Interrompo o longo silêncio neste blogue para dar a conhecer dois interessantes documentos sobre o uso da capa e batina na passagem dos anos 20 para os anos 30 que encontrei nos últimos meses.
Começo por uma fotografia retirada da revista brasileira Lusitania ("revista illustrada de approximação Luso-Brasileira e de propaganda de Portugal"), n.º 36, de 16 de Julho de 1930.
A fotografia aparece inserida numa reportagem fotográfica, por José Mesquita, sobre uma iniciativa de caridade realizada no Porto, a "Venda da Flor". Aí vêem-se dois estudantes de capa e batina (clicar para ampliar a imagem, de forma a distinguir o estudante em segundo plano, com a capa no ombro direito). Na respectiva legenda lê-se "Maria Thereza, odorifero cravo dos jardins do Porto, cravando um pobre academico".
O que tem esta fotografia de fora do comum? Simplesmente, e não é pouco, a espontaneidade.
A esmagadora maioria das fotografias antigas em que aparecem estudantes do Porto de capa e batina são fotografias de pose: retratos tirados em estúdios fotográficos, fotos de curso ("os quintanistas de Medicina do ano x"), fotografias institucionais da tuna ou orfeão; na melhor das hipóteses, temos fotos tiradas durante alguma excursão ou digressão de um grupo académico. Por muito interessantes que sejam, as fotos de pose transmitem pouca informação sobre o uso quotidiano do traje académico.
Na foto apresentada aqui, pelo contrário, vemos dois estudantes surpreendidos em plena baixa, possivelmente a caminho ou à saída das aulas, usando o traje académico de forma descontraída. Capa ao ombro num caso, segura no antebraço no outro. O estudante em primeiro plano traz uma boina[1].
O segundo documento é uma verdadeira preciosidade.
Trata-se de um filme, preservado na Cinemateca Portuguesa, sobre uma excursão de alunos do Liceu Alexandre Herculano em 1929. (Clicar para abrir a página da Cinemateca com o filme; não consegui encaixar ["embed"] directamente o vídeo.)
Duas notas: o filme parece montado aleatoriamente, e não por ordem cronológica; um mapa com as localidades visitadas pode ser visto aos 9m34s.
De realçar a grande implantação da capa e batina no Liceu Alexandre Herculano nesta época.
Quanto aos pormenores no seu uso que fogem aos cânones praxísticos do séc. XXI, dariam panos para mangas...
[1] Embora possa ser surpreendente para alguns, não é inédito - conheço fotografias de uma excursão da Tuna em 1932 em que um dos elementos usa boina; e o antigo dux veteranorum Flávio Serzedello contou-me em conversa nos anos 90 que no seu tempo (anos 40 a 60) havia no Porto quem usasse boina com capa e batina - ao contrário do gorro, que não era usado.
sexta-feira, 26 de julho de 2013
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Qvid Tvnae?
A Tuna Estudantil em Portugal
(Para comprar, ir a http://www.euedito.com/qvidtvnae.)
Foi recentemente publicado o livro Quid Tunae? - A Tuna Estudantil em Portugal, de Eduardo Coelho, Jean Pierre Silva, João Paulo Sousa e Ricardo Tavares, que se apresenta como "a primeira obra sobre tunas estudantis em Portugal". Esta primazia, tanto quanto sei, é justificada: existe (pelo menos) um livro sobre tunas populares; existem alguns livros sobre tunas estudantis específicas; mas este é o primeiro livro em Portugal que aborda o fenómeno tuna estudantil de uma forma global.
O livro está estruturado em quatro partes.
Na primeira, os autores dedicam-se a desfazer dois tipos de mito: o de que as tunas "já vêm da Idade Média" e certas etimologias fantasiosas da palavra "tuna" (pelo caminho indicam qual, dentre as várias possíveis origens desta palavra, é a que lhes parece mais credível; e fazem também algo que a mim me parece muito mais interessante e relevante - mostram a grande alteração semântica que a palavra sofreu no século XIX, de "vida folgazã" para determinado tipo de grupo musical).
A segunda parte trata da origem e desenvolvimentos das estudiantinas e tunas em Espanha (com prolongamentos na América Latina e ainda noutras paragens, por vezes surpreendentes).
A terceira parte aborda as estudantinas e tunas em Portugal (e, brevemente, antigas colónias e Brasil) do final do séc. XIX até aos anos 60/70 do séc. XX. Trata-se das tunas "à antiga", de um imenso mundo de tunas populares e académicas (incluindo inúmeras liceais) que poderá surpreender muita gente.
A última parte é sobre a "segunda vaga" de tunas estudantis em Portugal, de 1982 a 1995. De facto é só aqui, neste período que começou há trinta anos, que a maior parte dos potenciais leitores encontrará as tunas tais quais as conhece.
Os quatro autores, trazendo larga experiência da sua participação em sete(!) tunas, não caem na armadilha de achar que a prática lhes dá autoridade em matérias históricas e/ou teóricas. Na verdade, nota-se que este livro resulta de vários anos de pesquisa documental e provavelmente de inúmeras discussões.
Na primeira leitura que fiz, aprendi já muita coisa. E conto aprender mais em futuras consultas e seguindo algumas pistas aqui lançadas.
Os autores não se coibem de apresentar as suas opiniões. E devo dizer que em muitos casos discordo dessas opiniões. Mas são opiniões fundamentadas - e é agradável poder discordar de opiniões fundamentadas (o mais frequente quando se trata de tradições académicas é ver-me confrontado com disparates gratuitos, contra os quais não se pode argumentar...).
Assim, o aparecimento deste livro é de saudar por várias razões: por ser a primeira obra em Portugal sobre as tunas estudantis; por serem raros os trabalhos sobre tradições académicas; e por serem ainda mais raros os trabalhos honestos sobre tradições académicas.
Não tem defeitos? Seria impossível não ter. A mim desiludiu-me um pouco a qualidade de reprodução das fotografias (e há imagens interessantíssimas), o que talvez seja uma consequência inevitável do processo de edição ("de autor"). Naqueles assuntos em que percebo alguma coisa, notei alguns erros factuais, mas poucos e geralmente pouco relevantes (por ex.: a Mini-Queima do Porto foi em 1978 e não em 1982). Há várias secções em que a escolha que fizeram do que incluir e do que excluir é discutível (mas aqui estamos mais uma vez no campo das opiniões).
Resumidamente: foi um prazer ler este livro, que é agora elemento de consulta indispensável sobre o seu tema. Todos aqueles que se interessam pelas tradições académicas (e especialmente por tunas, claro) devem ficar gratos aos autores, que estão de parabéns!
quarta-feira, 14 de março de 2012
Tradições Académicas Portuenses:
Breves notas, vividas, de uma "História" em criação*
Armando Luís de Carvalho Homem
[Artigo publicado originalmente no Boletim da Universidade do Porto, n.º 9 (Junho de 1991), págs. 29-33 e republicado (com ligeiras alterações) no blogue Guitarra de Coimbra, de Octávio Sérgio, em 1 de Agosto de 2005.
A versão abaixo inclui o que foi introduzido em 2005 mas também o que foi então retirado - nomeadamente as fotografias que acompanhavam a publicação original.
Agradeço ao Prof. Doutor A. L. Carvalho Homem a autorização para esta terceira publicação.]
À memória do Doutor Luís Vasco Nogueira Prista († 2004),
lente de Farmácia, universitário à part entière
1. Dos Clérigos ao Carregal: um Estudo na Cidade
É uma praça. Como tantas outras. Quadrangular. Trapezoidal, digamos. E orientada, grosso modo, segundo os pontos cardeais. Nos vértices e num dos lados paralelos vêm convergir outras praças e diversos arruamentos; enquanto que outro dos lados é todo ele preenchido pela embocadura de mais uma rua, que vai estreitando, qual funil, para terminar num pequeno largo. Diversos nomes teve já a nossa praça: Largo do Carmo, Praça da Universidade, Praça Gomes Teixeira. Mas para o habitante médio da Cidade tem sido, e por certo será, «os Leões», nome advindo da brônzea fonte ornada de quatro regorgitantes espécimes da soberana espécie que lhe está ao centro.
Desloquemo-nos para a placa central da praça; contornemos a fonte pelo lado Leste e, voltando-lhe as costas, olhemos para Sul: à nossa frente, ‘monopolizando’ esse lado, está um maciço edifício onde alternam o cinzento da pedra, o branco da tinta e o verde dos portões. Para os mais idosos dos habitantes do Burgo, é, ainda hoje, «a Universidade». O qualificativo nunca teve total razão de ser. Berço de uma das mais antigas Escolas Superiores portuenses (a Academia Politécnica, na raiz da Faculdade de Ciências), jamais o edifício terá albergado a totalidade do Ensino desse nível, quer antes, quer depois de 1911. Não tendo nunca total razão de ser, não tendo hoje (salvo por ‘inércia’ terminológica) qualquer razão de ser, o qualificativo teve no entanto, e por muito tempo, suficiente razão de ser: albergando a Faculdade de Ciências, naquela Casa sediavam também a Reitoria e diversos Serviços Centrais (o que aconteceu até aos anos 70); e o Salão Nobre respectivo foi durante décadas a «sala dos actos» do Estudo Geral portuense.
