dos novatos nos vai mordendo as articulações por estas longas noites dum inverno rigoroso e gelado, apraz-nos no aconchego do fogão desfiar este rosário de lembranças, passando a letra de forma saudosas recordações da já centenária Academia Politécnica agora festejada e que nos leva a repetir, tanto a desconhecemos, o bafiento verso de Virgílio: quantum mutatus ab illo!...
Vila do Conde, Março de 1937
ARTUR DA CUNHA ARAÚJO
domingo, 23 de maio de 2010
O "Dr. Quinterra"
Os estudantes da Escola Médica que, em 1902, participaram na brincadeira carnavalesca do Dr. Quinterra (sátira a um clínico que receitava uma "badiana fosfatada de Sued" como cura para a tuberculose), junto com um frasco da "Badiana Sulfatada de Uva Preta", distribuída nessa ocasião [foto da colecção da AAAUP].
Versos do "Grande e órrivel querime praticado por uma grande maurvada", vendidos ainda na mesma ocasião [Porto Académico, n.º único de 1962, pág. 27].Esta sátira é relatada nos textos "Os académicos do meu tempo" e "Já lá vão mais de 50 anos!...".
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Já lá vão mais de 50 anos!...
[Prof. Dr. António de Almeida Garrett, Porto Académico, n.º único de 1962, págs. 27-29.
Suprimi algumas passagens, que consistem na listagem de professores e colegas (do mesmo ano ou de anos próximos) do autor.]
Mais de meio século decorreu sobre a minha passagem pelos bancos da Escola Médica, daquela querida pequena casa, tão diferente da que encobriu com lavrado granito os seus muros singelos, que o que possa escrever a bem poucos poderá interessar. Só servirá para activar saudades dos alegres tempos da mocidade aos velhos de perto dos oitenta ou que já os ultrapassaram, e esses poucos são. Basta atentar em que do meu curso, de 1901-06, que era de cinquenta, só restam onze; e nos cursos vizinhos, foi semelhante a razia. Aos mais novos apenas poderá fazer lembrar médicos que conheceram ou que todavia conhecem, por ainda por aqui andarem, aguardando a eterna despedida. Tudo isto é bem pouco para justificar estas laudas, mas já que V. as quer, assim mesmo, aí vão, despretensiosamente, ao correr da pena.
Começarei pelo primeiro passo: o ingresso dos caloiros da Médica. Matulões dos últimos anos juntavam os neófitos à porta da Politécnica, frente à Cordoaria, e de ali os levavam em cortejo, num alarido de gaitas estridentes e álacres chalaças, até à entrada da Escola, para a simbólica adopção de discípulos de Esculápio. Escolhiam os mais graúdos para pegar na tosca padiola, destinada ao bobo da festa, ao penico e competente vassourinha, a peça essencial do cortejo. Naquele ano fui eu o padiolado, por determinação do grupo organizador, chefiado por um barbaças, o Teixeira Bastos, mais tarde colega na docência e queridíssimo amigo.
Principiava para nós, com entusiasmo e certa repugnância, o estudo da anatomia, que era preciso saber bem, pois no exame era profusa a chumbaria. Depois, as dificuldades iam abrandando, até ao acto final, o da consabida tareia da defesa da dissertação inaugural.
Ao tempo, o ensino era quase todo teórico, livresco, excepto na anatomia e nas clínicas. O regímen continuava o do Liceu: frequência obrigatória com marcação das faltas, lição designada para a aula seguinte, chamada dos alunos para exporem a matéria da lição, entremeada ou seguida pelos comentários dos professores. Na anatomia trabalhava-se a valer, no teatro anatómico, sob o vigilante olhar estrábico do velho Ferreira, o «rapa-caveiras»; como que estou a ver o quadro, com o mestre Viegas entrando imponente, de sobrecasa sobre o vistoso colete de fantasia, reluzente cartola, para investigar, de mesa em mesa, apontanto com a bengalinha a peça que estávamos dissecando: o que é isto? e isso? Nas clínicas, as aulas decorriam nas enfermarias, com a leitura dos relatórios feitos pelos alunos a quem os doentes foram distribuídos para estudo, e sequente prelecção do professor, comentando e acrescentando os relatórios; a parte teórica já vinha sabida das cadeiras de patologia, interna e externa, estudada pelos respectivos compêndios.
Tudo mudou quando veio a Faculdade, vieram assistentes, se desenvolveu o restrito ensino das ciências laboratoriais; a verdade, porém, é que, para o que então era a medicina, a preparação dos alunos inteiramente ombreava com a das outras escolas e mesmo com a das estrangeiras, em vários pontos, mormente o da anatomia, que já em 1885 (como apontou Ricardo Jorge) se ensinava no Porto como se não ensinava em Paris, trinta anos mais tarde.
Era notável a galeria dos mestres, que recordo com sentida veneração, todos desaparecidos, e quase todos há muito, da cena deste mundo.
[...]
Quando andava no primeiro ano, estava no quinto um curso que deu brado, o último curso do Dr. Lebre, a quem prestaram memorável homenagem, o primeiro curso que se abalançou a dar uma récita de despedida, espectáculo que teve um êxito retumbante. Havia nele muitos valores de real mérito, de alguns dos quais me tornei amigo certo, anos depois, como foram Carteado Mena, Raúl Outeiro, Pacheco de Miranda, Manuel de Castro, José Gomes, Vitorino de Magalhães, César Machado, todos destacadas figuras do nosso meio médico; e ainda o primoroso espírito e cintilante literato que foi Campos Monteiro. Lembro-me do incorrígivel boémio João Pinto, cujas «partidas» ficaram famosas na história das garotices académicas. Lembro-me das irmãs Pratas, e do epigrama (seguramente da autoria de Campos Monteiro) que entre gargalhadas deu a volta à Escola:
É que Vitorino de Magalhães era muito baixo, o que não o impediu de vir a ser distinto médico militar. Pelo contrário havia no curso um agigantado, o Eduardo de Oliveira, que por isso tinha a alcunha de «Danton», e foi urologista considerado.
[...] Aarão de Lacerda [...] foi meu professor de Zoologia na Politécnica e [...] já em adiantada idade se fez aluno de Medicina. Por essa altura frequentavam a Escola três figuras invulgares, que despertavam a atenção da estudantada: o poeta Manuel Laranjeira, com a sua gaforina e completo desprezo pela indumentária, Manuel de Oliveira, que tinha fama de invulgar inteligência e vasta cultura, e o boémio Trinta, com grandes barbas e não menor pilhéria.
[...]
Suspendi, para recordar mestres e estudantes, o apontamento sobre a vida dos escolares da Médica nesses primeiros anos do século. Retomo o tema com breves notas, arrancadas às profundidades da memória.
Como sempre sucedeu e sucederá, em cada curso há um pouco de tudo: filhos de abastados e de mal remediados, cuidadosos e desmazelados, fragoeiros e pacatos, de gostos vários e várias preocupações; mas há geralmente uns quantos, de temperamento mais vivo, que exibem carácter destacante, a deixar especial lembrança. São eles os agitadores do conjunto, os promotores dos folguedos violadores da quotidiana rotina.
Já aludi à récitade despedida dos quintanistas de 1902, acontecimento famoso nos anais da academia. Foi à cena uma farsa em verso de Campos Monteiro, «Os Filhos de Minerva», com trechos musicais de Manuel Monterroso e Lima Elias, seguida por uma paródia à Ceia dos Cardeais, em que actuaram Armindo Chaves, Pacheco de Miranda e Raúl do Carmo Pacheco. E o espectáculo findou com Manuel Monterroso a desenhar em largos traços espirituosas caricaturas dos mestres. Festa de arte e graça, como tinha de ser a de um curso de escol.
Logo no ano seguinte outra récita de despedida, espécie de revista - Visita de Mestre -, encheu o Teatro de S. João, em risonha festa. A letra era de Damião Lourenço que foi distinto clínico em Caminha, e a música de Lobo das Neves e Henrique Teles, este, notável médico bracarense. Entraram na função alguns que do Porto eram ou que por cá ficaram: Costa Miranda, Manuel Bragança, Simões Pina, Manuel José Pereira, Pinto da Silva, João Vieira; e nos coristas figurou Aarão de Lacerda, o lente estudante.
Campos Monteiro já então mostrara aquela garra do escritor de raça, que veio a dar uma pujante obra em prosa e verso, que vai desde o terno lirismo à sátira mordaz. Na geração do meu tempo foi sem dúvida a maior figura literária, a de mais excelsas e polimorfas faculdades. Só João de Meira as possuía semelhantes, mas a morte, que precocemente o levou, só permitiu que deixasse amostras de um talento e cultura excepcionais, de variados matizes.
Já que atrás citei um epigrama de Campos Monteiro, aqui fica outro de João de Meira. Um dos mais espertos rapazes do meu curso era Serafim de Barros, trasmontano de Alijó, alegre folião, noctívago jogador, estudando o mínimo possível para passar, o que obtinha facilmente e com regulares notas. À sua cabulice dedicou Meira esta engraçada quadra:
Outros, porém, embora então com menor saliência, escreviam também.
Desses especifico António Patrício, do curso a seguir ao meu, que ao sair da Escola publicou os discutidos versos do «Oceano» e veio a ser o favorito duma alada e trágica musa. Faziam roda, por vezes, os mais dados às coisas literárias, e Patrício era no grupo a voz dominante, com sua acerada verve. Vou nesta recordação juntar-lhe outra figura cujo nome ficou, Manuel Laranjeira, evocando uma sua resposta a tempo. Patrício, dândi e amaneirado, presumindo grandezas, voltado para Laranjeira, de jeitos inteiramente opostos: «Ontem comi faisão. Ó Laranjeira, V. já comeu faisão?». Ao que este logo retruca: «Eu, nem de pu...». Sicalítico, mas chistoso a mais não.
De resto, o amor pela leitura e pelas ideias gerais era moeda corrente. Vivia-se mais introspectivamente do que em tempos posteriores. Como todos sabem, uma série de factores, entre os quais avulta a progressiva expansão do automóvel, do cinema e dos desportos, foi modificando os hábitos de toda a gente; a vida tornou-se apressada e voltada mais para fora do que para dentro. Tínhamos poucas horas de escolaridade, havia vagar para o comércio espiritual da conversa e da leitura.
Isto vinha já do Liceu, em regra havia apenas duas aulas por dia, e raro se cursavam mais de três disciplinas, cujos exames se faziam no fim do ano. Por certo escandalizarei os pedagogos dizendo que os rapazes saíam com uma preparação melhor do que a de hoje, com a prolixidade desorientadora dos programas e diluição por vários anos. Estudava-se somente o básico, essencial, e este ficava-se sabendo com segurança. Com um ano de português e outro de francês, não havia estudante de curso superior que não soubesse redigir correctamente (hoje, em regra, que desgraça!) e não pudesse ler, sem grandes dificuldades, os romances que então andavam nas nossas mãos, tais os de Balzac, Flaubert, Zola, Daudet, etc. Estudavam-se duas disciplinas nos primeiros anos do Liceu, mas o que se aprendera ficara tão gravado que facilmente, na Politécnica, liam os compêndios franceses, de física, botânica e zoologia, e aprendiam a respectiva matéria, os que se haviam contentado com os escritores nacionais em voga, Camilo, Eça, Fialho, etc.
Entre as aulas que não eram seguidas, repassavam-se, ou passavam-se... as lições marcadas, sob as árvores da Cordoaria ou do Palácio de Cristal; os do meu curso muita vez jogando, no pequeno terreiro ladeante do Teatro Anatómico, uma curiosa variedade do «fito» que o António Lobo trouxera de Valpaços e ao qual demos o pouco decente nome de «pico».
À tarde, em regra depois do jantar que então era pelas cinco horas ou pouco mais, era uso geral a frequência de cafés, de casas que há muito desapareceram. Os mais concorridos eram o Central, que ficava ao lado da Farmácia Birra, onde hoje é parte do Imperial, e o Chaves que ficava na esquina das ruas de D. Pedro e do Laranjal, demolidas para dar lugar à Avenida dos Aliados. A grande maioria só de longe a longe saía do ramerrão diário, com recolha à casa familiar ou à «república», por volta das nove ou quando muito das dez, para ir ao teatro ou para ceata alegre num dos vários comedoiros de nocturno serviço, como os do João do Buraco ou do Faria dos Bigodes, para não falar no célebre Túnel, de freguesia mais endinheirada.
Além das duas festanças de todos os anos, a da entrada dos caloiros e a da entrega da pasta ao findar do quinto ano, em que a feição agarotada tinha certo ar literário (sem o tumultuoso alarido que foi vulgar muito mais tarde), no carnaval do meu primeiro ano houve uma função de estrondo, em que entraram alunos de todos os cursos. Foi no Teatro Anatómico, adrede engalanado, para se desenrolar o funeral da «Vadiana», produto do «Dr. Qu'enterra», em cáustica flagelação do reclamo que um clínico portuense (Quintela) fazia de uma «Badiana Fosfatada de Sued», como curadora da tuberculose. Lembro-me de discursos de irresistível comicidade, e que foram tremendas as gargalhadas quanto entrou o supliciado na forma de um jumento branco; e também que no final uns pseudo-cegos cantaram o fado da autoria de Arnaldo Braga, intitulado «Grande e órrivel querime praticado por uma grande marvada», letra que se vendeu a pataco, sendo o produto destinado a tuberculosos pobres.
Nos começos de 1902 a Academia de Coimbra lançou uma greve de carácter político, a propósito de qualquer medida governamental de ordem financeira, greve que foi secundada pelos alunos da Politécnica, da Médica e do Instituto, mas em dois dias furada pela grande maioria dos alunos de medicina, o que deu azo a que a manifestação em breve terminasse. Era o tempo dos comícios republicanos, quadra de forte agitação política, em que participavam muitos dos meus contemporâneos; mas dentro da Escola essa agitação não penetrava, não porque não houvesse uma geral simpatia pelas aspirações de renovação nacional, mas porque a rapaziada interessava-se mais por arte, literatura e medicina do que pelas coisas da política, que pouco entravam nas nossas conversas.
