sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Carlos Leal - caricatura

Caricatura de Carlos Leal no Livro dos Quintanistas de Medicina do Porto 1932-1933.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

"Tempos da fadistação..."

[Carlos Leal, Porto Académico, n.º único de 1938, pág. 12.]


Porto Académico, que mundo de recordações invoca este nome, já velho, dos tempos da fadistação despreocupada e irrequieta. Quanta saudade e tristeza vão desenrolando diante dos meus olhos esses tempos em que pertenci, pode dizer-se, à última geração dos veteranos, dos velhos blagueurs, impenitentes perseguidores dos caloiros recém-chegados e revestidos ainda da velha casca provinciana e também dos grandes orientadores das maiores organizações artísticas, desportivas e jocosas que até hoje a Academia soube realizar.

Desde a coroação do Orfeão e Tuna Académica por terras de Madrid e Galiza em que se glorificaram as figuras do Dr. Clemente Ramos e Dr. Modesto Osório, às inúmeras excursões por terras portuguesas onde brilhavam para uns e irritavam a outros as piadas do Sobrinho das Barbas, do Mendes, do Zé Moreira, do João Ribeiro; desde as peças teatrais do Mendo e do Fariñas, à Aranha Verde e outras revistas do Poeta Rabeta, do Perry, do Zeferino, com música do Alberto David, do Lucena Sampaio, do Álvaro Rodrigues e outros, desde os actores consumados até aos célebres grupos de Girls que arrebatavam as plateias. Desde aquele clássico bailado das horas dançado pelo grupo dos barbudos, àquele colossal bailado do Bravo ali no S. João que deixou estupefactos todos aqueles que minutos antes o tinham visto entre-cenas. Desde as primeiras organizações do Carnaval que enchiam a cidade de gente vinda de toda a parte, até àquele célebre roubo da macaca ali nos Lóios que depois de doutorada honoris causa foi entregue com toda a solenidade na varanda do antigo Hotel Rainha...[1] tudo isso passa ainda com saudade diante dos meus olhos. E aquelas célebres excursões de cursos a terras da Galiza pletóricas de alegria moça e garotices... Nunca consegui saber quem foi o autor da piada que obrigou o Bravo a arrancar o forro do boné de polícia com que desempenhava brilhantemente aquele papel na comédia os Suicidas, uma das peças do reportório da nossa tournée por terras galegas.

Depois o pano desceu... e os antigos actores passaram a ser engenheiros, médicos, advogados jornalistas, etc.

Mas saudade bem grande, sinto eu ao recordar aquelas serenatas a horas mortas pelas ruas da cidade com o Aires, o Viamonte, o Milheiros, o Zé Taveira, o Rogério, o Amândio Marques, o Pereira Leite e o Guerra, vulgo tenor de cabeça.[2] Ao lado das notas sentimentais, quantas cenas picarescas duma comicidade natural e espontânea, passam ainda nas minhas retinas. No regresso das serenatas e depois de tremendas touradas aos gatos vadios, onde surgiam diestros valorosos, íamos acabar a noite ali no Transmontano, organizando sessões fadológicas debaixo da orientação do velho Mouzão já de cabeleira toda branca, do tenente Simão e outros carolas do fado e da guitarra...

Depois o fado morreu... morreu com as grafonolas e com o rádio. E foi esta grafonoloterapia e radioterapia que, ministrada em tão altas doses, provocou a dispepsia e o enjoo a toda a gente.
..........................................................

Nunca mais se ouviu uma serenata... e aos meus ouvidos, chega ainda o eco da minha própria voz nas noites luarentas de há dez anos, para arrelia dos mestres e encantamento dos sonhadores e... das sonhadoras, como o ultimo boémio duma geração que passou.

Maio de 38

CARLOS LEAL






[1] Cf. os textos "Bons tempos" e "O rapto da macaca".

[2] É possível que este "Guerra, vulgo tenor de cabeça" fosse o "Guerra da Cabeleira" referido num episódio, contado anonimamente, e sem qualquer referência à data em que se terá passado, no Porto Académico, n.º único de 1962, p. 45:

E ASSIM SE PERDEU O CRÉDITO...

O Morais, dono duma casa de «bons petiscos» na Rua do Almada - casa muito frequentada, durante a noite, pela Academia de outros tempos - tinha a fama e... o proveito de deitar água no vinho. Sendo amigo da rapaziada e tanto assim que até fiava a... longo prazo, o Morais, que admitia todas as brincadeiras, não suportava, por princípio algum, que o acusassem de mixordeiro. Pobre daquele que se atrevesse, de cara, a acusá-lo da mistura!... Nunca mais lhe fiava.

