quinta-feira, 5 de maio de 2011

Cartazes da Queima dos anos 80 e 90

Apresento abaixo cartazes da Queima das Fitas dos anos 80 e 90.
As imagens dos cartazes de 1981 e 1986 foram retiradas da Biblioteca Nacional Digital. Os outros cartazes são da minha colecção pessoal [o cartaz de 1980 e o segundo cartaz de 1991 foram acrescentados em 22/04/2017; o de 1990 em 04/05/2019].
Se possível, gostaria de colocar aqui mais cartazes destes anos – idealmente, todos os cartazes entre 1979 (o ano da primeira Queima pós interrupção) e 1997 (o último ano em que houve cartaz da Queima).
Isto seria razoavelmente fácil digitalizando os autocolantes dos anos para os quais não tenho cartazes. Mas prefiro procurar imagens obtidas directamente a partir dos cartazes e reservar os autocolantes para outra entrada do blogue – nalguns casos a qualidade dos autocolantes não era a melhor, não reflectindo bem o desenho do cartaz (embora, na verdade, o caso mais extremo deva ser o de 1993 e eu tenha esse cartaz).
Se algum leitor do blogue tiver algum cartaz dos que me faltam e estiver disposto a colaborar, fico agradecido e outros leitores também deverão ficar.






[Em 1991 houve dois cartezes: o cartaz acima, polémico, já depois de ter sido afixado pela cidade acabou substituído pelo que se vê abaixo, mais tradicional.]






sábado, 30 de abril de 2011

Mais alguns programas da Queima das Fitas, anos 80 e 90

Coloco aqui mais alguns programas da Queima, já de depois da interrupção nos anos 70 (mas de antes de as Noites da Queima terem assumido a predominância quase total no programa). Ao contrário do que acontecia nos programas de 1958 a 1970, não há aqui um modelo uniforme; retirei estes programas de sítios diversos. Mesmo assim, para manter alguma semelhança com esses programas mais antigos, coloco junto a cada programa alguma imagem do cartaz desse ano, retirada do mesmo sítio.
(É claro que para conseguir ler os programas se deve abrir as imagens respectivas.)


Cartaz oficial e programa (também em formato de cartaz) da Queima de 1986, retirados da Biblioteca Nacional Digital. O cartaz tinha 70x49 cm e o programa 59x43 cm.


Desdobrável em formato (aproximadamente) A4, distribuído com o Boletim da UP, com o programa da Queima de 1991. A imagem da primeira página é o cartaz desse ano.[1]


Capa e verso da capa da Revista da Queima das Fitas de 1992, com o cartaz e o programa desse ano, respectivamente.[2]


Capa e uma das páginas interiores (não numeradas) de um suplemento, distribuído julgo que com o Jornal de Notícias (mas da responsabilidade da Comissão Executiva) dedicado à Queima das Fitas de 1994 (dimensões: 23x28 cm). A capa tem uma versão cortada do cartaz desse ano (e um anúncio a um banco...).





[1] Ou, mais precisamente, do segundo cartaz desse ano. Mas isso é outra história...

[2] Foi neste ano que se realizaram pela primeira vez as Noites da Queima.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Alguns programas da Queima das Fitas, por volta dos anos 60

Vêem-se abaixo imagens de alguns programas da Queima das Fitas da Universidade do Porto entre os anos de 1958 e 1970. Na parte da frente de cada um pode ver-se um dos desenhos concorrentes no concurso do cartaz da Queima desse ano (creio que algumas vezes, como em 1966, o vencedor e, noutros casos, um 2.º ou 3.º prémio [correcção, 6/5/2011: como se pode ver em Cartazes da Queima dos anos 60, também em 1966 o desenho usado para o programa não foi o vencedor do concurso do cartaz]). No verso (aqui apresentado ao lado) o programa propriamente dito.
O programa de 1958 tem 8 por 12cm. Os outros cerca de 10,5-11cm de largura por 14cm de altura.
As imagens dos programas de 1966, 1968, 1969 e 1970 foram retiradas de uma secção do Álbum de Memórias do Gabinete do Antigo Estudante da UP (um álbum muito interessante, a propósito). As outras são digitalizações de originais da minha colecção pessoal.









quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Quando foi a primeira Queima das Fitas?

Há umas semanas, consultando a página do Centenário da Universidade do Porto, reparei, na secção dedicada a 100 momentos importantes na vida da instituição, no texto A primeira “Queima das Fitas”, onde se diz erradamente que a primeira Festa da Pasta (precursora da Queima das Fitas) se realizou em 1920 (a bem dizer, o autor do texto levanta dúvidas sobre essa data, mencionando "outras fontes"; mas sem pormenores).[1]

Seguindo a única fonte apresentada, uma ligação para uma página da Federação Académica do Porto com uma pequena História da Queima das Fitas do Porto, deparei-me com a seguinte afirmação, que só pode ser classificada como disparate:
A história da Queima das Fitas no Porto não é muito mais recente que a de Coimbra, que se iniciou em 1919, pois já em 1920, os finalistas de Medicina da Universidade do Porto faziam a chamada “Festa da Pasta”, que é considerada a origem da Queima das Fitas do Porto.[2]

Vou tentar esclarecer, na medida do possível, esta questão das primeiras Queimas das Fitas - do Porto e de Coimbra.


O que significa "primeira Queima das Fitas"?

Mas faz sentido falar em "primeira Queima das Fitas"?
Quer a Queima das Fitas do Porto quer a de Coimbra são resultados de evoluções a partir de festas que hoje muitos não reconheceriam como Queimas das Fitas. Decidir que a primeira Queima das Fitas do Porto ou a primeira Queima das Fitas de Coimbra foi no ano x ou no ano y será sempre uma decisão arbitrária, dependente do que se considera uma Queima das Fitas:
- é necessário usar o nome "Queima das Fitas"?
- é necessário incluir um cortejo alegórico?
- é necessário ter um programa desenvolvido, ao longo de vários dias?
- é necessário abarcar todas as faculdades, ou basta uma? ou algumas?
Seja como for, deve ser evidente que não faz qualquer sentido aplicar critérios diferentes ao Porto e a Coimbra. Quem decidir que a primeira Queima de Coimbra foi em 1919 - o ano em que a Queima das Fitas foi pela primeira vez realizada em conjunto por todas as faculdades da Universidade de Coimbra - não pode dizer, sob pena de incoerência, que a primeira Queima do Porto foi antes dos anos 40.


