quarta-feira, 30 de março de 2011

Alguns programas da Queima das Fitas, por volta dos anos 60

Vêem-se abaixo imagens de alguns programas da Queima das Fitas da Universidade do Porto entre os anos de 1958 e 1970. Na parte da frente de cada um pode ver-se um dos desenhos concorrentes no concurso do cartaz da Queima desse ano (creio que algumas vezes, como em 1966, o vencedor e, noutros casos, um 2.º ou 3.º prémio [correcção, 6/5/2011: como se pode ver em Cartazes da Queima dos anos 60, também em 1966 o desenho usado para o programa não foi o vencedor do concurso do cartaz]). No verso (aqui apresentado ao lado) o programa propriamente dito.
O programa de 1958 tem 8 por 12cm. Os outros cerca de 10,5-11cm de largura por 14cm de altura.
As imagens dos programas de 1966, 1968, 1969 e 1970 foram retiradas de uma secção do Álbum de Memórias do Gabinete do Antigo Estudante da UP (um álbum muito interessante, a propósito). As outras são digitalizações de originais da minha colecção pessoal.









quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Quando foi a primeira Queima das Fitas?

Há umas semanas, consultando a página do Centenário da Universidade do Porto, reparei, na secção dedicada a 100 momentos importantes na vida da instituição, no texto A primeira “Queima das Fitas”, onde se diz erradamente que a primeira Festa da Pasta (precursora da Queima das Fitas) se realizou em 1920 (a bem dizer, o autor do texto levanta dúvidas sobre essa data, mencionando "outras fontes"; mas sem pormenores).[1]

Seguindo a única fonte apresentada, uma ligação para uma página da Federação Académica do Porto com uma pequena História da Queima das Fitas do Porto, deparei-me com a seguinte afirmação, que só pode ser classificada como disparate:
A história da Queima das Fitas no Porto não é muito mais recente que a de Coimbra, que se iniciou em 1919, pois já em 1920, os finalistas de Medicina da Universidade do Porto faziam a chamada “Festa da Pasta”, que é considerada a origem da Queima das Fitas do Porto.[2]

Vou tentar esclarecer, na medida do possível, esta questão das primeiras Queimas das Fitas - do Porto e de Coimbra.


O que significa "primeira Queima das Fitas"?

Mas faz sentido falar em "primeira Queima das Fitas"?
Quer a Queima das Fitas do Porto quer a de Coimbra são resultados de evoluções a partir de festas que hoje muitos não reconheceriam como Queimas das Fitas. Decidir que a primeira Queima das Fitas do Porto ou a primeira Queima das Fitas de Coimbra foi no ano x ou no ano y será sempre uma decisão arbitrária, dependente do que se considera uma Queima das Fitas:
- é necessário usar o nome "Queima das Fitas"?
- é necessário incluir um cortejo alegórico?
- é necessário ter um programa desenvolvido, ao longo de vários dias?
- é necessário abarcar todas as faculdades, ou basta uma? ou algumas?
Seja como for, deve ser evidente que não faz qualquer sentido aplicar critérios diferentes ao Porto e a Coimbra. Quem decidir que a primeira Queima de Coimbra foi em 1919 - o ano em que a Queima das Fitas foi pela primeira vez realizada em conjunto por todas as faculdades da Universidade de Coimbra - não pode dizer, sob pena de incoerência, que a primeira Queima do Porto foi antes dos anos 40.


Como e quando surgiu a Queima das Fitas de Coimbra?

No final do século XIX, entre os estudantes de Coimbra, os únicos que usavam pasta eram os finalistas - os quintanistas. Os estudantes de outros anos traziam habitualmente os livros e cadernos atados com uma fita, mais estreita do que as oito fitas largas das pastas de quintanista (é claro que a fita estreita é antepassada do grelo, mas não tinha ainda esse nome, não estava ainda associada a uma pasta, nem era exclusiva do 4.º ano).

Pormenor de uma fotografia do 3.º ano da Faculdade de Direito de Coimbra de 1890/91. (António Nunes, A Alma Mater Conimbrigensis na Fotografia Antiga, Coimbra: Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, 1990, n.º 26.)
A partir de alguma altura no final do século, os quartanistas da Faculdade de Direito começaram a celebrar o fim do ano queimando as suas fitas estreitas - já que no ano seguinte já não as usariam. Quando começou esse costume? Aparentemente depois das festas do Centenário de Camões, em 1881[3]. Alfredo Pratt, escrevendo em 1899, descreveu esta tradição como tendo já sido modificada: "ainda há pouco tempo" era costume as cinzas das fitas serem enterradas junto à Porta Férrea; mas entretanto o chão tinha sido asfaltado[4].

No fim de Maio de 1901, os quartanistas de Direito fizeram a Queima das Fitas: saíram às 14h do Pátio da Universidade num cortejo de vinte carros enfeitados, levando caloiros presos com as fitas - "fitas estreitas, de algodão, encarnadas (a cor de Direito) e que serviam para atar os livros"; às 15h30 chegaram ao Largo da Feira onde estava montado uma espécie de púlpito e aí emanciparam solenemente os caloiros; à noite queimaram as fitas no Largo da Sé Nova e depositaram as cinzas junto à Porta Férrea.
Em 1902 houve também uma Queima das Fitas de Medicina (separada da de Direito e utilizando um balão para queimar as fitas) e nos anos seguintes os quartanistas de ambos os cursos fizeram Queimas das Fitas, mas com bastantes falhas (por exemplo, em 1907 e 1908 não houve Queima nem de Direito nem de Medicina). Quando havia, à queima propriamente dita e ao cortejo associavam-se por vezes outros festejos: garraiada, tourada de caloiros ou latada, almoço ou merenda nalguma localidade perto de Coimbra. É de notar que havia outras festividades de fim de ano, independentes da Queima das Fitas, como latadas (por vezes independentes da Queima, por vezes associadas), Récitas de Despedida, ou a chamada Formatura dos Médicos; estas duas últimas, como é evidente, eram realizadas por finalistas (e talvez fosse mais apropriado chamar-lhes festividades de fim de curso do que de fim de ano), ao contrário da Queima das Fitas que, repita-se, era uma festa de quartanistas. [5]

Em 1918, pela primeira vez, Direito e Medicina fizeram uma Queima das Fitas conjunta. E em 1919 houve, pela primeira vez, uma Queima das Fitas dos quartanistas de todas as faculdades; neste ano um quintanista de cada faculdade entregou a um quartanista as fitas[6]. Algo semelhante seria costume? Em Junho de 1917 os quintanistas de Medicina tinham cedido as pastas com fitas aos quartanistas, no Hospital.

Nos anos seguintes (particularmente ao longo da década de 30) o programa vai aumentando e atraindo estudantes de outros anos: em 1931 há garraiada, um desafio de futebol e, a terminar, o cortejo; em 1932 os finalistas de Medicina realizam pela primeira vez a Venda da Pasta, com fins beneficentes, e usam pela primeira vez chapéus de coco e cartolas no cortejo; em 1935 há o primeiro Baile. Mas em 1919 o núcleo das festas estava formado e estendia-se a toda a universidade. [7]
Programa geral da Queima das Fitas de Coimbra de 1939.



Como e quando surgiu a Queima das Fitas do Porto?

No Porto, antes da criação da Universidade, só os quintanistas da Escola Médica usavam pastas - pastas de luxo, ricamente decoradas, com fitas amarelas e vermelhas (as cores da Escola Médica).

Duas pastas de quintanista da Escola Médica (e um bandolim) numa exposição organizada pelo Museu de História da Medicina Maximiano Lemos pelo Dia da FMUP de 2008. A fotografia está na página deste Museu.
Aqui surgiu o costume anual de um quintanista entregar uma pasta simbólica a um quartanista. Em 12 de Maio de 1901,
"Os alunos da Escola Médica festejam o encerramento das aulas com várias cerimónias académico-cómicas.

No momento da entrega da pasta simbólica ao quartanista Campos Monteiro, discursou, em latim bárbaro, o quintanista José Ferreira Viegas, terminando as hilariantes cerimónias com o coro dos sebastianistas, d'«O Burro do sr. Alcaide»."[8]

(Reproduzido do artigo de Ângelo Vaz, "Último curso do dr. Lebre", parte I, O Tripeiro, V série, ano VI (1950-1951), págs. 268-269. Esse artigo, que apareceu em várias partes nos anos VI e VII da V série d'O Tripeiro, foi também publicado em separata ainda em 1951.)
No ano seguinte, a 24 de Maio:
"Festa da entrega da pasta na Escola Médica, com os habituais chistosos discursos e foguetes de dez réis.
Campos Monteiro, quintanista, interroga Simões Pina, do 4.º ano:
- Antoine, credis in Medicina?
- Credo.
- Credis in Sanctam Matrem Charlatanorum?
- Credo.
- Credis in cura tuberculosis per Badiana Phosphatum?
- Credo.
- Vis esse doctor?
[- Volo.]
- Accipe pastam.
.[9]
e, findo o interrogatório, entregou a pasta ao examinando, que agradeceu a mercê num discurso cheio de graça.
Os quintanistas abriram e encerraram a festa, entoando, com letra apropriada ao acto, o coro da récita de despedida do Curso."[10]

Terão sido estas as duas primeiras vezes que se realizou a Entrega da Pasta? Não é certo, mas é provável que sim. Os quartanistas de 1900-1901, o chamado "último curso do Dr. Lebre" (porque foram os últimos a ter um célebre professor de anatomia, João Dias Lebre), certamente tinham iniciativa suficiente para lançar este costume. Foram eles que, já quintanistas, fizeram a primeira récita de despedida de estudantes do Porto ("Filhos de Minerva", farsa de Abílio Campos Monteiro - o quartanista que em 1901 recebeu e o quintanista que em 1902 entregou uma pasta simbólica - com música de Manuel Monterroso e Lima Elias).

Programa da Récita dos Quintanistas de Medicina do Porto de 1902, "Os Filhos de Minerva". (Reproduzido de Porto Académico, n.º único de 1962, pág. 36)
Seja como for, nos anos seguintes a Entrega da Pasta continuou a realizar-se. António de Almeida Garrett, que estudou na Escola Médica de 1901 a 1906 (mais tarde foi professor e director da Faculdade de Medicina) viria a recordar a Entrega da Pasta como uma das "duas festanças de todos os anos" (a outra era a entrada dos caloiros).[11]

Ainda assim, deve ter havido um intervalo de alguns anos em que a Entrega da Pasta não se realizou. Só assim consigo entender que José Corte Real, estudante na Escola Médica na passagem da Monarquia para a República, supusesse que este costume tinha aparecido no seu tempo[12]. Mesmo assim, vale a pena citar algumas passagens, descrevendo a Entrega da Pasta num dos iniciais da República:
"vou contar como nasceu no Porto o que hoje, à maneira coimbrã, se denomina «Queima das Fitas» e no vernáculo tripeiro «Festa da entrega da pasta».