Era certo e sabido que a boémia académica de então, de regresso de qualquer serenata, abancava ali a altas horas da madrugada e, certa vez, o Morais mostrou desejos de ouvir o «fadinho» defronte da sua porta. Os rapazes resolveram satisfazer-lhe a vontade e, numa madrugada de Janeiro, com o luar a bater em chapadas, o Morais tinha à sua porta uma serenata com quatro guitarras, dois violões, três tenores e grande acompanhamento da Academia.

Tudo correu muito bem e, para fechar a serenata, ecoou pelo espaço a voz tenorina do «Guerra da Cabeleira», num fado muito em voga:
O vinho é sangue de Cristo
Que nossas mágoas suaviza
E é, talvez, por causa disto
Que o Morais o baptiza...
Caiu Tróia... E o Morais cortou o crédito à Academia...

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Carlos Leal
«O Rouxinol do Ave»

[Amândio Marques, Porto Académico, n.º único de 1962, págs. 44 e 46]


Já lá vão umas dezenas de anos, e o tempo passa sem dele se dar conta!... Tempos melhores, mais tranquilos e despreocupados, quiçá, mais felizes! Todos nós usávamos capa e batina, e a boa gente tripeira gostava de a ver e acarinhava-a, passando a ser um elemento decorativo da Cidade, e um cartão de visita e de entrada onde quer que se apresentasse! A vida decorria tranquila, simples, leal, cheia de franqueza nas relações comuns. Tínhamos a Associação Académica - escola de convivência e de oradores - o Orfeão e a Tuna e, não podia faltar, a nossa Imprensa. A estima e a amizade eram construídas e alicerçadas na sinceridade, alheios de todo em todo, a qualquer concorrência descortês ou egoísta. Tínhamos atravessado a Grande Guerra - 1914-1918 - e esse movimento sacudiu-nos profundamente, e mais nos aproximou para melhor nos compreendermos. Era como se fôssemos uma grande família! O estudante procurava manter e reforçar um costume, quer pela sua vida académica própria, quer e principalmente na realização das suas festividades - bem notáveis, vemo-lo agora mais do que nunca! - às quais fazia associar o povo portuense, a Cidade, e até o Norte, e criar assim uma tradição estudantil. E conseguiu-o. Passou a ser «o menino querido da cidade», pela sua graça inofensiva, esfuziante com seus «chistes» graciosos que provocavam íntima satisfação e o riso; as suas «partidas» tinham espírito, eram engraçadas, não molestavam e muito menos ofendiam ninguém, nem prejudicavam. Brincava-se sem atrevimentos, sem audácias, sem a prática de actos censuráveis ou condenáveis.

Muitos nomes me ocorrem, neste momento, e gostaria de os inscrever aqui, mas é impossível, tantos são! Limito-me a alguns e neles recordo-os a todos. Havia poetas como Carlos Cochofel - famoso autor de «Lírios» -, e Figueira Lopes; escritores teatrais como Adalberto Mendo, Augusto Farinas, Perry Garcia, Zeferino Moura, Tito Lívio de Santos Mota, Sousa Santos, Luís de Pina; «actores e piadistas» como João Ribeiro, António Mendes, Joaquim Bravo, Petronilho, José Moreira, Elísio Sobrinho, etc., etc.

Não faltavam guitarristas e cantores magníficos de fados e canções, como Aires Pinto Ribeiro, guitarrista exímio, Ernesto Brandão, Cícero de Azevedo, Manuel Pereira Leite e, dos mais modestos, o autor desta recordação. Óptimos cantores de fados e canções, «autênticos rouxinóis» como José Taveira, Mário Delgado Viemonte, Cabral Borges, Carlos Alberto de Carvalho, «O Passarinho», e Carlos Alberto Leal!

Tempo de existência gloriosa do Orfeão e da Tuna - a melhor da Península que tanta admiração causava! -, cujos tunos na sua maioria tocavam por sinais especiais, a chamada «música de carpinteiro», imaginada e classificada pelo saudoso regente Modesto Osório, e também pelo sapiente e bondoso regente do Orfeão, o Padre Clemente Ramos. Cultivando a Arte e a Camaradagem, a Tuna e o Orfeão levavam o bom nome da Cidade e de Portugal, através do País e da Espanha, em passeios triunfais! A arte e a graça irmanavam-se, e as amizades tornavam-se cada vez mais consistentes. José Taveira e Carlos Leal, eram os solistas admiráveis - sem favor e sem amabilidade - pela sua voz melodiosa, forte, encantadora e sentimental, do Orfeão e da Tuna. E eram, também, os cantores dos lindíssimos fados de então, que causavam a admiração e o encantamento a quem tinha a felicidade de os ouvir!
«Óh capas negras que andais
Ao luar pela noite fora...»
Carlos Alberto Leal veio de Vila do Conde, terra da sua naturalidade. Seu pai, e sua família, que eu conheci, era um músico e tinha uma bela voz. Carlos Leal, seu filho, ultrapassou-o. Veio frequentar o Liceu Rodrigues de Freitas, onde eu andava, e logo nos fizemos amigos até... à morte!