Também não existia a brotoeja juvenil de pretensão a reformadores do ensino, a que modernamente se deu o nome de «reivindicações da classe», tendo chegado, há coisa de uns trinta anos, a organizar-se uma associação «profissional» dos estudantes de medicina. No meu tempo, essas questões eram para os mestres, que as discutiam entre si, e por vezes acesamente.
Nós tínhamos mais adequadas e realizáveis preocupações, e tínhamos, sobretudo, o espírito de uma franca camaradagem, que não consentia propagandas desunidoras. Por isso foram tão famosas as alegres festas que recordei, como o foi a garraiada do meu curso, de terceiranistas, na Praça de Touros em Matosinhos. Organizada pelo Mata, alentejano e aficionado, que morreu coronel-médico reformado, e pelo grande animador de todos nós que era o Arnaldo Braga e nela fez de bandarilheiro; outros do Porto entraram no elenco «artístico», portando-se frente aos cornúpetos com garbo e valentia, como fossem Jorge de Oliveira (cavaleiro), Feiteira (D. Tancredo), Joaquim Nóbrega (cabo de forcados) e este vosso criado (abegão).
Que mais hei-de dizer? Parece-me que o que destaviadamente fui lançando ao papel é mais que suficiente para avivar lembranças queridas aos cabelos nevados; e aos que ainda estão longe da velhice para mostrar a diferença entre aqueles tempos da minha mocidade e os que com o dobrar dos anos e a mudança nos costumes tão diversos se tornaram. E que diferença! Tão grande como a que vai dos fartos bigodes e do chapéu de coco às caras rapadas e cabeças ao léu.
Melhores tempos? Piores? Não sei. Para nós, os da geração que há mais de meio século passou pela Escola Médica, têm um comovedor encanto; avivam o resto da chama que nos abrasava, enchem-nos o coração de infinitas saudades.
ANTÓNIO DE ALMEIDA GARRETT
Suprimi algumas passagens, que consistem na listagem de professores e colegas (do mesmo ano ou de anos próximos) do autor.]
Mais de meio século decorreu sobre a minha passagem pelos bancos da Escola Médica, daquela querida pequena casa, tão diferente da que encobriu com lavrado granito os seus muros singelos, que o que possa escrever a bem poucos poderá interessar. Só servirá para activar saudades dos alegres tempos da mocidade aos velhos de perto dos oitenta ou que já os ultrapassaram, e esses poucos são. Basta atentar em que do meu curso, de 1901-06, que era de cinquenta, só restam onze; e nos cursos vizinhos, foi semelhante a razia. Aos mais novos apenas poderá fazer lembrar médicos que conheceram ou que todavia conhecem, por ainda por aqui andarem, aguardando a eterna despedida. Tudo isto é bem pouco para justificar estas laudas, mas já que V. as quer, assim mesmo, aí vão, despretensiosamente, ao correr da pena.
Começarei pelo primeiro passo: o ingresso dos caloiros da Médica. Matulões dos últimos anos juntavam os neófitos à porta da Politécnica, frente à Cordoaria, e de ali os levavam em cortejo, num alarido de gaitas estridentes e álacres chalaças, até à entrada da Escola, para a simbólica adopção de discípulos de Esculápio. Escolhiam os mais graúdos para pegar na tosca padiola, destinada ao bobo da festa, ao penico e competente vassourinha, a peça essencial do cortejo. Naquele ano fui eu o padiolado, por determinação do grupo organizador, chefiado por um barbaças, o Teixeira Bastos, mais tarde colega na docência e queridíssimo amigo.
Principiava para nós, com entusiasmo e certa repugnância, o estudo da anatomia, que era preciso saber bem, pois no exame era profusa a chumbaria. Depois, as dificuldades iam abrandando, até ao acto final, o da consabida tareia da defesa da dissertação inaugural.
Ao tempo, o ensino era quase todo teórico, livresco, excepto na anatomia e nas clínicas. O regímen continuava o do Liceu: frequência obrigatória com marcação das faltas, lição designada para a aula seguinte, chamada dos alunos para exporem a matéria da lição, entremeada ou seguida pelos comentários dos professores. Na anatomia trabalhava-se a valer, no teatro anatómico, sob o vigilante olhar estrábico do velho Ferreira, o «rapa-caveiras»; como que estou a ver o quadro, com o mestre Viegas entrando imponente, de sobrecasa sobre o vistoso colete de fantasia, reluzente cartola, para investigar, de mesa em mesa, apontanto com a bengalinha a peça que estávamos dissecando: o que é isto? e isso? Nas clínicas, as aulas decorriam nas enfermarias, com a leitura dos relatórios feitos pelos alunos a quem os doentes foram distribuídos para estudo, e sequente prelecção do professor, comentando e acrescentando os relatórios; a parte teórica já vinha sabida das cadeiras de patologia, interna e externa, estudada pelos respectivos compêndios.
Tudo mudou quando veio a Faculdade, vieram assistentes, se desenvolveu o restrito ensino das ciências laboratoriais; a verdade, porém, é que, para o que então era a medicina, a preparação dos alunos inteiramente ombreava com a das outras escolas e mesmo com a das estrangeiras, em vários pontos, mormente o da anatomia, que já em 1885 (como apontou Ricardo Jorge) se ensinava no Porto como se não ensinava em Paris, trinta anos mais tarde.
Era notável a galeria dos mestres, que recordo com sentida veneração, todos desaparecidos, e quase todos há muito, da cena deste mundo.
[...]
Quando andava no primeiro ano, estava no quinto um curso que deu brado, o último curso do Dr. Lebre, a quem prestaram memorável homenagem, o primeiro curso que se abalançou a dar uma récita de despedida, espectáculo que teve um êxito retumbante. Havia nele muitos valores de real mérito, de alguns dos quais me tornei amigo certo, anos depois, como foram Carteado Mena, Raúl Outeiro, Pacheco de Miranda, Manuel de Castro, José Gomes, Vitorino de Magalhães, César Machado, todos destacadas figuras do nosso meio médico; e ainda o primoroso espírito e cintilante literato que foi Campos Monteiro. Lembro-me do incorrígivel boémio João Pinto, cujas «partidas» ficaram famosas na história das garotices académicas. Lembro-me das irmãs Pratas, e do epigrama (seguramente da autoria de Campos Monteiro) que entre gargalhadas deu a volta à Escola:
Diz a Prata, a Guilhermina,
Que o Vitorino nasceu
De um osso sesamoideu
Que a mãe tinha na vagina...
É que Vitorino de Magalhães era muito baixo, o que não o impediu de vir a ser distinto médico militar. Pelo contrário havia no curso um agigantado, o Eduardo de Oliveira, que por isso tinha a alcunha de «Danton», e foi urologista considerado.
[...] Aarão de Lacerda [...] foi meu professor de Zoologia na Politécnica e [...] já em adiantada idade se fez aluno de Medicina. Por essa altura frequentavam a Escola três figuras invulgares, que despertavam a atenção da estudantada: o poeta Manuel Laranjeira, com a sua gaforina e completo desprezo pela indumentária, Manuel de Oliveira, que tinha fama de invulgar inteligência e vasta cultura, e o boémio Trinta, com grandes barbas e não menor pilhéria.
[...]
Suspendi, para recordar mestres e estudantes, o apontamento sobre a vida dos escolares da Médica nesses primeiros anos do século. Retomo o tema com breves notas, arrancadas às profundidades da memória.
Como sempre sucedeu e sucederá, em cada curso há um pouco de tudo: filhos de abastados e de mal remediados, cuidadosos e desmazelados, fragoeiros e pacatos, de gostos vários e várias preocupações; mas há geralmente uns quantos, de temperamento mais vivo, que exibem carácter destacante, a deixar especial lembrança. São eles os agitadores do conjunto, os promotores dos folguedos violadores da quotidiana rotina.
Já aludi à récitade despedida dos quintanistas de 1902, acontecimento famoso nos anais da academia. Foi à cena uma farsa em verso de Campos Monteiro, «Os Filhos de Minerva», com trechos musicais de Manuel Monterroso e Lima Elias, seguida por uma paródia à Ceia dos Cardeais, em que actuaram Armindo Chaves, Pacheco de Miranda e Raúl do Carmo Pacheco. E o espectáculo findou com Manuel Monterroso a desenhar em largos traços espirituosas caricaturas dos mestres. Festa de arte e graça, como tinha de ser a de um curso de escol.
Logo no ano seguinte outra récita de despedida, espécie de revista - Visita de Mestre -, encheu o Teatro de S. João, em risonha festa. A letra era de Damião Lourenço que foi distinto clínico em Caminha, e a música de Lobo das Neves e Henrique Teles, este, notável médico bracarense. Entraram na função alguns que do Porto eram ou que por cá ficaram: Costa Miranda, Manuel Bragança, Simões Pina, Manuel José Pereira, Pinto da Silva, João Vieira; e nos coristas figurou Aarão de Lacerda, o lente estudante.
Campos Monteiro já então mostrara aquela garra do escritor de raça, que veio a dar uma pujante obra em prosa e verso, que vai desde o terno lirismo à sátira mordaz. Na geração do meu tempo foi sem dúvida a maior figura literária, a de mais excelsas e polimorfas faculdades. Só João de Meira as possuía semelhantes, mas a morte, que precocemente o levou, só permitiu que deixasse amostras de um talento e cultura excepcionais, de variados matizes.
Já que atrás citei um epigrama de Campos Monteiro, aqui fica outro de João de Meira. Um dos mais espertos rapazes do meu curso era Serafim de Barros, trasmontano de Alijó, alegre folião, noctívago jogador, estudando o mínimo possível para passar, o que obtinha facilmente e com regulares notas. À sua cabulice dedicou Meira esta engraçada quadra:
O Serafim está doente
De tanto e tanto estudar.
Com certeza vai a lente,
Vai a lente... de aumentar.
Outros, porém, embora então com menor saliência, escreviam também.
Desses especifico António Patrício, do curso a seguir ao meu, que ao sair da Escola publicou os discutidos versos do «Oceano» e veio a ser o favorito duma alada e trágica musa. Faziam roda, por vezes, os mais dados às coisas literárias, e Patrício era no grupo a voz dominante, com sua acerada verve. Vou nesta recordação juntar-lhe outra figura cujo nome ficou, Manuel Laranjeira, evocando uma sua resposta a tempo. Patrício, dândi e amaneirado, presumindo grandezas, voltado para Laranjeira, de jeitos inteiramente opostos: «Ontem comi faisão. Ó Laranjeira, V. já comeu faisão?». Ao que este logo retruca: «Eu, nem de pu...». Sicalítico, mas chistoso a mais não.
De resto, o amor pela leitura e pelas ideias gerais era moeda corrente. Vivia-se mais introspectivamente do que em tempos posteriores. Como todos sabem, uma série de factores, entre os quais avulta a progressiva expansão do automóvel, do cinema e dos desportos, foi modificando os hábitos de toda a gente; a vida tornou-se apressada e voltada mais para fora do que para dentro. Tínhamos poucas horas de escolaridade, havia vagar para o comércio espiritual da conversa e da leitura.
Isto vinha já do Liceu, em regra havia apenas duas aulas por dia, e raro se cursavam mais de três disciplinas, cujos exames se faziam no fim do ano. Por certo escandalizarei os pedagogos dizendo que os rapazes saíam com uma preparação melhor do que a de hoje, com a prolixidade desorientadora dos programas e diluição por vários anos. Estudava-se somente o básico, essencial, e este ficava-se sabendo com segurança. Com um ano de português e outro de francês, não havia estudante de curso superior que não soubesse redigir correctamente (hoje, em regra, que desgraça!) e não pudesse ler, sem grandes dificuldades, os romances que então andavam nas nossas mãos, tais os de Balzac, Flaubert, Zola, Daudet, etc. Estudavam-se duas disciplinas nos primeiros anos do Liceu, mas o que se aprendera ficara tão gravado que facilmente, na Politécnica, liam os compêndios franceses, de física, botânica e zoologia, e aprendiam a respectiva matéria, os que se haviam contentado com os escritores nacionais em voga, Camilo, Eça, Fialho, etc.
Entre as aulas que não eram seguidas, repassavam-se, ou passavam-se... as lições marcadas, sob as árvores da Cordoaria ou do Palácio de Cristal; os do meu curso muita vez jogando, no pequeno terreiro ladeante do Teatro Anatómico, uma curiosa variedade do «fito» que o António Lobo trouxera de Valpaços e ao qual demos o pouco decente nome de «pico».
À tarde, em regra depois do jantar que então era pelas cinco horas ou pouco mais, era uso geral a frequência de cafés, de casas que há muito desapareceram. Os mais concorridos eram o Central, que ficava ao lado da Farmácia Birra, onde hoje é parte do Imperial, e o Chaves que ficava na esquina das ruas de D. Pedro e do Laranjal, demolidas para dar lugar à Avenida dos Aliados. A grande maioria só de longe a longe saía do ramerrão diário, com recolha à casa familiar ou à «república», por volta das nove ou quando muito das dez, para ir ao teatro ou para ceata alegre num dos vários comedoiros de nocturno serviço, como os do João do Buraco ou do Faria dos Bigodes, para não falar no célebre Túnel, de freguesia mais endinheirada.
Além das duas festanças de todos os anos, a da entrada dos caloiros e a da entrega da pasta ao findar do quinto ano, em que a feição agarotada tinha certo ar literário (sem o tumultuoso alarido que foi vulgar muito mais tarde), no carnaval do meu primeiro ano houve uma função de estrondo, em que entraram alunos de todos os cursos. Foi no Teatro Anatómico, adrede engalanado, para se desenrolar o funeral da «Vadiana», produto do «Dr. Qu'enterra», em cáustica flagelação do reclamo que um clínico portuense (Quintela) fazia de uma «Badiana Fosfatada de Sued», como curadora da tuberculose. Lembro-me de discursos de irresistível comicidade, e que foram tremendas as gargalhadas quanto entrou o supliciado na forma de um jumento branco; e também que no final uns pseudo-cegos cantaram o fado da autoria de Arnaldo Braga, intitulado «Grande e órrivel querime praticado por uma grande marvada», letra que se vendeu a pataco, sendo o produto destinado a tuberculosos pobres.