Quanto ao mais, tudo se processava por ali perto: no largo ao fundo da referida rua em funil situava-se a Faculdade de Medicina (sucessora da Escola Médico-Cirúrgica), tendo ao lado um hospital, também Escolar. Dos Clérigos ao Carregal: num limitado espaço, duas das Escolas ‘fundadoras’, os Serviços Centrais, as sedes dos Organismos estudantis, cafés e restaurantes de frequência acentuadamente universitária, pensões, residências, casas alugando quartos... Tudo, ou quase tudo, nesse limitado espaço, acrescido de dois eixos que o prolongavam: por Cedofeita, até à Rua dos Bragas (sede, até 2001, da Faculdade de Engenharia); pelo Rosário / Boa Hora, até à Rua Aníbal Cunha (sede da Faculdade de Farmácia); pelo caminho ficando uns tantos lares e as sedes dos Serviços Sociais e Desportivos. E mesmo as Escolas de mais tardia fundação (e tomando os anos 70 como terminus ante quo) aí se iriam situar: Economia (1953; funcionou nas «águas-furtadas» da Faculdade de Ciências até ao Outono de 1974) e Letras (1962)[1].
Dos Clérigos ao Carregal (e prolongamentos)...: num limitado espaço todo um viver estudantil. Que a dado momento se terá plasmado em práticas bem próprias: o uso de um traje, o comemorar condigno do final do ano lectivo e do termo dos cursos, o preenchimento dos tempos livres (?) com determinadas actividades artísticas – mormente teatrais e musicais, sendo de salientar dentro destas últimas certas formas de música vocal-instrumental (tunas, orquestras de tangos), as danças e cantares regionais ou, finalmente, um determinado género, tipicamente estudantil, assente numa dada forma de cantar e num típico suporte instrumental: o «Fado de Coimbra». ‘Imitação’ dos comportamentos estudantis da mais antiga Universidade portuguesa? Um ‘purista’ afirmá-lo-ia sem hesitar. Mas tudo depende do que se entender por ‘imitação’. No fundo, será de surpreender que uma comunidade estudantil, vivendo numa Cidade não-universitária mas confinando-se espacialmente, ‘reproduzisse’ certas práticas? O mesmo não se ia passando em tantos Liceus da Província (mormente no Interior-Norte e Centro) e, mesmo no Porto, no mais ‘provinciano’ dos seus Liceus masculinos (o Alexandre Herculano)? Nada tem pois, quanto a mim, de menos ‘digno’ que o Porto tivesse a tradição que foi tendo[2], os Organismos que se foram criando (um Orfeão, uma Tuna, uma Orquestra Universitária de Tangos [estas duas mais tarde integradas no Orfeão], um Teatro Universitário [1948], mais tarde um Coral de Letras [1966]), que esses Organismos procurassem um público ‘médio’, no País ou fora dele: as «digressões» processavam-se aonde quer que houvesse «núcleos de Portugueses espalhados pelo Mundo» – África(s), Brasil, Estados Unidos, pontualmente Venezuela; na Europa ficavam-se pela vizinha Espanha: a ‘descoberta’ do Velho Continente viria bem mais tarde...[3]

2. O Estudo Pela Cidade...
Mas um dia... já nem tudo vai estar entre os Clérigos e o Carregal. Uma população escolar que cresce, exigências científicas e pedagógicas que acrescem... O espaço universitário distende-se. E ainda que pelo caminho tenham ficado projectos de expansão na zona histórica (cadeia da Relação, mosteiro de S. Bento da Vitória...), o ‘crescimento’ verificar-se-ia alhures: com a construção do Estádio Universitário, logo prolongada pela instalação do Jardim Botânico na Casa Andresen (anos 40/50), esboça-se o pólo do Campo Alegre; e o da Asprela inaugurar-se-á em Junho de 1959 com o Hospital de S. João, nova sede da Faculdade de Medicina. E pela Cidade iriam também surgir novas residências...
E, depois, a comunidade estudantil dos anos 60 já não iria ser a mesma. Repare-se: o traje académico, na feição que adquirira no início do século XX (uma batina estudantil está próxima de uma sobrecasaca oitocentista), andava em paralelo com o uso quotidiano do «traje de passeio» (leia-se: fato e gravata). E o jovem comum propendia a afastar-se de tal vestuário. Consequência: as marcas exteriores de uma certa Tradição começam a sair do quotidiano e a só surgir em Abril/Maio, aquando da «Queima». Os próprios membros dos Organismos Artísticos tenderam então a envergar a capa e batina apenas aquando de apresentações públicas, qual ‘traje de cena’, como a casaca dos músicos «clássicos». E mesmo as actividades destes Organismos estavam em vias de deixar de dizer algo a boa parte da população estudantil, em tempos de declínio de interesse pela música coral, de ‘explosão’ do pop/rock ou de posse, cada vez mais frequente, de uma formação musical autêntica por estudantes universitários[4]. Por outro lado, o «Fado de Coimbra», num meio muito mais intérprete que criador[5], tendia a estagnar; quaisquer tentativas de fazer algo de diferente[6] – e falo por experiência própria – chocavam com a difícil receptividade do público, a começar pela própria ‘primeira fila’ que eram os Colegas de Organismo; sempre ‘caía melhor’ o «Passarinho da Ribeira»...
Finalmente, o ‘radicalizar’ de posições na viragem dos anos 60 para os 70 levou a esquerda estudantil à contestação global da Tradição, identificada com «conservadorismo / reaccionarismo / elitismo / marialvismo castrado»..., quando não com adesão ao regime político do tempo; contestação larvar a partir de 1968; contestação frontal a partir de 1971: em Abril deste último ano, e na sequência de acontecimentos que aguardam ainda o seu narrador, teria lugar, em clima extremamente tenso e com cumprimento de apenas uma parte do programa, a última «Queima das Fitas». Clima tenso, mas que logo se distendeu; aparentemente, afinal, as Tradições pouca falta faziam...; e quase todos os que em –71 as defenderam logo se desinteressaram[7]. E tudo pareceu terminar...

3. Um Estudo a cada Esquina da Cidade?
Assim, 1974 não vai representar nada em matéria de Tradições Académicas, desaparecidas, como se viu, cerca de 3 anos antes. A década de 70 é portanto, praticamente toda ela, de ‘vazio’ nesta matéria.
E é nos anos 70 que a Universidade do Porto se expande decisivamente, esboçando o facies actual: cresce a sua população, fundam-se Escolas e Serviços, projectam-se e constroem-se edifícios, tudo em torno dos três pólos já indicados. Ao mesmo tempo que ao Porto se estende a Universidade Católica, que na Cidade surge o Ensino Superior Privado e Cooperativo e que diversas outras Escolas se criam ou reconvertem, vindo a dar origem ao Ensino Superior Politécnico; e, também aqui, a iniciativa estatal se tem visto complementada pela privada e cooperativa. E todas as novas (ou transformadas) Escolas foram tendendo a aderir a práticas e festejos entretanto ressurgidos (mormente a «Queima das Fitas»), ‘federando-se’ a diversidade dos Estabelecimentos na reaparecida designação de «Academia do Porto».
Tal ressurgimento teve as suas primeiras manifestações na Primavera de 1977, quando o Orfeão Universitário e Associação dos Antigos Orfeonistas da UP comemoraram os seus 65.º e 10.º aniversários, respectivamente, com 2 Saraus, realizados no Rivoli e no Coliseu. Estas iniciativas foram pacíficas (o Orfeão só em 1976 não realizara o seu Sarau Anual no Rivoli). O mesmo se não dirá de algo ocorrido no ano seguinte: estudantes de algumas Faculdades lograram realizar uma «Semana Académica»; apesar de contestada, a iniciativa teve continuidade, logo em 1979 se recuperando a designação «Queima das Fitas». Ressurgimento este, portanto, em termos não propriamente pacíficos. No fundo, e por banda de sectores estudantis (e político-partidários) opostos, uma contestação à contestação de uns tantos anos antes... Nesses primeiros tempos, as restauradas Tradições estão assim longe de unir a população estudantil, bem pelo contrário[8].

E hoje [1991], mais de uma dúzia de anos decorrida?
Para alguém com a minha idade (40 anos), o meu percurso estudantil (Liceu Alexandre Herculano / Faculdade de Direito de Coimbra / Faculdade de Letras do Porto) e a minha vivência das tradições musicais a sensação é, não raro, de alguma perplexidade. Os anos de interrupção fizeram perder a memória de comportamentos, práticas, símbolos; ‘codificação’ não existia; a bibliografia era escassa e inencontrável; e a transmissão oral (perguntar ao pai, ao avô, ao irmão mais velho, a algum professor mais antigo...) não resolve tudo... Daí que alguém do meu tempo amiúde se veja confrontado com práticas, por assim dizer, ‘exóticas’: das ‘fantasias’ vestimentais, a peditórios na via pública para... viagens de finalistas (!!!!), até ao ‘ressuscitar’ do menos simpático dos aspectos da Tradição – o gozo aos caloiros (a «praxe» stricto sensu), coisa de ténue prática no Porto (salvo no Orfeão Universitário), que de qualquer modo desaparecera das Faculdades muito antes de 1971 e que hoje se exerce em termos não raro pouco dignificantes, chegando-se inclusivamente (coisa impensável há 30 ou 40 anos) a perturbar o funcionamento de aulas! Por outro lado, o número dos indivíduos e instituições abrangidos por este universo de comportamentos é hoje consideravelmente mais lato: onde tínhamos uma Universidade com umas tantas Faculdades temos hoje uma «Academia» com uma multidão de Escolas: estatais, privadas e concordatárias, universitárias e politécnicas. É corrente, nos mais díspares locais da Cidade, cruzar-me, em certas épocas do ano, com grupos de estudantes trajados a rigor, ostentando insígnias de cores inesperadas; de onde, a natural pergunta: – Que Escola ou Instituto por aqui se localizará ?!