Como e quando surgiu a Queima das Fitas de Coimbra?

No final do século XIX, entre os estudantes de Coimbra, os únicos que usavam pasta eram os finalistas - os quintanistas. Os estudantes de outros anos traziam habitualmente os livros e cadernos atados com uma fita, mais estreita do que as oito fitas largas das pastas de quintanista (é claro que a fita estreita é antepassada do grelo, mas não tinha ainda esse nome, não estava ainda associada a uma pasta, nem era exclusiva do 4.º ano).

Pormenor de uma fotografia do 3.º ano da Faculdade de Direito de Coimbra de 1890/91. (António Nunes, A Alma Mater Conimbrigensis na Fotografia Antiga, Coimbra: Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, 1990, n.º 26.)
A partir de alguma altura no final do século, os quartanistas da Faculdade de Direito começaram a celebrar o fim do ano queimando as suas fitas estreitas - já que no ano seguinte já não as usariam. Quando começou esse costume? Aparentemente depois das festas do Centenário de Camões, em 1881[3]. Alfredo Pratt, escrevendo em 1899, descreveu esta tradição como tendo já sido modificada: "ainda há pouco tempo" era costume as cinzas das fitas serem enterradas junto à Porta Férrea; mas entretanto o chão tinha sido asfaltado[4].

No fim de Maio de 1901, os quartanistas de Direito fizeram a Queima das Fitas: saíram às 14h do Pátio da Universidade num cortejo de vinte carros enfeitados, levando caloiros presos com as fitas - "fitas estreitas, de algodão, encarnadas (a cor de Direito) e que serviam para atar os livros"; às 15h30 chegaram ao Largo da Feira onde estava montado uma espécie de púlpito e aí emanciparam solenemente os caloiros; à noite queimaram as fitas no Largo da Sé Nova e depositaram as cinzas junto à Porta Férrea.
Em 1902 houve também uma Queima das Fitas de Medicina (separada da de Direito e utilizando um balão para queimar as fitas) e nos anos seguintes os quartanistas de ambos os cursos fizeram Queimas das Fitas, mas com bastantes falhas (por exemplo, em 1907 e 1908 não houve Queima nem de Direito nem de Medicina). Quando havia, à queima propriamente dita e ao cortejo associavam-se por vezes outros festejos: garraiada, tourada de caloiros ou latada, almoço ou merenda nalguma localidade perto de Coimbra. É de notar que havia outras festividades de fim de ano, independentes da Queima das Fitas, como latadas (por vezes independentes da Queima, por vezes associadas), Récitas de Despedida, ou a chamada Formatura dos Médicos; estas duas últimas, como é evidente, eram realizadas por finalistas (e talvez fosse mais apropriado chamar-lhes festividades de fim de curso do que de fim de ano), ao contrário da Queima das Fitas que, repita-se, era uma festa de quartanistas. [5]

Em 1918, pela primeira vez, Direito e Medicina fizeram uma Queima das Fitas conjunta. E em 1919 houve, pela primeira vez, uma Queima das Fitas dos quartanistas de todas as faculdades; neste ano um quintanista de cada faculdade entregou a um quartanista as fitas[6]. Algo semelhante seria costume? Em Junho de 1917 os quintanistas de Medicina tinham cedido as pastas com fitas aos quartanistas, no Hospital.

Nos anos seguintes (particularmente ao longo da década de 30) o programa vai aumentando e atraindo estudantes de outros anos: em 1931 há garraiada, um desafio de futebol e, a terminar, o cortejo; em 1932 os finalistas de Medicina realizam pela primeira vez a Venda da Pasta, com fins beneficentes, e usam pela primeira vez chapéus de coco e cartolas no cortejo; em 1935 há o primeiro Baile. Mas em 1919 o núcleo das festas estava formado e estendia-se a toda a universidade. [7]
Programa geral da Queima das Fitas de Coimbra de 1939.



Como e quando surgiu a Queima das Fitas do Porto?

No Porto, antes da criação da Universidade, só os quintanistas da Escola Médica usavam pastas - pastas de luxo, ricamente decoradas, com fitas amarelas e vermelhas (as cores da Escola Médica).

Duas pastas de quintanista da Escola Médica (e um bandolim) numa exposição organizada pelo Museu de História da Medicina Maximiano Lemos pelo Dia da FMUP de 2008. A fotografia está na página deste Museu.
Aqui surgiu o costume anual de um quintanista entregar uma pasta simbólica a um quartanista. Em 12 de Maio de 1901,
"Os alunos da Escola Médica festejam o encerramento das aulas com várias cerimónias académico-cómicas.

No momento da entrega da pasta simbólica ao quartanista Campos Monteiro, discursou, em latim bárbaro, o quintanista José Ferreira Viegas, terminando as hilariantes cerimónias com o coro dos sebastianistas, d'«O Burro do sr. Alcaide»."[8]

(Reproduzido do artigo de Ângelo Vaz, "Último curso do dr. Lebre", parte I, O Tripeiro, V série, ano VI (1950-1951), págs. 268-269. Esse artigo, que apareceu em várias partes nos anos VI e VII da V série d'O Tripeiro, foi também publicado em separata ainda em 1951.)
No ano seguinte, a 24 de Maio:
"Festa da entrega da pasta na Escola Médica, com os habituais chistosos discursos e foguetes de dez réis.
Campos Monteiro, quintanista, interroga Simões Pina, do 4.º ano:
- Antoine, credis in Medicina?
- Credo.
- Credis in Sanctam Matrem Charlatanorum?
- Credo.
- Credis in cura tuberculosis per Badiana Phosphatum?
- Credo.
- Vis esse doctor?
[- Volo.]
- Accipe pastam.
.[9]
e, findo o interrogatório, entregou a pasta ao examinando, que agradeceu a mercê num discurso cheio de graça.
Os quintanistas abriram e encerraram a festa, entoando, com letra apropriada ao acto, o coro da récita de despedida do Curso."[10]