[...] encomendou-se na «Papelaria Académica», nesse tempo instalada numa casa próxima do «Café Âncora de Ouro», uma pasta de papelão com cinquenta centímetros de comprimento por 30 de largura, com fitas amarelas e vermelhas, as cores da antiga Escola Médico-Cirúrgica de que fui aluno.

[...] compr[ou-se] uma dúzia de foguetes de dez réis, também chamados de três estalos. No dia seguinte, debaixo de uma das tílias que havia em frente da Escola [...] o Carlos Praça leu o discurso e a pasta foi entregue ao Miranda de Penafiel, aluno do quarto ano, do período transitório[13]. O Roberto tocou acordeão, queimaram-se os foguetes e... foi tudo. Seguimos depois até à baixa como que a dar o último passeio às nossas pastas e a dizer adeus à vida de estudante [...]"

Com mais ou menos falhas, a Entrega da Pasta deve ter continuado a realizar-se nos anos seguintes, na Faculdade de Medicina.

Em 1925, a 10 de Maio, o jornal Primeiro de Janeiro noticia a Entrega da Pasta, ou Festa da Pasta (os dois termos coexistem nos anos 20): às 9h Zés Pereiras e Gaiteiros; às 13h os estudantes, acompanhados de duas bandas de música, dirigem-se ao Cais da Ribeira para esperar um convidado - o inventor da Sanocrisina - que chega de caiaque; depois voltam todos em cortejo à Faculdade de Medicina; aí há discursos humorísticos, seguindo-se a entrega das pastas e dos grelos e a emancipação dos caloiros; para terminar, vinho, boroa, azeitonas e iscas.[14]
Esta notícia ilustra duas tendências nos anos 20: a entrega do grelo aos novos quartanistas, a acompanhar a da pasta com fitas aos novos quintanistas; e um certo elaborar do programa, com recepção a um "convidado" importante com comitiva (todos estudantes fantasiados, claro).
Em 1926 o Jornal de Notícias descreve a "tradicional Festa da Pasta" com um programa semelhante: Zés Pereiras, recepção ao dr. Escolas na futura Estação da Trindade, regresso à Faculdade em cortejo (vendo-se "as bandeiras e pendões das colectividades científicas de Figueirós dos Vinhos, Freixo de Espada à Cinta, Reguengos, etc."), seguindo-se a cerimónia da Entrega da Pasta e o "copo de água costumado".
Em 1927 a Festa da Pasta incluiu um cortejo nupcial, do Rito e da Rita (paródia a um caso de travestismo noticiado sensacionalisticamente pelo então célebre Repórter X[15]). Associadamente, houve logo no dia seguinte um passeio dos quintanistas ("novos médicos") a Vizela e outro dos "novos quintanistas" ao Bom Jesus do Monte, em Braga.[16]

Alguns dos "novos quintanistas" de Medicina de 1927 no Bom Jesus do Monte; e os "novos médicos" do mesmo ano, com os seus professores (Ilustração Moderna, 2.º ano, n.º 14 (Junho de 1927), págs. 338 e 340).


Os relatos jornalísticos (de jornais não académicos) sobre a Festa da Pasta são invariavelmente entusiásticos. No Porto Académico, edição de 31 de Maio de 1924 (pág. 8), aparece um apontamento num tom bem diferente, de insatisfação:
"Ainda não foi este ano que a festa da pasta atingiu o brilhantismo que seria para desejar. Veremos se para o ano se consegue que a cerimónia se não limite à Médica e nela tomam parte as outras faculdades..."
É natural que ocorresse a comparação com Coimbra onde, recorde-se, desde 1919 a Queima das Fitas realizada em conjunto por todas as faculdades.

Nos anos 30 dá-se finalmente um alargamento às outras faculdades, mas não em moldes de realização conjunta. Em vez disso, cada uma das outras faculdades (e também os institutos não universitários) passa a realizar a sua Festa da Pasta.
No Comércio do Porto de 28 de Maio de 1930 há relatos da Festa da Pasta nas Faculdades de Farmácia e de Letras; no Jornal de Notícias de 24 de Maio de 1931, no Instituto Superior de Comércio; no Primeiro de Janeiro de 19, 20, 23, 25 e 28 de Maio de 1933, respectivamente na Faculdade de Ciências, Instituto Superior de Comércio, Faculdade de Engenharia (também no Comércio do Porto de 21 de Maio), Faculdade de Farmácia e no Instituto Industrial e Comercial (antecessor dos actuais ISEP e ISCAP).
Ocasionalmente, nestes relatos jornalísticos há referências a uma queima do grelo. Por exemplo, na Festa da Pasta de Farmácia de 1930, no momento em que um quartanista dá a pasta a um terceiranista (o curso de Farmácia era então de 4 anos), é "queimado o grelo num fogareiro entre palmas vibrantes".
Já em 1927 o artigo acima citado do Comércio do Porto diz na introdução que os estudantes de Medicina promoveram a "festa da queima das fitas e entrega da pasta" - embora na descrição da festa refira apenas a "entrega da pasta aos estudantes que entraram no quinto ano".
Em 1940, o nome "Queima das Fitas" já aparece por vezes em alternativa a "Festa da Pasta": no Jornal de Notícias de Maio desse ano há referência à Queima das Fitas na Faculdade de Ciências (dia 10) e na Faculdade de Medicina (dia 14); mas na maioria das vezes fala-se ainda em Festa da Pasta (mesmo relativamente a essas duas faculdades).
Quanto aos "extras" do programa: parece ter desaparecido completamente a recepção a "convidados" importantes; mas mantêm-se os passeios a outras terras; e aparecem bailes e chás dançantes. Em 1934, o programa da Festa da Pasta de Ciências consiste na entrega das fitas e do grelo, em sessão solene, seguida de chá dançante, tudo isto no dia 17 de Maio, e num passeio a Aveiro nos dias 18 e 19[17]. Em 1938, o programa da Festa da Pasta de Medicina era mais desenvolvido: dia 16 de Maio - "queima do grelo"; 17 - "espantoso desafio de futebol"; 18 - "provável copo de água, provável matinée ou provável coisa nenhuma"; 19 - baile no Salão Nobre em honra do corpo docente; 20 - descanso; 21 - excursão a Braga e Guimarães[18].


Uma Festa da Pasta típica dos anos 30: Faculdade de Ciências, 1933, no Jornal de Notícias de 19 de Maio desse ano.

Nos anos 40 verificamos três tendências: a união das Festas da Pasta das quatro faculdades da UP, convergindo numa única festa (com total exclusão dos institutos); a realização, a partir de 1944, de um cortejo alegórico; o desaparecimento da expressão Festa da Pasta com a sua total substituição por Queima das Fitas. Estas três tendências não são independentes - as duas últimas são de clara inspiração coimbrã; e a primeira, se não necessitava absolutamente dessa inspiração e até já tinha ocorrido à mente de um redactor do Porto Académico em 1924, parece indispensável para o sucesso da segunda.
Em 1943 a Festa da Pasta foi realizada separadamente em cada faculdade mas, intencionalmente, no mesmo dia (14 de Maio). O Jornal de Notícias apresenta explicitamente esta simultaneidade como abrindo o caminho para a realização no Porto de uma Queima das Fitas semelhante à de Coimbra[19].
Em 1944, em grande parte por iniciativa de René Guimarães (estudante de Engenharia e impulsionador, em 1942-43, da reorganização definitiva do Orfeão Universitário do Porto) há o primeiro programa conjunto e o primeiro cortejo da Queima das Fitas do Porto, com carros de bois e carroças[20]. No entanto, esta Queima não teve continuidade imediata. Em 1945 as Queimas das Fitas de Medicina e Farmácia foram a 18 de Maio (e noticiadas no Primeiro de Janeiro do dia seguinte), enquanto a de Engenharia foi a 1 de Junho (noticiada no Comércio do Porto de dia 2); aparentemente não houve cortejo.
Quer em 1946 quer em 1947 houve cerimónias de Queima das Fitas simultâneas nas quatro faculdades, seguidas de cortejo único (no mesmo dia, as cerimónias começando às 14h ou 15h e o cortejo pelas 18h). Mas as notícias no Comércio do Porto, de 18 de Maio de 1946 e 16 de Maio de 1947, não referem nenhum número dum programa conjunto, a não ser o cortejo.
Em 1948 houve outra vez programa conjunto (o que foi apresentado como novidade em notícias do Comércio do Porto de 14 e 19 de Março), sendo a organização encabeçada por uma Comissão Central composta por um grelado de cada uma das quatro faculdades[21]. O programa, na versão publicada no Comércio do Porto de 16 de Abril, consistia em: dia 19 de Maio - cerimónias da Queima das Fitas em cada faculdade, cortejo com carros ornamentados seguido de batalha de flores e, à noite, festival no Palácio de Cristal e baile; 20 - chá dançante dos novos quartanistas de Medicina e, à noite, sarau de gala; 21 - Jogos Florais da Faculdade de Medicina; 22 - tarde desportiva e, à noite, baile de gala das quatro faculdades; 23 - à noite, festival nos jardins do Palácio de Cristal. Neste ano houve também cartaz da Queima das Fitas.

Cartaz da Queima das Fitas da UP de 1948, da autoria de Inácio Salcedo y Abad, representante da Faculdade de Medicina na Comissão de Propaganda dessa Queima. Reprodução a preto e branco (o original tinha com certeza as cores das quatro faculdades) num jornal não identificado, disponível no Arquivo Noticioso da UP; uma reprodução com pior qualidade apareceu também no Comércio do Porto de 16 de Abril.

A partir daqui a Queima das Fitas da Universidade do Porto estava definitivamente enraizada. Em 1949 o Primeiro de Janeiro (de 18 de Março) ainda diz ser a "primeira vez que colaboram estreitamente unidas todas as faculdades" (talvez uma referência ao facto de em 1948 ter havido chá dançante e jogos florais da Faculdade de Medicina), mas a Queima das Fitas da UP estava bem estabelecida em 1948 e foi-se realizando, essencialmente nos mesmos moldes, anualmente até 1971.


Notas finais

Para além da data errada de 1920 para a primeira Festa da Pasta, há pelo menos duas incorrecções nas páginas do Centenário da UP).[1] e da FAP).[2] que vale a pena referir:

- Lê-se na página da FAP que na Festa da Pasta se fazia "a passagem da pasta dos estudantes que estavam a terminar o seu curso, os quintanistas, aos que entravam na recta final, os quartanistas" e "juntamente [...] era imposto o grelo aos quartanistas". E na do Centenário da UP que se fazia "a passagem da pasta dos estudantes que estavam a terminar o seu curso - os quintanistas - aos que entravam na recta final, os quartanistas, a quem era também imposto o grelo". Ora, o grelo era (e é) imposto aos futuros quartanistas - frequentemente chamados "novos quartanistas", mas que eram de facto terceiranistas - tal como a pasta com fitas era passada aos futuros quintanistas - frequentemente chamados "novos quintanistas" mas, claro, ainda quartanistas (como habitual, e para simplificar, uso a referência de cursos de 5 anos; num curso de 4 anos os "terceiranistas" são na verdade do 2.º ano).