Numa «Academia» com uma tal dimensão e dispersão serão ‘lógicas’ manifestações unitárias ‘monstras’, como um Cortejo mantido em dia de normal laboração, ou uma serenata «monumental» que já chegou a realizar-se na Avenida dos Aliados, precedida de ‘passagem’ de música rock (gravada), não sei se para ‘criar ambiente’?!
Um ‘veredicto’ final condenatório? Só que um criador cultural, e logo no âmbito das Ciências Humanas e ainda por cima historiador, tem que manter a serenidade das suas apreciações. Por isso finalizarei com duas sucintas notas, serenas:
a) Se uma população de milhares e milhares de estudantes – e mesmo descontando o factor ‘propaganda’, que leva as Escolas jovens a reproduzir práticas com uma longa tradição nas mais antigas – assume determinados comportamentos é porque eles lhe dizem algo. Não caiamos agora no simplismo do diagnóstico de «alienação» (de tantos milhares...) ou, nos tempos que correm, em elementares acusações de estratégias partidárias, conservadoras ou não.
b) Em certas semanas lectivas, alguém que é docente universitário há mais de 18 anos, que enquanto estudante viveu as Tradições e com mágoa assistiu ao seu desaparecimento, vê-se rodeado de alunos, finalistas, nomeadamente, que lhe pedem um autógrafo nas fitas, o apadrinhamento da imposição da cartola, lhe parodiam as aulas na «sessão de serrote», lhe solicitam a presença em múltiplos encontros de confraternização... Um tal docente, vivendo um ofício de árduo exercício num ambiente não raro propenso a tensões, não pode, nessas semanas, deixar de se sentir acrescidamente compensado, deixar de sentir... «uma terna consolação» (Eça de Queiroz).
Porto, Primavera de 1991

* As observações que este artigo consubstanciou integravam-se na preparação de um volume – Universidade do Porto (1911-1991): História, Estórias – a coordenar pelo autor e a publicar em 1992, no âmbito das actividades do Projecto ALMA MATER (coord. Luís V. N. Prista) e da FUNDAÇÃO GOMES TEIXEIRA (coord. do Vice-Reitor Eduardo Oliveira Fernandes). Nos meses finais de 1991, estes dois Mestres (que em mim depositaram inesquecível confiança) desvincularam-se dos cargos e funções que exerciam; de onde, a não-concretização do projecto. De qualquer modo, reitero agora os agradecimentos então feitos pelas colaborações que recebi: Reitoria, Fundação Gomes Teixeira, Órgãos Directivos das diferentes Escolas, Serviços e Organismos da UP, Dr.ª (hoje Prof.ª Doutora) Amélia Polónia da Silva (Fac. Letras) e Dr.ª (hoje Prof.ª Doutora) Amélia Ricon Ferraz (Fac. Medicina).
[1] A este respeito não deixa de chocar a localização ‘excêntrica’, na Quinta Amarela (a caminho do então suburbano Carvalhido), da Faculdade de Letras em parte do seu primeiro tempo de vida (1919 ss.). ‘Excentricidade(s)’ (que outras houve...) sempre impeditiva(s) de uma perfeita integração da Escola na UP; e à(s) qual(is) não será estranho o seu fim (1928-1931), sem glória nem grandeza.
[2] Deixo de lado toda e qualquer explanação ‘erudita’ sobre a cronologia de tais Tradições: com isso se não compadecem os limites de espaço, o tempo breve que tive para redigir este texto e o carácter mais vivencial do que histórico-sociológico que lhe quis imprimir. Direi, no entanto, que as raízes são remotas, anteriores, até, à criação da Universidade. Como renuncio a qualquer abordagem das (problemáticas) especificidades da Tradição portuense: não raro esse tipo de preocupação redunda num nada saudável ‘bairrismo’; salientarei apenas, e a esse propósito, a maior precocidade na adaptação do traje académico ao uso por estudantes do sexo feminino; porque, com efeito, os Organismos portuenses foram mistos mais cedo; salientarei também uma ‘originalidade’ portuense que consistia no uso frequente da pasta com fitas ou grelo sem o traje académico; e salientarei ainda que, encravada numa grande Cidade, a população estudantil nem sempre terá sido vista do melhor grado fora dos limites da sua micro-«cidade universitária»: de longa data, por exemplo, os portuenses ‘vernacularmente’ se queixavam dos engarrafamentos de trânsito provocados pelo Cortejo da «Queima das Fitas», isto nos anos 50, bem antes de outras formas de contestação.
[3] Com efeito, só no final dos anos 70 os Organismos musicais começariam, com certa regularidade, a deslocar-se a países europeus, já para actuar junto de comunidades de emigrantes (e aqui havia apenas o precedente do Orfeão, França/1967), já para participar em Festivais de Coros ou de Folclore (e aqui o papel de pioneiro cabe ao Coral de Letras, Escócia/1970 e Itália/1971).
[4] Uma ‘saída para a crise’ terá então estado na melhoria do reportório e da preparação vocal dos coros universitários, agora crescentemente voltados para a polifonia religiosa, para J. S. Bach ou para a música popular com harmonizações de Fernando Lopes-Graça, isto num processo iniciado ca. 1967 por Günther Arglebe no Orfeão e por José Luís Borges Coelho no Coral de Letras e prosseguido mais tarde por Mário Mateus (1973 ss.) no primeiro destes Organismos.
[5] E se alguns guitarristas e cantores de ‘Velha Escola’ ainda procuravam seguir a lição de Artur Paredes / Edmundo Bettencourt, a grande maioria ficava-se pelo mais ‘cinzento’ repertório coimbrão dos anos 40/50; no máximo da modernidade, chegar-se-ia ao conteúdo do álbum Coimbra Quintet, gravado em Madrid para a PHILIPS em 1957, por Luiz Goes / António Portugal / Jorge Godinho / Manuel Pepe / Levy Baptista.
[6] V.g. incluir no reportório temas do ‘último’ Luiz Goes (discografia 1967 ss.), de José Miguel Baptista, de José Manuel dos Santos ou de António Bernardino, e isto para já não falar das «trovas» de M. Alegre / Portugal / Adriano, as quais mantinham o suporte da guitarra, contrariamente às «baladas» de José Afonso; ou peças de Carlos Paredes (que "heresia"!...) ou Jorge Tuna.
[7] Só o Orfeão manteve, e por mais algum tempo, o uso da capa e batina; ainda que em 1972 ou –73 usar o traje na rua pudesse comportar a audição de alguns ‘piropos’ não muito agradáveis...
[8] Na Faculdade de Letras, em 1978 e 1979, o apoio ou não-apoio à "Semana Académica" / "Queima das Fitas" chegou a ser objecto de acesa discussão na Assembleia de Representantes.
[Artigo publicado originalmente no Boletim da Universidade do Porto, n.º 9 (Junho de 1991), págs. 29-33 e republicado (com ligeiras alterações) no blogue Guitarra de Coimbra, de Octávio Sérgio, em 1 de Agosto de 2005.
A versão abaixo inclui o que foi introduzido em 2005 mas também o que foi então retirado - nomeadamente as fotografias que acompanhavam a publicação original.
Agradeço ao Prof. Doutor A. L. Carvalho Homem a autorização para esta terceira publicação.]
À memória do Doutor Luís Vasco Nogueira Prista († 2004),
lente de Farmácia, universitário à part entière
1. Dos Clérigos ao Carregal: um Estudo na Cidade
É uma praça. Como tantas outras. Quadrangular. Trapezoidal, digamos. E orientada, grosso modo, segundo os pontos cardeais. Nos vértices e num dos lados paralelos vêm convergir outras praças e diversos arruamentos; enquanto que outro dos lados é todo ele preenchido pela embocadura de mais uma rua, que vai estreitando, qual funil, para terminar num pequeno largo. Diversos nomes teve já a nossa praça: Largo do Carmo, Praça da Universidade, Praça Gomes Teixeira. Mas para o habitante médio da Cidade tem sido, e por certo será, «os Leões», nome advindo da brônzea fonte ornada de quatro regorgitantes espécimes da soberana espécie que lhe está ao centro.
Desloquemo-nos para a placa central da praça; contornemos a fonte pelo lado Leste e, voltando-lhe as costas, olhemos para Sul: à nossa frente, ‘monopolizando’ esse lado, está um maciço edifício onde alternam o cinzento da pedra, o branco da tinta e o verde dos portões. Para os mais idosos dos habitantes do Burgo, é, ainda hoje, «a Universidade». O qualificativo nunca teve total razão de ser. Berço de uma das mais antigas Escolas Superiores portuenses (a Academia Politécnica, na raiz da Faculdade de Ciências), jamais o edifício terá albergado a totalidade do Ensino desse nível, quer antes, quer depois de 1911. Não tendo nunca total razão de ser, não tendo hoje (salvo por ‘inércia’ terminológica) qualquer razão de ser, o qualificativo teve no entanto, e por muito tempo, suficiente razão de ser: albergando a Faculdade de Ciências, naquela Casa sediavam também a Reitoria e diversos Serviços Centrais (o que aconteceu até aos anos 70); e o Salão Nobre respectivo foi durante décadas a «sala dos actos» do Estudo Geral portuense.