Carlos Leal
(Porto Académico, n.º único de 1962, pág. 46)

Carlos Leal, como era mais conhecido, Luís Canto Moniz, Josué da Silva, o autor desta recordação, formavam um grupo, cuja amizade com estes últimos vinha já de criança e se foi cimentando pela vida fora.

Em pouco mais o grupo aumentou - ou melhor, ele já existia - com mais unidade, com Francisco Fernandes, José Fernandes, outro escritor, Alberto de Serpa, escritor e poeta, Pereira Leite, outro guitarrista, Carlos Alberto de Carvalho «O Passarinho», de linda voz, cantava os fados com sentimento, Alberto do Carmo Machado, então Sargento Cadete, nosso saudoso companheiro para toda a parte, o António Abrantes, o «Abrantes do Cavaquinho», o Jorge Alcino Morais, etc. Ensaiávamo-nos nas guitarradas e fados. Carlos Leal cantava os lindíssimos fados e canções, na sua voz melodiosa, clara, aguda de um bom tenor,
Vão se abalando tão tristes
Meus olhos, por vós meu bem!
Que nunca tão tristes vistes
Olhos assim por ninguém!
As serenatas faziam-se em qualquer parte da cidade, e fora dela, em Braga, Vila do Conde, Póvoa de Varzim, Espinho, Viseu, Mangualde, etc., etc. E raro era conhecermos a «dona» para quem se cantava ou tocava!

Nenhuma autoridade nos interceptava. E as serenatas faziam-se às 2 e 3 horas da manhã, quando a cidade estava no primeiro sono! Mas toda a gente gostava, ao ouvir a voz de Carlos Leal, e ao ver o grupo de capas e batinas, que, silenciosamente, desprendiam os acordes sentimentais das suas guitarras, e a voz do Leal subia suavemente na atmosfera e se repercutia nos lados da rua, sem quebrar o silêncio do ambiente e interromper o sonho de quem estivesse a sonhar. E era um despertar de sonho. As janelas abriam-se, viam-se os roupões na semiobscuridade e silêncio que nos envolvia. Nas serenatas cantavam o Leal, e muita vez o José Taveira e Cabral Borges. Era eu, quem ia ao então Comissário da Polícia, o saudoso desembargador dr. Lopes Carneiro, pedir a devida autorização. «Dá-me licença sr. dr.». - Eu sempre de capa e batina - nunca conheci outro traje - solicitava-lhe a licença. Quando me via entrar, já sabia... conhecia-me já há muito, e era velho amigo de meu saudoso Pai.

«Que queres, ó Marques? já sei, tens serenata, onde é?»
Trim, trim trim, está? Faça favor de transmitir para a área de... que os estudantes com o Marques e o Leal vão fazer uma serenata, para que não sejam interrompidos!. «Pronto, vai-te embora».

E outras vezes dizia-me: - «Olha, ó Marques, eu vou dar-te uma licença para sempre». E a serenata ou serenatas faziam-se perante a presença da patrulha a cavalo da Guarda Nacional Republicana que à distância parava a ouvir, e tanta vez com os guardas de giro!

Em pouco mais, tínhamos uma assistência numerosa que nunca mais nos largava! E os nossos nomes andavam em todas as bocas, especialmente femininas, da cidade. Terminada a serenata, cada um ia para sua casa, depois de uma belíssima noite, bem passada, sem o menor atrito para quem quer que fosse, e todos gostavam deste romântico espectáculo nocturno! Belíssimos tempos! A voz e o sentimento que Carlos Leal imprimia aos seus fados, eram cada vez, e de ano para ano, melhor e mais expressivos, cantando com mais alma! Era o solista do Orfeão e da Tuna, alternando por vezes com Mário Delgado - um Artista! - e Modesto Osório, seu regente, compôs expressamente para o Leal «A Tua Serenata», que a Tuna tocava num ambiente de luz luarenta. E, Carlos Leal, cantava
«É tão tarde e eu ainda aqui»
cuja voz dominava o acompanhamento feito pela Tuna. Era um assombro! Repetida várias vezes, em qualquer palco onde fosse executada! no Porto, em Coimbra, no País, na Espanha! Carlos Leal era o ídolo da Academia do nosso tempo, uma maravilha ouvo-lo cantar. Era um dos maiores cantores de Portugal! Eu conhecia-os, e alguns acompanhei à guitarra. Por iniciativa dos estudantes que do Porto foram para a Universidade de Coimbra, como eu, foram o Orfeão e a Tuna Académica do Porto convidados a ir àquela cidade. Foi uma apoteose! Nada gastaram, foram aboletados nas «Repúblicas» e em casa de cada um. Os recitais constituiram um triunfo de artístico e de camaradagem. Carlos Leal e outros «artistas académicos» tiveram ali a sua consagração, em Coimbra, terra única de cantores e de Orfeão!! A «Canção das Rendilheiras» que Carlos Leal cantou acrescentou-lhe o triunfo! Esta lindíssima canção constituiu depois o «Hino» do seu Curso, cantado sempre nas suas reuniões.