- Lê-se na página da FAP que a primeira Benção das Pastas foi em 1944, integrada na Queima das Fitas. Na realidade a Benção das Pastas é bastante anterior, no Porto, a esse ano: data, pelo menos de 1933 (Comércio do Porto, 4 de Maio de 1933). Continuou a realizar-se nos anos seguintes, mas independentemente das várias Festas da Pasta. Não sei se a de 1944 terá de facto estado integrada na Queima das Fitas; mas a de 1948, depois de ter sido anunciada como fazendo parte do programa da Queima (Comércio do Porto de 19 de Março), realizou-se autonomamente (Comércio do Porto de 10 de Maio e 16 de Abril). A integração plena da Benção das Pastas na Queima das Fitas deve ter acontecido apenas nos anos 50.

Devo ainda dizer que me parece que a origem destas incorrecções está numa leitura pouco cuidadosa, feita por quem escreveu o texto da página da FAP, do livro Quid Praxis? (Portucalensis), de Manuel Cabral e Rui Marrana (Porto: AE da UCP no Porto, 1982). Os autores desse livro realizaram um trabalho meritório (mas preliminar) de pesquisa sobre a Festa da Pasta e a Queima das Fitas em jornais antigos e chegaram a um razoável resumo histórico relativamente ao período 1920-1945 (págs. 134-137). Infelizmente, não encontraram nada sobre os anos anteriores.
Que, passados quase 30 anos, se continue a utilizar o Quid Praxis? (um livro datado e, como os próprios autores admitiram, escrito à pressa para sair a tempo da Queima de 1982) como principal - quase única - fonte para a história da Queima das Fitas do Porto, diz muito. Eu também tenho culpa por este estado de coisas.

Para terminar:
Não tenho pretensões a ser imune a erros. Mas, mesmo que fosse, faltaria responder a várias questões - por exemplo, se a primeira Entrega da Pasta foi efectivamente em 1901.
Há muita documentação por consultar: notícias de jornal, programas (alguns depositados no Museu de História da Medicina, alguns pertença de particulares), etc. Há, também, alguns estudantes dos anos 30 e 40 ainda vivos (casos do dr. Aureliano da Fonseca e do Eng. René Guimarães) que poderiam e deveriam ser entrevistados. Mas, falando directamente, não tenho disponibilidade temporal para fazer essas investigações aturada e sistematicamente. Tentei ser exaustivo e cuidadoso apenas com o que tinha facilmente disponível (material online e material que tenho vindo a coleccionar ao longo dos últimos quase 20 anos). Como deve ser notório, o Arquivo Noticioso da UP foi uma ajuda inestimável.





[1] Para que se entendam as minhas referências a este texto, e porque este deverá vir a ser corrigido, fica aqui o texto completo, tal como o consultei no dia 9 de Fevereiro de 2011:

A primeira “Queima das Fitas”
1920

Sábado amanheceu carancudo, cara de cão, a modos que a querer desbancar o axioma - «que não há sábado sem sol»... - Um vento diabólico, nuvens pesadas, parcadentas (...) Mas os ares desanuviaram-se. Depois da da alvorada- os 34,5 morteiros da praxe - a cidade ficou sabendo que nem haveria catástrofes, nem rabistrazanismos, nem falta de sol. Ao invéz - e à míngua de melhor - estava-lhe reservada uma hora de deliciosa alegria, festa rija, uma das desbundantes rapaziadas da rapaziada das escolas. Era a Festa da Pasta e - como sempre - o povo havia também este ano de rir a bom rir. (in O Jornal de Notícias, 15 de Maio de 1926)

A história da actual Queima das Fitas no Porto tem origens na “Festa da Pasta” que se terá realizado pela primeira vez em 1920 (ainda que outras fontes apontem as suas origens para o início do século), entre os finalistas de Medicina da Universidade do Porto. A “Festa da Pasta” era um evento que comemorava a passagem da pasta dos estudantes que estavam a terminar o seu curso - os quintanistas - aos que entravam na recta final, os quartanistas, a quem era também imposto o grelo.

Ao longo dos anos a “Festa da Pasta” foi-se difundindo pelas diversas faculdades da Universidade do Porto. Em 1943, passou a haver uma só para todas as faculdades, altura em que nasce a designação “Queima das Fitas”, na qual passam a estar integrados eventos como os Jogos Florais ou a Missa da Benção das Pastas.

Em finais da década de 60, fruto da crescente convulsão política que atingiu o país, a Queima começou a ser contestada por alguns sectores estudantis, o que acabaria por decretar a sua suspensão a partir de 1971. Após o ressurgimento, em 1978, a Queima das Fitas do Porto começou a tomar os moldes actuais, com a realização de actividades como a Serenata, o Cortejo Académico, o concerto Promenade, o Sarau Académico, entre outras. Esta evolução ao longo dos últimos 20 anos fez com que a Queima das Fitas deixasse de ser uma festa restrita aos estudantes para passar a ser a segunda maior festa da cidade do Porto e a maior festa Académica do País.

Actualmente, a Queima das Fitas é realizada pela Federação Académica do Porto (FAP) e tem lugar no início de Maio, no “Queimódromo” localizado no Parque da Cidade.

Mais informações

[2] Texto completo, consultado em 9 de Fevereiro de 2011:

A história da Queima das Fitas no Porto não é muito mais recente que a de Coimbra, que se iniciou em 1919, pois já em 1920, os finalistas de Medicina da Universidade do Porto faziam a chamada “Festa da Pasta”, que é considerada a origem da Queima das Fitas do Porto.

A “Festa da Pasta” era um evento, com um grande espírito académico, que comemorava a passagem da pasta dos estudantes que estavam a terminar o seu curso, os quintanistas, aos que entravam na recta final, os quartanistas. Juntamente com a passagem da pasta era imposto o grelo aos quartanistas. Ao longo dos anos a “Festa da Pasta” foi-se difundindo pelas diversas faculdades da Universidade do Porto, sendo que cada faculdade tinha a sua própria festa. As diversas “Festa da Pasta” realizaram-se ininterruptamente até 1943, ano a partir do qual passou a haver uma só para todas as faculdades.

Nesse mesmo ano de 1943, começou-se a usar o nome de Queima das Fitas, paralelamente ao de “Festa da Pasta”, tendo-se realizado no ano seguinte, em 1944, ainda integrado nestas comemorações, a primeira Missa da Benção das Pastas, na Igreja dos Clérigos.

Em 1945, a expressão “Festa da Pasta” é abandonada totalmente e é a partir desta data que passa a existir a “Queima das Fitas do Porto”, que resulta da já explicada evolução da “Festa da Pasta”. Até 1971, de uma forma natural, a “Queima das Fitas do Porto” vai evoluindo. Em Coimbra a Queima realiza-se até em 1968, desaparecendo em 1969 no seguimento de todas as convulsões políticas de então. No Porto, a Queima das Fitas só se deixa de realizar a partir de 1971.

Em 1978 a Queima das Fitas ressurge no Porto, com a designação de Mini-Queima e consistiu num cortejo, o que gerou alguma polémica e contestação em vários quadrantes da sociedade por considerarem que esta era uma iniciativa reaccionária. No ano seguinte, em 1979, foi feita uma tentativa mais alargada de organização de Queima das Fitas, tendo havido duas comissões organizadoras. No entanto, só uma delas teve sucesso.

A partir daí a Queima das Fitas do Porto começou a tomar os moldes que actualmente conhecemos, com inúmeras actividades desde a Serenata, ao Cortejo, passando pelas Noites, concerto Promenade, Festival Ibérico de Tunas Académicas, Sarau Cultural… Esta evolução ao longo dos últimos 20 anos fez com que a Queima das Fitas deixasse de ser uma festa restrita aos estudantes para passar a ser a segunda maior festa da cidade do Porto e a maior festa Académica do País.

Desde então, este evento tem sofrido uma progressiva mutação: deixou de ser exclusivamente uma festa restrita aos estudantes para passar a ser a segunda maior festa da cidade do Porto e a maior festa académica do país.

Actualmente, a Queima das Fitas é uma organização da Federação Académica do Porto (FAP) e movimenta cerca de 350 000 estudantes, e um elevado número de pessoas afectas à Área Metropolitana do Porto, números estes só possíveis de atingir dada a diversidade de eventos produzidos, sendo prioridade da FAP não só na quantidade de eventos mas sobretudo a qualidade dos mesmos, havendo um esforço para proporcionar bons espectáculos, a preços acessíveis, a todos os estudantes e a toda a comunidade interessada.

Assim sendo, podemos afirmar que este evento é como que uma retribuição à cidade do Porto e à Região por tudo aquilo que proporciona aos estudantes da Academia, nas suas mais variadas vertentes.

[3] A Queima das Fitas de 1902 "não revestiu a solenidade galhofeira dos anos anteriores que um jornal da cidade revelava ser uso recente - após as festas em honra de Camões, em 1881" (António José Soares, Saudades de Coimbra 1901-1916, Coimbra: Almedina, 1985, pág. 295). Ora, o Centenário de Camões foi em 1880, o que deve querer dizer ou que A. J. Soares se enganou (e, então, "após as festas em honra de Camões" pode ser qualquer ano entre 1880 e um pouco antes de 1899) ou que o "jornal da cidade" se referia ao ano imediatamente após o centenário de Camões como o da primeira Queima das Fitas (ou a primeira com "solenidade galhofeira"?).

[4] Cit. por Alberto Sousa Lamy, A Academia de Coimbra 1537-1990, Lisboa: Rei dos Livros, 1990, pág. 669.

[5] Sobre as Queimas das Fitas no período 1901-1916, v. A. J. Soares, Saudades de Coimbra 1901-1916, págs. 294-302; e sobre as outras festividades de fim de ano ou de curso, v. o mesmo livro, págs. 279-293.

[6] Vale a pena citar parte do "Pró Grama da grandiosíssima reinação a que se procederá no dia 27 de Maio, para solenizar o derradeiro suspiro e o trágico estoiro mortal dos repolhudos grelos que vicejaram no luminoso ano da flauteação de 1918-1919" (Rua Larga, n.º 26, 15 de Maio de 1959, págs. 168-169):
"IV - Às 15 horas
Depois de variadíssimas piruetas executadas com todo o mimo e engenho, o fogo que tudo destrói e consome passará às terríveis vias de facto que hão-de vitimar os nossos saudosos grelos em holocausto à suave Minerva, fazendo-os recolher ao pó e cinza dos elementos terráqueos.
É comovente até às lágrimas.
-----
Depois desta catástrofe final, um quintanista de cada faculdade, mais solene e bem posto que o mais olímpico dos mestres, deporá com todo o jeito nas trémulas manápulas dum quartanista de cada faculdade os emblemas faiscantes da sua subida de posto, estendendo os seus lábios purpurinos para as rubicundas bochechas destes últimos que, com as lágrimas nos olhos e a comoção no esófago, os hão-de gramar.
É impressionante para as noivas dos quartanistas."