Quanto ao mais, tudo se processava por ali perto: no largo ao fundo da referida rua em funil situava-se a Faculdade de Medicina (sucessora da Escola Médico-Cirúrgica), tendo ao lado um hospital, também Escolar. Dos Clérigos ao Carregal: num limitado espaço, duas das Escolas ‘fundadoras’, os Serviços Centrais, as sedes dos Organismos estudantis, cafés e restaurantes de frequência acentuadamente universitária, pensões, residências, casas alugando quartos... Tudo, ou quase tudo, nesse limitado espaço, acrescido de dois eixos que o prolongavam: por Cedofeita, até à Rua dos Bragas (sede, até 2001, da Faculdade de Engenharia); pelo Rosário / Boa Hora, até à Rua Aníbal Cunha (sede da Faculdade de Farmácia); pelo caminho ficando uns tantos lares e as sedes dos Serviços Sociais e Desportivos. E mesmo as Escolas de mais tardia fundação (e tomando os anos 70 como terminus ante quo) aí se iriam situar: Economia (1953; funcionou nas «águas-furtadas» da Faculdade de Ciências até ao Outono de 1974) e Letras (1962)[1].
Dos Clérigos ao Carregal (e prolongamentos)...: num limitado espaço todo um viver estudantil. Que a dado momento se terá plasmado em práticas bem próprias: o uso de um traje, o comemorar condigno do final do ano lectivo e do termo dos cursos, o preenchimento dos tempos livres (?) com determinadas actividades artísticas – mormente teatrais e musicais, sendo de salientar dentro destas últimas certas formas de música vocal-instrumental (tunas, orquestras de tangos), as danças e cantares regionais ou, finalmente, um determinado género, tipicamente estudantil, assente numa dada forma de cantar e num típico suporte instrumental: o «Fado de Coimbra». ‘Imitação’ dos comportamentos estudantis da mais antiga Universidade portuguesa? Um ‘purista’ afirmá-lo-ia sem hesitar. Mas tudo depende do que se entender por ‘imitação’. No fundo, será de surpreender que uma comunidade estudantil, vivendo numa Cidade não-universitária mas confinando-se espacialmente, ‘reproduzisse’ certas práticas? O mesmo não se ia passando em tantos Liceus da Província (mormente no Interior-Norte e Centro) e, mesmo no Porto, no mais ‘provinciano’ dos seus Liceus masculinos (o Alexandre Herculano)? Nada tem pois, quanto a mim, de menos ‘digno’ que o Porto tivesse a tradição que foi tendo[2], os Organismos que se foram criando (um Orfeão, uma Tuna, uma Orquestra Universitária de Tangos [estas duas mais tarde integradas no Orfeão], um Teatro Universitário [1948], mais tarde um Coral de Letras [1966]), que esses Organismos procurassem um público ‘médio’, no País ou fora dele: as «digressões» processavam-se aonde quer que houvesse «núcleos de Portugueses espalhados pelo Mundo» – África(s), Brasil, Estados Unidos, pontualmente Venezuela; na Europa ficavam-se pela vizinha Espanha: a ‘descoberta’ do Velho Continente viria bem mais tarde...[3]

2. O Estudo Pela Cidade...
Mas um dia... já nem tudo vai estar entre os Clérigos e o Carregal. Uma população escolar que cresce, exigências científicas e pedagógicas que acrescem... O espaço universitário distende-se. E ainda que pelo caminho tenham ficado projectos de expansão na zona histórica (cadeia da Relação, mosteiro de S. Bento da Vitória...), o ‘crescimento’ verificar-se-ia alhures: com a construção do Estádio Universitário, logo prolongada pela instalação do Jardim Botânico na Casa Andresen (anos 40/50), esboça-se o pólo do Campo Alegre; e o da Asprela inaugurar-se-á em Junho de 1959 com o Hospital de S. João, nova sede da Faculdade de Medicina. E pela Cidade iriam também surgir novas residências...
E, depois, a comunidade estudantil dos anos 60 já não iria ser a mesma. Repare-se: o traje académico, na feição que adquirira no início do século XX (uma batina estudantil está próxima de uma sobrecasaca oitocentista), andava em paralelo com o uso quotidiano do «traje de passeio» (leia-se: fato e gravata). E o jovem comum propendia a afastar-se de tal vestuário. Consequência: as marcas exteriores de uma certa Tradição começam a sair do quotidiano e a só surgir em Abril/Maio, aquando da «Queima». Os próprios membros dos Organismos Artísticos tenderam então a envergar a capa e batina apenas aquando de apresentações públicas, qual ‘traje de cena’, como a casaca dos músicos «clássicos». E mesmo as actividades destes Organismos estavam em vias de deixar de dizer algo a boa parte da população estudantil, em tempos de declínio de interesse pela música coral, de ‘explosão’ do pop/rock ou de posse, cada vez mais frequente, de uma formação musical autêntica por estudantes universitários[4]. Por outro lado, o «Fado de Coimbra», num meio muito mais intérprete que criador[5], tendia a estagnar; quaisquer tentativas de fazer algo de diferente[6] – e falo por experiência própria – chocavam com a difícil receptividade do público, a começar pela própria ‘primeira fila’ que eram os Colegas de Organismo; sempre ‘caía melhor’ o «Passarinho da Ribeira»...
Finalmente, o ‘radicalizar’ de posições na viragem dos anos 60 para os 70 levou a esquerda estudantil à contestação global da Tradição, identificada com «conservadorismo / reaccionarismo / elitismo / marialvismo castrado»..., quando não com adesão ao regime político do tempo; contestação larvar a partir de 1968; contestação frontal a partir de 1971: em Abril deste último ano, e na sequência de acontecimentos que aguardam ainda o seu narrador, teria lugar, em clima extremamente tenso e com cumprimento de apenas uma parte do programa, a última «Queima das Fitas». Clima tenso, mas que logo se distendeu; aparentemente, afinal, as Tradições pouca falta faziam...; e quase todos os que em –71 as defenderam logo se desinteressaram[7]. E tudo pareceu terminar...

3. Um Estudo a cada Esquina da Cidade?
Assim, 1974 não vai representar nada em matéria de Tradições Académicas, desaparecidas, como se viu, cerca de 3 anos antes. A década de 70 é portanto, praticamente toda ela, de ‘vazio’ nesta matéria.
E é nos anos 70 que a Universidade do Porto se expande decisivamente, esboçando o facies actual: cresce a sua população, fundam-se Escolas e Serviços, projectam-se e constroem-se edifícios, tudo em torno dos três pólos já indicados. Ao mesmo tempo que ao Porto se estende a Universidade Católica, que na Cidade surge o Ensino Superior Privado e Cooperativo e que diversas outras Escolas se criam ou reconvertem, vindo a dar origem ao Ensino Superior Politécnico; e, também aqui, a iniciativa estatal se tem visto complementada pela privada e cooperativa. E todas as novas (ou transformadas) Escolas foram tendendo a aderir a práticas e festejos entretanto ressurgidos (mormente a «Queima das Fitas»), ‘federando-se’ a diversidade dos Estabelecimentos na reaparecida designação de «Academia do Porto».
Tal ressurgimento teve as suas primeiras manifestações na Primavera de 1977, quando o Orfeão Universitário e Associação dos Antigos Orfeonistas da UP comemoraram os seus 65.º e 10.º aniversários, respectivamente, com 2 Saraus, realizados no Rivoli e no Coliseu. Estas iniciativas foram pacíficas (o Orfeão só em 1976 não realizara o seu Sarau Anual no Rivoli). O mesmo se não dirá de algo ocorrido no ano seguinte: estudantes de algumas Faculdades lograram realizar uma «Semana Académica»; apesar de contestada, a iniciativa teve continuidade, logo em 1979 se recuperando a designação «Queima das Fitas». Ressurgimento este, portanto, em termos não propriamente pacíficos. No fundo, e por banda de sectores estudantis (e político-partidários) opostos, uma contestação à contestação de uns tantos anos antes... Nesses primeiros tempos, as restauradas Tradições estão assim longe de unir a população estudantil, bem pelo contrário[8].

E hoje [1991], mais de uma dúzia de anos decorrida?
Para alguém com a minha idade (40 anos), o meu percurso estudantil (Liceu Alexandre Herculano / Faculdade de Direito de Coimbra / Faculdade de Letras do Porto) e a minha vivência das tradições musicais a sensação é, não raro, de alguma perplexidade. Os anos de interrupção fizeram perder a memória de comportamentos, práticas, símbolos; ‘codificação’ não existia; a bibliografia era escassa e inencontrável; e a transmissão oral (perguntar ao pai, ao avô, ao irmão mais velho, a algum professor mais antigo...) não resolve tudo... Daí que alguém do meu tempo amiúde se veja confrontado com práticas, por assim dizer, ‘exóticas’: das ‘fantasias’ vestimentais, a peditórios na via pública para... viagens de finalistas (!!!!), até ao ‘ressuscitar’ do menos simpático dos aspectos da Tradição – o gozo aos caloiros (a «praxe» stricto sensu), coisa de ténue prática no Porto (salvo no Orfeão Universitário), que de qualquer modo desaparecera das Faculdades muito antes de 1971 e que hoje se exerce em termos não raro pouco dignificantes, chegando-se inclusivamente (coisa impensável há 30 ou 40 anos) a perturbar o funcionamento de aulas! Por outro lado, o número dos indivíduos e instituições abrangidos por este universo de comportamentos é hoje consideravelmente mais lato: onde tínhamos uma Universidade com umas tantas Faculdades temos hoje uma «Academia» com uma multidão de Escolas: estatais, privadas e concordatárias, universitárias e politécnicas. É corrente, nos mais díspares locais da Cidade, cruzar-me, em certas épocas do ano, com grupos de estudantes trajados a rigor, ostentando insígnias de cores inesperadas; de onde, a natural pergunta: – Que Escola ou Instituto por aqui se localizará ?!