Terão sido estas as duas primeiras vezes que se realizou a Entrega da Pasta? Não é certo, mas é provável que sim. Os quartanistas de 1900-1901, o chamado "último curso do Dr. Lebre" (porque foram os últimos a ter um célebre professor de anatomia, João Dias Lebre), certamente tinham iniciativa suficiente para lançar este costume. Foram eles que, já quintanistas, fizeram a primeira récita de despedida de estudantes do Porto ("Filhos de Minerva", farsa de Abílio Campos Monteiro - o quartanista que em 1901 recebeu e o quintanista que em 1902 entregou uma pasta simbólica - com música de Manuel Monterroso e Lima Elias).

Programa da Récita dos Quintanistas de Medicina do Porto de 1902, "Os Filhos de Minerva". (Reproduzido de Porto Académico, n.º único de 1962, pág. 36)
Seja como for, nos anos seguintes a Entrega da Pasta continuou a realizar-se. António de Almeida Garrett, que estudou na Escola Médica de 1901 a 1906 (mais tarde foi professor e director da Faculdade de Medicina) viria a recordar a Entrega da Pasta como uma das "duas festanças de todos os anos" (a outra era a entrada dos caloiros).[11]

Ainda assim, deve ter havido um intervalo de alguns anos em que a Entrega da Pasta não se realizou. Só assim consigo entender que José Corte Real, estudante na Escola Médica na passagem da Monarquia para a República, supusesse que este costume tinha aparecido no seu tempo[12]. Mesmo assim, vale a pena citar algumas passagens, descrevendo a Entrega da Pasta num dos iniciais da República:
"vou contar como nasceu no Porto o que hoje, à maneira coimbrã, se denomina «Queima das Fitas» e no vernáculo tripeiro «Festa da entrega da pasta».

[...] encomendou-se na «Papelaria Académica», nesse tempo instalada numa casa próxima do «Café Âncora de Ouro», uma pasta de papelão com cinquenta centímetros de comprimento por 30 de largura, com fitas amarelas e vermelhas, as cores da antiga Escola Médico-Cirúrgica de que fui aluno.

[...] compr[ou-se] uma dúzia de foguetes de dez réis, também chamados de três estalos. No dia seguinte, debaixo de uma das tílias que havia em frente da Escola [...] o Carlos Praça leu o discurso e a pasta foi entregue ao Miranda de Penafiel, aluno do quarto ano, do período transitório[13]. O Roberto tocou acordeão, queimaram-se os foguetes e... foi tudo. Seguimos depois até à baixa como que a dar o último passeio às nossas pastas e a dizer adeus à vida de estudante [...]"

Com mais ou menos falhas, a Entrega da Pasta deve ter continuado a realizar-se nos anos seguintes, na Faculdade de Medicina.

Em 1925, a 10 de Maio, o jornal Primeiro de Janeiro noticia a Entrega da Pasta, ou Festa da Pasta (os dois termos coexistem nos anos 20): às 9h Zés Pereiras e Gaiteiros; às 13h os estudantes, acompanhados de duas bandas de música, dirigem-se ao Cais da Ribeira para esperar um convidado - o inventor da Sanocrisina - que chega de caiaque; depois voltam todos em cortejo à Faculdade de Medicina; aí há discursos humorísticos, seguindo-se a entrega das pastas e dos grelos e a emancipação dos caloiros; para terminar, vinho, boroa, azeitonas e iscas.[14]
Esta notícia ilustra duas tendências nos anos 20: a entrega do grelo aos novos quartanistas, a acompanhar a da pasta com fitas aos novos quintanistas; e um certo elaborar do programa, com recepção a um "convidado" importante com comitiva (todos estudantes fantasiados, claro).
Em 1926 o Jornal de Notícias descreve a "tradicional Festa da Pasta" com um programa semelhante: Zés Pereiras, recepção ao dr. Escolas na futura Estação da Trindade, regresso à Faculdade em cortejo (vendo-se "as bandeiras e pendões das colectividades científicas de Figueirós dos Vinhos, Freixo de Espada à Cinta, Reguengos, etc."), seguindo-se a cerimónia da Entrega da Pasta e o "copo de água costumado".
Em 1927 a Festa da Pasta incluiu um cortejo nupcial, do Rito e da Rita (paródia a um caso de travestismo noticiado sensacionalisticamente pelo então célebre Repórter X[15]). Associadamente, houve logo no dia seguinte um passeio dos quintanistas ("novos médicos") a Vizela e outro dos "novos quintanistas" ao Bom Jesus do Monte, em Braga.[16]

Alguns dos "novos quintanistas" de Medicina de 1927 no Bom Jesus do Monte; e os "novos médicos" do mesmo ano, com os seus professores (Ilustração Moderna, 2.º ano, n.º 14 (Junho de 1927), págs. 338 e 340).


Os relatos jornalísticos (de jornais não académicos) sobre a Festa da Pasta são invariavelmente entusiásticos. No Porto Académico, edição de 31 de Maio de 1924 (pág. 8), aparece um apontamento num tom bem diferente, de insatisfação:
"Ainda não foi este ano que a festa da pasta atingiu o brilhantismo que seria para desejar. Veremos se para o ano se consegue que a cerimónia se não limite à Médica e nela tomam parte as outras faculdades..."
É natural que ocorresse a comparação com Coimbra onde, recorde-se, desde 1919 a Queima das Fitas realizada em conjunto por todas as faculdades.