Nos começos de 1902 a Academia de Coimbra lançou uma greve de carácter político, a propósito de qualquer medida governamental de ordem financeira, greve que foi secundada pelos alunos da Politécnica, da Médica e do Instituto, mas em dois dias furada pela grande maioria dos alunos de medicina, o que deu azo a que a manifestação em breve terminasse. Era o tempo dos comícios republicanos, quadra de forte agitação política, em que participavam muitos dos meus contemporâneos; mas dentro da Escola essa agitação não penetrava, não porque não houvesse uma geral simpatia pelas aspirações de renovação nacional, mas porque a rapaziada interessava-se mais por arte, literatura e medicina do que pelas coisas da política, que pouco entravam nas nossas conversas.
Também não existia a brotoeja juvenil de pretensão a reformadores do ensino, a que modernamente se deu o nome de «reivindicações da classe», tendo chegado, há coisa de uns trinta anos, a organizar-se uma associação «profissional» dos estudantes de medicina. No meu tempo, essas questões eram para os mestres, que as discutiam entre si, e por vezes acesamente.
Nós tínhamos mais adequadas e realizáveis preocupações, e tínhamos, sobretudo, o espírito de uma franca camaradagem, que não consentia propagandas desunidoras. Por isso foram tão famosas as alegres festas que recordei, como o foi a garraiada do meu curso, de terceiranistas, na Praça de Touros em Matosinhos. Organizada pelo Mata, alentejano e aficionado, que morreu coronel-médico reformado, e pelo grande animador de todos nós que era o Arnaldo Braga e nela fez de bandarilheiro; outros do Porto entraram no elenco «artístico», portando-se frente aos cornúpetos com garbo e valentia, como fossem Jorge de Oliveira (cavaleiro), Feiteira (D. Tancredo), Joaquim Nóbrega (cabo de forcados) e este vosso criado (abegão).
Que mais hei-de dizer? Parece-me que o que destaviadamente fui lançando ao papel é mais que suficiente para avivar lembranças queridas aos cabelos nevados; e aos que ainda estão longe da velhice para mostrar a diferença entre aqueles tempos da minha mocidade e os que com o dobrar dos anos e a mudança nos costumes tão diversos se tornaram. E que diferença! Tão grande como a que vai dos fartos bigodes e do chapéu de coco às caras rapadas e cabeças ao léu.
Melhores tempos? Piores? Não sei. Para nós, os da geração que há mais de meio século passou pela Escola Médica, têm um comovedor encanto; avivam o resto da chama que nos abrasava, enchem-nos o coração de infinitas saudades.
ANTÓNIO DE ALMEIDA GARRETT
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Académicos do Porto de capa e batina em 1890

Capa da pauta do "pasa-calle" Amor da Pátria, "brinde aos académicos do Porto". Deve datar de 1890, o ano em que se deu a crise do Ultimatum. O medalhão em que os académicos do Porto aparecem de capa e batina (com gorro, capa traçada à tricana e ainda batina fechada sem lapelas) é a imagem mais antiga que conheço de estudantes do Porto com traje académico.
(O "movimento patriótico Luso-Britânico" aqui aludido seria antes um movimento patriótico Luso e anti-Britânico, como se pode imaginar e se comprova por uma quadra de C. Lagôa que aparece no interior e que se refere a um "ódio tamanho [...] por essa astuta, hipócrita Inglaterra".)
"A Mocidade de Hoje"
A introdução no Porto de capa e batina.
[José Pinto de Queiroz Magalhães, Capa e Batina, n.º 1 (20/2/1930), págs. 1-2.]
«Recordar é viver».
Seja-me, pois, lícito evocar a lembrança, para mim saudosa, dum pequenino hebdomadário que se publicou na cidade do Porto no ano de 1883, a que o brilhante escritor António de Lemos, seu antigo colaborador, se referiu já há tempos no jornal «O Tripeiro» e mais recentemente no «Mundo» os ilustres escritores Albino Forjaz de Sampaio e o Dr. João Barreira, hebdomadário do qual foram redactores o signatário destas mal alinhavadas linhas e José Carlos Ehrhardt, hoje, depois de longos anos de labuta médica, facultativo aposentado da Câmara de Sertã.
Era este um jornal académico, que tinha como redacção um modesto quarto de estudante, alcandorado no 2.º andar, frente, do prédio n.º 137 da rua dos Caldeireiros, onde a mocidade académica desse tempo se reunia, numa ânsia fremente de liberdade, disposta a lutar por todas as ideias generosas, num adorável convívio de quasi irmãos.
Era de lá que aos domingos saía para os seus numerosos assinantes, com pontualidade britânica, pelo braço do seu entregador, «A Mocidade de Hoje».
De entre os periódicos académicos que nesta cidade do Porto viram a luz da publicidade por aquele tempo, e não poucos foram eles, recordando-me ainda com enternecida saudade de «A Ideia» de António Ferreira Neves Júnio, «O Jornal de Calíope» de Francisco Xavier de Sousa Pinto Leitão, «A Pérola» de António Rigaud Nogueira, «O Intermezzo» de Eduardo Artayett, «A Alma Nova» de Aureliano Cirne, etc., logrou «A Mocidade de Hoje» ser o que teve mais longa e próspera existência, chegando a publicar-se 32 números que dentro em breve se esgotaram por completo, constituindo por isso hoje esta publicação para os bibliófilos uma colecção rara e ipso facto de apreço.
Teve o aludido periódico a colaboração de brilhantes penas de reputação já feita, que muito concorreram para o prestigiar, tais como o Dr. Júlio de Matos, Dr. José Leite de Vasconcelos, Dr. Alves da Veiga, Jacob Bensabat, Madureira de Vasconcelos, Dr. Artur Cardoso Pereira, Dr. Aureliano Cirne, D. Clorinda de Macedo, etc., constituindo simultaneamente o escrínio onde ficaram arquivadas as primeiras produções de nóveis poetas e prosadores de fino quilate, parte dos quais já hoje são extintos, ocupando os que felizmente ainda vivem, lugares de destaque no seio da família portuguesa.
Entre os primeiros, seja-me permitido proclamar os nomes indelevelmente gravados no coração de todos que os conheceram de António Nobre, Eduardo Coimbra, José de Oliveira Macedo, Henrique José Martins Ferreira, João Zagalo Ilharco, Heliodoro Augusto Salgado, Augusto Geraldes de Mesquita (Gusanto), Guilherme Braga, filho, Hamilton de Araújo, Alexandre Braga, Eduardo Arteyett, Joaquim de Lemos, Dr. Adolfo Arteyett e tantos outros espíritos cintilantes duma élite intelectual que marcou; entre os segundos, o Dr. Augusto Nobre, ilustre professor e ex-reitor da Universidade do Porto, o Dr. José Leite de Vasconcelos, sábio professor da Faculdade de Letras de Lisboa, eminente filólogo e director do museu etnológico português, o Dr. Artur Cardoso Pereira, distinto médico-analista do Mercado Central de Produtos Agrícolas e abalizado professor da Universidade de Lisboa, o Dr. Bernardo Lucas, António de Lemos, Artur Mendes de Magalhães Ramalho, Alberto Baltar (Sereno Hírcio) e muitos mais, que ora me não ocorrem.
Pois foi neste mesmo quarto de estudante e redacção de «A Mocidade de Hoje» que a mesma geração de imberbes moços, como lhe chamou Raúl Sampaio, passados 4 anos realizou as reuniões preparatórias para a substituição das irrisórias casacas por um uniforme académico mais consentâneo com o espírito moderno, nos actos a realizar.
Ali apareceram vários modelos de uniformes com desenhos do ilustre pintor visiense José de Almeida e Silva, então aluno da Academia de Belas-Artes e redactor do «Charivari», optando-se alfim pela capa e batina, em virtude das tradições que andavam ligadas.
Depois de devidamente aprovada pelo Conselho da Escola Médica-Cirúrgica, onde a defendeu com entrain o célebre Urbino de Freitas, foi enfim esta autorizada, embora apenas facultativamente, sendo pela primeira vez usada no ano de 1889 pelos alunos da Escola Médica-Cirúrgica do Porto, sendo os estudantes do 3º ano médico dessa referida data quem, para dar o exemplo, se antecipou a romper com o preconceito citadino, envergando pela primeira vez no Porto, roçando pelo escândalo, o tradicional uniforme académico da velha universidade coimbrã.
Entre esses terceiranistas reformistas, contam-se José de Oliveira Serrão de Azevedo, Aníbal Barbosa de Pinho Lousada, Scipião José de Carvalho, José Jorge Pereira, Francisco da Silva Garcia, João Leite de Castro, Francisco Xavier Couto de Amorim Novais e o autor desta pequenina memória - sem dúvida um dos mais entusiastas apóstolos de tal ideia.
«Recordar é viver».
Seja-me, pois, lícito evocar a lembrança, para mim saudosa, dum pequenino hebdomadário que se publicou na cidade do Porto no ano de 1883, a que o brilhante escritor António de Lemos, seu antigo colaborador, se referiu já há tempos no jornal «O Tripeiro» e mais recentemente no «Mundo» os ilustres escritores Albino Forjaz de Sampaio e o Dr. João Barreira, hebdomadário do qual foram redactores o signatário destas mal alinhavadas linhas e José Carlos Ehrhardt, hoje, depois de longos anos de labuta médica, facultativo aposentado da Câmara de Sertã.
Era este um jornal académico, que tinha como redacção um modesto quarto de estudante, alcandorado no 2.º andar, frente, do prédio n.º 137 da rua dos Caldeireiros, onde a mocidade académica desse tempo se reunia, numa ânsia fremente de liberdade, disposta a lutar por todas as ideias generosas, num adorável convívio de quasi irmãos.
Era de lá que aos domingos saía para os seus numerosos assinantes, com pontualidade britânica, pelo braço do seu entregador, «A Mocidade de Hoje».
De entre os periódicos académicos que nesta cidade do Porto viram a luz da publicidade por aquele tempo, e não poucos foram eles, recordando-me ainda com enternecida saudade de «A Ideia» de António Ferreira Neves Júnio, «O Jornal de Calíope» de Francisco Xavier de Sousa Pinto Leitão, «A Pérola» de António Rigaud Nogueira, «O Intermezzo» de Eduardo Artayett, «A Alma Nova» de Aureliano Cirne, etc., logrou «A Mocidade de Hoje» ser o que teve mais longa e próspera existência, chegando a publicar-se 32 números que dentro em breve se esgotaram por completo, constituindo por isso hoje esta publicação para os bibliófilos uma colecção rara e ipso facto de apreço.
Teve o aludido periódico a colaboração de brilhantes penas de reputação já feita, que muito concorreram para o prestigiar, tais como o Dr. Júlio de Matos, Dr. José Leite de Vasconcelos, Dr. Alves da Veiga, Jacob Bensabat, Madureira de Vasconcelos, Dr. Artur Cardoso Pereira, Dr. Aureliano Cirne, D. Clorinda de Macedo, etc., constituindo simultaneamente o escrínio onde ficaram arquivadas as primeiras produções de nóveis poetas e prosadores de fino quilate, parte dos quais já hoje são extintos, ocupando os que felizmente ainda vivem, lugares de destaque no seio da família portuguesa.
Entre os primeiros, seja-me permitido proclamar os nomes indelevelmente gravados no coração de todos que os conheceram de António Nobre, Eduardo Coimbra, José de Oliveira Macedo, Henrique José Martins Ferreira, João Zagalo Ilharco, Heliodoro Augusto Salgado, Augusto Geraldes de Mesquita (Gusanto), Guilherme Braga, filho, Hamilton de Araújo, Alexandre Braga, Eduardo Arteyett, Joaquim de Lemos, Dr. Adolfo Arteyett e tantos outros espíritos cintilantes duma élite intelectual que marcou; entre os segundos, o Dr. Augusto Nobre, ilustre professor e ex-reitor da Universidade do Porto, o Dr. José Leite de Vasconcelos, sábio professor da Faculdade de Letras de Lisboa, eminente filólogo e director do museu etnológico português, o Dr. Artur Cardoso Pereira, distinto médico-analista do Mercado Central de Produtos Agrícolas e abalizado professor da Universidade de Lisboa, o Dr. Bernardo Lucas, António de Lemos, Artur Mendes de Magalhães Ramalho, Alberto Baltar (Sereno Hírcio) e muitos mais, que ora me não ocorrem.
Pois foi neste mesmo quarto de estudante e redacção de «A Mocidade de Hoje» que a mesma geração de imberbes moços, como lhe chamou Raúl Sampaio, passados 4 anos realizou as reuniões preparatórias para a substituição das irrisórias casacas por um uniforme académico mais consentâneo com o espírito moderno, nos actos a realizar.
Ali apareceram vários modelos de uniformes com desenhos do ilustre pintor visiense José de Almeida e Silva, então aluno da Academia de Belas-Artes e redactor do «Charivari», optando-se alfim pela capa e batina, em virtude das tradições que andavam ligadas.
Depois de devidamente aprovada pelo Conselho da Escola Médica-Cirúrgica, onde a defendeu com entrain o célebre Urbino de Freitas, foi enfim esta autorizada, embora apenas facultativamente, sendo pela primeira vez usada no ano de 1889 pelos alunos da Escola Médica-Cirúrgica do Porto, sendo os estudantes do 3º ano médico dessa referida data quem, para dar o exemplo, se antecipou a romper com o preconceito citadino, envergando pela primeira vez no Porto, roçando pelo escândalo, o tradicional uniforme académico da velha universidade coimbrã.