Numa «Academia» com uma tal dimensão e dispersão serão ‘lógicas’ manifestações unitárias ‘monstras’, como um Cortejo mantido em dia de normal laboração, ou uma serenata «monumental» que já chegou a realizar-se na Avenida dos Aliados, precedida de ‘passagem’ de música rock (gravada), não sei se para ‘criar ambiente’?!
Um ‘veredicto’ final condenatório? Só que um criador cultural, e logo no âmbito das Ciências Humanas e ainda por cima historiador, tem que manter a serenidade das suas apreciações. Por isso finalizarei com duas sucintas notas, serenas:a) Se uma população de milhares e milhares de estudantes – e mesmo descontando o factor ‘propaganda’, que leva as Escolas jovens a reproduzir práticas com uma longa tradição nas mais antigas – assume determinados comportamentos é porque eles lhe dizem algo. Não caiamos agora no simplismo do diagnóstico de «alienação» (de tantos milhares...) ou, nos tempos que correm, em elementares acusações de estratégias partidárias, conservadoras ou não.
b) Em certas semanas lectivas, alguém que é docente universitário há mais de 18 anos, que enquanto estudante viveu as Tradições e com mágoa assistiu ao seu desaparecimento, vê-se rodeado de alunos, finalistas, nomeadamente, que lhe pedem um autógrafo nas fitas, o apadrinhamento da imposição da cartola, lhe parodiam as aulas na «sessão de serrote», lhe solicitam a presença em múltiplos encontros de confraternização... Um tal docente, vivendo um ofício de árduo exercício num ambiente não raro propenso a tensões, não pode, nessas semanas, deixar de se sentir acrescidamente compensado, deixar de sentir... «uma terna consolação» (Eça de Queiroz).
Porto, Primavera de 1991

* As observações que este artigo consubstanciou integravam-se na preparação de um volume – Universidade do Porto (1911-1991): História, Estórias – a coordenar pelo autor e a publicar em 1992, no âmbito das actividades do Projecto ALMA MATER (coord. Luís V. N. Prista) e da FUNDAÇÃO GOMES TEIXEIRA (coord. do Vice-Reitor Eduardo Oliveira Fernandes). Nos meses finais de 1991, estes dois Mestres (que em mim depositaram inesquecível confiança) desvincularam-se dos cargos e funções que exerciam; de onde, a não-concretização do projecto. De qualquer modo, reitero agora os agradecimentos então feitos pelas colaborações que recebi: Reitoria, Fundação Gomes Teixeira, Órgãos Directivos das diferentes Escolas, Serviços e Organismos da UP, Dr.ª (hoje Prof.ª Doutora) Amélia Polónia da Silva (Fac. Letras) e Dr.ª (hoje Prof.ª Doutora) Amélia Ricon Ferraz (Fac. Medicina).
[1] A este respeito não deixa de chocar a localização ‘excêntrica’, na Quinta Amarela (a caminho do então suburbano Carvalhido), da Faculdade de Letras em parte do seu primeiro tempo de vida (1919 ss.). ‘Excentricidade(s)’ (que outras houve...) sempre impeditiva(s) de uma perfeita integração da Escola na UP; e à(s) qual(is) não será estranho o seu fim (1928-1931), sem glória nem grandeza.
[2] Deixo de lado toda e qualquer explanação ‘erudita’ sobre a cronologia de tais Tradições: com isso se não compadecem os limites de espaço, o tempo breve que tive para redigir este texto e o carácter mais vivencial do que histórico-sociológico que lhe quis imprimir. Direi, no entanto, que as raízes são remotas, anteriores, até, à criação da Universidade. Como renuncio a qualquer abordagem das (problemáticas) especificidades da Tradição portuense: não raro esse tipo de preocupação redunda num nada saudável ‘bairrismo’; salientarei apenas, e a esse propósito, a maior precocidade na adaptação do traje académico ao uso por estudantes do sexo feminino; porque, com efeito, os Organismos portuenses foram mistos mais cedo; salientarei também uma ‘originalidade’ portuense que consistia no uso frequente da pasta com fitas ou grelo sem o traje académico; e salientarei ainda que, encravada numa grande Cidade, a população estudantil nem sempre terá sido vista do melhor grado fora dos limites da sua micro-«cidade universitária»: de longa data, por exemplo, os portuenses ‘vernacularmente’ se queixavam dos engarrafamentos de trânsito provocados pelo Cortejo da «Queima das Fitas», isto nos anos 50, bem antes de outras formas de contestação.
[3] Com efeito, só no final dos anos 70 os Organismos musicais começariam, com certa regularidade, a deslocar-se a países europeus, já para actuar junto de comunidades de emigrantes (e aqui havia apenas o precedente do Orfeão, França/1967), já para participar em Festivais de Coros ou de Folclore (e aqui o papel de pioneiro cabe ao Coral de Letras, Escócia/1970 e Itália/1971).
[4] Uma ‘saída para a crise’ terá então estado na melhoria do reportório e da preparação vocal dos coros universitários, agora crescentemente voltados para a polifonia religiosa, para J. S. Bach ou para a música popular com harmonizações de Fernando Lopes-Graça, isto num processo iniciado ca. 1967 por Günther Arglebe no Orfeão e por José Luís Borges Coelho no Coral de Letras e prosseguido mais tarde por Mário Mateus (1973 ss.) no primeiro destes Organismos.
[5] E se alguns guitarristas e cantores de ‘Velha Escola’ ainda procuravam seguir a lição de Artur Paredes / Edmundo Bettencourt, a grande maioria ficava-se pelo mais ‘cinzento’ repertório coimbrão dos anos 40/50; no máximo da modernidade, chegar-se-ia ao conteúdo do álbum Coimbra Quintet, gravado em Madrid para a PHILIPS em 1957, por Luiz Goes / António Portugal / Jorge Godinho / Manuel Pepe / Levy Baptista.
[6] V.g. incluir no reportório temas do ‘último’ Luiz Goes (discografia 1967 ss.), de José Miguel Baptista, de José Manuel dos Santos ou de António Bernardino, e isto para já não falar das «trovas» de M. Alegre / Portugal / Adriano, as quais mantinham o suporte da guitarra, contrariamente às «baladas» de José Afonso; ou peças de Carlos Paredes (que "heresia"!...) ou Jorge Tuna.
[7] Só o Orfeão manteve, e por mais algum tempo, o uso da capa e batina; ainda que em 1972 ou –73 usar o traje na rua pudesse comportar a audição de alguns ‘piropos’ não muito agradáveis...
[8] Na Faculdade de Letras, em 1978 e 1979, o apoio ou não-apoio à "Semana Académica" / "Queima das Fitas" chegou a ser objecto de acesa discussão na Assembleia de Representantes.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Sobre as latadas e o uso de insígnias
Em Outubro e Novembro passados apareceu no blogue Penedo da Saudade, do antigo estudante de Coimbra (e do Porto) Zé Veloso, um texto sob o título genérico Das Latadas à Festa das Latas, fazendo uma pequena história do costume coimbrão das latadas. O autor dividiu-o em duas partes, aliás bastante naturais:
Parte I: As latadas do final do ano lectivo. A emancipação dos caloiros
Parte II: As latadas do início do ano lectivo. A imposição de insígnias
A relevância particular da história das tradições académicas coimbrãs para quem se interessa essencialmente pelas tradições académicas portuenses costuma ser óbvia: uma grande parte dessas tradições académicas surgiu em Coimbra ou aí tomou uma forma muito próxima da que mais tarde seria assumida no Porto.
Mas este caso é diferente. A leitura do texto de Zé Veloso, principalmente da parte II, é recomendável aos académicos do Porto, não para que se informem sobre a origem das latadas que realizam, mas para que se apercebam das diferenças fundamentais entre a tradição coimbrã das latadas e o costume portuense que usa o mesmo nome.
Não vou resumir o texto de Zé Veloso. As ligações estão aí em cima e o leitor está convidado a lê-lo. Saliento apenas algumas características das latadas nos anos 40, 50 e 60 do séc. XX: quase total ausência de latas; cortejo constituído pelos grelados e fitados de uma faculdade (tendencialmente todos), que mobilizam caloiros pertencentes a quaisquer faculdades, não necessariamente à da latada, mascarados, muitos transportando cartazes com piadas (frequentemente políticas). Muito longe de um cortejo constituído pelos caloiros de uma faculdade (ou da "academia", mas organizados por faculdade), obrigatoriamente com latas, com doutores (não necessariamente grelados ou fitados) que acompanham e controlam, mas não constituem o cortejo.
Mas então qual é a história das latadas do Porto?
Antes dos anos 80, esta história é muito simples de contar: não havia latadas no Porto.