Nos anos 30 dá-se finalmente um alargamento às outras faculdades, mas não em moldes de realização conjunta. Em vez disso, cada uma das outras faculdades (e também os institutos não universitários) passa a realizar a sua Festa da Pasta.
No Comércio do Porto de 28 de Maio de 1930 há relatos da Festa da Pasta nas Faculdades de Farmácia e de Letras; no Jornal de Notícias de 24 de Maio de 1931, no Instituto Superior de Comércio; no Primeiro de Janeiro de 19, 20, 23, 25 e 28 de Maio de 1933, respectivamente na Faculdade de Ciências, Instituto Superior de Comércio, Faculdade de Engenharia (também no Comércio do Porto de 21 de Maio), Faculdade de Farmácia e no Instituto Industrial e Comercial (antecessor dos actuais ISEP e ISCAP).
Ocasionalmente, nestes relatos jornalísticos há referências a uma queima do grelo. Por exemplo, na Festa da Pasta de Farmácia de 1930, no momento em que um quartanista dá a pasta a um terceiranista (o curso de Farmácia era então de 4 anos), é "queimado o grelo num fogareiro entre palmas vibrantes".
Já em 1927 o artigo acima citado do Comércio do Porto diz na introdução que os estudantes de Medicina promoveram a "festa da queima das fitas e entrega da pasta" - embora na descrição da festa refira apenas a "entrega da pasta aos estudantes que entraram no quinto ano".
Em 1940, o nome "Queima das Fitas" já aparece por vezes em alternativa a "Festa da Pasta": no Jornal de Notícias de Maio desse ano há referência à Queima das Fitas na Faculdade de Ciências (dia 10) e na Faculdade de Medicina (dia 14); mas na maioria das vezes fala-se ainda em Festa da Pasta (mesmo relativamente a essas duas faculdades).
Quanto aos "extras" do programa: parece ter desaparecido completamente a recepção a "convidados" importantes; mas mantêm-se os passeios a outras terras; e aparecem bailes e chás dançantes. Em 1934, o programa da Festa da Pasta de Ciências consiste na entrega das fitas e do grelo, em sessão solene, seguida de chá dançante, tudo isto no dia 17 de Maio, e num passeio a Aveiro nos dias 18 e 19[17]. Em 1938, o programa da Festa da Pasta de Medicina era mais desenvolvido: dia 16 de Maio - "queima do grelo"; 17 - "espantoso desafio de futebol"; 18 - "provável copo de água, provável matinée ou provável coisa nenhuma"; 19 - baile no Salão Nobre em honra do corpo docente; 20 - descanso; 21 - excursão a Braga e Guimarães[18].


Uma Festa da Pasta típica dos anos 30: Faculdade de Ciências, 1933, no Jornal de Notícias de 19 de Maio desse ano.

Nos anos 40 verificamos três tendências: a união das Festas da Pasta das quatro faculdades da UP, convergindo numa única festa (com total exclusão dos institutos); a realização, a partir de 1944, de um cortejo alegórico; o desaparecimento da expressão Festa da Pasta com a sua total substituição por Queima das Fitas. Estas três tendências não são independentes - as duas últimas são de clara inspiração coimbrã; e a primeira, se não necessitava absolutamente dessa inspiração e até já tinha ocorrido à mente de um redactor do Porto Académico em 1924, parece indispensável para o sucesso da segunda.
Em 1943 a Festa da Pasta foi realizada separadamente em cada faculdade mas, intencionalmente, no mesmo dia (14 de Maio). O Jornal de Notícias apresenta explicitamente esta simultaneidade como abrindo o caminho para a realização no Porto de uma Queima das Fitas semelhante à de Coimbra[19].
Em 1944, em grande parte por iniciativa de René Guimarães (estudante de Engenharia e impulsionador, em 1942-43, da reorganização definitiva do Orfeão Universitário do Porto) há o primeiro programa conjunto e o primeiro cortejo da Queima das Fitas do Porto, com carros de bois e carroças[20]. No entanto, esta Queima não teve continuidade imediata. Em 1945 as Queimas das Fitas de Medicina e Farmácia foram a 18 de Maio (e noticiadas no Primeiro de Janeiro do dia seguinte), enquanto a de Engenharia foi a 1 de Junho (noticiada no Comércio do Porto de dia 2); aparentemente não houve cortejo.
Quer em 1946 quer em 1947 houve cerimónias de Queima das Fitas simultâneas nas quatro faculdades, seguidas de cortejo único (no mesmo dia, as cerimónias começando às 14h ou 15h e o cortejo pelas 18h). Mas as notícias no Comércio do Porto, de 18 de Maio de 1946 e 16 de Maio de 1947, não referem nenhum número dum programa conjunto, a não ser o cortejo.
Em 1948 houve outra vez programa conjunto (o que foi apresentado como novidade em notícias do Comércio do Porto de 14 e 19 de Março), sendo a organização encabeçada por uma Comissão Central composta por um grelado de cada uma das quatro faculdades[21]. O programa, na versão publicada no Comércio do Porto de 16 de Abril, consistia em: dia 19 de Maio - cerimónias da Queima das Fitas em cada faculdade, cortejo com carros ornamentados seguido de batalha de flores e, à noite, festival no Palácio de Cristal e baile; 20 - chá dançante dos novos quartanistas de Medicina e, à noite, sarau de gala; 21 - Jogos Florais da Faculdade de Medicina; 22 - tarde desportiva e, à noite, baile de gala das quatro faculdades; 23 - à noite, festival nos jardins do Palácio de Cristal. Neste ano houve também cartaz da Queima das Fitas.

Cartaz da Queima das Fitas da UP de 1948, da autoria de Inácio Salcedo y Abad, representante da Faculdade de Medicina na Comissão de Propaganda dessa Queima. Reprodução a preto e branco (o original tinha com certeza as cores das quatro faculdades) num jornal não identificado, disponível no Arquivo Noticioso da UP; uma reprodução com pior qualidade apareceu também no Comércio do Porto de 16 de Abril.