[7] Sobre as Queimas das Fitas no período 1917-1933, v. António José Soares, Saudades de Coimbra 1917-1933, Coimbra: Almedina, 1985, págs. 302-308; sobre o "curso dos cocos" de 1932, v. "Para o estudo das praxes coimbrãs", Rua Larga, n.º 30 (1 de Agosto de 1959), pág. 320 e verso da contracapa.

[8] "Aconteceu há 50 anos", O Tripeiro, V série, ano VII (1951-1952), n.º 1, pág. 21.

[9] Este interrogatório é uma paródia a partes do ritual do baptismo católico (que nessa época, claro, era conduzido em latim). Tradução:
- Antoino, crês na Medicina?
- Creio.
- Crês na Santa Mãe dos Charlatães?
- Creio.
- Crês na cura da tuberculose pela Badiana Fosfatada?
- Creio.
- Queres ser doutor?
[- Quero.]
- Recebe a pasta.
A badiana fosfatada era uma suposta cura para a tuberculose, que tinha sido satirizada no carnaval desse ano: v. O "Dr. Quinterra", "Os académicos do meu tempo" e "Já lá vão mais de 50 anos!...".

[10] "Aconteceu há 50 anos", O Tripeiro, V série, ano VIII (1952-1953), n.º 1, pág. 29.

[11] António de Almeida Garrett, "Os académicos do meu tempo", Porto Académico, n.º único de 1962, págs. 27-29.

[12] José Corte Real, "O Carnaval dos Estudantes há 50 anos", Orfeão, ano II, n.º 6 (Fevereiro de 1964), pág. 5.

[13] Período de transição da Escola Médica para a Faculdade de Medicina, e respectivos currículos.

[14] Esta notícia aparece transcrita em Manuel Cabral e Rui Marrana, Quid Praxis? (Portucalensis), Porto: AE da UCP no Porto, 1982, págs. 134-135.

[15] V. Joel Lima, O Porto do Repórter X, Porto: Campo das Letras, 2004, cap. 8 ("É homem ou mulher?"), págs. 119-129.

[16] Um artigo do Comércio do Porto sobre esta Festa da Pasta está disponível no Arquivo Noticioso da U. Porto, embora com data errada (1928 em vez de 1927).

[17] Primeiro de Janeiro, 5 de Maio de 1934, pág. 4. A propósito, a comissão da Festa incluía o estudante de matemática Paulo Pombo - o futuro autor da letra do tango "Amores de Estudante" (e que tinha sido o novo quartanista a receber o grelo na cerimónia do ano anterior - v. notícia abaixo).

[18] Jornal de Notícias, 11 de Maio de 1938, pág. 6.

[19] Cabral e Marrana, Quid Praxis?, págs. 134 e 136.

[20] Manuel Correia de Brito, "Renée Guimarães: o «recuperador» orfeonista", Comércio do Porto, 12 de Dezembro de 1993, suplemento Porque hoje é... Domingo, págs. 4-5. Na página 5, certamente por gralha, é dito que esse primeiro programa conjunto e primeiro cortejo tiveram lugar em 1945; numa legenda na página 4 o primeiro cortejo é datado de 1944.

[21] Não resisto a notar que o representante da Faculdade de Ciências era o estudante de Matemática José Tiago de Oliveira, que viria ser um respeitadíssimo académico na área da Estatística (com incursões na Álgebra, Lógica e História da Matemática).

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Fotografias da Tuna Académica do Porto em 1909 (e 1908?)

Em 1909 organizou-se uma Tuna Académica do Porto (ou, consoante o ponto de vista, reorganizou-se a Tuna Académica do Porto) com o objectivo de visitar Santiago de Compostela nas férias do Carnaval (retribuindo uma visita da Tuna de Santiago ao Porto).
Essa Tuna de 1909 é recordada no artigo "Dos tempos que já lá vão", do Eng. A. da Costa Pereira, publicado no Porto Académico, n.º único de 1962, págs. 47 e 50 (com pelo menos uma imprecisão: diz que essa foi a primeira Tuna Académica do Porto, o que está manifestamente errado).
Acompanhando o artigo de Costa Pereira, aparece uma fotografia da Tuna, com fraca qualidade:
(Não conheço nenhuma publicação desta fotografia anterior a 1962, mas posteriormente apareceu algumas vezes, suponho que reproduzida do Porto Académico, com a mesma fraca qualidade.
[Correcção de 28/12/2010: Depois de publicar esta entrada do blogue, adquiri o Programa do ano lectivo de 1937-38 da Tuna Universitária do Porto (algumas páginas deste folheto podem ser vistas no blogue Portus Cale Tunae), e verifiquei que esta fotografia já lá tinha sido publicada,
com qualidade ligeiramente melhor e com os nomes de alguns dos tunos.])

Mas eis que a fotografia aparece noutra cópia, num dos blogues de José Pacheco Pereira (Ephemera, um tesouro de documentação vária, sobretudo política mas não só), embora mal identificada (a fotografia foi tirada na Corunha e JPP terá lido mal "Coimbra" na inscrição no canto inferior esquerdo):

E há bónus: a fotografia aparece num conjunto de Fotografias de grupo (início do século XX) onde se vêem mais três com estudantes (mais precisamente, tunos).
Uma destas foi também tirada na Corunha, e é claramente da Tuna Académica do Porto (junto com alguns locais - estudantes do ensino secundário da Corunha?):


As outras duas fotografias foram tiradas em Vila Real em 22/4/1908 e, sendo claramente de uma tuna, não é líquido que sejam da Tuna Académica do Porto.

Mas o fotógrafo parece ter sido o mesmo (JSantos, embora tenha mudado a sua assinatura) e parece-me ver pelo menos duas caras comuns às quatro fotografias:



Seja como for, e apesar das falhas na "nova" cópia da fotografia clássica da Tuna de 1909, esta é uma adição importante para a iconografia académica do Porto (não há muitas imagens da Tuna Académica do Porto, nem sequer de estudantes do Porto de capa e batina, anteriores à República).

[Um abraço ao Tiago Laranjeiro, que me chamou a atenção para estas fotografias no Ephemera.]

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Tradições Académicas no Porto
Uma exposição em 1995


Em 1995, no âmbito da Semana de Recepção ao Caloiro, a Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto organizou uma exposição sobre as Tradições Académicas no Porto. Ou, mais precisamente, sobre a sua História. Embora eu não pertencesse à Direcção da Associação, nem sequer fosse (pelo menos oficialmente) colaborador, fui o principal responsável pela recolha e organização do material exposto, redacção das legendas explicativas, etc. Fui ajudado nestas tarefas pelo responsável pelo Departamento de Tradições Académicas, Pedro Marques, que também teve a seu cargo alguns aspectos mais logísticos e/ou burocráticos.

Sem falsas modéstias, creio que conseguimos reunir uma amostra interessante e significativa. O material exposto provinha maioritariamente do Museu de História da Medicina Maximiano Lemos (da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto), do Museu do Orfeão Universitário do Porto e da colecção de fotografias da Associação de Antigos Alunos da Universidade do Porto (inactiva; esta colecção estava à guarda do Conselho Directivo do ICBAS). Em menor medida, emprestaram algumas peças o Museu de Mineralogia e Estratigrafia e vários particulares (entre os quais recordo Flávio Serzedello de Oliveira, dr. Álvaro Andrade, dr. Luís Abrunhosa Vasconcelos e Doutor Fernando Noronha).

Estupidamente, e assumo inteiramente a minha culpa nisto, não foi feito um catálogo da exposição, nem sequer uma documentação fotográfica em condições. Restam dela hoje em dia as quatro fotografias abaixo, vários painéis com as (pequenas) legendas e as fotocópias expostas (nos casos em que não estavam expostos os originais) e a lista dos objectos emprestados pelo Museu de História da Medicina.


Nesta fotografia apareço a falar com o dr. Rui Bessa, então presidente da Direcção (ou talvez da Assembleia Geral) da Associação dos Antigos Orfeonistas da Universidade do Porto. Pelo painel para o qual aponto, estou provavelmente a explicar que o Traje Académico Feminino não surgiu no OUP (nesse painel havia uma fotografia dos anos 20 de uma aluna do Liceu Alexandre Herculano com Traje Académico).


Aqui apareço a falar com uma jornalista. Em fundo, vários painéis sobre o Traje Académico.


Nesta fotografia, pode ver-se um então aluno da FCUP (Jorge Reis Sá), lendo um artigo sobre uma Queima das Fitas dos anos 50 ou 60.


Nesta última fotografia vê-se um expositor com pastas de quintanista de luxo (do Museu de História da Medicina, com uma excepção) e uma mais recente (anos 60) de "semi-luxo" (do Doutor Fernando Noronha). Em fundo, um painel com alguns cartazes da Queima das Fitas dos anos 60, 80 e 90 (embora, devido ao expositor em frente, só se consiga ver aqui, e em triplicado, o cartaz de 93).

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

"Manda a tradição" - MEC

Como deve ser óbvio, este blogue está de férias. Mas não resisto a partilhar a crónica de Miguel Esteves Cardoso no Público de 25/08/2010. Que não é sobre tradições académicas, mas é sobre tradições, e levanta questões pertinentes.
Não tenho a certeza de que sejam fiáveis os dados da notícia que MEC comenta (lembro-me de uma notícia sobre a Queima das Fitas no Público, início dos anos 90, que dizia que a Queima do Porto remontava aos anos 60...). Mas se não forem verdadeiros estes, são verdadeiros outros semelhantes, sobre outras tradições (nomeadamente académicas).
Não me vou alongar sobre os comentários de MEC no último parágrafo. Apenas digo o seguinte: não vejo qualquer problema em que este costume seja seguido (desde que se cumpram normas de segurança, claro); mas o que pode "mandar" uma tradição destas?


Manda a tradição
Miguel Esteves Cardoso

Quanto tempo leva a criar uma tradição? E por quanto tempo se pode interromper antes de se perder? Eis a primeira frase de uma notícia no PÚBLICO de ontem: "Um homem entrou num forno de lenha aquecido a mais de 250 graus, durante a recriação do chamado milagre da Urgueira, que atrai anualmente milhares de pessoas." Respirei fundo, invocando a tolerância pelos velhos costumes e cantarolando o velho jingle do café Sical: "Cada terra com seu uso, todos com Sical."

Mas o resto do primeiro parágrafo desasossegou-me: "A tradição tem origem em finais do século XIX, mas esteve interrompida desde 1904, ano em que morreu o homem que a protagonizava, sendo relançada em 1996 pela Associação Etnográfica Os Serranos." Se a tradição começou no fim do século XIX - digamos 1890, só durou 14 anos. Quando morreu o homem que entrou no forno, decidiram acabar com ela. Continuou acabada por mais 90 anos, de 1905 a 1995. Desde 1996 foi retomada durante mais 14 anos. Quando a interrupção de uma tradição é maior (90 anos) do que o número de anos em que é cumprida (28 anos), foi a tradição que foi interrompida ou a interrupção que foi retradicionalizada?