Entre esses terceiranistas reformistas, contam-se José de Oliveira Serrão de Azevedo, Aníbal Barbosa de Pinho Lousada, Scipião José de Carvalho, José Jorge Pereira, Francisco da Silva Garcia, João Leite de Castro, Francisco Xavier Couto de Amorim Novais e o autor desta pequenina memória - sem dúvida um dos mais entusiastas apóstolos de tal ideia.
José Pinto de Queiroz Magalhães
Médico e Professor da Escola Normal Primária do Porto.
Médico e Professor da Escola Normal Primária do Porto.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Os académicos do meu tempo
(a propósito do aniversário da Academia Politécnica)
[Alberto de Aguiar, Porto Académico, n.º único de 1937, págs. 31-32]
Solicitaram a minha participação neste número único do Porto Académico, no louvável intuito de colher elementos evocadores de vibratilidade académica da minha geração quase a meio termo do centenário que este número único comemora.
Devia furtar-me a tal colaboração, tão fracas e imprecisas as minhas reminiscências desse período, tão pouco me envolvi, por feitio, educação e meio em que decorreu a minha mocidade, nas manifestações académicas do meu tempo, embora batidas e agitadas por movimentos grandiosos e de repercussão formidável e profundamente modificadora da vida social e política da minha Pátria – como o do Ultimatum e a revolução do 31 de Janeiro, sua inevitável consequência.
Estes movimentos nortearam e definiram sem dúvida os meus ideais e convicções políticas, como a dos meus contemporâneos: a Academia do meu tempo era convicta e entusiasticamente republicana, sob o impulso duma fé ardente nos destinos gloriosos da Pátria, mas a sua intervenção, mais teórica do que prática, mais de reacção do que de acção, era essencialmente doutrinária e evolutiva.
E a minha então, absolutamente apagada, embora tão enraizada, ou mais, do que a dos mais sinceros crentes (e por isso talvez me alcunhassem de velhinha), não justificaria uma reminiscência a que eu não posso dar o calor e o relevo de participante activo.
Mas a vida académica não foi só isso e eu acedo à solicitação que me fizeram e porque ma fizeram, considerando um dever lavrar o meu depoimento, por mínimo e insignificante que seja, confiado em que outros, muito melhor e com mais entusiasmo, farão reviver uma época que gloriosa e agitada para tantos é para mim profundamente saudosa, pelas recordações de camaradagem e de convívio académico que elas evocam.
Estava eu no meu 2.º ano médico quando se desencadeou, em 1889[1], o chamado movimento do Ultimatum que nascido gloriosamente na Academia do Porto rápido alastrou pelas demais Academias, numa onda de brio, de exaltação e de redenção.
Iniciada pelos académicos maiorais dos últimos anos dos cursos e dirigido por um quintanista de medicina, o Dr. Reis Santos[2], vincou-se no meu, como no espírito da minha geração, a admiração profunda por quem tão enérgica, disciplinada e inteligentemente dirigiu e orientou esse movimento até o entregar à alta personalidade de Antero de Quental.
Lembro-me nitidamente da elevada consideração, respeito e acatamento com que Reis Santos era acolhido na Academia que, mercê dele, se elevou no conceito da nação como força disciplinadora, nobre, progressiva e persistente, como até então não fora nenhuma outra manifestação académica.
Foi um dos períodos áureos da Academia, cheio de elevação, nobreza e sequência: não teve, como muitos outros movimentos académicos, a fugacidade duma explosão que tanto menos dura quanto mais intensa nasce e mais rápido deflagra, mas a persistência duma reacção que continuamente exotérmica, só se extingue quando terminada a causa que a provocou: iniciada em 1889 propaga-se até 31 de Janeiro de 1891, para se extinguir no movimento redentor de 5 de Outubro de 1910.
Recordo com admiração num misto de saudade e fé patriótica a acção de Reis Santos sempre na brecha, activo, firme e progressivo e associo-lhe os nomes de tantos outros, como o de Artur Vaz Pereira, o académico fogoso que com o verbo ardente, inflamado e fluente mantinha o fogo sagrado das reuniões académicas verberando a inércia e a covardia daqueles que, conforme ele dizia, não tinham nervos mas tripas de viola, nem sangue, mas capilé dessorado, de Scipião José de Carvalho que continuamente alegre e de bem e humorada eloquência, aproveitava todas as oportunidades para animar o movimento, aligeirando-lhe ou solucionando-lhe as responsabilidades mais graves, de Ricardo Nogueira Souto, um vencido da vida, que na placidez e ponderação do seu temperamento foi um esplêndido auxiliar e secretário de Reis Santos.
E a par destes ocorrem-me, neste perpassar de reminiscência evocadora, os nomes de Fernando de Almeida, José Guedes Júnior, José Vicente de Araújo, e de Castro Soares, o condiscípulo querido que pondunoroso, correcto, digno e aprumado repudiou formalizado em reprimenda elevada e castiça – ou ele não fora alcunhado de recta-pronúncia – a brincadeira duns camaradas estúrdios que pretendiam envolvê-lo, ao engano, em atitudes enérgicas que, diziam, o movimento exigia: caído em si, prega-lhes um tremendo sermão, que com coisas sérias não se brinca.[3]
Mas agora reparo que sem querer, nem ser minha intenção, pelas razões que expus ia resvalando no perigoso pendor de invadir domínios que não me pertencem nem percorri, quando tantos outros, ainda em plena actividade o podem pormenorizar com minúcias inéditas que bem o merece esse grandioso e simpático movimento académico, expressão espontânea da nossa dignidade ofendida.
Que outros o façam com o devido conhecimento de causas senão tanto para salientar a grandeza dum movimento cuja finalidade patriótica está bem evidenciada, pelo menos para tirar do esquecimento muitos dos valores académicos que mais o abrilhantaram, imprimindo-lhe fecundas energias de sucesso.
Passo sobre os acontecimentos de 31 de Janeiro em que a Academia não interveio directamente, muito embora neles participassem, individualmente, alguns estudantes, meus condiscípulos e contemporâneos, nomeadamente aspirantes de marinha, para me referir, entre muitas outras brincadeiras de estudantes, a duas formidáveis charges, reveladoras da exuberância, da vida, espírito crítico, justiça, sentimento e correcção, características da mocidade académica de todos os tempos, mas em que a minha geração me pareceu mais fértil, talvez porque melhor pude apreciar as suas manifestações.
A primeira refere-se a uma graciosa paródia de doutoramento, realizada no final do ano escolar de 1890-1891: teve como protagonista um antigo empregado da Imprensa Portuguesa, o falecido António Augusto de Sousa Vieira, homem de toda a confiança do saudoso Anselmo de Morais seu director e a quem ele confiara a ingrata e delicada missão de acompanhar às aulas as suas filhas Aurélia e Laurinda Morais Sarmento que foram, com D. Maria Tavares Pais Moreira (do mesmo tempo, mas que defendeu tese um ano depois), as primeiras senhoras que no Porto conquistaram o seu diploma de Medicina e Cirurgia, passando pela antiga Escola Médico-Cirúrgica, onde igualmente me formei um ano após elas.
Esta vigilância, produto da época e da novidade (hoje ridícula pela banalidade), aliada à natural comoção que as simpáticas académicas despertaram no meio dos seus condiscípulos, foi desempenhada com todo o escrúpulo pelo guardião, que os rapazes respeitaram embora o alvejassem com naturais piadas e alcunhas inofensivas.
O bondoso Vieira cumpriu a preceito as suas funções: acompanhava às aulas as filhas do seu amigo e director, assistia às respectivas lições, silencioso, resigando e cônscio do seu papel e retirava-se com elas indiferente às inofensivas chalaças, piadas ou alcunhas com que os mais irrequietos condimentavam, de longe, sempre a meia voz e correctos, a evangélica paciência de tão fiel servidor.
Assim se passaram os 5 anos do curso médico, e no final, a ideia de diplomar em sessão magna quem com tanta assiduidade, zelo e “nula competência” assistira a todas as lições sem faltas, salvo as das suas pupilas, surgiu espontaneamente, rápido tomou vulto, alastrou e concretizou-se, dias volvidos, na grandiosa manifestação de homenagem a que o atingido assistiu com enorme aprazimento e contentamento, só percebendo no final que era o protagonista visado naquela memorável Assembleia.
O acto passou-se no Teatro Anatómico, para tal profusamente ornamentado e engalanado pelos rapazes, tomando o inocente homenageado o seu lugar de honra nas doutorais, com a assistência dos novos doutores, representantes das várias Universidades e Academias do país e do estrangeiro, das autoridade e figuras representativas que, em grande número, intensa alegria e satisfação, colaboraram na sessão a que davam o brilho da sua presença, entre as desafinações duma charanga académica, adrede preparada para a cerimónia.
Famosos os vários discursos pronunciados, entre os quais um em latim macarrónico, no género do palito métrico, pronunciado, suponho eu, por Scipião de Carvalho, o endiabrado boémio cujas graciosas partidas académicas mereciam relato especial e que com o meu condiscípulo José Guedes, ainda hoje apaixonado cultor das sentenças latinas com que abrilhanta a sua conversa animada, discípulos do Pe. António Pereira no afamado Colégio dos Roseirais que este dirigiu em Lamego.
Os esfusiantes comentários da assembleia, entusiástica, ruidosa e alegre, os aplausos, as gargalhadas espontâneas e sonoras da assistência, as notas estrídulas e vibrantes da charanga sublinhando as várias peripécias da cerimónia, as manifestações álacres da mocidade atingem o rubro quando é feita a entrega do diploma honorífico, com todas as suas fitas, selos e predicados ao novo e original doutor que só então atinge o objectivo de tão movimentada e aparatosa sessão.
Inolvidável o abraço final dos padrinhos: ela dama distinta, paramentada a rigor, na pitoresca viela dos Gatos, fronteiriça à Escola; ele, engalanado com todas as suas condecorações, pomposo e aprumado, ostentando brilhante, alva e luzidia a pera a parodiar a do seu afilhado.
No auge da comoção, ao cingir o paraninfo no simbólico abraço de Minerva, a madrinha trinca, mastiga e engole com delírio metade da pera do padrinho, que por sinal era de doce, bem disfarçados por entre as suíças os fios que a mantinham no seu lugar próprio.
Tudo isto não é mais que uma pálida e desbotada reminiscência do muito que presenciei e do que se passou nessa grandiosa e memorável sessão e do pouco e confuso que a minha memória retém, a cerca de meio século de distância, dum acto em que à originalidade do conceito se aliava uma opulência de pormenores e de facécias, no propósito sadio, alegre e inofensivo de focar um acontecimento único na história jocosa da Academia Portuense.
Tão correcta foi e tão graciosa que o novo e original doutorado, a princípio indiferente, embora interessado, se considerou lisonjeado e nada agastado com a elevada honra académica prestada à sua forçada assiduidade escolar.
Sirvam estas despretenciosas evocações de traço espiritual de união entre todos aqueles, e bastantes ainda são, que viveram esse inesquecido e alegre momento da sua vida académica e dela conservam perduráveis e gratíssimas recordações.
A outra do mesmo género, pomposa, mas bem mais cáustica homenagem, me foi dado assistir em 1902 na qualidade de incógnito, como substituto de medicina que era então.
Foi a formidável “charge” ao apregoado específico contra a tuberculose – “Badiana fosfatada de Sued” (Deus) – que os académicos crismaram ironicamente de Badiana sulfatada de uva preta, poderoso microbicida do médico Quinterra, conselheiro da Majestade, facultativo desonorário do Hospital de Santo António, etc., etc. e de que os promotores distribuiam pela assistência pequenos frascos com as indicações: Para uso interno às camadas. Preço segundo as praxes.
Esta contundente rubrica motivou o aparecimento dum poemeto A Banana da Suécia da autoria do meu condiscípulo saudoso, Dr. Manuel Augusto de Queiroz e Castro, poeta repentista, satírico e irónico, cujo espírito e talento, em plena ascensão, a morte abateu sob a forma duma infecção profissional aguda, roubando o infeliz moço ao carinho dos seus e à camaradagem dos condiscípulos e amigos que o estimavam.
Que a sua memória e a do “Dr. Lúcio Quinterra” por cuja boca fala, me perdoem a transcrição de alguns dos versos desse poemeto, alusivos ao custo da mercadoria, ao seu vistoso e sugestivo rótulo
Estão vivos, de saúde e em plena pujança de actividade muitos dos colaboradores dessa chistosa e cauterizante manifestação académica que o poemeto do meu querido condiscípulo sintetiza nos seguintes versos:
A eles melhor do que a outrem convém fazer reviver algumas das peripécias mais famosas, em que o alvejado, considerado à rebelia, foi representado por um jumento coroado de louros.
Na Faculdade de Medicina em cujo teatro anatómico se desenrolou a hilariante apoteose, existem, no seu Museu Histórico, peças evocadoras da graciosa “charge”, nomeadamente os trágicos painéis com as descrições dos horríveis bichinhos da tuberculose e esse associado, a Badiana.
Limito-me pois aos excertos feitos e à reprodução do grupo cénico[4] em que o leitor facilmente identificará os componentes, como clínicos consagrados, sublinhando com um sentimento de saudade os desaparecidos, talvez sob o olhar fatídico da morte, convidada em recordação das vítimas imoladas à Badiana.
Por estes dois escorços bem se poderá aquilatar das manifestações académicas – cortejos, festas da pasta, encerramento de aulas, paródias, etc., – em que se expandia o espírito irrequieto, audaz e alegre da mocidade académica do meu tempo.
Se lhe juntarmos algumas zaragatas célebres como a do franquismo, récitas teatrais entre as quais “Os Filhos de Minerva” e “O Auto das três barcas” do nosso saudoso e sempre relembrado colega Dr. Campos Monteiro, manifestações várias de arte, como música, poesia, caricaturas, etc. teremos uma ideia do grau de actividade, cultura e sentimento dos académicos da minha geração e de quanto contribuiram para manter, perpetuar e honrar as tradições de galhardia da mocidade estudiosa superior de todos os tempos.