A partir daqui a Queima das Fitas da Universidade do Porto estava definitivamente enraizada. Em 1949 o Primeiro de Janeiro (de 18 de Março) ainda diz ser a "primeira vez que colaboram estreitamente unidas todas as faculdades" (talvez uma referência ao facto de em 1948 ter havido chá dançante e jogos florais da Faculdade de Medicina), mas a Queima das Fitas da UP estava bem estabelecida em 1948 e foi-se realizando, essencialmente nos mesmos moldes, anualmente até 1971.


Notas finais

Para além da data errada de 1920 para a primeira Festa da Pasta, há pelo menos duas incorrecções nas páginas do Centenário da UP).[1] e da FAP).[2] que vale a pena referir:

- Lê-se na página da FAP que na Festa da Pasta se fazia "a passagem da pasta dos estudantes que estavam a terminar o seu curso, os quintanistas, aos que entravam na recta final, os quartanistas" e "juntamente [...] era imposto o grelo aos quartanistas". E na do Centenário da UP que se fazia "a passagem da pasta dos estudantes que estavam a terminar o seu curso - os quintanistas - aos que entravam na recta final, os quartanistas, a quem era também imposto o grelo". Ora, o grelo era (e é) imposto aos futuros quartanistas - frequentemente chamados "novos quartanistas", mas que eram de facto terceiranistas - tal como a pasta com fitas era passada aos futuros quintanistas - frequentemente chamados "novos quintanistas" mas, claro, ainda quartanistas (como habitual, e para simplificar, uso a referência de cursos de 5 anos; num curso de 4 anos os "terceiranistas" são na verdade do 2.º ano).

- Lê-se na página da FAP que a primeira Benção das Pastas foi em 1944, integrada na Queima das Fitas. Na realidade a Benção das Pastas é bastante anterior, no Porto, a esse ano: data, pelo menos de 1933 (Comércio do Porto, 4 de Maio de 1933). Continuou a realizar-se nos anos seguintes, mas independentemente das várias Festas da Pasta. Não sei se a de 1944 terá de facto estado integrada na Queima das Fitas; mas a de 1948, depois de ter sido anunciada como fazendo parte do programa da Queima (Comércio do Porto de 19 de Março), realizou-se autonomamente (Comércio do Porto de 10 de Maio e 16 de Abril). A integração plena da Benção das Pastas na Queima das Fitas deve ter acontecido apenas nos anos 50.

Devo ainda dizer que me parece que a origem destas incorrecções está numa leitura pouco cuidadosa, feita por quem escreveu o texto da página da FAP, do livro Quid Praxis? (Portucalensis), de Manuel Cabral e Rui Marrana (Porto: AE da UCP no Porto, 1982). Os autores desse livro realizaram um trabalho meritório (mas preliminar) de pesquisa sobre a Festa da Pasta e a Queima das Fitas em jornais antigos e chegaram a um razoável resumo histórico relativamente ao período 1920-1945 (págs. 134-137). Infelizmente, não encontraram nada sobre os anos anteriores.
Que, passados quase 30 anos, se continue a utilizar o Quid Praxis? (um livro datado e, como os próprios autores admitiram, escrito à pressa para sair a tempo da Queima de 1982) como principal - quase única - fonte para a história da Queima das Fitas do Porto, diz muito. Eu também tenho culpa por este estado de coisas.

Para terminar:
Não tenho pretensões a ser imune a erros. Mas, mesmo que fosse, faltaria responder a várias questões - por exemplo, se a primeira Entrega da Pasta foi efectivamente em 1901.
Há muita documentação por consultar: notícias de jornal, programas (alguns depositados no Museu de História da Medicina, alguns pertença de particulares), etc. Há, também, alguns estudantes dos anos 30 e 40 ainda vivos (casos do dr. Aureliano da Fonseca e do Eng. René Guimarães) que poderiam e deveriam ser entrevistados. Mas, falando directamente, não tenho disponibilidade temporal para fazer essas investigações aturada e sistematicamente. Tentei ser exaustivo e cuidadoso apenas com o que tinha facilmente disponível (material online e material que tenho vindo a coleccionar ao longo dos últimos quase 20 anos). Como deve ser notório, o Arquivo Noticioso da UP foi uma ajuda inestimável.





[1] Para que se entendam as minhas referências a este texto, e porque este deverá vir a ser corrigido, fica aqui o texto completo, tal como o consultei no dia 9 de Fevereiro de 2011:

A primeira “Queima das Fitas”
1920

Sábado amanheceu carancudo, cara de cão, a modos que a querer desbancar o axioma - «que não há sábado sem sol»... - Um vento diabólico, nuvens pesadas, parcadentas (...) Mas os ares desanuviaram-se. Depois da da alvorada- os 34,5 morteiros da praxe - a cidade ficou sabendo que nem haveria catástrofes, nem rabistrazanismos, nem falta de sol. Ao invéz - e à míngua de melhor - estava-lhe reservada uma hora de deliciosa alegria, festa rija, uma das desbundantes rapaziadas da rapaziada das escolas. Era a Festa da Pasta e - como sempre - o povo havia também este ano de rir a bom rir. (in O Jornal de Notícias, 15 de Maio de 1926)

A história da actual Queima das Fitas no Porto tem origens na “Festa da Pasta” que se terá realizado pela primeira vez em 1920 (ainda que outras fontes apontem as suas origens para o início do século), entre os finalistas de Medicina da Universidade do Porto. A “Festa da Pasta” era um evento que comemorava a passagem da pasta dos estudantes que estavam a terminar o seu curso - os quintanistas - aos que entravam na recta final, os quartanistas, a quem era também imposto o grelo.

Ao longo dos anos a “Festa da Pasta” foi-se difundindo pelas diversas faculdades da Universidade do Porto. Em 1943, passou a haver uma só para todas as faculdades, altura em que nasce a designação “Queima das Fitas”, na qual passam a estar integrados eventos como os Jogos Florais ou a Missa da Benção das Pastas.