Carlos Leal deu fama à Academia do nosso tempo, e mais prestigiou-a em tudo, no Orfeão, na Tuna, nos Fados e Guitarradas, sem pôr de parte a sua vida de estudante distinto da Faculdade de Medicina, em que se formou.).[1]

E cantava no seu último ano,
«Oh, capas negras que andais
«Ao luar pela noite fora,
«Adeus, adeus nunca mais...»
«Vos posso usar, vou-me embora!»
Acompanhado à guitarra por mim e por Francisco Fernandes - hoje distinto Médico Cirurgião em Moçambique - e viola Pais da Silva, Carlos Leal gravou diversos discos que, em breve, se esgotaram, como a famosa «Canção das Rendilheiras», e outros.[2] Nunca deixava de colaborar nas «Revistas», nos «Cortejos», nos espectáculos que a Academia organizava, em todos com papel de destaque. Era estimado e admirado por todos, pelo seu temperamento, bondade, simples e modesto, sempre bem disposto e amável, satisfazendo sempre os pedidos de serenatas, ou a sua colaboração em qualquer festa, mesmo particular. Mais tarde associa-se ao nosso grupo, outro bom cantor de fados, D. Manuel Távora, fidalgo e amigo fiel, que nos acompanhava e cantava os seus fados que muito apreciávamos.

Canto Moniz, apesar da sua grande aspiração de ser marinheiro, depois de cursar na Faculdade de Ciências os preparatórios para a Escola Naval, deu novo rumo ao seu futuro e, então, matriculou-se em Medicina. Estudante distintíssimo, no termo da sua brilhante formatura, a Faculdade reconheceu-lhe, aliás com inteira justiça, os seus méritos e não hesita em nomeá-lo assistente. No entanto, Carlos Leal forma-se também em Medicina, e ambos vêm para a vida prática, a profissão liberal, a luta... Ambos ilustraram a Universidade, a Faculdade de Medicina, e ambos passaram a caminhar juntos na luta pela vida. O Leal era o braço direito de Canto Moniz.[3] A mesma estima e amizade fraternal que nos unia, manteve-se inalterável, e manteve-se até ao desaparecimento, que tanta saudade deixou, de Carlos Leal!! O trinar do «Rouxinol do Ave» deixou de se ouvir em 9 de Abril de 1960! Na pujança da vida! Este belo rapaz, leal no nome e nos actos da sua vida, íntegro carácter, profissional distintíssimo, doente, desgostoso, sofrendo a perda da sua encantadora mulher, falecida oito meses e poucos dias antes, que ele tanto adorava, morre apaixonadamente como um romântico, um sentimental, pelo seu temperamento e formação psicológica, deixando-nos um vácuo e profunda saudade!

Canto Moniz, brilhante cirurgião portuense, perdeu um prestimoso colaborador, e ambos nós o querido amigo de sempre, de amizade fraternal, como se três irmãos fôssemos!

A sua melodiosa voz que tanto ecoou pela cidade, deixou de se ouvir, mas no silêncio da noite parece ouvir-se, ainda:
«Adeus, adeus nunca mais
«Vos posso usar, vou-me embora!»
E enquanto me passa pelo pensamento a imagem daquelas capas
«Óh capas negras que andais»
«Ao luar pela noite fora»
como que a quebrar a monotonia do silêncio, é nesse silêncio luarento, de tanta e tanta saudade e recordação, que aqui deixo a minha modesta homenagem e de saudade de Carlos Alberto Leal, um dos estudantes que mais prestigiou a academia do nosso tempo!