Portugal está cheio de tradições deste género, que brotam e se desenterram por toda a parte, respeitando-se ou esquecendo-se conforme as conveniências. É à vontade do freguês. Que se há-de fazer? Nada. Esse à-vontade relativista é uma espécie de liberdade - e é a nossa verdadeira tradição.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O Rapto da Macaca

[Joaquim Ribeiro Chaves, Porto Académico, n.º único de 1962, pág. 6.

Recomendo a leitura da secção final de Bons Tempos antes da deste texto, já que lá se encontra um relato mais detalhado do Rapto da Macaca.]


Por intermédio do amigo comum Arlindo Soares, chegou até mim o pedido de um artigo, para o número comemorativo das bodas de ouro da Universidade e Orfeão Académico nortenhos. Do que foi a mocidade de então, irreverente e folgazã, falam-nos o documentário fotográfico e a memória viva, a todo o instante remoçada, nos contactos de uma geração que teima em não envelhecer.

Falar do Porto, da vida académica, dos laços de amizade, dos ângulos da vida citadina do velho burgo, com todas as virtudes e defeitos, é para mim transportar-me a paisagens edénicas, muito alto, pelas fantasias do sonho, é dar-me intensas tremuras de comoção. Aquele Porto, que eu conheci há tantos anos, quando abri pela primeira vez as tenras pálpebras, aquela cidade buliçosa no seu trabalho exaustivo, aquele casarão – o Hospital da Misericórdia[1] – que me apresentou ao Mundo, a nova mole de pedra, em frente, que me deu um título, os genuínos pregões que tantas vezes me acordaram, o deambular noctívago pelos meandros da luz e da penumbra, tudo isso pertence ao passado, mas vive da perenidade de uma memória que não se dissipa. Ainda hoje, longos anos volvidos, visito com saudade aqueles recantos, que me deram a felicidade por conta-gotas e fizeram de mim um romântico, um sonhador impenitente, uma hercúlea força de vontade, apostado em vencer as maiores crises, com que a madrasta da vida teima em mimosear-me.

À parte raras excepções, não teremos neste número, como no anterior, crónicas dedicadas a astros na medicina e nas letras, de primeira grandeza, da larga envergadura de um Ricardo Jorge, um Ferreira da Silva, um Camilo e outros. Esses grandes, em qualquer parte do Mundo, não se repetem nos séculos, mas iremos reviver a nossa hora de saudade ateando o fogo sagrado de uma convivência feliz, despreocupada e alegre, nos artigos que as musas derem à luz. Lamento, no entanto, a lembrança e não mereço a honra que me deram, em participar nesse número de uma tal projecção académica, ao trazer o pequeno tributo da minha desataviada prosa. Caem sobre mim os primeiros flocos de neve, mensageiros indesejáveis dos estragos do tempo, meio século já passado de uma luta sem tréguas, e a caneta indecisa e tímida a custo vai dizendo o pouco que sabe do muito que viveu. E assim, como quem não quer a coisa, chegamos ao célebre episódio da «macaca» incidente ou fasto que teve foros de audácia, nas irreverentes manifestações de sangue na guelra.

Corria branda a manhã e nos claustros do senado académico, uns tantos conspiradores davam os últimos retoques no plano do mais sensacional rapto, executado pela turba académica. O caloiro, a vítima escalonada para o efeito, ordenança de cega obediência, devia embrulhar o símio no negrume da capa e em fuga rocambolesca entregá-lo ao supremo tribunal académico, na Associação Académica, paredes meias com o velho liceu de Rodrigues de Freitas.[2] Perante a estupefacção da clientela embasbacada, das mil e uma bugigangas oferecidas à pasmaceira do público e num lance de prestidigitação, a dócil macaca atónita e trémula deixou-se enlaçar, para um julgamento sumário.

E a Praça da Liberdade, a tipóia e a vendedeira de um sem-número de panaceiras desgrenhadas e a gesticular permanecem na minha memória, como quadro vivo, da nossa vida académica. Seguiu-se um julgamento em forma, o qual terminou pela absolvição da ré, após a defesa brilhante do Dr. Alcino Pinto, que achou indecoroso trazer ao pretório um inocente primata, dinâmico reclamo da banha da cobra. E eu que estava como Pilatos no Credo, fiquei condenado nas custas, como adiante se verá. Distribuiram-me – pobre caloiro! – um balandrau, uma corneta e uma cartola, indumentária que, depois de enfiada no cabide, me tornava irreconhecível como convinha. Um veterano comandava o pelotão de quantas vítimas acaloiradas encontraram à porta de Minerva e eu dava o toque de cornetim, segundo as ordens do chefe. E então, a dois formar, descemos à Praça, todos com os fatos ao invés e calças arregaçadas, para gáudio da multidão.

Depois de uma série de manobras da real gana do chefe, seguimos para a então Faculdade de Letras, a qual tomámos de assalto, estabelecendo aí o pânico, para depois, senhores da situação, nos entregarmos a exercícios estratégicos, os mais variados. Descia a noite e quase todas as vítimas da folia estavam com o café da manhã, mas aquele bando de andorinhas, chilreando e a dar largas à sua mocidade exuberante, voltou aos beirais do último andar, a preços módicos, das típicas ruelas do meu saudoso Porto. E desta maneira ficou encerrado um episódio genuinamente académico, mais uma brincadeira inofensiva a marcar uma época de efervescente bom humor.




[1] Isto é, o Hospital de Santo António.

[2] O Liceu Rodrigues de Freitas funcionava então na Rua de S. Bento da Vitória, no edifício onde está hoje instalada a Polícia Judiciária.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Bons Tempos...

[Henrique Almeida, Porto Académico, n.º único de 1962, págs. 7-8]

Quando a rapaziada entrou pela primeira vez, em Outubro de 1921, no átrio sul da Universidade do Porto, para ouvir o mago da química Ferreira da Silva, foi com pânico que viu os estudantes Emídio Guerreiro[1] e o Sobrinho das Barbas, os dois «terroristas» da caloirada.

Indivíduos absolutamente diferentes e opostos no temperamento e no físico, dir-se-iam dois biotipos padrões: um, o primeiro, fisicamente magro, quase limitado ao osso, de génio arrebatado e de inteligência fortemente imaginativa – tipo D. Quixote – o outro, de avantajadas carnes, espantosamente gordo, de largo perímetro ao nível da cinta, no todo um peão humano mas de génio muito calmo, muito frio e de reacções muito lentas, tipo Sancho Pança.

A presença destes dois sujeitos – com uma fama e uma tradição insuperáveis no que dizia respeito à perseguição ao caloiro – era para nós, neófitos universitários, uma segura e certa promessa de que daí a nada, dentro de muito poucos segundos, haveria espectacular garraiada. E assim foi. A coisa principiou logo ali no átrio de química pela operação denominada a tonsura do caloiro. O Sobrinho das Barbas, aquele Himalaia de banha, de tesoura em punho, caiu impiedoso e sádico sobre as cabeleiras que ele, o vândalo de instintos capilaricidas, julgou de mais pretensiosas ou de mais petulantes.

O Sobrinho das Barbas [Porto Académico, n.º único de 1962, pág. 7].


E um após um dos componentes daquele bisonho, triste e conformado rebanho foi sujeito a esta e a muitas outras tropelias, deste e de outros doutores. O Guerreiro, que era então o chefe da Orchestra Katastrophica – a mais obsoleta e estúpida instrumentação musical que jamais se viu – e que tinha a mania do discurso – para o que tinha inegável jeito, diga-se de passagem – obrigava ora este ora aquele a perorar sobre os temas os mais disparatados ou os mais extravagantes.

«Fale – impunha o Guerreiro – sobre a influência do queijo no aparecimento e no crescimento das Pirambolas do Egipto». E ai daquele que não dissesse meia dúzia de asneiras de respeito e todas de enfiada; massacrava-o então com perguntas e cavalgava-o, o que era bem pior.

Foi assim sob uma penosa influência duma praxe – já então muito pouco aceitável e muito pouco recomendável para a época – que nós fomos ouvir a primeira lição do sábio químico Ferreira da Silva. Vítima duma doença nervosa de implacável garra, entristecia ver aquele facies sem mímica, fixado numa expressão imutável de indiferença o «facies figé» dos Parkinsonianos e aquele trémulo das mãos e dos dedos, estranha cinética de não menos estranhas configurações. Mas aquele cérebro brilhava, porém, de tal modo que nós os seus ouvintes e alunos quase que não víamos as exteriorizações do seu mal, tão grande era a fascinação daquela sua luz interior.

E assim doente continuou ainda por muito tempo a reger química, com espantosa assiduidade e proficiência.

E assim continuou ainda por muito tempo para honra da nossa Universidade.

Depois da prometedora estreia universitária que acima relatámos, veio, como não podia deixar de ser, o hábito, o treino, a adaptação e por último a indiferença. O contacto dia a dia com os doutores, quer na Universidade, quer nos cafés, quer ainda no Orfeão, gastou as últimas resistências a uma boa e sã camaradagem. E foi sem dúvida o nosso Orfeão o agente que mais poderosamente contribuiu para uma boa compreensão, para um são entendimento entre os rapazes dos diferentes graus universitários. Como não podia deixar de ser inscrevi-me neste afamado grupo coral, mas devo declarar em abono da verdade que desiludi o seleccionador, o meu querido amigo e colega Franscisco Lage.

Eu não dava nota musical capaz, por muito que ajeitassa a laringe, mas o Lage era amigo e inscreveu-me no naipe dos barítonos.

Por desgraça minha, ou antes e melhor, por desgraça do Orfeão, havia outro académico que desafinava tanto ou mais do que eu: era o Sobrinho das Barbas, que o padre Ramos, o regente, quis que ficasse sempre à minha sinistra. E naquela noite de estreia no Teatro S. João, ao abrir do pano de boca, o padre Ramos veio direito a nós ambos e clamou: Pelas cinco chagas de Cristo finjam que cantam, porque só vocês, os dois, dão cabo disto. E assim fizemos, abrimos a boca a ritmo ou a compasso com as demais, mas sem que dela saísse qualquer som.

O segundo espectáculo foi no Teatro-Circo de Braga e aqui o padre Ramos repetiu a ordem mas dessa vez exclusivamente à minha pessoa. Suponho que foi castigo pelo que momentos antes sucedera mas de que não fui o principal responsável. E o que se sucedeu, foi o seguinte: – Era orador oficial do Orfeão o Zé Martins, um moço que cultivava e com muito jeito o discurso romântico tanto do agrado da época e das meninas histeróides. Magro, noventa por cento osso, pele muito tostada, quase negra, gaforina desordenada e que ele mais desordenava nos arroubos da sua ditirâmbica oratória, o Zé, que era um excelente moço, tinha porém um senão – de vez em quando descambava em profusas libações em honra de Deus Baco e então sucedia o diabo. Ora o Zé Martins naquela noite de espectáculo não estava bem seguro do seu centro de gravidade.