Em finais da década de 60, fruto da crescente convulsão política que atingiu o país, a Queima começou a ser contestada por alguns sectores estudantis, o que acabaria por decretar a sua suspensão a partir de 1971. Após o ressurgimento, em 1978, a Queima das Fitas do Porto começou a tomar os moldes actuais, com a realização de actividades como a Serenata, o Cortejo Académico, o concerto Promenade, o Sarau Académico, entre outras. Esta evolução ao longo dos últimos 20 anos fez com que a Queima das Fitas deixasse de ser uma festa restrita aos estudantes para passar a ser a segunda maior festa da cidade do Porto e a maior festa Académica do País.

Actualmente, a Queima das Fitas é realizada pela Federação Académica do Porto (FAP) e tem lugar no início de Maio, no “Queimódromo” localizado no Parque da Cidade.

Mais informações

[2] Texto completo, consultado em 9 de Fevereiro de 2011:

A história da Queima das Fitas no Porto não é muito mais recente que a de Coimbra, que se iniciou em 1919, pois já em 1920, os finalistas de Medicina da Universidade do Porto faziam a chamada “Festa da Pasta”, que é considerada a origem da Queima das Fitas do Porto.

A “Festa da Pasta” era um evento, com um grande espírito académico, que comemorava a passagem da pasta dos estudantes que estavam a terminar o seu curso, os quintanistas, aos que entravam na recta final, os quartanistas. Juntamente com a passagem da pasta era imposto o grelo aos quartanistas. Ao longo dos anos a “Festa da Pasta” foi-se difundindo pelas diversas faculdades da Universidade do Porto, sendo que cada faculdade tinha a sua própria festa. As diversas “Festa da Pasta” realizaram-se ininterruptamente até 1943, ano a partir do qual passou a haver uma só para todas as faculdades.

Nesse mesmo ano de 1943, começou-se a usar o nome de Queima das Fitas, paralelamente ao de “Festa da Pasta”, tendo-se realizado no ano seguinte, em 1944, ainda integrado nestas comemorações, a primeira Missa da Benção das Pastas, na Igreja dos Clérigos.

Em 1945, a expressão “Festa da Pasta” é abandonada totalmente e é a partir desta data que passa a existir a “Queima das Fitas do Porto”, que resulta da já explicada evolução da “Festa da Pasta”. Até 1971, de uma forma natural, a “Queima das Fitas do Porto” vai evoluindo. Em Coimbra a Queima realiza-se até em 1968, desaparecendo em 1969 no seguimento de todas as convulsões políticas de então. No Porto, a Queima das Fitas só se deixa de realizar a partir de 1971.

Em 1978 a Queima das Fitas ressurge no Porto, com a designação de Mini-Queima e consistiu num cortejo, o que gerou alguma polémica e contestação em vários quadrantes da sociedade por considerarem que esta era uma iniciativa reaccionária. No ano seguinte, em 1979, foi feita uma tentativa mais alargada de organização de Queima das Fitas, tendo havido duas comissões organizadoras. No entanto, só uma delas teve sucesso.

A partir daí a Queima das Fitas do Porto começou a tomar os moldes que actualmente conhecemos, com inúmeras actividades desde a Serenata, ao Cortejo, passando pelas Noites, concerto Promenade, Festival Ibérico de Tunas Académicas, Sarau Cultural… Esta evolução ao longo dos últimos 20 anos fez com que a Queima das Fitas deixasse de ser uma festa restrita aos estudantes para passar a ser a segunda maior festa da cidade do Porto e a maior festa Académica do País.

Desde então, este evento tem sofrido uma progressiva mutação: deixou de ser exclusivamente uma festa restrita aos estudantes para passar a ser a segunda maior festa da cidade do Porto e a maior festa académica do país.

Actualmente, a Queima das Fitas é uma organização da Federação Académica do Porto (FAP) e movimenta cerca de 350 000 estudantes, e um elevado número de pessoas afectas à Área Metropolitana do Porto, números estes só possíveis de atingir dada a diversidade de eventos produzidos, sendo prioridade da FAP não só na quantidade de eventos mas sobretudo a qualidade dos mesmos, havendo um esforço para proporcionar bons espectáculos, a preços acessíveis, a todos os estudantes e a toda a comunidade interessada.

Assim sendo, podemos afirmar que este evento é como que uma retribuição à cidade do Porto e à Região por tudo aquilo que proporciona aos estudantes da Academia, nas suas mais variadas vertentes.

[3] A Queima das Fitas de 1902 "não revestiu a solenidade galhofeira dos anos anteriores que um jornal da cidade revelava ser uso recente - após as festas em honra de Camões, em 1881" (António José Soares, Saudades de Coimbra 1901-1916, Coimbra: Almedina, 1985, pág. 295). Ora, o Centenário de Camões foi em 1880, o que deve querer dizer ou que A. J. Soares se enganou (e, então, "após as festas em honra de Camões" pode ser qualquer ano entre 1880 e um pouco antes de 1899) ou que o "jornal da cidade" se referia ao ano imediatamente após o centenário de Camões como o da primeira Queima das Fitas (ou a primeira com "solenidade galhofeira"?).

[4] Cit. por Alberto Sousa Lamy, A Academia de Coimbra 1537-1990, Lisboa: Rei dos Livros, 1990, pág. 669.

[5] Sobre as Queimas das Fitas no período 1901-1916, v. A. J. Soares, Saudades de Coimbra 1901-1916, págs. 294-302; e sobre as outras festividades de fim de ano ou de curso, v. o mesmo livro, págs. 279-293.

[6] Vale a pena citar parte do "Pró Grama da grandiosíssima reinação a que se procederá no dia 27 de Maio, para solenizar o derradeiro suspiro e o trágico estoiro mortal dos repolhudos grelos que vicejaram no luminoso ano da flauteação de 1918-1919" (Rua Larga, n.º 26, 15 de Maio de 1959, págs. 168-169):
"IV - Às 15 horas
Depois de variadíssimas piruetas executadas com todo o mimo e engenho, o fogo que tudo destrói e consome passará às terríveis vias de facto que hão-de vitimar os nossos saudosos grelos em holocausto à suave Minerva, fazendo-os recolher ao pó e cinza dos elementos terráqueos.
É comovente até às lágrimas.
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Depois desta catástrofe final, um quintanista de cada faculdade, mais solene e bem posto que o mais olímpico dos mestres, deporá com todo o jeito nas trémulas manápulas dum quartanista de cada faculdade os emblemas faiscantes da sua subida de posto, estendendo os seus lábios purpurinos para as rubicundas bochechas destes últimos que, com as lágrimas nos olhos e a comoção no esófago, os hão-de gramar.
É impressionante para as noivas dos quartanistas."