Janeiro de 1962
AMÂNDIO MARQUES






[1] "Estudante distinto" é um pouco exagerado: tendo-se matriculado no primeiro ano em 1924-1925 (Anuário da Fac. Med. Porto, vol. XIV), Carlos Leal deveria ter terminado o curso em 1929; no entanto a sua caricatura aparece no Livro de Quintanistas de Medicina do Porto 1932-1933.

[2] Pelo menos cinco discos para a Parlophon:
B33300 - Fado Alemtejano ("Fechei a porta à desgraça") / Fado da Descrença ("Eu não creio por não crer");
B33301 - Um Fado ("Passam-se noites inteiras") / Fado da Nostalgia ("A vida é negra, tão negra");
B33302 - Fado Visão (?) / Uma Canção (?);
B33303 - Minha Mãe (Fado) ("Minha Mãe é pobrezinha") / Fado de despedida ("Uma despedida no dia");
B33308 - Melancolia ("A saudade faz lembrar") / Canção das rendilheiras de Vila do Conde ("Rendilheiras que teceis").
Acrescente-se que Amândio Marques também gravou pelo menos dois discos de guitarradas, igualmente para a Parlophon, e igualmente com o acompanhamento de Francisco Fernandes e Pais da Silva:
B33016 - Variações em ré menor / Fado em lá maior;
B33017 - Fado em dó sustenido menor / Capricho.

[3] Luís Canto Moniz era cirurgião, e Carlos Leal era (creio) anestesista.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Discos de vinil de Fado de Coimbra gravados no contexto académico portuense

Apresento abaixo uma lista dos discos de vinil de Fado de Coimbra que foram gravados por estudantes ou antigos estudantes da Universidade do Porto nessa condição[1].
O artigo de Armando Luís Carvalho Homem, "O «Fado de Coimbra» na Academia do Porto" contém informações sobre os intervenientes nestas gravações.
Tanto quanto sei, esta lista é exaustiva. Mas agradeço quaisquer acrescentos ou outras correcções.

Coloquei a negrito os temas "originais" (isto é, aqueles que, tanto quanto sei, tiveram nesse disco a sua primeira gravação).

Para as correcções de autorias socorri-me das informações publicadas por António Nunes e Cor. Anjos de Carvalho nos blogues Guitarra de Coimbra (Parte I, Parte II, Parte III e Parte IV) de Octávio Sérgio.

Dr. José Santana - Coimbra (c. 1962)
Alvorada AEP 60423

Dr. José Vitorino Santana (c)
Lauro de Oliveira (g)
Dr. Fernando Barbos (g)
Ernesto Almeida (v)

  • BALADA DE ENCANTAMENTO (Balada do Encantamento, "Dentro de ti, ó Leiria")
    [M: D. José Pais de Almeida e Silva]
  • QUINTO ANO MÉDICO (Fado de Despedida do V Ano Médico de Coimbra de 1937-38, "Foram-se as fitas doiradas")
    [M/L: João Gonçalves Jardim]
  • PASSARINHO DA RIBEIRA (Fado dos Passarinhos, "Passarinho da Ribeira")
    [M: António Menano / L: D.R.]
  • FADO DO MANASSÉS ("Trago comigo um pecado")
    [M: Manassés de Lacerda / L: ?]
(V. tb. as entradas Fotobiografia de José Vitorino Santana e O EP Coimbra de José Vitorino Santana neste blogue.)


Conjunto Universitário de Guitarras (1965)
Orfeu ATEP 6187

Nuno Morgado (c)
José Carlos Agrelos (g)
Manuel Botelho Chaves (g)
Beirão Reis (v)

  • MAR ALTO ("Fosse o meu destino o teu")
    D.R. [na verdade, M: Mário Faria da Fonseca / L: Edmundo Bettencourt]
  • FADO SAUDADES ("Ter saudades é viver")
    M: Paulo de Sá / L: Alfredo Fernandes Martins
  • BALADA AO LUAR ("Ó rouxinol encantado")
    M/L: Manuel Gil Mata
  • FOLHA CAÍDA ("é como a folha caída")
    D.R. [?]