Corrido o pano e ouvidos os complacentes e habituais aplausos, o Zé avançou pelo palco fora até à beirinha da ribalta e esteve vai não vai para cair em cima da plateia. Por nós todos, e principalmente por mim que sempre adorei este admirável rapaz, passou um frio de morte. Mas o Zé aguentou-se e lembro-me como se fosse hoje que ele principiou assim o discurso que não chegou a acabar: «Minhas senhores e meus senhores: Neste momento histórico em que Gago Cabral e Sacadura Coutinho atravessam o Atlântico...»

Eu que estava imediatamente atrás do orador e no bom intuito de corrigir a gafe, disse-lhe quase em murmúrio: «Ó Zé, olha que é Gago Coutinho e Sacadura Cabral». O moço calou-se por um instante, apercebeu-se do erro e voltou ao princípio do discurso, mas trocou novamente os apelidos aos dois aeronautas. A plateia riu-se, os académicos sussurraram forte alguns impropérios, o Zé não arrancava palavra e o pano correu vertiginosamente ao mando do Padre Ramos já em cólera.

O Zé, o bom e querido amigo Zé Martins, estava siderado e no fim do primeiro acto fui dar com ele, sentado nas escadas das traseiras do palco, a chorar convulsivamente. Juro-te, Henrique, dizia ele com soluços na garganta, que não volto mais a discursar, mas tens de dizer-me quem foi o tipo (aqui não respeito a verdade, porque a designação foi outra) que me emendou, porque esse é que foi o causador do meu grande fiasco.

É evidente que naquela noite não o fiz ciente do causador involuntário daquilo a que ele chamava fiasco, mas fi-lo mais tarde, entre dois golos de café, no Excelsior, numa franca e leal camaradagem como sempre soubemos fazer. Isto passou-se, como se percebe, na altura em que os nossos primeiros descobridores do espaço iam numa pobre e mísera aeronave a caminho do Brasil. O que foi neste país e sobretudo no Porto, quando os dois heróis do ar remataram a sua extraordinária odisseia e quando eles visitaram a nossa cidade, ninguém queira saber. Espectáculo tão grandioso nunca eu mais vi na minha vida e a briosa[2] contribuiu imenso para essa grandiosidade emprestando-lhe o máximo do seu entusiasmo juvenil.

Bons tempos, patrão, como dizia o saudoso e grande actor cómico Estevão Amarante na revista, creio eu, «O 31».

Ao desboninar estes saborosos nacos da minha vida estudantil, tenho forçosamente de recordar não só os meus condiscípulos como ainda os meus contemporâneos, essa grossa falange de rapazes que tanto havia de dar que falar.

Se o meu curso deu médicos muito distintos e afamados e ainda ilustres mestres, tais como Álvaro Rodrigues, Sousa Pereira, Pereira Viana, Fernando Magano e Luís de Pina, muitos outros estudantes meus contemporâneos e que frequentaram outras faculdades marcaram e marcam ainda relevantes posições na nossa sociedade. Assim permito-me recordar alguns alunos da extinta Faculdade de Letras e que deviam ser mais tarde não só ilustres professores do ensino secundário como ainda escritores de grande nomeada e projecção: José Marinho, Salgado Júnior, Santana Dionísio, Armando Lacerda, Agostinho Silva[3], Mateus Macedo e outros.

Nas Faculdades de Ciências e de Engenharia, recordo-me do actual reitor da Universidade, Prof. Correia de Barros; Farinas de Almeida, actual director da Faculdade de Engenharia; Pais de Aguilar; José Praça, um dos mais eloquentes e fogosos conversadores que eu tenho ouvido; Modesto Osório – o regente da Tuna Académica – um excelente carácter e inexcedível nos cuidados e trabalhos com o seu grupo artístico; Adalberto Mendo, engenheiro Paulo Marques, então sargento cadete e que podia servir de figurino a qualquer tropa, tão apurado e peralta era ele no seu uniforme, e finalmente o António Santos Nobre, um dos mais cultos e inteligentes rapazes da minha geração e que foi o fundador deste jornal.

Na Faculdade de Farmácia, brilhava como estrela de primeira grandeza o Marques de Carvalho, que tão grande influência política veio a ter na Academia, já então em franca assimilação do ideário integralista. Contra uma lista republicana, venceu o integralista Marques de Carvalho por uma larga margem de votos.

Esclareça-se que isto aconteceu só em vésperas de 1926. Até então a briosa vivia para o Orfeão e para a Tuna, discutia os seus problemas e derimia as suas pequenas divergências dentro das portas da sua casa, a Associação Académica. Assisti e compartilhei de muitas discussões nas assembleias gerais e sempre verifiquei a preocupação de afastarmos todas as causas ou todos os motivos de divisão entre nós. A Associação, que era exclusivamente nossa e onde nenhuma entidade podia meter o bedelho, foi óptima tribuna para treino oratório de muitos rapazes. Ali se fizeram oradores de muito apreço alguns que supunham não ter qualquer jeito para a sublime arte de discursar sem papel ou sem partitura, como hoje se usa e abusa.

As nossas discussões nas assembleias gerais eram francas, leais e livres, sem quaisquer peias ou entraves ao pensamento daquele que tivesse reclamado a palavra, salvo as que impunham a lei ou o regulamento. Mas, repito, havia em cada um de nós a preocupação de afastarmos todos os motivos de ressentimentos ou de divisão, sobretudo os motivos políticos.

Monárquicos ou republicanos, liberais ou absolutistas, religiosos ou ateus, havia em todos um denominador comum, o respeito, um venerando respeito pelas crenças políticas ou religiosas de cada qual. E que me lembre, apenas uma vez a nossa querida associação foi palco com cenário político e isso, felizmente, foi episódio muito fugaz. Tinha-se feito na cidade o habitual cortejo cívico de homenagem aos vencidos do 31 de Janeiro, em túmulo no Prado do Repouso, mas a Associação não tinha mandado o seu estandarte como sempre o fizera. Como presidia na Direcção o Silva Leal, então quintanista de Medicina e monárquico dos quatro costados, o facto foi tomado como acintoso e daí uma convocação da Academia para uma assembleia extraordinária.

Que o movimento revolucionário do 31 de Janeiro tinha sido um acto patriótico, afirmavam uns, e por consequência a Academia tinha obrigação de dar presença ao acto da romagem: que não, pretextavam outros, o movimento tinha sido uma rebelião com desígnios ou objectivos exclusivamente políticos e neste caso a Associação tinha de abster-se ou ausentar-se da comemoração – tais eram os conceitos que episodicamente dividiam os académicos. Já não sei que explicações deu o Silva Leal, sei que não passou de pequena borbulha aquela ligeira erupção sentimental, pois tudo continuou a correr entre nós na boa paz e na boa camaradagem.

Vou terminar – e já não é sem tempo – com o relato dum episódio cheio de bom humor e graça e que provocou saudável riso em toda a gente desta cidade que a ele assistiu ou que dele tomou conhecimento.

Estava eu quartanista de Medicina, à porta da Universidade a conversar com o Pinto da Fonseca, já finalista – moço que mais tarde devia deixar o seu nome no quadro de honra nacional pela sua actuação nas nossas províncias ultramarinas, quer como médico quer como investigador – quando fomos perturbados pelo barulho que fazia a mulher da macaca no cimo dum carro puxado a cavalos, hoje um veículo anacrónico e de museu.

A mulher da macaca era no final de contas um dos muitos figurões que ainda aparecem por aí de longe em longe, de verborreia incontinente mas persuasiva e sugestiva, com o fito de impingirem ao basbaque e ao incauto as mais estranhas e inconcebíveis farmacopeias como drogas miraculosas ou redentoras. A macaca era um minúsculo símio, uma amostra escassa de primata, que guinchava por tudo e por nada ao menor esticão do cadeado firmemente preso ao lampião da carroça e era figura central para a atracção deste eterno saloio que é o portuense.

Ora, perguntava-me o Pinto da Fonseca, apontando em direcção da macaca: «Não acha você que é ferir de mais, ofender de mais Minerva, com tão disparatadas aldrabices, aqui mesmo, em frente dum dos seus augustos templos? Não acha desaforo isto de dizer tolices e mentiras em série, sem considerar ao menos o sítio em que se dizem? E se desafrontássemos Minerva ofendida, raptando a macaca? Haverá um charivari dos demónios, mas talvez que isso traga a atenção para quem tem o dever de velar não só pela verdade que nos ensinaram mas ainda pela boa fé desta simplória gente do burgo».

«Mãos à obra, aderi eu logo com entusiasmo», e elaborámos imediatamente o seguinte programa: 1) Convidar os caloiros que estavam a sair das aulas, a comparecerem às 14 horas precisas no átrio da Universidade; 2) Cada um devia contribuir com o mínimo de 50 centavos para despesas do acto solene do doutoramento da macaca em Farmácia; 3) A música do Terço romperia à frente do cortejo que deveria descer Carmelitas e Clérigos, até ao Hotel Rainha, na Praça da Liberdade, estabelecimento extinto já há alguns anos; 4) O António Mendes, meu condiscípulo e um dos rapazes mais ricos em verve e em humor que eu tenho conhecido, faria o curriculum vitae do pequeno primata e o discurso do seu doutoramento. Finalmente dar-se-ia conhecimento ao público de tudo quanto se pensava fazer, através de «placards» distribuídos pela «baixa».

Estabelecida a programação, faltava o principal: roubar a macaca.

Escolheu-se um caloiro de físico potente e de espírito decidido e que queria obter antecipadamente a carta de alforria. Não foi difícil convencê-lo a ser a figura nuclear na operação em projecto. Para a realização de tal cometimento ele só pedia que lhe protegêssemos a retirada, o mais era com ele.

Éramos ao todo cerca duma dúzia de estudantes agora em volta do carro e em mistura com os populares, muito atentos e polarizados à palavra fluente da pantomineira. Esta também não deu pela aproximação lenta e bem dissimulada dos rapazes. Proclamava ela em altos gritos as virtudes terapêuticas duma certa pomada, quando um esticão forte arrancou a presa da macaca à lanterna do carro. O bicho guinchou estridulamente, a mulher sufocou a lenga-lenga e desatou a gritar: «Ó da guarda, agarra que é ladrão» e nós, os guarda-costas, abrimos clareira ao raptador na densa massa dos paspalhões.

Um polícia correu açodado e afoito sobre o caloiro, mas estacou firme sem mais um passo em frente, resvés à boca da Universidade, como se rijo travão premisse forte na mola da vontade. Para além do limiar da Universidade nenhum polícia ousava ultrapassá-lo; fazê-lo, era como se diz hoje pisar o risco, e isso, nenhum ousava.