[7] Sobre as Queimas das Fitas no período 1917-1933, v. António José Soares, Saudades de Coimbra 1917-1933, Coimbra: Almedina, 1985, págs. 302-308; sobre o "curso dos cocos" de 1932, v. "Para o estudo das praxes coimbrãs", Rua Larga, n.º 30 (1 de Agosto de 1959), pág. 320 e verso da contracapa.

[8] "Aconteceu há 50 anos", O Tripeiro, V série, ano VII (1951-1952), n.º 1, pág. 21.

[9] Este interrogatório é uma paródia a partes do ritual do baptismo católico (que nessa época, claro, era conduzido em latim). Tradução:
- Antoino, crês na Medicina?
- Creio.
- Crês na Santa Mãe dos Charlatães?
- Creio.
- Crês na cura da tuberculose pela Badiana Fosfatada?
- Creio.
- Queres ser doutor?
[- Quero.]
- Recebe a pasta.
A badiana fosfatada era uma suposta cura para a tuberculose, que tinha sido satirizada no carnaval desse ano: v. O "Dr. Quinterra", "Os académicos do meu tempo" e "Já lá vão mais de 50 anos!...".

[10] "Aconteceu há 50 anos", O Tripeiro, V série, ano VIII (1952-1953), n.º 1, pág. 29.

[11] António de Almeida Garrett, "Os académicos do meu tempo", Porto Académico, n.º único de 1962, págs. 27-29.

[12] José Corte Real, "O Carnaval dos Estudantes há 50 anos", Orfeão, ano II, n.º 6 (Fevereiro de 1964), pág. 5.

[13] Período de transição da Escola Médica para a Faculdade de Medicina, e respectivos currículos.

[14] Esta notícia aparece transcrita em Manuel Cabral e Rui Marrana, Quid Praxis? (Portucalensis), Porto: AE da UCP no Porto, 1982, págs. 134-135.

[15] V. Joel Lima, O Porto do Repórter X, Porto: Campo das Letras, 2004, cap. 8 ("É homem ou mulher?"), págs. 119-129.

[16] Um artigo do Comércio do Porto sobre esta Festa da Pasta está disponível no Arquivo Noticioso da U. Porto, embora com data errada (1928 em vez de 1927).

[17] Primeiro de Janeiro, 5 de Maio de 1934, pág. 4. A propósito, a comissão da Festa incluía o estudante de matemática Paulo Pombo - o futuro autor da letra do tango "Amores de Estudante" (e que tinha sido o novo quartanista a receber o grelo na cerimónia do ano anterior - v. notícia abaixo).

[18] Jornal de Notícias, 11 de Maio de 1938, pág. 6.

[19] Cabral e Marrana, Quid Praxis?, págs. 134 e 136.

[20] Manuel Correia de Brito, "Renée Guimarães: o «recuperador» orfeonista", Comércio do Porto, 12 de Dezembro de 1993, suplemento Porque hoje é... Domingo, págs. 4-5. Na página 5, certamente por gralha, é dito que esse primeiro programa conjunto e primeiro cortejo tiveram lugar em 1945; numa legenda na página 4 o primeiro cortejo é datado de 1944.

[21] Não resisto a notar que o representante da Faculdade de Ciências era o estudante de Matemática José Tiago de Oliveira, que viria ser um respeitadíssimo académico na área da Estatística (com incursões na Álgebra, Lógica e História da Matemática).

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Fotografias da Tuna Académica do Porto em 1909 (e 1908?)

Em 1909 organizou-se uma Tuna Académica do Porto (ou, consoante o ponto de vista, reorganizou-se a Tuna Académica do Porto) com o objectivo de visitar Santiago de Compostela nas férias do Carnaval (retribuindo uma visita da Tuna de Santiago ao Porto).
Essa Tuna de 1909 é recordada no artigo "Dos tempos que já lá vão", do Eng. A. da Costa Pereira, publicado no Porto Académico, n.º único de 1962, págs. 47 e 50 (com pelo menos uma imprecisão: diz que essa foi a primeira Tuna Académica do Porto, o que está manifestamente errado).
Acompanhando o artigo de Costa Pereira, aparece uma fotografia da Tuna, com fraca qualidade:
(Não conheço nenhuma publicação desta fotografia anterior a 1962, mas posteriormente apareceu algumas vezes, suponho que reproduzida do Porto Académico, com a mesma fraca qualidade.
[Correcção de 28/12/2010: Depois de publicar esta entrada do blogue, adquiri o Programa do ano lectivo de 1937-38 da Tuna Universitária do Porto (algumas páginas deste folheto podem ser vistas no blogue Portus Cale Tunae), e verifiquei que esta fotografia já lá tinha sido publicada,
com qualidade ligeiramente melhor e com os nomes de alguns dos tunos.])

Mas eis que a fotografia aparece noutra cópia, num dos blogues de José Pacheco Pereira (Ephemera, um tesouro de documentação vária, sobretudo política mas não só), embora mal identificada (a fotografia foi tirada na Corunha e JPP terá lido mal "Coimbra" na inscrição no canto inferior esquerdo):

E há bónus: a fotografia aparece num conjunto de Fotografias de grupo (início do século XX) onde se vêem mais três com estudantes (mais precisamente, tunos).
Uma destas foi também tirada na Corunha, e é claramente da Tuna Académica do Porto (junto com alguns locais - estudantes do ensino secundário da Corunha?):


As outras duas fotografias foram tiradas em Vila Real em 22/4/1908 e, sendo claramente de uma tuna, não é líquido que sejam da Tuna Académica do Porto.