Conjunto Universitário de Guitarras - Fados (1966?)
Orfeu ATEP 6218

Nuno Morgado (c)
José Carlos Agrelos (g)
Manuel Botelho Chaves (g)
Beirão Reis (v)

  • SUGESTÃO ("Não digas não, dize sim")
    Dr. António Menano [na verdade, M: Alexandre de Rezende / L: Edmundo Bettencourt?]
  • O TEU OLHAR ("É tão lindo o teu olhar")
    D.R. [na verdade, M: Flávio Rodrigues? / L: 1ª quadra - popular, 2ª quadra - José Simões Dias]
  • CANÇÃO DA BEIRA ("Dava a vida de bom grado")
    Dr. António Menano [na verdade, L/M: populares]
  • CATIVEIRO ("O sol-pôr é a hora da saudade")
    M/L: Eng. Manuel Gil Mata


Orfeão Universitário do Porto - Sarau Comemorativo do 60º Aniversário 71/2 (1973)

Ainda não consegui ver/ouvir este LP; a informação abaixo é retirada da página do OUP e de um artigo de A. L. Carvalho Homem no blogue Guitarra de Coimbra ("Dois guitarristas portuenses que nos deixam", 26/3/2005).
Trata-se de um LP com uma selecção de momentos do sarau indicado no título. Três das 11 faixas são de fados e guitarradas.
  • VARIAÇÕES EM LÁ MENOR (n.º 1)
    M: Artur Paredes
    António Rosa de Araújo (g), Serafim Guimarães (g), Fernando Reis Lima (v), José Alão (v)
  • ÁGUA DA FONTE
    Óscar França (c), António Rosa de Araújo (g), Serafim Guimarães (g), Fernando Reis Lima (v), José Alão (v)
  • FADO TRISTE


Dr. J. Tavares Fortuna - Fados de Coimbra (fui moço, fui rapaz) (1981)
Roda SSRL 9006
(Também editado em cassete: Roda CSR-193)

Dr. J. Tavares Fortuna (c)
Dr. Melo e Castro (g)
Dr. João Lamego (g)
Dr. Agostinho de Matos (v)
Dr. Rui de Brito (v)

  • FUI MOÇO, FUI RAPAZ ("Fui moço, fui rapaz")
    D.R.
  • FADO ALENTEJANO ("Fechei a porta à desgraça")
    Dr. Armando Gois [na verdade, M: Armando Goes / L: 1ª quadra - popular, 2ª quadra - João da Silva Tavares]
  • AVÉ MARIA (Rezas à noite, "No nosso Portugal é uso antigo")
    Dr. José A. Pais e Silva / Dr. Marques da Cruz [na verdade, M: José Augusto Coutinho de Oliveira / L: José Marques da Cruz]
  • VALSA EM RÉ
    M: Dr. João Lamego
  • CANÇÃO DAS FOGUEIRAS ("Raparigas de Coimbra")
    Popular
  • CANÇÃO DA BEIRA ("Dava a vida de bom grado")
    Dr. António Menano [na verdade, L/M: populares]
  • FADO DA SAUDADE ("Saudade é como gostar")
    M: Dr. João Lamego / L: Dr. Agostinho de Matos
  • TROVA DO VENTO QUE PASSA ("Pergunto ao vento que passa")
    M: Dr. António Portugal / L: Manuel Alegre
  • VARIAÇÃO N.º 1 EM LÁ MENOR
    M: João Bagão
  • CAPA NEGRA, ROSA NEGRA ("Capa negra, rosa negra")
    M: Dr. António Portugal e Adriano Correia de Oliveira / L: Manuel Alegre
  • MÁGOAS DE AMOR ("Cautela, não te aborreça")
    Dr. Raposo Marques
  • VARIAÇÃO EM LÁ MENOR
    M: Dr. Jorge Tuna, arr.: Dr.Melo e Castro


Dr. J. Tavares Fortuna, Dr. António Rodrigues - Fados de Coimbra 2 (1982)
Roda SSRL 9007
(Também editado em cassete: Roda CSR-232)

Dr. J. Tavares Fortuna (c) *
Dr. António Rodrigues (c) **
Dr. João Lamego (g)
Joaquim Rodrigues (g)
Dr. Agostinho de Matos (v)
Dr. Rui de Brito (v)

  • REGRESSO AO PASSADO ("Vou regressar ao passado") *
    Dr. João Lamego / Dr. Tavares Fortuna
  • MARIA (Fado do Alentejo, "Maria, teu lindo nome") **
    D.R. [na verdade, M: António Menano / L: 1.ª quadra - António de Sousa, 2.ª quadra - António Menano]
  • ROSAS BRANCAS ("Quando eu morrer, rosas brancas") *
    Dr. A. de Sousa [na verdade, M: ? / L: 1.ª quadra - Afonso de Sousa, 2.ª quadra - ?]
  • VARIAÇÕES EM RÉ MENOR
    M: Dr. Almeida Santos
  • FADO CORRIDO DE COIMBRA ("Coimbra, rio Mondego") **
    Popular [M: popular / L: 1.ª e 2.ª quadras - populares, 3.ª quadra - Armando Cortes Rodrigues]
  • FADO DO ESTUDANTE ("Fecha os olhos de mansinho") *
    Dr. Fernando Machado Soares [na verdade, M: Fernando Machado Soares / L: ?]
  • BALADA DO ENTARDECER ("Ó Mondego, ó Mondego") **
    Dr. Fernando Machado Soares
  • FADO PARA UM AMOR AUSENTE ("Meu amor disse que eu tinha") *
    M: Dr. António Portugal / L: Manuel Alegre
  • SÉ VELHA ("Adeus, Sé Velha saudosa") **
    M/L: Dr. Carlos de Figueiredo
  • BALADA DE FLORÊNCIO ("Lá longe, ao cair da tarde") *
    M/L: Florêncio de Carvalho
  • BALADA DA DESPEDIDA DO 6.º ANO MÉDICO, 1958 ("Coimbra tem mais encanto") **
    M/L: Dr. Fernando Machado Soares