Como fosse obra de magia, juntou-se ali no Largo da Universidade a mais variada e curiosa gente, toda ela com ânsia de saber a razão de tão grande chinfrim que fazia a curandeira. Mas logo ali tudo se esclareceu e se disse ao povo ignaro das nossas intenções benignas e humorísticas e delas também se fez ciente a proprietária do símio.

E tudo iria acabar em bem como vai ver-se. À hora aprazada, a música do Terço, o caloirame, duas tipóias dentro duma das quais ia a mulher da macaca, o padrinho da futura doutora, o António Mendes e o caloiro herói do rapto, que transportava uma enorme pasta de papelão bordada a fitas roxas, desceu em garrido e tumultuoso cortejo até ao Hotel Rainha.

E na varanda do primeiro andar deste velho estabelecimento se procedeu à cerimónia do doutoramento da bicha. Num discurso famoso pela graça, pela vivacidade, pela riqueza do humor, mais uma vez o António Mendes, meu condiscípulo querido, fez valer os seus altos méritos histriónicos.

À mulher da macaca foi entregue não só a pasta com as fitas como ainda cerca de trezentos escudos, as sobras que ficaram depois de saldados todos os nossos compromissos. E entre o riso de todos findou um dos grandes acontecimentos da minha vida académica e com ele findou também a presença atrevida e sacrílega dos curandeiros em frente da nossa Universidade.


[Esta história também é relatada, sob um ponto de vista ligeiramente diferente, em O Rapto da Macaca.]




[1] Emídio Guerreiro (Guimarães, 1899 - ibid., 2005) foi professor de matemática (assistente na Faculdade de Ciências do Porto em 1931, demitido por razões políticas, e professor em vários liceus parisienses depois da Segunda Guerra Mundial) e político (mação, participou na revolta de Fevereiro de 1927 contra a Ditadura Militar, na Guerra Civil Espanhola, do lado republicano, na Resistência Francesa contra os nazis, foi um dos fundadores da Liga de Unidade e Acção Revolucionária em 1967, e foi secretário-geral do Partido Popular Democrático em 1975).

[2] A palavra "briosa" é frequentemente usada para designar a Academia de Coimbra, ou mais precisamente a Associação Académica de Coimbra (principalmente, depois dos anos 20, a sua equipa de futebol). Aqui é usada simplesmente para referir a academia, neste caso a do Porto.

[3] Trata-se do célebre filósofo Agostinho da Silva (Porto, 1906 - Lisboa, 1994).

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O Traje Académico em Coimbra
I - O Antigo Regime

Ao contrário do que possa pensar-se, a Universidade de Coimbra-Lisboa[1] não teve um uniforme instituído desde o princípio, nem para os estudantes, nem para os professores. Não significa isto, no entanto, que o seu vestuário não estivesse regulamentado, antes pelo contrário. Na Idade Média, e em parte até ao Liberalismo, o peso do gosto individual na forma de vestir era muito menor do que actualmente: a indumentária devia reflectir claramente o lugar de cada indivíduo na ordem social.[2] Assim, o vestuário dos elementos da Corporação Universitária tinha que espelhar de alguma forma a pertença a essa corporação. Havia, por um lado, diversas limitações oficiais a esse vestuário, de forma a torná-lo sóbrio, decente, e a impedir que colidisse com os privilégios e características próprias dos trajes de outros elementos da sociedade (certas cores e certos tecidos, por exemplo, estavam reservados a determinados estatutos sociais).

Nos Estatutos de 1431, D. João I mandou que
"magistri et doctores euntes ad legendum vel ad quoscunque allios actus scollasticos vel per modum universsi incedant in aparatu in generali sive doctoralli et legentes licenciati et bachalarii in habitu honesto ad minus tallari et ceteri scollares honesti saltim usque ad mediam tibiam";[3]
("os mestres e doutores indo a leccionar ou a quaisquer outros actos escolares ou [que estejam] dentro dos limites da universidade andem em aparato geral ou doutoral e os lentes [i. e., docentes] licenciados ou bacharéis em hábito honesto ao menos talar [i. e., até aos tornozelos] e os outros escolares [em hábitos?] honestos, pelo menos até à meia perna.")[4]

D. Manuel I, por volta de 1503,
"que os escolares [...] andem honestamente vestidos e calçados, scilicet [isto é] não tragam pelotes, nem capuzes, nem barretes, nem gibões vermelhos nem amarelos nem verde-gaio, nem cintos lavrados de ouro";[5]

D. João III, na Ordenança para os estudantes da Universidade de Coimbra, de 1539:
"[...] toda pessoa de qualquer qualidade e condição que seja que por bem de minha ordenação da defesa das sedas a pode trazer [...] a não possa trazer [...] enquanto na dita universidade estudar [...]
Nem poderão os sobreditos nem outros alguns estudantes trazer barras nem debruns de pano em vestido algum.
Nem isso mesmo poderão trazer vestido algum de pano frisado.
Nem poderão trazer barretes doutra feição senão redondos.
E assim hei por bem que os pelotes e aljubetas que houverem de trazer sejam de comprido três dedos abaixo do joelho ao menos.
E assim não poderão trazer capas algumas de capelo; somente poderão trazer lobas abertas ou cerradas; ou mantéus sem capelo.
Item não trarão golpes nem entretalhos nas calças. Nem trarão lavor branco; nem de cor alguma em camisas nem lenços";[6]

e D. João IV, nos Estatutos de 1653 (chamados Estatutos Velhos):
"1º-Os estudantes andarão honestamente vestidos, sem seda alguma: mas poderão trazer os chapéus e barretes forrados, e colares dos mantéus e guarnições de sotainas por dentro: e nas camisas não trarão abanos, senão colares chãos sem feitio de rendas, nem bicos, nem trancinhas, nem de outras guarnições semelhantes, sob pena de dous mil reais, pagos da cadeia, a metade para a Confraria, e a outra para quem o acusar. E não trarão em nenhum vestido de sotaina, calças ou pelotes, as cores aqui declaradas: amarelo, vermelho, encarnado, verde, laranjado, sob pena de perderem os ditos vestidos [...] E porém debaixo das sotainas poderão trazer gibões, ou jaquetas de panos de cores, para sua saúde: contanto que os colares não sejam mais altos que os das sotainas, nem as mangas mais compridas: e poderão outrossim, debaixo das botas ou borzeguins trazer meias calças de cores bem cobertas: e em casa, ou pelas ruas, onde pousarem, poderão trazer roupões de cores, contanto que não sejam das acima proibidas [...]
2º-Não poderão trazer barretes de outra feição, senão redondos, ou de cantos; nem carapuças, senão os que trouxerem dó, no tempo limitado, ou pelas pessoas que o podem trazer [...] E os mantéus, que houverem de trazer, serão compridos, ao menos até ao artelho.
3º-Não trarão capas de capelo cerrado, e trarão mantéus de colar ou de capelos abertos. Porém os criados de estudantes poderão ir ouvir às Escolas com pelotes e ferragoulos, e chapéus, e colares de abanos nas camisas, chãos, que não passem de dous dedos. E os estudantes pobres poderão trazer o mesmo trajo: tirando os colares das camisas de abanos.
4º-Não trarão golpes, nem entretalhos que se vejam em algum vestido, nem piques, golpes, botões ou fitas em botas, ou sapatos [...]".[7]

Por outro lado, a Universidade estava intimamente ligada à Igreja, era efectivamente uma instituição eclesiástica, e uma grande parte dos estudantes e mestres eram clérigos. É pois natural que os universitários adoptassem uma maneira de vestir eclesiástica. António Nunes (em "Subsídio...", págs. 405-406) dá-nos uma caracterização do vestuário dos estudantes de Coimbra nos séculos XVI e XVII:
"Loba ou Sotaina, decorada à frente, de alto a baixo, com uma fileira de pequenos botões, abotoada pelas costas com botões ou cordeis, a qual descia até à meia perna; uma Capa com gola e alamares ou cordão de borlas; um Barrete arredondado ou de cantos; Calção sem entretalhos ou golpes, meias e Botas ou Borzeguins. Os estudantes colegiais [8] traziam os Hábitos das respectivas Ordens, salvo os dos Colégios seculares de S. Pedro e S. Paulo que tinham um Hábito semelhante aos escolares colegiais de Salamanca [...]. Este Trajo usado nas Faculdades também era extensivo aos Lentes, ressalvando-se apenas o pormenor de a Sotaina dos Mestres chegar ao calcanhar, enquanto a do estudante chegava à meia perna. Através dos Estatutos de 1653, dados por D. João IV, ficamos a saber que nesta época ainda se usavam barretes redondos ou de cantos para cobrir a cabeça e não o Gorro comprido, o qual se começou a trazer mais tarde, talvez nos começos do século XVIII. Estes Estatutos conferem ao estudante liberdade para trazer debaixo da Batina coletes e camisas, só mais tarde se tornando obrigatório o costume de envergar Volta Branca e Cabeção Negro [...]."

As lobas dos colégios eram de cores variadas (dentre as que não eram proibidas, claro): em Todos os Santos usavam o pardo, em S. Miguel roxo escuro, em S. Paulo castanho escuro, etc. Mas o preto viria a dominar.[9]

Pormenor de uma gravura holandesa (de George Braun & Franz Hogenborg) de 1572, sobre Coimbra. Parece representar dois escolares – estudantes ou professores. Será o único documento iconográfico sobre o traje académico de Coimbra no século XVI. (Extraído de António Correia, “Subsídios para o estudo do trajo dos estudantes de Coimbra”, Rua Larga, n.º 5 (16/10/1957), pág. 133).

Desta forma, no seu início, o objectivo principal do Traje Académico, não era, como muitas vezes se diz, igualizar os estudantes, mas antes fazer distinguir os académicos na sociedade.[10] A igualização entre estudantes acontecia (até certo ponto) porque, vindo estes de estatutos sociais (isto é, lugares na sociedade) diversificados, deviam convergir na posição académica.