Em 1982 é publicado o livro Quid Praxis? (Portucalensis), de Manuel Cabral e Rui Marrana (um livro que tenta ser sobre a Praxe Académica portuense mas recorre quase exclusivamente a bibliografia coimbrã - na verdade os autores vão caracterizando a praxe de Coimbra e usando pouco mais do que a sua opinião pessoal e a sua experiência de três anos de "restauração" das tradições académicas no Porto para decidir o que se aplica, e como, a esta cidade). Às latadas, é dedicada meia página (dois parágrafos e uma pequena nota de rodapé), na secção "Outras iniciativas académicas" (pág. 91) - incluindo a referência importante de que este hábito "nunca atingiu o Porto".
No ano seguinte aparece um chamado Projecto de Código da Praxe Académica do Porto, dos veteranos de Engenharia José António Balau e Augusto Henrique Soromenho - cópia com poucas adaptações (e mal feitas) do Código da Praxe Académica de Coimbra de 1957. Os artigos que mencionam as latadas são simplesmente copiados, como se correspondessem a tradições portuenses, com adaptações cosméticas; por exemplo:
Assim, não foi antes de 1982, e foi provavelmente em 1983 ou pouco depois, que se começaram a realizar latadas no Porto - mas foram rapidamente encaradas como "tradicionais", ou praxisticamente importantes, por via de uma codificação despropositada.
O formato adoptado parece ter sido improvisado com base em referências lidas na diagonal, misturando elementos de épocas diferentes de Coimbra - cortejo de caloiros com latas, como nas latadas antigas de fim de ano em Coimbra, com certeza conhecidas de alguns pelo menos através da referência no In Illo Tempore de Trindade Coelho; calendarização no início do ano lectivo, como nas latadas de imposição de insígnias dos anos 40 a 60, referidas no Código da Praxe (e sua cópia portuense). Os cartazes com piadas não foram adoptados; raramente os caloiros foram caracterizados, e ainda mais raramente essas caracterizações foram além do mais básico. Tratava-se essencialmente dum pretexto para passear os caloiros pelo centro da cidade ("apresentar os caloiros ao Porto") fazendo o máximo de barulho possível.
Por outro lado, surgiu um elemento novo (ou que, em Coimbra, não é anterior aos anos 80): a associação, em muitas faculdades, ao baptismo dos caloiros. Não tendo dados seguros, devo dizer que sempre me pareceu que esta associação se devia a factores práticos: os caloiros devem ser baptizados na Fonte dos Leões e, para as faculdades longe do centro, a latada fornece uma excelente oportunidade de passagem pela Fonte; diga-se que na Faculdade de Ciências nunca houve tal associação (pelo menos antes do séc XXI, ou seja, enquanto a faculdade esteve no seu edifício histórico, na Praça dos Leões) - os caloiros eram baptizados não na latada mas a seguir ao julgamento do seu curso (o que, por outro lado, evoca os "baptismos" do Orfeão dos anos 40, 50 e 60 - meio julgamentos e meio baptismos; mas essa é outra história).
Quando eu fui caloiro (1989/90) as latadas estavam já firmemente implantadas, nos moldes descritos acima. Tipicamente, cada faculdade realizava a sua latada, durante a sua Recepção ao Caloiro (ou seja, nas duas ou três primeiras semanas de aulas; era muito raro praxarem-se caloiros depois disso); e mais tarde havia uma latada da "academia" integrada na Recepção ao Caloiro organizada pela FAP (que se realizava na segunda metade de Novembro).
O que era muito ténue era a associação ao uso de insígnias. Ao contrário das latadas de imposição de insígnias de Coimbra dos anos 40, 50 e 60, nunca as latadas do Porto foram cortejos de novos fitados e novos grelados - nem "novos nabiçados" e "novos sementados"(?).
No entanto, havia quem insistisse em fazer a associação. Lembro-me de ter várias discussões com "engenheiros" que insistiam que as insígnias só se deviam usar a partir da latada. E qual latada: a da faculdade respectiva ou a da "academia"? Em princípio, seria mais lógico usar o critério de uma latada que englobava todas as faculdades; mas isso significaria usar insígnias só a partir do fim de Novembro. Para esses engenheiros (ou pelo menos alguns deles) este não era um problema; antes pelo contrário - era até positivo que, enquanto estivessem a ser praxados, os caloiros não distinguissem a hierarquia dos doutores (o que não os impedia de defender que os veteranos se distinguissem usando capa à futrica como se fossem antigos estudantes...).
E mesmo que a latada escolhida fosse a da faculdade, usá-la como marco de início do uso de insígnias não seria atribuir uma importância excessiva a um costume recente no Porto? (Na altura dessas discussões, uma década ou pouco mais.)
[Adenda, 1/3/2012: lembrei-me de consultar o Código da Praxe de Engenharia, de 1994 - adaptação piorada do Projecto de Código da Praxe do Porto de 1983. E verifiquei que, segundo esse código, "Não pode exercer praxe quem usar Insígnias visíveis" (art. 135º) - regra estranha e que contradiz pelo menos as regras sobre os julgamentos (as fitas dos membros do júri e o grelo do promotor de justiça devem estar visíveis nas respectivas mesas). Verifiquei também (art. 469º) que pelo menos a partir dessa altura o critério de Engenharia para o início do uso de insígnias em cada ano lectivo não era o dia da Latada, e sim o da Serenata da Recepção ao Caloiro (não sendo claro qual - de Engenharia ou da "academia"?). Mas o pior é o resto (v. nota [1]).]
Aí por 1994 o Conselho de Veteranos de Ciências, a que eu pertencia, debruçou-se sobre o assunto. Afinal, em que altura precisa do início do ano lectivo se devia começar a usar as insígnias? Dois pontos prévios:
Assim, decidimos que, à falta de uma Abertura Solene, devíamos considerar o início oficial do ano lectivo: as insígnias poderiam usar-se a partir do primeiro dia de aulas no calendário oficial.[3] Claro que nunca deixámos de realizar a latada (nos moldes portuenses) na Recepção ao Caloiro da Faculdade de Ciências. Mas sem lhe dar um peso praxístico exagerado.
[1] Esta explicação não deveria ser necessária. Mas lembro-me dum detalhe tristemente anedótico numa das discussões que tive nos anos 90 sobre o assunto: um "engenheiro" assegurava-me que o não uso de insígnias entre a Queima e a latada era um sinal de luto pelo dux veteranorum Augusto Soromenho, falecido em 1989...
[Adenda, 1/3/2012: Afinal, este disparate foi consagrado no Código da Praxe de Engenharia (ou talvez tenha tido aí origem?). Diz o art. 469º que as insígnias "deverão ser recolhidas a partir do fim da Queima até às 21 horas e 59 minutos do dia da Serenata da Recepção ao caloiro, do ano lectivo seguinte, isto em memória do falecido Dux Veteranorum Augustus Soromenhus". Patético...]
[2] Curiosamente, segundo informação de António M. Nunes, em Coimbra "tradicionalmente [antes dos anos 40] os estudantes deitavam fitas e grelos no dia da abertura solene das aulas".
[3] Note-se que a nossa época de recurso acabava sempre antes do início das aulas. A nota de um ou outro exame demoraria mais a sair, mas...
Parte I: As latadas do final do ano lectivo. A emancipação dos caloiros
Parte II: As latadas do início do ano lectivo. A imposição de insígnias
A relevância particular da história das tradições académicas coimbrãs para quem se interessa essencialmente pelas tradições académicas portuenses costuma ser óbvia: uma grande parte dessas tradições académicas surgiu em Coimbra ou aí tomou uma forma muito próxima da que mais tarde seria assumida no Porto.
Mas este caso é diferente. A leitura do texto de Zé Veloso, principalmente da parte II, é recomendável aos académicos do Porto, não para que se informem sobre a origem das latadas que realizam, mas para que se apercebam das diferenças fundamentais entre a tradição coimbrã das latadas e o costume portuense que usa o mesmo nome.
Não vou resumir o texto de Zé Veloso. As ligações estão aí em cima e o leitor está convidado a lê-lo. Saliento apenas algumas características das latadas nos anos 40, 50 e 60 do séc. XX: quase total ausência de latas; cortejo constituído pelos grelados e fitados de uma faculdade (tendencialmente todos), que mobilizam caloiros pertencentes a quaisquer faculdades, não necessariamente à da latada, mascarados, muitos transportando cartazes com piadas (frequentemente políticas). Muito longe de um cortejo constituído pelos caloiros de uma faculdade (ou da "academia", mas organizados por faculdade), obrigatoriamente com latas, com doutores (não necessariamente grelados ou fitados) que acompanham e controlam, mas não constituem o cortejo.
Mas então qual é a história das latadas do Porto?
Antes dos anos 80, esta história é muito simples de contar: não havia latadas no Porto.
Em 1982 é publicado o livro Quid Praxis? (Portucalensis), de Manuel Cabral e Rui Marrana (um livro que tenta ser sobre a Praxe Académica portuense mas recorre quase exclusivamente a bibliografia coimbrã - na verdade os autores vão caracterizando a praxe de Coimbra e usando pouco mais do que a sua opinião pessoal e a sua experiência de três anos de "restauração" das tradições académicas no Porto para decidir o que se aplica, e como, a esta cidade). Às latadas, é dedicada meia página (dois parágrafos e uma pequena nota de rodapé), na secção "Outras iniciativas académicas" (pág. 91) - incluindo a referência importante de que este hábito "nunca atingiu o Porto".