Grupo Académico Serenata - "Fados de Coimbra" (1986)
Orfeu LPP 44

Dr. Pais da Rocha (c) *
Victor Silva (c) **
Dr. Luís Paupério (c) ***
Dr. Carlos Teixeira (c, v) ****
Eng. Cunha Pereira (g)
Jorge Carvalho (g)
Arnaldo Brito (v)

  • MEIA NOITE AO LUAR ("À meia-noite ao luar") coro
    Popular
  • UM FADO DE COIMBRA ("Nossa Senhora da Graça") *
    Paulo de Sá [na verdade, M: Paulo de Sá, L: popular]
  • VARIAÇÃO EM MI MENOR
    M: Jorge Tuna
  • ESTRELINHA DO NORTE ("Ó estrelinha do Norte") **
    João Jardim [na verdade: M: João Gonçalves Jardim / L: 1.ª quadra - popular, 2.ª quadra - Ângelo Vieira Araújo], arr.: "Tio Lauro" (Lauro de Oliveira)
  • FADO DO ESTUDANTE ("Fecha os olhos de mansinho") ***
    Fernando Machado Soares [na verdade, M: Fernando Machado Soares / L: ?]
  • BALADA DA TRISTEZA ("Tudo que é triste no mundo") *
    M: Raul Barros Leite / L: Popular
  • BEIJO ("À minha amada na praia") **
    Dr. António Menano [na verdade, M: Ruy Coelho / L: Afonso Lopes Vieira]
  • FASES DA LUA ("O amor é como a Lua") ****
    Dr. António Menano [na verdade, autor(es) desconhecido(s)]
  • FADO ALENTEJANO ("Fechei a porta à desgraça") **
    Dr. Armando Goes [na verdade, M: Armando Goes / L: 1ª quadra - popular, 2ª quadra - João da Silva Tavares]
  • VARIAÇÃO EM RÉ MENOR
    M: Armando Carvalho Homem
  • MARIA ("Maria, teu meigo olhar") *
    Dr. Gomes da Silva
  • BALADA DE COIMBRA
    M: Popular [na verdade, José Eliseu], arr.: Artur Paredes






[1] Explico-me: há diversos discos gravados por estudantes ou antigos estudantes de Coimbra que, por acaso, também estudaram no Porto (alguns tendo até tido actividade como intérpretes de Fado de Coimbra no Porto), mas discos gravados num contexto coimbrão - o exemplo máximo é o da discografia de António Pinho Brojo, que concluiu a licenciatura em Farmácia na Faculdade de Farmácia do Porto (quando a Universidade de Coimbra tinha apenas uma Escola Superior de Farmácia) e que colaborou nessa altura com o Orfeão Universitário do Porto, mas que gravou sempre acompanhado por colegas de Coimbra.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O EP Coimbra de José Vitorino Santana

O texto de António Nunes publicado aqui há uns dias, sobre a Fotobiografia de José Vitorino Santana, mencionava o EP que este gravou pelo início dos anos 60.
Apresento abaixo a capa e contracapa deste disco.




A título ilustrativo, deixo aqui também a segunda faixa, Quinto Ano Médico - ou seja, Fado de Despedida do V Ano Médico [de Coimbra] de 1937-38.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Fotobiografia de José Vitorino Santana

[O texto abaixo, de António Manuel Nunes, foi publicado originalmente, acompanhado desta foto, no blogue Guitarra de Coimbra IV - um excelente blogue, de visita obrigatória, da responsabilidade de Octávio Sérgio.]



Foi lançada em 2010 a primeira fotobiografia do médico e antigo estudante da Universidade do Porto José Vitorino Pinto Santana. O trabalho é da autoria de Maria Olinda Rodrigues Santana, professora de literatura na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro: José Vitorino Pinto Santana. Fotobiografia de um médico na segunda metade do século XX. Porto: Sítio do Livro, 2010.