Destas várias exteriorizações do potencial académico em que todos os cursos da minha geração comparticiparam já como figurantes, já como manifestantes, espectadores animados ou ouvintes chalaceadores, nasceu essa estreita e viva camaradagem que a todos nos une e que afirmada em reuniões periódicas mais ou menos espaçadas mas sempre animadas, esfusiantes de graça e evocadoras de pequeninos nadas da vida académica relembrados e exaltados à categoria de acontecimentos notáveis, constitui uma das mais gratas recordações da nossa mocidade e um momento ansiosamente esperado para aliviar as agruras da nossa profissão.
O meu curso (1892) tem sido fiel a esta tradição e desde a primeira convocação (autoria de Queiroz e Castro):
procura manter esperto e vivo o fogo sagrado destas encantadoras reuniões, embelezando-as e aureolando-as com os possíveis actos de benemerência a favor das famílias desprotegidas de condiscípulos falecidos.
Infelizmente a matéria prima destas reuniões vai rareando e prejudicando com mágoa a sua encantadora finalidade e ao terminar este singelo relato das minhas reminiscências académicas, não devo deixar de me referir ao último desaparecido após a reunião em 25 de Maio transacto.
Foi o Dr. Aguiar Cardoso que deve ser rememorado entre os mais brilhantes académicos da minha geração e do meu curso, e que só por si o honra e enche de prestígio e solidariedade, pois que académico cheio de originalidade e de bom senso – razão porque o cognominava de filósofo – foi um distinto e laureado cultor e compositor musical, um clínico eminente, polemista invulnerável, arqueólogo activo, apaixonado e sabedor na valorização da sua terra, terras de Santa Maria e seu famoso Castelo, um amigo e paladino dos pobres por cuja assistência se bateu com denodo, e acima de tudo, para nós, um camarada amigo, apreciador entusiasta das nossas reuniões e do nosso convívio.
Focando-o rapidamente, neste momento, sintetizo os valores da minha geração em um dos seus lídimos e superiores representantes, o último falecido[5] e saudosamente rememorado – o Dr. António Augusto de Aguiar Cardoso.
Porto, 22 de Março de 1937
[1] De facto a crise do Ultimatum só começou em Janeiro de 1890. Deve haver confusão com o ano lectivo 1889/90.
[2] Refira-se que Reis Santos foi também regente da Tuna (Porto Académico, n.º único de 1937, pág. 33).
[3] [Nota original:] Na revisão deste artigo em 31 de Março fui dolorosamente surpreendido pela notícia brutal do falecimento de Castro Soares o condiscípulo querido que deu brado na Academia pela energia, nobreza e ímaculabilidade do seu carácter e que armado na vida pública com tais virtudes conseguiu a reforçada indepêndencia concelhia de Espinho, a admiração respeito e alta consideração dos seus conterrâneos e a estima e a gratidão dos seus doentes pela muita bondade, dedicação e saber do seu culto profissional.
[4] A versão original deste texto vem acompanhada de uma fotografia, que aparece também acima neste blogue, na primeira imagem da entrada O "Dr. Quinterra".
[5] [Nota original:] Já não é, pois posteriormente, como aludi em nota anterior, Castro Soares, outro grande e belo espírito, transpôs as fronteiras da Eternidade, talvez a reconciliar-se com Aguiar Cardoso neutralizando a repulsa resultante do choque de dois sonhos animado do mesmo mais alto potencial de simpático jornalismo.
Solicitaram a minha participação neste número único do Porto Académico, no louvável intuito de colher elementos evocadores de vibratilidade académica da minha geração quase a meio termo do centenário que este número único comemora.
Devia furtar-me a tal colaboração, tão fracas e imprecisas as minhas reminiscências desse período, tão pouco me envolvi, por feitio, educação e meio em que decorreu a minha mocidade, nas manifestações académicas do meu tempo, embora batidas e agitadas por movimentos grandiosos e de repercussão formidável e profundamente modificadora da vida social e política da minha Pátria – como o do Ultimatum e a revolução do 31 de Janeiro, sua inevitável consequência.
Estes movimentos nortearam e definiram sem dúvida os meus ideais e convicções políticas, como a dos meus contemporâneos: a Academia do meu tempo era convicta e entusiasticamente republicana, sob o impulso duma fé ardente nos destinos gloriosos da Pátria, mas a sua intervenção, mais teórica do que prática, mais de reacção do que de acção, era essencialmente doutrinária e evolutiva.
E a minha então, absolutamente apagada, embora tão enraizada, ou mais, do que a dos mais sinceros crentes (e por isso talvez me alcunhassem de velhinha), não justificaria uma reminiscência a que eu não posso dar o calor e o relevo de participante activo.
Mas a vida académica não foi só isso e eu acedo à solicitação que me fizeram e porque ma fizeram, considerando um dever lavrar o meu depoimento, por mínimo e insignificante que seja, confiado em que outros, muito melhor e com mais entusiasmo, farão reviver uma época que gloriosa e agitada para tantos é para mim profundamente saudosa, pelas recordações de camaradagem e de convívio académico que elas evocam.
Estava eu no meu 2.º ano médico quando se desencadeou, em 1889[1], o chamado movimento do Ultimatum que nascido gloriosamente na Academia do Porto rápido alastrou pelas demais Academias, numa onda de brio, de exaltação e de redenção.
Iniciada pelos académicos maiorais dos últimos anos dos cursos e dirigido por um quintanista de medicina, o Dr. Reis Santos[2], vincou-se no meu, como no espírito da minha geração, a admiração profunda por quem tão enérgica, disciplinada e inteligentemente dirigiu e orientou esse movimento até o entregar à alta personalidade de Antero de Quental.
Lembro-me nitidamente da elevada consideração, respeito e acatamento com que Reis Santos era acolhido na Academia que, mercê dele, se elevou no conceito da nação como força disciplinadora, nobre, progressiva e persistente, como até então não fora nenhuma outra manifestação académica.
Foi um dos períodos áureos da Academia, cheio de elevação, nobreza e sequência: não teve, como muitos outros movimentos académicos, a fugacidade duma explosão que tanto menos dura quanto mais intensa nasce e mais rápido deflagra, mas a persistência duma reacção que continuamente exotérmica, só se extingue quando terminada a causa que a provocou: iniciada em 1889 propaga-se até 31 de Janeiro de 1891, para se extinguir no movimento redentor de 5 de Outubro de 1910.
Recordo com admiração num misto de saudade e fé patriótica a acção de Reis Santos sempre na brecha, activo, firme e progressivo e associo-lhe os nomes de tantos outros, como o de Artur Vaz Pereira, o académico fogoso que com o verbo ardente, inflamado e fluente mantinha o fogo sagrado das reuniões académicas verberando a inércia e a covardia daqueles que, conforme ele dizia, não tinham nervos mas tripas de viola, nem sangue, mas capilé dessorado, de Scipião José de Carvalho que continuamente alegre e de bem e humorada eloquência, aproveitava todas as oportunidades para animar o movimento, aligeirando-lhe ou solucionando-lhe as responsabilidades mais graves, de Ricardo Nogueira Souto, um vencido da vida, que na placidez e ponderação do seu temperamento foi um esplêndido auxiliar e secretário de Reis Santos.
E a par destes ocorrem-me, neste perpassar de reminiscência evocadora, os nomes de Fernando de Almeida, José Guedes Júnior, José Vicente de Araújo, e de Castro Soares, o condiscípulo querido que pondunoroso, correcto, digno e aprumado repudiou formalizado em reprimenda elevada e castiça – ou ele não fora alcunhado de recta-pronúncia – a brincadeira duns camaradas estúrdios que pretendiam envolvê-lo, ao engano, em atitudes enérgicas que, diziam, o movimento exigia: caído em si, prega-lhes um tremendo sermão, que com coisas sérias não se brinca.[3]
Mas agora reparo que sem querer, nem ser minha intenção, pelas razões que expus ia resvalando no perigoso pendor de invadir domínios que não me pertencem nem percorri, quando tantos outros, ainda em plena actividade o podem pormenorizar com minúcias inéditas que bem o merece esse grandioso e simpático movimento académico, expressão espontânea da nossa dignidade ofendida.
Que outros o façam com o devido conhecimento de causas senão tanto para salientar a grandeza dum movimento cuja finalidade patriótica está bem evidenciada, pelo menos para tirar do esquecimento muitos dos valores académicos que mais o abrilhantaram, imprimindo-lhe fecundas energias de sucesso.
Passo sobre os acontecimentos de 31 de Janeiro em que a Academia não interveio directamente, muito embora neles participassem, individualmente, alguns estudantes, meus condiscípulos e contemporâneos, nomeadamente aspirantes de marinha, para me referir, entre muitas outras brincadeiras de estudantes, a duas formidáveis charges, reveladoras da exuberância, da vida, espírito crítico, justiça, sentimento e correcção, características da mocidade académica de todos os tempos, mas em que a minha geração me pareceu mais fértil, talvez porque melhor pude apreciar as suas manifestações.
A primeira refere-se a uma graciosa paródia de doutoramento, realizada no final do ano escolar de 1890-1891: teve como protagonista um antigo empregado da Imprensa Portuguesa, o falecido António Augusto de Sousa Vieira, homem de toda a confiança do saudoso Anselmo de Morais seu director e a quem ele confiara a ingrata e delicada missão de acompanhar às aulas as suas filhas Aurélia e Laurinda Morais Sarmento que foram, com D. Maria Tavares Pais Moreira (do mesmo tempo, mas que defendeu tese um ano depois), as primeiras senhoras que no Porto conquistaram o seu diploma de Medicina e Cirurgia, passando pela antiga Escola Médico-Cirúrgica, onde igualmente me formei um ano após elas.
Esta vigilância, produto da época e da novidade (hoje ridícula pela banalidade), aliada à natural comoção que as simpáticas académicas despertaram no meio dos seus condiscípulos, foi desempenhada com todo o escrúpulo pelo guardião, que os rapazes respeitaram embora o alvejassem com naturais piadas e alcunhas inofensivas.
O bondoso Vieira cumpriu a preceito as suas funções: acompanhava às aulas as filhas do seu amigo e director, assistia às respectivas lições, silencioso, resigando e cônscio do seu papel e retirava-se com elas indiferente às inofensivas chalaças, piadas ou alcunhas com que os mais irrequietos condimentavam, de longe, sempre a meia voz e correctos, a evangélica paciência de tão fiel servidor.
Assim se passaram os 5 anos do curso médico, e no final, a ideia de diplomar em sessão magna quem com tanta assiduidade, zelo e “nula competência” assistira a todas as lições sem faltas, salvo as das suas pupilas, surgiu espontaneamente, rápido tomou vulto, alastrou e concretizou-se, dias volvidos, na grandiosa manifestação de homenagem a que o atingido assistiu com enorme aprazimento e contentamento, só percebendo no final que era o protagonista visado naquela memorável Assembleia.
O acto passou-se no Teatro Anatómico, para tal profusamente ornamentado e engalanado pelos rapazes, tomando o inocente homenageado o seu lugar de honra nas doutorais, com a assistência dos novos doutores, representantes das várias Universidades e Academias do país e do estrangeiro, das autoridade e figuras representativas que, em grande número, intensa alegria e satisfação, colaboraram na sessão a que davam o brilho da sua presença, entre as desafinações duma charanga académica, adrede preparada para a cerimónia.
Famosos os vários discursos pronunciados, entre os quais um em latim macarrónico, no género do palito métrico, pronunciado, suponho eu, por Scipião de Carvalho, o endiabrado boémio cujas graciosas partidas académicas mereciam relato especial e que com o meu condiscípulo José Guedes, ainda hoje apaixonado cultor das sentenças latinas com que abrilhanta a sua conversa animada, discípulos do Pe. António Pereira no afamado Colégio dos Roseirais que este dirigiu em Lamego.
Os esfusiantes comentários da assembleia, entusiástica, ruidosa e alegre, os aplausos, as gargalhadas espontâneas e sonoras da assistência, as notas estrídulas e vibrantes da charanga sublinhando as várias peripécias da cerimónia, as manifestações álacres da mocidade atingem o rubro quando é feita a entrega do diploma honorífico, com todas as suas fitas, selos e predicados ao novo e original doutor que só então atinge o objectivo de tão movimentada e aparatosa sessão.
Inolvidável o abraço final dos padrinhos: ela dama distinta, paramentada a rigor, na pitoresca viela dos Gatos, fronteiriça à Escola; ele, engalanado com todas as suas condecorações, pomposo e aprumado, ostentando brilhante, alva e luzidia a pera a parodiar a do seu afilhado.
No auge da comoção, ao cingir o paraninfo no simbólico abraço de Minerva, a madrinha trinca, mastiga e engole com delírio metade da pera do padrinho, que por sinal era de doce, bem disfarçados por entre as suíças os fios que a mantinham no seu lugar próprio.
Tudo isto não é mais que uma pálida e desbotada reminiscência do muito que presenciei e do que se passou nessa grandiosa e memorável sessão e do pouco e confuso que a minha memória retém, a cerca de meio século de distância, dum acto em que à originalidade do conceito se aliava uma opulência de pormenores e de facécias, no propósito sadio, alegre e inofensivo de focar um acontecimento único na história jocosa da Academia Portuense.
Tão correcta foi e tão graciosa que o novo e original doutorado, a princípio indiferente, embora interessado, se considerou lisonjeado e nada agastado com a elevada honra académica prestada à sua forçada assiduidade escolar.
Sirvam estas despretenciosas evocações de traço espiritual de união entre todos aqueles, e bastantes ainda são, que viveram esse inesquecido e alegre momento da sua vida académica e dela conservam perduráveis e gratíssimas recordações.
A outra do mesmo género, pomposa, mas bem mais cáustica homenagem, me foi dado assistir em 1902 na qualidade de incógnito, como substituto de medicina que era então.
Foi a formidável “charge” ao apregoado específico contra a tuberculose – “Badiana fosfatada de Sued” (Deus) – que os académicos crismaram ironicamente de Badiana sulfatada de uva preta, poderoso microbicida do médico Quinterra, conselheiro da Majestade, facultativo desonorário do Hospital de Santo António, etc., etc. e de que os promotores distribuiam pela assistência pequenos frascos com as indicações: Para uso interno às camadas. Preço segundo as praxes.