Apesar da falta de uniformização, os estudantes eram obrigados a usar alguma forma de traje académico.[11] De notar que essa obrigatoriedade era permanente, nas aulas ou fora delas, dentro da cidade de Coimbra (território académico).[12]

É possível que no início do século XVIII a maioria dos estudantes (não colegiais) já tivesse convergido para uma mesma forma de traje académico - embora essa forma estivesse dependente de flutuações de moda. Isto é o que se depreende de uma passagem de António Ribeiro Sanches, estudante em Coimbra de 1716 a 1719, nos "Apontamentos para fundar-se uma Universidade Real" (1761):
"até o ano 1718, o vestido dos estudantes da Universidade de Coimbra era uma loba de baeta com capa, que custava 7200 r. até 9600 r. Neste ano veio de Lisboa a moda da abatina, e vem a custar este vestido de crepe ou de pano de 25000 r. até 30000 r."[13]
Qual a diferença entre a loba com capa e a abatina? Segundo o Vocabulario Portuguez e Latino (10 vols., 1712-1728) do P. Rafael Bluteau, a loba era uma
"Vestidura eclesiástica, clerical e honorífica, que chega até o chão, cortada de maneira que nela entram os braços; dela usam também os bedeis da Universidade [...]"
e
"Andar à Abatina. É andar no trajo dos abades seculares de França ou de Itália, com vestido de seda negra, capa curta, volta singela e cabeleira pequena."[14]
Estas descrições não serão muito esclarecedoras, mas parecem sugerir: 1 - que a loba seria mais comprida, mas a abatina de tecido mais caro; 2 - que a abatina foi inicialmente uma moda de influência estrangeira, e mais precisamente de além-Pirinéus. Note-se além disso que a abatina não era uma peça de vestuário, mas sim uma forma de vestir, que incluía uma capa e um vestido que mais tarde se chamaria túnica; ainda mais tarde, esta túnica chamar-se-ia "batina", por simplificação de "abatina".

Segundo António Nunes,
"a loba era uma veste acentuadamente comprida, constituída por dois corpos sobrepostos [...]
A sotaina interna, ou veste talar de baixo, comporta[va] mangas e sistema de abotoadura dianteiro em trespasse. A veste exterior, também conhecida por chamarra, chimere, zimarra, garnacha, [era] uma toga de mangões fendidos [ou despojada de mangas], estolas frontais e cabeção dorsal alongado, podendo comportar debruns variados. [...]
Grande parte do seu peculiarismo radicava no formato cónico da sotaina, que era de enfiar pela cabeça. Para que a entrada e saída da cabeça e dos braços ocorresse sem obstáculos, a sotaina alargava muito dos ombros para a meia perna, sendo ajustável no colarinho graças a um dispositivo de cordões semelhante ao do corpete que era aplicado na zona da coluna vertebral."[15]

Em 1772 a Universidade de Coimbra sofreu uma importante reforma (Reforma Pombalina), tendo recebido novos Estatutos. Os Estatutos de 1772 eram, no entanto, incompletos - (re)organizavam as faculdades, mas pouco diziam sobre a organização central da universidade; e por uma Carta Régia de 5 de Novembro de 1779 ficou explícito que os Estatutos Velhos de 1653 continuavam em vigor naquilo em que não tivessem sido revogados. Assim, sobre o enquadramento legal do traje dos estudantes, pouca ou nenhuma novidade. Os novos Estatutos apenas referem que, para se matricular,
"se apresentará cada Estudante em sua própria pessoa, vestido de hábito de Estudante, que seja decente" (Livro II, Título I, Capítulo IV, §39).
Não há normas legais sobre como deveria ser este hábito de estudante, mas existe uma descrição, pouco posterior, dos seus constituintes habituais. Na edição de 1791 da Macarronea Latino-Portuguesa (o conjunto de textos conhecido como Palito Métrico), vem incluída a "Economia Escolástica - segunda parte do Sábio em Mês e Meio", de António Castanha Neto Rua, que acerca do Traje Académico diz entre outras coisas o seguinte:
"Todo o cidadão que se condecora com o título de homem de bem, para decentemente aparecer no meio dos outros, carece para seu adorno externo, [...] enquanto estudante, de Verão, de sete [cousas], vem a ser:- cabeção, volta, camisa, batina, meias, sapatos, e fivelas; e de Inverno, de nove, porque entram calções e colete, que de Verão são inteiramente desnecessários."[16]
Segundo o Diccionario da Lingua Portugueza de António Moraes Silva (2 vols., Lisboa, 1789) "batina" era como o vulgo chamava à abatina, e esta era um "vestido de abade, ou clérigo secular, consta[ndo] de túnica, e capa talar mui fraldada". Quanto a "túnica": "vestidura talar, chegada ao corpo, e por baixo de capa".[17]

Sendo a túnica da batina descrita como talar, ou seja até ao calcanhar, deduz-se que era bastante mais comprida do que a actual batina. O facto de os calções serem dispensáveis sugere o mesmo. No entanto, no caso dos estudantes, é possível que não fosse rigorosamente talar - ou melhor, é natural que fosse um pouco mais curta do que a capa, já que, ainda na "Economia Escolástica", se lê: "Reprovo-lhe meias de seda, pois com o roçar da capa vão-se em dous dias"[18] - o roçar da capa, não da (túnica da) batina.






[1] Ou seja, a a universidade que foi fundada em 1288/1290 em Lisboa, transferida em 1308 para Coimbra, em 1388 de novo para Lisboa, em 1354 outra vez para Coimbra, em 1377 para Lisboa, onde esteve um longo (!) período de 160 anos e que ficou definitivamente instalada em Coimbra a partir de 1537.

[2] Cf. Léo Moulin, A Vida Quotidiana dos Estudantes na Idade Média, Lisboa: Livros do Brasil, 1994, págs. 44-46.

[3] Os primeiros estatutos da Universidade de Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, 1991, pág. 16; também citado em Maria Teresa Nobre Veloso, "O Quotidiano da Academia" (in História da Universidade em Portugal, I volume, tomo I, Coimbra: Universidade de Coimbra e Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, págs. 129-151), pág. 134.

[4] Em Os primeiros estatutos da Universidade de Coimbra, pág. 17, aparece a seguinte tradução desta passagem, da responsabilidade do Prof. Doutor Monsenhor Cónego José Geraldes Freire, catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra:
"os mestres e doutores, quando vão para dar as suas lições ou para quaisquer outros actos escolares sigam, segundo o costume da Universidade, com o traje dos mestres ou dos doutores; e os licenciados e bacharéis que leccionarem, com traje honesto, pelo menos talar; e os restantes escolares honestos, ao menos até à meia tíbia".
Não tenho grande competência como tradutor de latim medieval mas, ressalvando a minha ignorância, atrevo-me a achar esta tradução um pouco livre e a usar no texto principal uma outra da minha autoria, feita quando ainda não conhecia esta. Vejo apenas duas diferenças significativas: "per modum universsi" creio poder significar quer "segundo o costume da Universidade" quer "dentro dos limites da universidade", e prefiro a segunda apenas para explicar o "vel" (= ou); "in aparatu in generali sive doctoralli" é mais complicado – traduzir "generali" por "dos mestres" parece-me de facto demasiado livre, pelo menos para os efeitos deste texto. De qualquer forma ficam-me dúvidas sobre esta passagem, que a mim parece indicar que os doutores e mestres podiam usar luxo não académico ("geral") ou, em alternativa, doutoral. Não parece haver quaisquer dúvidas sobre a secção final, que estipula que os licenciados, os bacharéis e os estudantes não graduados deveriam usar roupa sóbria ("honesta"), com os comprimentos indicados.

[5] Os primeiros estatutos da Universidade de Coimbra, pág. 34; também citado em Maria Teresa Nobre Veloso, "O Quotidiano da Academia", pág. 134.

[6] Ordenança pera os estudãtes da universidade de Coymbra, reedição fac-similada comemorativa do IV Centenário do estabelecimento definitivo da Universidade em Coimbra, s.l. [Coimbra?], s.d. [1937?]. Também citado por Manuel Cabral e Rui Marrana, Quid Praxis? (Portucalensis), Porto: Associação de Estudantes da Universidade Católica Portuguesa no Porto, 1982, pág. 52; e por Alberto Sousa Lamy, A Academia de Coimbra 1537-1990, Lisboa: Rei dos Livros, 1990, pág. 649.

[7] Estatutos da Universidade de Coimbra (1653), edição fac-similada, Coimbra: por ordem da Universidade, 1987, pág. 139. Também citado por António Nunes, "Subsídio para o estudo genético-evolutivo do Hábito Talar na Universidade de Coimbra" (in Universidade(s) - História, Memória, Perspectivas, vol.3, Coimbra, 1991, págs. 399-419), pág. 407; e por Alberto Sousa Lamy, A Academia de Coimbra, pág. 649 e seg.

[8] Isto é, os que viviam nos Colégios, espécie de Residências, normalmente pertencentes a ordens clericais.

[9] António de Oliveira, “O Quotidiano da Academia”, (in História da Universidade em Portugal, I volume, tomo II, Coimbra: Universidade de Coimbra e Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, págs.617-692), págs. 643-644.

[10] Existiam outras formas de distinção, como o Foro Académico: os universitários (incluindo os funcionários e todos os que trabalhassem para a Universidade) estavam fora da alçada das autoridades comuns. Tinham tribunais, cadeia e mesmo polícia (os verdeais) próprios.

[11] António de Oliveira, “O Quotidiano da Academia”, págs. 642-643.

[12] Lamy, Academia de Coimbra, pág. 653.

[13] António Nunes Ribeiro Sanches, Obras, vol. I, Coimbra: por ordem da Universidade, 1959, pág. 158 (estes "Apontamentos...", datados de Paris, 17 de Julho de 1761, foram publicados originalmente em 1763 junto com o Método para aprender e estudar a Medicina). Esta passagem é também citada por Lamy, Academia de Coimbra, pág. 651. Na Universidade Real (por oposição a eclesiástica) que Ribeiro Sanches propunha, "todos os Magistrados, Lentes, Leitores, Estudantes internos e externos [andariam] vestidos da mesma sorte", com a única diferença de uma insígnia ("uma marca no vestido, como uma meia estola, de cores diferentes") pela qual se distinguiriam; e todas as peças de vestuário e afins seriam de fabrico nacional - Ribeiro Sanches criticava os enormes gastos dos estudantes de Coimbra neste campo, nomeadamente em artigos estrangeiros.

[14] "Loba" aparece no vol. V (1716), pág. 168; "Abbatina" no vol. I (1712), pág. 20.

[15] Cf. as entradas O hábito talar e as insígnias de Bernardino Machado (cont.) - Percursos do Hábito Talar em Coimbra, Porta-Maças da Catedral de Peterborough e Santo Ovídio "Doutor" do blogue Virtual Memories. António Nunes defende que a substituição da loba pela batina no traje dos estudantes de Coimbra se deu apenas depois das reformas liberais de 1834 - e ainda um pouco mais tarde no caso do traje dos doutores. Não estou convencido disso (devido ao testemunho de Ribeiro Sanches e ao que veremos a seguir), mas ressalve-se que: 1 - um relato de um viajante alemão, Heinrich Friedrich Link (1767-1851), que esteve em Coimbra em Maio de 1798, parece de facto descrever o traje dos estudantes e professores como constituído por loba (sem capa?); e 2 - um edital de 1843 utiliza ainda a palavra "lobas".

[16] Palito Métrico e correlativa Macarrónea Latino-Portuguesa, nova edição de harmonia com a quarta, de 1792, Coimbra: Coimbra Editora, 1942, pág. 384.

[17] A loba parece que era já antiquada: "Vestido escolástico antigo, consta de túnica aberta que sobrepõe por diante, sem mangas, e de uma capa talar".

[18] Palito Métrico, pág. 385.