José Santana nasceu em Penafiel em 1929. Cedo radicado com a família na cidade do Porto, ali cursou a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (1951-1957), tendo pertencido ao Orfeão Universitário onde foi solista do naipe dos tenores. Ficou conhecido como intérprete de reportório da Canção de Coimbra. Nessa qualidade, gravou o EP COIMBRA. DR. JOSÉ SANTANA, Alvorada, AEP 60423, ano de 1962 (?), acompanhado por Lauro de Oliveira, Fernando Barbosa e Ernesto Almeida. No referido suporte fononográfico constam os nomes do cantor e dos instrumentistas, estando omissos os dados relativos a autorias de músicas e de letras.
Os temas que constam do referido disco de 45 rpm são os seguintes:

-BALADA DE ENCANTAMENTO (Dentro de ti ó Leiria), Música de D. José Pais de Almeida e Silva [na verdade Balada do Encantamento, 1929];

-QUINTO ANO MÉDICO (Foram-se as fitas queimadas), Música de João Gonçalves Jardim [na verdade Fado de Despedida do V Ano Médico de 1937-38. O cantor inverte a ordem das quadras e adultera o 3.º verso da 1.ª quadra e os 1.º, 2.º e 4.º da 2.ª quadra];

-PASSARINHO DA RIBEIRA (Passarinho da Ribeira), música de António Paulo Menano [na verdade, Fado dos Passarinhos, de 1918. O cantor adultera o 1.º verso da 2.ª quadra];

-FADO MANASSÉS (Trago comigo um pecado), música de Manassés de Lacerda [na verdade, Fado Maria, de ca. 1902. O cantor segue a 1.ª quadra da lição António Menano, e como 2.ª vai colher "Fecha os olhos de mansinho" à lição de Lucas Junot].

A prestação vocal do cantor, as propostas de acompanhamento, a selecção reportorial e os tipos de cordofones utilizados merecem seguramente uma análise mais detalhada.

José Santana praticou Medicina na cidade do Porto, como técnico do FCP e no Hospital de São João. Entre 1967-1969 cumpriu serviço militar em Moçambique. É possível que tenha sido José Santana a trazer de Moçambique para o Porto uma composição conhecida por FUI MOÇO, FUI RAPAZ, que veio a ser gravada na década de 1980.

FONTES
http://cicloculturalutad.blogspot.com/2010/07/jose-vitorino-pinto-santana.html;
http://www.sitiodolivro.pt/fotos/livros/excerto-jose-vitorino-pinto-santana_1279640261.pdf

António Manuel Nunes

domingo, 8 de maio de 2011

Vinhetas da Queima das Fitas

[Esta entrada está desactualizada. V. Selos da Queima das Fitas]

Antes da interrupção dos anos 70, em vez de autocolantes havia vinhetas, ou selos, da Queima das Fitas.
Os desenhos destas vinhetas, ao contrário do que aconteceria mais tarde com os autocolantes, era diferente dos dos cartazes. Segundo me explicou em tempos Flávio Serzedello de Oliveira (1920?-2009, estudante da UP 1948-1974?), havia três prémios no concurso para cartaz da Queima das Fitas do Porto: o desenho classificado em primeiro lugar era adoptado para cartaz grande, o segundo para cartaz pequeno, e o terceiro para selo. Podem ver-se alguns cartazes grandes neste blogue em "Cartazes da Queima dos anos 60". Não tenho nenhuma imagem dum cartaz pequeno, embora tenha memória de numa exposição em 1992 ter visto um, da Queima de 1969, cujo desenho era o que foi utilizado para o programa desse ano (e que pode ser visto em "Alguns programas da Queima das Fitas, por volta dos anos 60"); os desenhos utilizados nos programas de 1963, 1965 e 1966, não sendo os dos cartazes grandes nem os das vinhetas, provavelmente seriam também os dos cartazes pequenos.
Apresento abaixo imagens de vinhetas da Queima das Fitas. A de 1958 foi retirada do blogue Memoria recente e antiga. As de 1955, 1956, 1957 e 1963 foram retiradas duma secção do Álbum de Memórias do Gabinete do Antigo Estudante da UP. As outras são digitalizações de originais da minha colecção pessoal - aproveito para agradecer à dra. Assunção Lima ter-me cedido vários destes originais.
Gostaria de colocar aqui mais vinhetas da Queima das Fitas. Se algum leitor do blogue tiver alguma (em bom estado) e estiver disposto a colaborar, fico agradecido e outros leitores também deverão ficar.