Mas o fotógrafo parece ter sido o mesmo (JSantos, embora tenha mudado a sua assinatura) e parece-me ver pelo menos duas caras comuns às quatro fotografias:



Seja como for, e apesar das falhas na "nova" cópia da fotografia clássica da Tuna de 1909, esta é uma adição importante para a iconografia académica do Porto (não há muitas imagens da Tuna Académica do Porto, nem sequer de estudantes do Porto de capa e batina, anteriores à República).

[Um abraço ao Tiago Laranjeiro, que me chamou a atenção para estas fotografias no Ephemera.]

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Tradições Académicas no Porto
Uma exposição em 1995


Em 1995, no âmbito da Semana de Recepção ao Caloiro, a Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto organizou uma exposição sobre as Tradições Académicas no Porto. Ou, mais precisamente, sobre a sua História. Embora eu não pertencesse à Direcção da Associação, nem sequer fosse (pelo menos oficialmente) colaborador, fui o principal responsável pela recolha e organização do material exposto, redacção das legendas explicativas, etc. Fui ajudado nestas tarefas pelo responsável pelo Departamento de Tradições Académicas, Pedro Marques, que também teve a seu cargo alguns aspectos mais logísticos e/ou burocráticos.

Sem falsas modéstias, creio que conseguimos reunir uma amostra interessante e significativa. O material exposto provinha maioritariamente do Museu de História da Medicina Maximiano Lemos (da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto), do Museu do Orfeão Universitário do Porto e da colecção de fotografias da Associação de Antigos Alunos da Universidade do Porto (inactiva; esta colecção estava à guarda do Conselho Directivo do ICBAS). Em menor medida, emprestaram algumas peças o Museu de Mineralogia e Estratigrafia e vários particulares (entre os quais recordo Flávio Serzedello de Oliveira, dr. Álvaro Andrade, dr. Luís Abrunhosa Vasconcelos e Doutor Fernando Noronha).

Estupidamente, e assumo inteiramente a minha culpa nisto, não foi feito um catálogo da exposição, nem sequer uma documentação fotográfica em condições. Restam dela hoje em dia as quatro fotografias abaixo, vários painéis com as (pequenas) legendas e as fotocópias expostas (nos casos em que não estavam expostos os originais) e a lista dos objectos emprestados pelo Museu de História da Medicina.


Nesta fotografia apareço a falar com o dr. Rui Bessa, então presidente da Direcção (ou talvez da Assembleia Geral) da Associação dos Antigos Orfeonistas da Universidade do Porto. Pelo painel para o qual aponto, estou provavelmente a explicar que o Traje Académico Feminino não surgiu no OUP (nesse painel havia uma fotografia dos anos 20 de uma aluna do Liceu Alexandre Herculano com Traje Académico).


Aqui apareço a falar com uma jornalista. Em fundo, vários painéis sobre o Traje Académico.


Nesta fotografia, pode ver-se um então aluno da FCUP (Jorge Reis Sá), lendo um artigo sobre uma Queima das Fitas dos anos 50 ou 60.


Nesta última fotografia vê-se um expositor com pastas de quintanista de luxo (do Museu de História da Medicina, com uma excepção) e uma mais recente (anos 60) de "semi-luxo" (do Doutor Fernando Noronha). Em fundo, um painel com alguns cartazes da Queima das Fitas dos anos 60, 80 e 90 (embora, devido ao expositor em frente, só se consiga ver aqui, e em triplicado, o cartaz de 93).

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

"Manda a tradição" - MEC

Como deve ser óbvio, este blogue está de férias. Mas não resisto a partilhar a crónica de Miguel Esteves Cardoso no Público de 25/08/2010. Que não é sobre tradições académicas, mas é sobre tradições, e levanta questões pertinentes.
Não tenho a certeza de que sejam fiáveis os dados da notícia que MEC comenta (lembro-me de uma notícia sobre a Queima das Fitas no Público, início dos anos 90, que dizia que a Queima do Porto remontava aos anos 60...). Mas se não forem verdadeiros estes, são verdadeiros outros semelhantes, sobre outras tradições (nomeadamente académicas).
Não me vou alongar sobre os comentários de MEC no último parágrafo. Apenas digo o seguinte: não vejo qualquer problema em que este costume seja seguido (desde que se cumpram normas de segurança, claro); mas o que pode "mandar" uma tradição destas?


Manda a tradição
Miguel Esteves Cardoso

Quanto tempo leva a criar uma tradição? E por quanto tempo se pode interromper antes de se perder? Eis a primeira frase de uma notícia no PÚBLICO de ontem: "Um homem entrou num forno de lenha aquecido a mais de 250 graus, durante a recriação do chamado milagre da Urgueira, que atrai anualmente milhares de pessoas." Respirei fundo, invocando a tolerância pelos velhos costumes e cantarolando o velho jingle do café Sical: "Cada terra com seu uso, todos com Sical."

Mas o resto do primeiro parágrafo desasossegou-me: "A tradição tem origem em finais do século XIX, mas esteve interrompida desde 1904, ano em que morreu o homem que a protagonizava, sendo relançada em 1996 pela Associação Etnográfica Os Serranos." Se a tradição começou no fim do século XIX - digamos 1890, só durou 14 anos. Quando morreu o homem que entrou no forno, decidiram acabar com ela. Continuou acabada por mais 90 anos, de 1905 a 1995. Desde 1996 foi retomada durante mais 14 anos. Quando a interrupção de uma tradição é maior (90 anos) do que o número de anos em que é cumprida (28 anos), foi a tradição que foi interrompida ou a interrupção que foi retradicionalizada?

Portugal está cheio de tradições deste género, que brotam e se desenterram por toda a parte, respeitando-se ou esquecendo-se conforme as conveniências. É à vontade do freguês. Que se há-de fazer? Nada. Esse à-vontade relativista é uma espécie de liberdade - e é a nossa verdadeira tradição.