Esta contundente rubrica motivou o aparecimento dum poemeto A Banana da Suécia da autoria do meu condiscípulo saudoso, Dr. Manuel Augusto de Queiroz e Castro, poeta repentista, satírico e irónico, cujo espírito e talento, em plena ascensão, a morte abateu sob a forma duma infecção profissional aguda, roubando o infeliz moço ao carinho dos seus e à camaradagem dos condiscípulos e amigos que o estimavam.
Que a sua memória e a do “Dr. Lúcio Quinterra” por cuja boca fala, me perdoem a transcrição de alguns dos versos desse poemeto, alusivos ao custo da mercadoria, ao seu vistoso e sugestivo rótulo
Eu sou o hemorroidário D. Fiasco
Autor daquela sórdida mixórdia
Da qual, por obra de misericórdia
Estou vendendo a três mil reis o frasco!
Mas se for encomenda de espavento
Três, quatro frascos, cinco ou melhor seis
Então já a coisa, com abatimento
Pode ficar aí por dois mil reis!...
Agora quem quiser maior’s porções
Oito, dez frascos, doze ou cois assim,
Cada litro da choldra, quanto a mim,
Pode custar, o muito, dez tostões!!!
E se enfim apechinche for tão boa
Que me despeje um lote da fazenda,
Ficará cada pote da encomenda,
O muito, a arrebentar, por uma coroa!!!
...
Mas eu não durmo!! Para dar um corte
Da intrujice voraz no imundo tasco,
A cores fiz gravar em cada frasco
A imagem da Badiana em frente à Morte!
A Badiana, olímpica serena
Parece estar dizendo à morte crua,
– Nem mais um passo!!... Para trás, hiena!
Que vens cá tu fazer?!... olho da rua!!!
E a morte embaçada e confundida,
Assim a modos de quem está a perder,
Torcendo a negra boca, enraivecida
Parece resmungar... Vai-te coser!
...
Estão vivos, de saúde e em plena pujança de actividade muitos dos colaboradores dessa chistosa e cauterizante manifestação académica que o poemeto do meu querido condiscípulo sintetiza nos seguintes versos:
Em todo o caso, a lusa mocidade,
Por amor da justiça e não da esmola,
Mostrou ainda há pouco numa Escola
Tudo quanto me deve a Humanidade!
Ò que festa de truz! Que apoteose!
Como jamais a houve nas Espanhas!
Sua lembrança ainda me recose
E me baralha as húmidas entranhas!
Das mais longínquas terras atraídos,
Vieram, pelo cheiro do meu nome,
A par de vivos sábios conhecidos,
Outros muitos que a terra já consome!
Gente da Maia, do Hindustão, da Grécia,
Da Albânia, do Saará, de Mesão Frio
Desembarcaram no Porto, toda sécia,
Para honrar o sobrinho de meu brio!!?
...
A eles melhor do que a outrem convém fazer reviver algumas das peripécias mais famosas, em que o alvejado, considerado à rebelia, foi representado por um jumento coroado de louros.
Na Faculdade de Medicina em cujo teatro anatómico se desenrolou a hilariante apoteose, existem, no seu Museu Histórico, peças evocadoras da graciosa “charge”, nomeadamente os trágicos painéis com as descrições dos horríveis bichinhos da tuberculose e esse associado, a Badiana.
Limito-me pois aos excertos feitos e à reprodução do grupo cénico[4] em que o leitor facilmente identificará os componentes, como clínicos consagrados, sublinhando com um sentimento de saudade os desaparecidos, talvez sob o olhar fatídico da morte, convidada em recordação das vítimas imoladas à Badiana.
Por estes dois escorços bem se poderá aquilatar das manifestações académicas – cortejos, festas da pasta, encerramento de aulas, paródias, etc., – em que se expandia o espírito irrequieto, audaz e alegre da mocidade académica do meu tempo.
Se lhe juntarmos algumas zaragatas célebres como a do franquismo, récitas teatrais entre as quais “Os Filhos de Minerva” e “O Auto das três barcas” do nosso saudoso e sempre relembrado colega Dr. Campos Monteiro, manifestações várias de arte, como música, poesia, caricaturas, etc. teremos uma ideia do grau de actividade, cultura e sentimento dos académicos da minha geração e de quanto contribuiram para manter, perpetuar e honrar as tradições de galhardia da mocidade estudiosa superior de todos os tempos.
Destas várias exteriorizações do potencial académico em que todos os cursos da minha geração comparticiparam já como figurantes, já como manifestantes, espectadores animados ou ouvintes chalaceadores, nasceu essa estreita e viva camaradagem que a todos nos une e que afirmada em reuniões periódicas mais ou menos espaçadas mas sempre animadas, esfusiantes de graça e evocadoras de pequeninos nadas da vida académica relembrados e exaltados à categoria de acontecimentos notáveis, constitui uma das mais gratas recordações da nossa mocidade e um momento ansiosamente esperado para aliviar as agruras da nossa profissão.
O meu curso (1892) tem sido fiel a esta tradição e desde a primeira convocação (autoria de Queiroz e Castro):
Foi num magno concílio resolvido
Pelos melros portuenses cá do curso
Que opíparo jantar seja roído
Cá pela tropa em máximo concurso
...
procura manter esperto e vivo o fogo sagrado destas encantadoras reuniões, embelezando-as e aureolando-as com os possíveis actos de benemerência a favor das famílias desprotegidas de condiscípulos falecidos.
Infelizmente a matéria prima destas reuniões vai rareando e prejudicando com mágoa a sua encantadora finalidade e ao terminar este singelo relato das minhas reminiscências académicas, não devo deixar de me referir ao último desaparecido após a reunião em 25 de Maio transacto.
Foi o Dr. Aguiar Cardoso que deve ser rememorado entre os mais brilhantes académicos da minha geração e do meu curso, e que só por si o honra e enche de prestígio e solidariedade, pois que académico cheio de originalidade e de bom senso – razão porque o cognominava de filósofo – foi um distinto e laureado cultor e compositor musical, um clínico eminente, polemista invulnerável, arqueólogo activo, apaixonado e sabedor na valorização da sua terra, terras de Santa Maria e seu famoso Castelo, um amigo e paladino dos pobres por cuja assistência se bateu com denodo, e acima de tudo, para nós, um camarada amigo, apreciador entusiasta das nossas reuniões e do nosso convívio.
Focando-o rapidamente, neste momento, sintetizo os valores da minha geração em um dos seus lídimos e superiores representantes, o último falecido[5] e saudosamente rememorado – o Dr. António Augusto de Aguiar Cardoso.
Porto, 22 de Março de 1937
ALBERTO DE AGUIAR
[1] De facto a crise do Ultimatum só começou em Janeiro de 1890. Deve haver confusão com o ano lectivo 1889/90.
[2] Refira-se que Reis Santos foi também regente da Tuna (Porto Académico, n.º único de 1937, pág. 33).
[3] [Nota original:] Na revisão deste artigo em 31 de Março fui dolorosamente surpreendido pela notícia brutal do falecimento de Castro Soares o condiscípulo querido que deu brado na Academia pela energia, nobreza e ímaculabilidade do seu carácter e que armado na vida pública com tais virtudes conseguiu a reforçada indepêndencia concelhia de Espinho, a admiração respeito e alta consideração dos seus conterrâneos e a estima e a gratidão dos seus doentes pela muita bondade, dedicação e saber do seu culto profissional.
[4] A versão original deste texto vem acompanhada de uma fotografia, que aparece também acima neste blogue, na primeira imagem da entrada O "Dr. Quinterra".
[5] [Nota original:] Já não é, pois posteriormente, como aludi em nota anterior, Castro Soares, outro grande e belo espírito, transpôs as fronteiras da Eternidade, talvez a reconciliar-se com Aguiar Cardoso neutralizando a repulsa resultante do choque de dois sonhos animado do mesmo mais alto potencial de simpático jornalismo.
terça-feira, 20 de abril de 2010
O edifício da Escola Médica

[Bilhete postal dos últimos tempos da Monarquia (o meu exemplar tem uma mensagem datada de 23/9/1910), da série Estrela Vermelha, de Carlos Pereira Cardoso.]
Durante perto de 50 anos, a Escola Médico-Cirúrgica do Porto (fundada em 1836) funcionou na ala nascente-sul do Hospital de Santo António (onde tinha já funcionado a sua antecessora, a Régia Escola de Cirurgia do Porto, fundada em 1825). Foi só por volta de 1884 que passou para um edifício próprio.
Este edifício foi depois substituído por outro, maior, no mesmo local, onde hoje ainda funciona o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar.
terça-feira, 13 de abril de 2010
A Homenagem
[Sá d’Albergaria, O segredo do Eremita, vol. 3, 1902, págs. 38-41, 67-82.
Como já foi dito acerca d'"O Café Lisbonense", O segredo do Eremita é um romance, mas o autor chama-lhe "romance de costumes" e diz no prefácio que "os seus personagens existiram" e "tudo que aí se conta sucedeu" (vol. 1, 1902, págs. 6-7). Sou bastante céptico relativamente à veracidade da estória aqui contada. No entanto, não me parece de todo irrelevante uma estória passada num meio estudantil, apresentada pelo autor como verdadeira – inspirando-se possivelmente em situações e ambientes reais.]
[...] o estudante [Roberto] entrou no Lisbonense seriam oito horas da noite.
- Ora ainda bem! Ainda bem que apareces! - gritaram algumas vozes, saídas de um grupo de rapazes sentados à volta de uma mesa, ao centro da sala.
- Então o que há?
- Há que vamos fazer uma patuscada de mão cheia e é preciso que não faltes.
- Eu afianço-o! Este é dos nossos, não falta! - exclamou o Veiga, na sua voz de stentor. E acrescentou logo: - Ponha para aqui um charuto!
Antes, porém, que Roberto tivesse tempo de lho dar ou de o recusar, já o Veiga lhe introduzia a mão no bolso e se apoderava do charuto.
- Este é rico, este é proprietário... pode bem com a multa... Não é como vocês, seus pelintras, que só fumam cigarros de oito... É dos de trinta e Flor de Creta - continuava, admirando-o, antes de o acender.
- Mas vamos a saber... De que se trata?
- Trata-se de glorificar um poeta, oferecendo-lhe uma ceia.
- Uma ceia?
O Joaquim d’Araújo, com um sorriso meio aberto, meio fechado, que lhe dá à boca o aspecto rugoso de uma rosa de Alexandria, explicou com voz melíflua:
- Sim. Existe aí um poeta assombroso, um poeta piramidal, que se chama o sr. Anastácio Gomes... Ora este poeta queixa-se de que não é suficientemente apreciado o seu estro; e nós resolvemos oferecer-lhe um banquete lauto... isto é... encher-lhe a barriga, coisa de que ele muito precisa em verdade, e por fim entoar-lhe um hino... Já fizemos o cálculo e deita a coisa, com troça e tudo, lá para dez tostões por cabeça... o banquete é de cinquenta talheres; mas o nosso poeta não paga nada.
- Deve ser uma noite cheia! - observou o Paranhos.
- Já se encomendou uma coroa de cascas de alhos para lhe ser oferecida no fim...
- Mas quem é esse Anastácio Gomes?
- É um parvo que faz versos muito engraçados, pelas calinadas monumentais de que os recheia.
- Mas ele em que se ocupa? - insistiu Roberto, cada vez mais interessado em saber quem fosse a vítima daquela brincadeira de rapazes, por suspeitar que o Anastácio Gomes se relacionasse de perto com o primo das Gomes, seu rival e proposto noivo de Camila.
- É um súcio que se emprega no comércio, onde parece que não está mal, mas que tem a mania de ser poeta.
- É do Porto?
- É. Chamam-lhe até o Primo das Gomes, porque está sempre a falar nas suas primas Gomes - umas seresmas que prometeram deixá-lo herdeiro quando morressem...
- Ah! Tenho ouvido falar.
- Mas vamos a saber, podemos contar contigo?
- Talvez... Amanhã darei resposta.
- Não senhor! Há de ser hoje... porque é preciso que tudo fique combinado.
- Pois bem, contem comigo.
- Viva! - bradaram todos os rapazes alegremente.
- Olha que hás de botar discurso, ouviste? - preveniu o Bonga. - Olha que o discurso é obrigado...
- É verdade - afirmou o Joaquim d’Araújo - o poeta também recita... Eu comprometo-me a fazê-lo recitar... Isso vai ser muito bom! [...]
[ Entretanto, Roberto fala a Camila da “homenagem” ]
A ceia tinha sido encomendada no restaurante conhecido pela denominação da D. Ana das ... gordas, em Entre-Paredes.
O avultado seio da proprietária, uma mulher quarentona, mas ainda fresca, tanto quanto o pode ser uma mulher nessa idade, robusta e nutrida, tinha dado ao retaurante e à D. Ana a denominação comum.
Esse restaurante, que já hoje pertence a novo proprietário, conserva ainda agora a antiga denominação; e posto a tabuleta o anuncie aos transeuntes como Restaurante Português, o certo é que o boémio portuense desse tempo não o conhece senão pelo Restaurante da D. Ana das ... gordas.
Omite-se por um resto de amor à decência... escrita, o que a decência falada nas ruas do Porto repete em voz alta.
As reticências não se fizeram para outra coisa, senão para servirem de parra à nudez, às vezes mais que paradisíaca, de certas frases ou fórmulas populares.
Vamos adiante.
É o Restaurante da D. Ana um amplo barracão de madeira, que outrora foi construído para servir de vacaria e que mais tarde foi convertido em restaurante.
À entrada, sob uma ramada, ao ar livre, estão colocadas algumas mesas toscas de madeira que, nas noites calmosas, são preferidas pelos frequentadores.
E no mesmo plano, divididas por frágeis tapamentos de madeira, há duas ou três salas bastante espaçosas, com umas mesas sempre sujas e escassamente iluminadas a gás.