No ano seguinte aparece um chamado Projecto de Código da Praxe Académica do Porto, dos veteranos de Engenharia José António Balau e Augusto Henrique Soromenho - cópia com poucas adaptações (e mal feitas) do Código da Praxe Académica de Coimbra de 1957. Os artigos que mencionam as latadas são simplesmente copiados, como se correspondessem a tradições portuenses, com adaptações cosméticas; por exemplo:
Codigo da Praxe de Coimbra, art. 258.º
As insígnias que irão usar-se no decurso do ano lectivo são postas no dia da latada ou cortejo respectivo às 10 horas da manhã.
A latada dum ano ou curso só pode efectuar-se depois de terminados os exames da sua época de Outubro e terá lugar em dia combinado entre todos.
Projecto de Código da Praxe do Porto, art. 256º
As insígnias que se irão usar no decurso do ano lectivo são postas no dia da Latada ou Cortejo respectivo às 10 horas da manhã.
A Latada dum ano ou curso só pode efectuar-se depois de terminados os exames da sua época de Outubro e terá lugar em dia combinado entre todos ou segundo data indicada pelo C.V.F. [Conselho de Veteranos de Faculdade] respectivo.
Codigo da Praxe de Coimbra, art. 266.º
A mesma espécie de insígnias pessoais só pode ser usada no dia do Cortejo da Queima das Fitas, no dia seguinte a este e durante um ano lectivo, a partir do dia da latada da respectiva Faculdade até à hora do toque matutino da Cabra no dia do Cortejo da Queima das Fitas.
§ 1.º Os que se apresentem a exame final de licenciatura podem usar as fitas tantas vezes quantas as que se apresentarem a exame.
§ 2.º O que ao fim de 5 anos ainda não se tenha licenciado pode voltar a usar fitas durante mais um ano lectivo.
Projecto de Código da Praxe do Porto, art. 265º[Este segundo exemplo é particularmente chocante por ignorar a estrutura tradicional da Queima das Fitas do Porto. Na Queima das Fitas de Coimbra, as novas insígnias começam-se a usar ("vão-se buscar") no dia do Cortejo, que tradicionalmente é (ou era, até recentemente) o penúltimo; na Queima do Porto, as novas insígnias começam-se a usar na Imposição de Insígnias, que acontece no início da semana - nos anos 50 e 60 acontecia na segunda-feira, segundo dia da Queima; a partir dos anos 80 acontece no domingo, primeiro dia da Queima - e usam-se durante todo o resto da semana - não apenas dois dias, e se fossem apenas dois esses dias não seriam o do Cortejo e o seguinte, esquecendo o dia da Imposição!]
A mesma espécie de insígnias pessoais só pode ser usada no dia do Cortejo da Queima das Fitas, no dia seguinte a este e durante um ano lectivo, a partir do dia da Latada da respectiva Faculdade até ao dia do Cortejo da Queima das Fitas.
§ Único - Os que se apresentem a exame final de licenciatura podem usar as fitas tantas vezes quantas as que se apresentarem a exame.
Assim, não foi antes de 1982, e foi provavelmente em 1983 ou pouco depois, que se começaram a realizar latadas no Porto - mas foram rapidamente encaradas como "tradicionais", ou praxisticamente importantes, por via de uma codificação despropositada.
O formato adoptado parece ter sido improvisado com base em referências lidas na diagonal, misturando elementos de épocas diferentes de Coimbra - cortejo de caloiros com latas, como nas latadas antigas de fim de ano em Coimbra, com certeza conhecidas de alguns pelo menos através da referência no In Illo Tempore de Trindade Coelho; calendarização no início do ano lectivo, como nas latadas de imposição de insígnias dos anos 40 a 60, referidas no Código da Praxe (e sua cópia portuense). Os cartazes com piadas não foram adoptados; raramente os caloiros foram caracterizados, e ainda mais raramente essas caracterizações foram além do mais básico. Tratava-se essencialmente dum pretexto para passear os caloiros pelo centro da cidade ("apresentar os caloiros ao Porto") fazendo o máximo de barulho possível.
Por outro lado, surgiu um elemento novo (ou que, em Coimbra, não é anterior aos anos 80): a associação, em muitas faculdades, ao baptismo dos caloiros. Não tendo dados seguros, devo dizer que sempre me pareceu que esta associação se devia a factores práticos: os caloiros devem ser baptizados na Fonte dos Leões e, para as faculdades longe do centro, a latada fornece uma excelente oportunidade de passagem pela Fonte; diga-se que na Faculdade de Ciências nunca houve tal associação (pelo menos antes do séc XXI, ou seja, enquanto a faculdade esteve no seu edifício histórico, na Praça dos Leões) - os caloiros eram baptizados não na latada mas a seguir ao julgamento do seu curso (o que, por outro lado, evoca os "baptismos" do Orfeão dos anos 40, 50 e 60 - meio julgamentos e meio baptismos; mas essa é outra história).
Quando eu fui caloiro (1989/90) as latadas estavam já firmemente implantadas, nos moldes descritos acima. Tipicamente, cada faculdade realizava a sua latada, durante a sua Recepção ao Caloiro (ou seja, nas duas ou três primeiras semanas de aulas; era muito raro praxarem-se caloiros depois disso); e mais tarde havia uma latada da "academia" integrada na Recepção ao Caloiro organizada pela FAP (que se realizava na segunda metade de Novembro).
O que era muito ténue era a associação ao uso de insígnias. Ao contrário das latadas de imposição de insígnias de Coimbra dos anos 40, 50 e 60, nunca as latadas do Porto foram cortejos de novos fitados e novos grelados - nem "novos nabiçados" e "novos sementados"(?).
No entanto, havia quem insistisse em fazer a associação. Lembro-me de ter várias discussões com "engenheiros" que insistiam que as insígnias só se deviam usar a partir da latada. E qual latada: a da faculdade respectiva ou a da "academia"? Em princípio, seria mais lógico usar o critério de uma latada que englobava todas as faculdades; mas isso significaria usar insígnias só a partir do fim de Novembro. Para esses engenheiros (ou pelo menos alguns deles) este não era um problema; antes pelo contrário - era até positivo que, enquanto estivessem a ser praxados, os caloiros não distinguissem a hierarquia dos doutores (o que não os impedia de defender que os veteranos se distinguissem usando capa à futrica como se fossem antigos estudantes...).
E mesmo que a latada escolhida fosse a da faculdade, usá-la como marco de início do uso de insígnias não seria atribuir uma importância excessiva a um costume recente no Porto? (Na altura dessas discussões, uma década ou pouco mais.)
[Adenda, 1/3/2012: lembrei-me de consultar o Código da Praxe de Engenharia, de 1994 - adaptação piorada do Projecto de Código da Praxe do Porto de 1983. E verifiquei que, segundo esse código, "Não pode exercer praxe quem usar Insígnias visíveis" (art. 135º) - regra estranha e que contradiz pelo menos as regras sobre os julgamentos (as fitas dos membros do júri e o grelo do promotor de justiça devem estar visíveis nas respectivas mesas). Verifiquei também (art. 469º) que pelo menos a partir dessa altura o critério de Engenharia para o início do uso de insígnias em cada ano lectivo não era o dia da Latada, e sim o da Serenata da Recepção ao Caloiro (não sendo claro qual - de Engenharia ou da "academia"?). Mas o pior é o resto (v. nota [1]).]
Aí por 1994 o Conselho de Veteranos de Ciências, a que eu pertencia, debruçou-se sobre o assunto. Afinal, em que altura precisa do início do ano lectivo se devia começar a usar as insígnias? Dois pontos prévios:
- O problema coloca-se efectivamente, devido à antecipação das insígnias na Queima e à incerteza sobre a passagem de ano. As fitas (por exemplo) são a insígnia do último ano do curso. Impõem-se na Queima do penúltimo ano por antecipação, mas não devem ser usadas depois de terminada a Queima, antes de se ter a certeza de ter passado de ano (e se não se passa de ano não se usam!). Daí o critério coimbrão de a latada não poder ser realizada antes de terminados os exames da época de Outubro (isto é, da época de recurso).[1]
- A questão extravasava claramente as competências do Conselho de Veteranos de Ciências (ou do Conselho de Veteranos de qualquer faculdade). Deveria ser tratada pelo Magno Conselho de Veteranos - desde que este funcionasse correctamente. Mas nós conhecíamos o Magno Conselho de Veteranos que existia na prática, o seu modo de funcionamento e o seu bom senso... E, como noutras situações, resolvemos analisar a questão, interpretando a tradição (e não adoptando uma solução qualquer de que nos lembrássemos) e tomando uma decisão que, evidentemente, seria vinculativa apenas no âmbito da Faculdade de Ciências.
Assim, decidimos que, à falta de uma Abertura Solene, devíamos considerar o início oficial do ano lectivo: as insígnias poderiam usar-se a partir do primeiro dia de aulas no calendário oficial.[3] Claro que nunca deixámos de realizar a latada (nos moldes portuenses) na Recepção ao Caloiro da Faculdade de Ciências. Mas sem lhe dar um peso praxístico exagerado.
[1] Esta explicação não deveria ser necessária. Mas lembro-me dum detalhe tristemente anedótico numa das discussões que tive nos anos 90 sobre o assunto: um "engenheiro" assegurava-me que o não uso de insígnias entre a Queima e a latada era um sinal de luto pelo dux veteranorum Augusto Soromenho, falecido em 1989...