O resto do edifício subdivide-se em quartos reservados, com a sua negra e suja cortina de chita a tapar-lhes a entrada e a vedar das vistas indiscretas o seu velho bico de gás saído da parede, a esclarecer a toalha nojentamente enodoada, estendida sobre a tábua de pinho assente em quatro pernas e pomposamente crismada com o nome de mesa.
Não era em nenhum dos quartos reservados, onde apenas podem estar à vontade duas pessoas - ainda que os bancos indicam lugar para quatro - que havia de ser servida a ceia.
Escolheram os rapazes a sala da entrada, à direita, por ser a mais espaçosa e a mais isolada de todas; e para aí se dirigiram às 10 horas da noite todos os convivas.
O Joaquim d’Araújo, que se encarregara do menu, dava ordem ao criado - um galego grosso e gordo - para que fosse dispondo a mesa, pois que o banquete, às 10 e meia em ponto, devia principiar com os convivas que estivessem.
- A hora marcada era para as 10 - dizia. - Concedemos meia hora de espera. Quem chegar mais tarde entrará na altura em que estiver o banquete.
O Veiga, fazendo sempre muito barulho, intrometia-se nas atribuições do Araújo e dava ordens ao criado.
- Ò Juan! Ò Romão! Ò galego! - berrava ele - E vinho! Vê lá, deita bastante vinho nessa água, ouviste?
- Meus senhores, - disse o Araújo aos convivas já reunidos - proponho que façamos as coisas com a solenidade e respeito devido ao eminente vulto que pretendemos honrar neste banquete. Acho para isso indispensável que se nomeie uma comissão que vá receber à porta e introduza na sala do festim o poeta extraordinário que vem proporcionar-nos a mais bela noite que ainda temos passado desde que somos gente de andar de noite!
- Apoiado! Apoiado! - bradaram várias vozes.
- Vejo com muito prazer - continuou o Araújo, com voz macia, de ronha espirituosa - que sou secundado pelos meus ilustres companheiros neste sentimento de respeito e admiração que nutro pelo favorito das Musas que hoje desce até nós! Proponho, portanto, que a comissão se componha dos senhores...
- Eu quero ser da comissão! - berrou o Zé Veiga. - Eu e o Monstro... Tu queres, ò Monstro?
- Valeu! - respondeu o Monstro, com voz nasal
- Bem! Já há dois... quantos são precisos?
- Pelo menos três... - redarguiu o Joaquim de Araújo - três são da praxe.
- Quem há de ser? - Interrogou o Veiga, circunvagando os olhos pelos circunstantes - Hás-de ser tu, Roberto! - disse ele.
- Eu não, não conheço o poeta, e não desejo atrair sobre a minha humilde individualidade o seu divino olhar... Tenho medo de fazer loucuras sob a irradiação ardente do seu estro inspiradíssimo... Reconhecendo-me pequeno ao lado dele, receio arrancar-lhe a lira das unhas e... partir-lha na cabeça!
- Pode, se quiser, fazer isso no fim... Mas primeiro deixe-lhe encher a barriga... - advertiu o Bonga.
- Que coma à vontade... essa é boa!
- Venha o Queirós Veloso! - intimou o Veiga.
- Pronto! - disse o Veloso - Eu não posso recusar-me a honrar a Besta nacional na figura do mais alto e ilustre poeta que os comunicados a pataco a linha jamais cantaram em suas colunas!
Organizada a comissão, foi ela postar-se à porta.
- Rapazes! - disse o Veiga, voltando à sala - não se arranjará por aí uma campainha?
- Para quê?
- Essa é boa! Quero tê-la na mão para a tocar em sinal de aviso, logo que o poeta dê entrada no templo...
- Essa é boa! - bradaram alguns.
O Veiga continuou:
- Logo que ouçam o primeiro repique, vocês levantem-se... hein? E em chegando à porta da sala repico com mais força... Então vocês, de pé, ou em cima dos bancos, entoam a Maria Cachucha... Valeu?
- Ò diabo! Mas isso será forte!
- Qual forte! - tornou o Veiga. Depois dele cá estar denttro, há-de cantar e dançar enquanto nós comemos... e no fim... come ele!
- Nada; não senhor!... Seriedade, seriedade... - recomendava o Araújo - Nada de ferir a sentimentalidade do poeta a ponto de o fazer chorar...
- Mas ao menos podemos recebê-lo com um hino? - insistiu o Veiga.
- Vocês sabem o coro da taberna do Roberto do Diabo? - inquiriu o Araújo.
- Nada de Roberto... Música portuguesa... Canta-se a Maria da Fonte! - gritou belicosamente o Veiga.
- Voto pela Cachucha! É mais lírica e mais expressiva! - observou um.
- Está dito! Seja a Cachucha! - aprovaram outros.
Enquanto isto se passava no Restaurante, o poeta Anastácio Gomes, prevenido pela carta de Camila, escoava-se surrateiramente do Lisbonense e, cosido com as paredes das casas, procurava o seu domicílio.
- Que grandes pandilhas! - murmurava ele. - Vá lá um homem fiar-se nestes bandidos que não têm talento nenhum e que não suportam que os outros o tenham! [...]
Dez horas e meia dadas e o poeta sem aparecer. Começavam os convivas já todos reunidos a inquietar-se.
- O homem tarda! - disse o Araújo, vindo à porta.
- Assim que ele chegar, ferro-lhe um ponta-pé - bradava o Veiga furioso, - para o ensinar a ser mais delicado para outra vez!
- O melhor - optou o João Novais - é dar princípio ao banquete... E se o homem vier até à sobremesa, come; senão, quando chegarmos ao fim, nomeia-se uma comissão que o vá procurar e que o traga aqui, vivo ou morto, a dar explicações... Não vale a pena deixar arrefecer o bacalhau!
- Sim, vamos ao bacalhau! - clamaram várias vozes.
Sobre a mesa foram postas três enormes travessas de bacalhau cozido com batatas e ovos.
- Vamos, meus senhores! - comandou o Araújo. - Está aberta a sessão... Os cavalheiros que preferirem boroa não têm mais do que prevenir o criado...
- Venha a boroa! - berrou o Bonga. - Quem diabo é que come bacalhau cozido com pão de trigo? Isso não é para mim, transmontano, que não preciso do molete dos tripeiros para ser filho de boa família!
O galego trouxe uma enorme boroa, que os rapazes desfizeram e deglutiram com uma voracidade de corvos sobre animal morto.
- Eia! Isto sim! Isto é que é banquete! - berrava um.
- Pedaço de asno de poeta! - gritava outro - Perder a ocasião de tirar o ventre de misérias! Não apanha outra em toda a sua vida!
- E então o vinho? - exigiu o Veiga - Isto vai a seco?
- É verdade! - clamou o Araújo - Rapaz! Serve o néctar dos deuses a estes senhores!
O galego, atarantado com a vozearia infernal dos estudantes, corria de um lado para o outro, já trazendo um talher, já um guardanapo, e gritando sempre:
- Pronto!
Foi trazido um garrafão de vinho, e as canecas cheias eram prontamente despejadas pela rapaziada.
Os ditos alegres esfusiavam, as gargalhadas estrugiam, e de vez em quando uma voz bradava:
- O pulha do poeta não vem! Mal sabe o que perdeu!
Do bacalhau cozido com batatas passara-se à pescada cozida, à pescada frita, aos bolinhos de bacalhau, a toda essa comezaina indigesta que só o estômago de rapazes pode suportar vitoriosamente numa noite de patuscada.
A esta pândega, pretexto para algumas horas de alegre convívio por pouco dinheiro, chamara o Araújo pomposamente - um banquete.
No fim, quando as travessas vazias davam lugar aos vinhos finos do Armazém da Estrela a dois tostões a garrafa, com os quais vinhos se faziam brindes de valor extraordinário pelo bom humor que os ditava, o Paranhos propôs que uma comissão fosse procurar o poeta e, fazendo-lhe compreender quanto a sua ausência fora notada e sentida, ali o levasse morto ou vivo, afim de ver com seus próprios olhos e ouvir com os seus ouvidos tudo quanto o seu alto génio inspirava de admiração e respeito àquela mocidade ardentemente entusiasta pelos maus versos e pelas boas orelhas.
Muito aplaudido o Paranhos, a cuja cara inimitável o vinho ia dando uma expressão cada vez mais picaresca, nomeou-se a comissão.
- Conservemo-nos em sessão permante, esperando a vinda do poeta... - propôs um.
- Como se disseramos a vinda do Messias! - acrescentou outro.
- Venha o poeta! Urge que o glorifiquemos! - bradaram várias vozes.
- Amigos e companheiros! - berrou o Veiga, que era um dos da comissão - aqui vos juramos solenemente, pelo vinho do Armazém da Estrela que, para o preço, vamos lá que não é má pinga, que não voltaremos aqui sem o poeta ou quem quer que seja que o represente!
E voltando-se para o grupo dos comissionados:
- Vamos!
- Hurra! - bradaram os convivas tocando os copos.
Passado um quarto de hora, o Veiga reentrou na sala e, impondo silêncio com um gesto, falou assim:
- Senhores e companheiros: não tendo podido haver às mãos o poeta Anastácio Gomes, o puro e autêntico Anastácio, em cuja honra esta festa é, eu e os meus colegas, vossos comissionados, tomámos o alvitre de o fazer representar aqui por um indivíduo da sua família e, posto que algum tanto dissimilhante na figura, perfeitamente igual a ele no engenho e arte e talvez mais que ele admirável na grande voz com que soe cantar o vasto poema de seus anelos e de seus amores! Ei-lo!
E apontando para a porta da entrada, apresentou aos circunstantes um magro jumento, em pelo, que, ladeado pelo resto da comissão descoberta e em atitude respeitosa, dava entrada na sala.
- De pé! De pé! - intimou o Veiga com voz de stentor, agitando os braços hercúleos. - De pé e entoemos o hino!
Chegou o burro até á mesa e estacou.
Os estudantes, de pé sobre os tamboretes e empunhado os copos, berraram furiosamente umas coplas que o Araújo havia composto e adaptado à música de um hino antigo que a companhia do Dallot cantava nas Carmelitas.
Fosse pelo efeito das luzes e pelo cheiro do vinho, fosse animado pela gritaria dos estudantes, o certo é que no fim da cantata o asno rompeu num zurro atroador e prolongado.
- Bravo, poeta! Bravo, Anastácio Gomes! - berravam os estudantes todos à uma, batendo as palmas.
E acto contínuo, o Araújo, grave e solene, pegou na coroa de cascas de alhos e aureolou com ela a cabeça do animal, bradando:
- Glória ao burro!
Nova e mais ruidosa gargalhada.
O motim dos estudantes havia atraído às portas da sala os criados do restaurante e os frequentadores curiosos de verem que pagode era aquele. E todos riam a bandeiras despregadas desta extravagância dos endemoinhados rapazes.
De repente um vulto alto, esguio e pálido, sinistramente entrajado de preto, sobrecasaca, chapéu alto amassado em partes e bengala de cana da Índia na mão, entra na sala e, dominando o tumulto, brada com voz cava, roucamente diabólica:
- Eu sou Falstaff!
E sem mais preâmbulos, cavalga o burro, bate-lhe com os calcanhares na barriga, dá-lhe um murro nas orelhas para lhe imprimir direcção e sai.
Era Alfredo Carvalhais, o poeta impecável, o boémio da penumbra, que o acaso levara ali nos caprichos da embriaguez.
A estudantada no auge do entusiasmo, saudou o poeta da Beatrice com aplausos ardentíssimos e vivas prolongados. E vendo-o partir pela porta fora, naquela burlesca atitude de Apolo cavalgando o Pégaso, seguiu atrás dele entoando um hino patriótico.
A patuscada findou na Batalha para não ir findar no Aljube.
Como já foi dito acerca d'"O Café Lisbonense", O segredo do Eremita é um romance, mas o autor chama-lhe "romance de costumes" e diz no prefácio que "os seus personagens existiram" e "tudo que aí se conta sucedeu" (vol. 1, 1902, págs. 6-7). Sou bastante céptico relativamente à veracidade da estória aqui contada. No entanto, não me parece de todo irrelevante uma estória passada num meio estudantil, apresentada pelo autor como verdadeira – inspirando-se possivelmente em situações e ambientes reais.]
[...] o estudante [Roberto] entrou no Lisbonense seriam oito horas da noite.
- Ora ainda bem! Ainda bem que apareces! - gritaram algumas vozes, saídas de um grupo de rapazes sentados à volta de uma mesa, ao centro da sala.
- Então o que há?
- Há que vamos fazer uma patuscada de mão cheia e é preciso que não faltes.
- Eu afianço-o! Este é dos nossos, não falta! - exclamou o Veiga, na sua voz de stentor. E acrescentou logo: - Ponha para aqui um charuto!
Antes, porém, que Roberto tivesse tempo de lho dar ou de o recusar, já o Veiga lhe introduzia a mão no bolso e se apoderava do charuto.
- Este é rico, este é proprietário... pode bem com a multa... Não é como vocês, seus pelintras, que só fumam cigarros de oito... É dos de trinta e Flor de Creta - continuava, admirando-o, antes de o acender.
- Mas vamos a saber... De que se trata?
- Trata-se de glorificar um poeta, oferecendo-lhe uma ceia.
- Uma ceia?
O Joaquim d’Araújo, com um sorriso meio aberto, meio fechado, que lhe dá à boca o aspecto rugoso de uma rosa de Alexandria, explicou com voz melíflua:
- Sim. Existe aí um poeta assombroso, um poeta piramidal, que se chama o sr. Anastácio Gomes... Ora este poeta queixa-se de que não é suficientemente apreciado o seu estro; e nós resolvemos oferecer-lhe um banquete lauto... isto é... encher-lhe a barriga, coisa de que ele muito precisa em verdade, e por fim entoar-lhe um hino... Já fizemos o cálculo e deita a coisa, com troça e tudo, lá para dez tostões por cabeça... o banquete é de cinquenta talheres; mas o nosso poeta não paga nada.
- Deve ser uma noite cheia! - observou o Paranhos.
- Já se encomendou uma coroa de cascas de alhos para lhe ser oferecida no fim...
- Mas quem é esse Anastácio Gomes?
- É um parvo que faz versos muito engraçados, pelas calinadas monumentais de que os recheia.
- Mas ele em que se ocupa? - insistiu Roberto, cada vez mais interessado em saber quem fosse a vítima daquela brincadeira de rapazes, por suspeitar que o Anastácio Gomes se relacionasse de perto com o primo das Gomes, seu rival e proposto noivo de Camila.
- É um súcio que se emprega no comércio, onde parece que não está mal, mas que tem a mania de ser poeta.
- É do Porto?
- É. Chamam-lhe até o Primo das Gomes, porque está sempre a falar nas suas primas Gomes - umas seresmas que prometeram deixá-lo herdeiro quando morressem...
- Ah! Tenho ouvido falar.
- Mas vamos a saber, podemos contar contigo?
- Talvez... Amanhã darei resposta.
- Não senhor! Há de ser hoje... porque é preciso que tudo fique combinado.
- Pois bem, contem comigo.
- Viva! - bradaram todos os rapazes alegremente.
- Olha que hás de botar discurso, ouviste? - preveniu o Bonga. - Olha que o discurso é obrigado...
- É verdade - afirmou o Joaquim d’Araújo - o poeta também recita... Eu comprometo-me a fazê-lo recitar... Isso vai ser muito bom! [...]
[ Entretanto, Roberto fala a Camila da “homenagem” ]
O avultado seio da proprietária, uma mulher quarentona, mas ainda fresca, tanto quanto o pode ser uma mulher nessa idade, robusta e nutrida, tinha dado ao retaurante e à D. Ana a denominação comum.
Esse restaurante, que já hoje pertence a novo proprietário, conserva ainda agora a antiga denominação; e posto a tabuleta o anuncie aos transeuntes como Restaurante Português, o certo é que o boémio portuense desse tempo não o conhece senão pelo Restaurante da D. Ana das ... gordas.
Omite-se por um resto de amor à decência... escrita, o que a decência falada nas ruas do Porto repete em voz alta.
As reticências não se fizeram para outra coisa, senão para servirem de parra à nudez, às vezes mais que paradisíaca, de certas frases ou fórmulas populares.
Vamos adiante.
É o Restaurante da D. Ana um amplo barracão de madeira, que outrora foi construído para servir de vacaria e que mais tarde foi convertido em restaurante.
À entrada, sob uma ramada, ao ar livre, estão colocadas algumas mesas toscas de madeira que, nas noites calmosas, são preferidas pelos frequentadores.
E no mesmo plano, divididas por frágeis tapamentos de madeira, há duas ou três salas bastante espaçosas, com umas mesas sempre sujas e escassamente iluminadas a gás.
O resto do edifício subdivide-se em quartos reservados, com a sua negra e suja cortina de chita a tapar-lhes a entrada e a vedar das vistas indiscretas o seu velho bico de gás saído da parede, a esclarecer a toalha nojentamente enodoada, estendida sobre a tábua de pinho assente em quatro pernas e pomposamente crismada com o nome de mesa.
Não era em nenhum dos quartos reservados, onde apenas podem estar à vontade duas pessoas - ainda que os bancos indicam lugar para quatro - que havia de ser servida a ceia.
Escolheram os rapazes a sala da entrada, à direita, por ser a mais espaçosa e a mais isolada de todas; e para aí se dirigiram às 10 horas da noite todos os convivas.
O Joaquim d’Araújo, que se encarregara do menu, dava ordem ao criado - um galego grosso e gordo - para que fosse dispondo a mesa, pois que o banquete, às 10 e meia em ponto, devia principiar com os convivas que estivessem.
- A hora marcada era para as 10 - dizia. - Concedemos meia hora de espera. Quem chegar mais tarde entrará na altura em que estiver o banquete.
O Veiga, fazendo sempre muito barulho, intrometia-se nas atribuições do Araújo e dava ordens ao criado.
- Ò Juan! Ò Romão! Ò galego! - berrava ele - E vinho! Vê lá, deita bastante vinho nessa água, ouviste?
- Meus senhores, - disse o Araújo aos convivas já reunidos - proponho que façamos as coisas com a solenidade e respeito devido ao eminente vulto que pretendemos honrar neste banquete. Acho para isso indispensável que se nomeie uma comissão que vá receber à porta e introduza na sala do festim o poeta extraordinário que vem proporcionar-nos a mais bela noite que ainda temos passado desde que somos gente de andar de noite!
- Apoiado! Apoiado! - bradaram várias vozes.
- Vejo com muito prazer - continuou o Araújo, com voz macia, de ronha espirituosa - que sou secundado pelos meus ilustres companheiros neste sentimento de respeito e admiração que nutro pelo favorito das Musas que hoje desce até nós! Proponho, portanto, que a comissão se componha dos senhores...
- Eu quero ser da comissão! - berrou o Zé Veiga. - Eu e o Monstro... Tu queres, ò Monstro?
- Valeu! - respondeu o Monstro, com voz nasal
- Bem! Já há dois... quantos são precisos?
- Pelo menos três... - redarguiu o Joaquim de Araújo - três são da praxe.
- Quem há de ser? - Interrogou o Veiga, circunvagando os olhos pelos circunstantes - Hás-de ser tu, Roberto! - disse ele.
- Eu não, não conheço o poeta, e não desejo atrair sobre a minha humilde individualidade o seu divino olhar... Tenho medo de fazer loucuras sob a irradiação ardente do seu estro inspiradíssimo... Reconhecendo-me pequeno ao lado dele, receio arrancar-lhe a lira das unhas e... partir-lha na cabeça!
- Pode, se quiser, fazer isso no fim... Mas primeiro deixe-lhe encher a barriga... - advertiu o Bonga.
- Que coma à vontade... essa é boa!
- Venha o Queirós Veloso! - intimou o Veiga.
- Pronto! - disse o Veloso - Eu não posso recusar-me a honrar a Besta nacional na figura do mais alto e ilustre poeta que os comunicados a pataco a linha jamais cantaram em suas colunas!
Organizada a comissão, foi ela postar-se à porta.
- Rapazes! - disse o Veiga, voltando à sala - não se arranjará por aí uma campainha?
- Para quê?
- Essa é boa! Quero tê-la na mão para a tocar em sinal de aviso, logo que o poeta dê entrada no templo...
- Essa é boa! - bradaram alguns.
O Veiga continuou:
- Logo que ouçam o primeiro repique, vocês levantem-se... hein? E em chegando à porta da sala repico com mais força... Então vocês, de pé, ou em cima dos bancos, entoam a Maria Cachucha... Valeu?
- Ò diabo! Mas isso será forte!
- Qual forte! - tornou o Veiga. Depois dele cá estar denttro, há-de cantar e dançar enquanto nós comemos... e no fim... come ele!
- Nada; não senhor!... Seriedade, seriedade... - recomendava o Araújo - Nada de ferir a sentimentalidade do poeta a ponto de o fazer chorar...
- Mas ao menos podemos recebê-lo com um hino? - insistiu o Veiga.
- Vocês sabem o coro da taberna do Roberto do Diabo? - inquiriu o Araújo.
- Nada de Roberto... Música portuguesa... Canta-se a Maria da Fonte! - gritou belicosamente o Veiga.
- Voto pela Cachucha! É mais lírica e mais expressiva! - observou um.
- Está dito! Seja a Cachucha! - aprovaram outros.
- Que grandes pandilhas! - murmurava ele. - Vá lá um homem fiar-se nestes bandidos que não têm talento nenhum e que não suportam que os outros o tenham! [...]
- O homem tarda! - disse o Araújo, vindo à porta.
- Assim que ele chegar, ferro-lhe um ponta-pé - bradava o Veiga furioso, - para o ensinar a ser mais delicado para outra vez!
- O melhor - optou o João Novais - é dar princípio ao banquete... E se o homem vier até à sobremesa, come; senão, quando chegarmos ao fim, nomeia-se uma comissão que o vá procurar e que o traga aqui, vivo ou morto, a dar explicações... Não vale a pena deixar arrefecer o bacalhau!
- Sim, vamos ao bacalhau! - clamaram várias vozes.
Sobre a mesa foram postas três enormes travessas de bacalhau cozido com batatas e ovos.
- Vamos, meus senhores! - comandou o Araújo. - Está aberta a sessão... Os cavalheiros que preferirem boroa não têm mais do que prevenir o criado...
- Venha a boroa! - berrou o Bonga. - Quem diabo é que come bacalhau cozido com pão de trigo? Isso não é para mim, transmontano, que não preciso do molete dos tripeiros para ser filho de boa família!
O galego trouxe uma enorme boroa, que os rapazes desfizeram e deglutiram com uma voracidade de corvos sobre animal morto.
- Eia! Isto sim! Isto é que é banquete! - berrava um.
- Pedaço de asno de poeta! - gritava outro - Perder a ocasião de tirar o ventre de misérias! Não apanha outra em toda a sua vida!
- E então o vinho? - exigiu o Veiga - Isto vai a seco?
- É verdade! - clamou o Araújo - Rapaz! Serve o néctar dos deuses a estes senhores!
O galego, atarantado com a vozearia infernal dos estudantes, corria de um lado para o outro, já trazendo um talher, já um guardanapo, e gritando sempre:
- Pronto!
Foi trazido um garrafão de vinho, e as canecas cheias eram prontamente despejadas pela rapaziada.
Os ditos alegres esfusiavam, as gargalhadas estrugiam, e de vez em quando uma voz bradava:
- O pulha do poeta não vem! Mal sabe o que perdeu!
Do bacalhau cozido com batatas passara-se à pescada cozida, à pescada frita, aos bolinhos de bacalhau, a toda essa comezaina indigesta que só o estômago de rapazes pode suportar vitoriosamente numa noite de patuscada.
A esta pândega, pretexto para algumas horas de alegre convívio por pouco dinheiro, chamara o Araújo pomposamente - um banquete.
No fim, quando as travessas vazias davam lugar aos vinhos finos do Armazém da Estrela a dois tostões a garrafa, com os quais vinhos se faziam brindes de valor extraordinário pelo bom humor que os ditava, o Paranhos propôs que uma comissão fosse procurar o poeta e, fazendo-lhe compreender quanto a sua ausência fora notada e sentida, ali o levasse morto ou vivo, afim de ver com seus próprios olhos e ouvir com os seus ouvidos tudo quanto o seu alto génio inspirava de admiração e respeito àquela mocidade ardentemente entusiasta pelos maus versos e pelas boas orelhas.
Muito aplaudido o Paranhos, a cuja cara inimitável o vinho ia dando uma expressão cada vez mais picaresca, nomeou-se a comissão.
- Conservemo-nos em sessão permante, esperando a vinda do poeta... - propôs um.
- Como se disseramos a vinda do Messias! - acrescentou outro.
- Venha o poeta! Urge que o glorifiquemos! - bradaram várias vozes.
- Amigos e companheiros! - berrou o Veiga, que era um dos da comissão - aqui vos juramos solenemente, pelo vinho do Armazém da Estrela que, para o preço, vamos lá que não é má pinga, que não voltaremos aqui sem o poeta ou quem quer que seja que o represente!
E voltando-se para o grupo dos comissionados:
- Vamos!
- Hurra! - bradaram os convivas tocando os copos.
- Senhores e companheiros: não tendo podido haver às mãos o poeta Anastácio Gomes, o puro e autêntico Anastácio, em cuja honra esta festa é, eu e os meus colegas, vossos comissionados, tomámos o alvitre de o fazer representar aqui por um indivíduo da sua família e, posto que algum tanto dissimilhante na figura, perfeitamente igual a ele no engenho e arte e talvez mais que ele admirável na grande voz com que soe cantar o vasto poema de seus anelos e de seus amores! Ei-lo!
E apontando para a porta da entrada, apresentou aos circunstantes um magro jumento, em pelo, que, ladeado pelo resto da comissão descoberta e em atitude respeitosa, dava entrada na sala.
- De pé! De pé! - intimou o Veiga com voz de stentor, agitando os braços hercúleos. - De pé e entoemos o hino!
Chegou o burro até á mesa e estacou.
Os estudantes, de pé sobre os tamboretes e empunhado os copos, berraram furiosamente umas coplas que o Araújo havia composto e adaptado à música de um hino antigo que a companhia do Dallot cantava nas Carmelitas.
Fosse pelo efeito das luzes e pelo cheiro do vinho, fosse animado pela gritaria dos estudantes, o certo é que no fim da cantata o asno rompeu num zurro atroador e prolongado.
- Bravo, poeta! Bravo, Anastácio Gomes! - berravam os estudantes todos à uma, batendo as palmas.
E acto contínuo, o Araújo, grave e solene, pegou na coroa de cascas de alhos e aureolou com ela a cabeça do animal, bradando:
- Glória ao burro!
Nova e mais ruidosa gargalhada.
O motim dos estudantes havia atraído às portas da sala os criados do restaurante e os frequentadores curiosos de verem que pagode era aquele. E todos riam a bandeiras despregadas desta extravagância dos endemoinhados rapazes.
De repente um vulto alto, esguio e pálido, sinistramente entrajado de preto, sobrecasaca, chapéu alto amassado em partes e bengala de cana da Índia na mão, entra na sala e, dominando o tumulto, brada com voz cava, roucamente diabólica:
- Eu sou Falstaff!
E sem mais preâmbulos, cavalga o burro, bate-lhe com os calcanhares na barriga, dá-lhe um murro nas orelhas para lhe imprimir direcção e sai.
Era Alfredo Carvalhais, o poeta impecável, o boémio da penumbra, que o acaso levara ali nos caprichos da embriaguez.
A estudantada no auge do entusiasmo, saudou o poeta da Beatrice com aplausos ardentíssimos e vivas prolongados. E vendo-o partir pela porta fora, naquela burlesca atitude de Apolo cavalgando o Pégaso, seguiu atrás dele entoando um hino patriótico.
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