[Adenda, 1/3/2012: Afinal, este disparate foi consagrado no Código da Praxe de Engenharia (ou talvez tenha tido aí origem?). Diz o art. 469º que as insígnias "deverão ser recolhidas a partir do fim da Queima até às 21 horas e 59 minutos do dia da Serenata da Recepção ao caloiro, do ano lectivo seguinte, isto em memória do falecido Dux Veteranorum Augustus Soromenhus". Patético...]
[2] Curiosamente, segundo informação de António M. Nunes, em Coimbra "tradicionalmente [antes dos anos 40] os estudantes deitavam fitas e grelos no dia da abertura solene das aulas".
[3] Note-se que a nossa época de recurso acabava sempre antes do início das aulas. A nota de um ou outro exame demoraria mais a sair, mas...
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Apontamentos sobre a Imposição de Insígnias dos estudantes da Universidade do Porto. Uma tradição pouco conhecida
[Texto publicado originalmente no blogue Virtual Memories (de visita obrigatória regular), de António Manuel Nunes, em 12 de Novembro. Retirei uma pequena apresentação do autor do texto principal (eu) e algumas considerações sobre a Imposição de Insígnias e a latada de Coimbra.]
O blogue solicitou ao Prof. Doutor João Caramalho Domingues um testemunho documentado sobre a cerimónia da Imposição de Insígnias (cartola e bengala, pasta com fitas e grelos). Esta cerimónia estudantil é única no cenário académico português. Com origem na Escola Médico-Cirúrgica do Porto (onde desde finais do século XIX os estudantes usavam pasta de luxo com fitas de seda em amarelo e vermelho), o costume seria retomado e aprofundado pela Universidade do Porto. A partir de ca. 1980 a imposição de insígnias foi apropriada pelos estudantes de quase todos os estabelecimentos de ensino superior públicos e privados, universitários e politécnicos, com sede na Região Norte.
Trata-se, para todos os efeitos, de uma replicação da cerimónia de formatura, realizada antes da conclusão oficial do curso, com a criativa e interessante peculiaridade de acoplar duas tradições autónomas e geograficamente distintas (a festa da pasta, herdada da Médico-Cirúrgica, a cartola e bengala levadas de Coimbra) e de juntar no acto festivo estudantes, famílias, professores do curso e representantes da associação de estudantes e/ou do conselho de veteranos (órgão regulador das tradições académicas).
Na Universidade de Coimbra a festa de Imposição de Insígnias dos estudantes novos grelados e novos fitados (completamente distinta da Imposição de Insígnias a doutores na sala dos actos grandes) acontece não no fim do ano escolar mas no início [no dia da latada].
Em Coimbra a Universidade não realiza formaturas desde 1910, imobilismo que causa a maior perplexidade nas universidades brasileiras. Na festa da Queima das Fitas, tradicionalmente no mês de Maio, os estudantes que concluem cursos desfilam no cortejo alegórico desde a década de 1930 com cartola e bengala de fantasia na cor dos respectivos cursos (excepto as dos veteranos que são cartolões pretos). Como adereços carnavalescos que são, ninguém os designa por insígnias. A cartola e bengala, usam-se desde a manhã do dia do cortejo alegórico até ao último dia da Queima das Fitas, podendo o portador andar com a pasta com as fitas assinadas, mas o que não pode usar é a capa de estudante.
A tradição de bengalar a cartola também era desconhecida em Coimbra (ou pelo menos não existia até à década de 1990). À luz da cultura local seria uma afronta e uma desonra alguém bater na cabeça de um quintanista fitado. Na Universidade do Porto, o costume de desferir bengaladas na cartola poderá constituir uma replicação da tradição dos festejos sanjoaninos (bater com os martelos e alhos porros na cabeça), daí a conotação positiva atribuída a este rito e aceitação generalizada que concita. Admite-se também que possa ter colhido alguma sorte de inspiração nos ritos de cavalaria (rito de investidura), em que um "padrinho" tocava com a espada no ombro do neófito. O que nunca se colocou na cabeça dos estudantes da UP foi o barrete octavado dos professores, praticamente idêntico ao espanhol, que já não se usa.
O subtítulo "pouco conhecida" poderá parecer contraditório. A imposição de insígnias é conhecidíssima na Universidade do Porto e nos estabelecimentos de ensino superior da Região Norte (Douro Litoral, Minho, Trás-os-Montes e Alto Douro). Há muitos infantários do Douro Litoral onde as directoras e educadoras promovem como festa de despedida das salas dos 5 anos uma replicação da Queima das Fitas da UP, com missa (benção de pastinhas colorinhas em cartão), imposição de cartola e bengala, bengaladas da cartola dadas pela directora do estabelecimento, entrega de diploma enrolado e preso com fitinha (rosa para meninos, azul para meninos) e FRA colectivo e interpretação colectiva do hino do infantário. Em alguns desses infantários as educadoras confeccionam umas capas pretas de licra que as crianças levam vestidas. A Imposição de Insígnias dos estudantes também se faz na Universidade do Minho, estabelecimento onde tem um impacto visual e simbólico arrasador face à singela diplomatura realizada em Setembro, sendo ali a cartola substituída por um tricórnio colorido.
Quando se escreve pouco conhecida referimo-nos ao resto do país.
Caro António,
Vou tentar responder às suas perguntas sobre a Imposição de Insígnias da Queima das Fitas do Porto, centrando-me no formato que tinha na minha Faculdade (Ciências) no meu tempo. As variações de faculdade para faculdade e ao longo dos tempos têm sido consideráveis.
Um pouco de contexto: A Queima das Fitas do Porto começava (e começa) às 0h00 do primeiro domingo de Maio (com uma Monumental Serenata). Umas horas depois, na manhã desse domingo, era (é) celebrada a Benção das Pastas.
Na tarde ainda desse domingo, em cada Faculdade, decorria (e decorre) a Imposição de Insígnias (antes da interrupção dos anos [19]70, a Imposição de Insígnias era numa segunda-feira).
No meu tempo (anos 90) a Imposição de Insígnias da Faculdade de Ciências acontecia no Salão Nobre da Faculdade (hoje conhecido como Salão Nobre da Reitoria e que já na altura era frequentemente usado como Salão Nobre da UP). Neste Salão há um estrado ligeiramente elevado (dois degraus) onde fica a mesa da "presidência" e, lateralmente, algumas filas de cadeiras. Na mesa sentavam-se inicialmente o Presidente do Conselho Directivo, o Dux Facultis e o Presidente e/ou o responsável pelo Dep. Tradições Académicas da Direcção da Associação de Estudantes (ou, em cada caso, um seu representante); nas cadeiras laterais [à direita e à esquerda da mesa da presidência] sentavam-se os professores que iam apadrinhar finalistas. Alguns breves discursos, alusivos à Queima das Fitas, ao finalizar dos cursos e às famílias dos estudantes - havia sempre alusões ao facto de esse dia ser também o Dia da Mãe. Na "plateia" sentavam-se muitos familiares dos finalistas (deve haver por esse país fora inúmeras fotografias e vídeos caseiros destas cerimónias) e colegas. Os finalistas propriamente concentravam-se no corredor junto à porta que dava acesso à zona do estrado (ou mais afastados se ainda faltava muito para serem chamados). Faziam-se as últimas assinaturas nas fitas.
Fazia-se então a imposição da cartola a cada finalista. A ordem era por curso (nos meus primeiros anos por ordem alfabética de curso; mais tarde o Conselho de Veteranos estabeleceu uma ordem baseada na antiguidade dos cursos) e por ordem alfabética dentro de cada curso. O finalista era chamado pelo nome, aproximava-se do estrado, em princípio de capa e batina e transportando a pasta com fitas largas (mas com excepções - havia quem não tivesse capa e batina e insistisse em participar, com resistência do Conselho de Veteranos), um caloiro (de capa e batina, claro!) retirava-lhe a capa e a pasta (recolhendo as fitas?), e o padrinho (em pé no estrado, já não no cadeiral) colocava a cartola na cabeça do finalista, dando-lhe uma a três ligeiras bengaladas na cartola. Aplausos e gritos de incentivo da assistência. No final de cada curso, um dos cartolados puxava um FRA pelos finalistas de...
Uma palavra sobre os padrinhos: sempre tive a ideia de que deviam ser professores. Cada finalista convidaria um professor para ser seu padrinho (claro que os professores mais populares tinham muitos afilhados); frequentemente estes "professores" eram na verdade assistentes. Mas havia excepções: por exemplo, eu cheguei a ser padrinho de uma colega e amiga minha (quando era assistente-estagiário mas noutra universidade, e não foi com certeza nessa qualidade que lhe pus a cartola; pelo menos era licenciado...; tenho ideia que noutras faculdades as excepções eram mais frequentes e mais "excepcionais" - um antigo dux veteranorum, que nunca se licenciou, foi pelo menos uma vez padrinho de cartola, numa faculdade que não a sua).
A seguir à imposição das cartolas vinha a imposição das fitas. Ainda por curso, mas já sem chamada pessoal: os novos fitados de cada curso (de capa e batina!), com a pasta com fitas largas recolhidas e com grelo, dirigiam-se em grupo à mesa, onde estavam os seus padrinhos - cartolados - que lhes retiravam o grelo da pasta (passando então para o pescoço) e tiravam as fitas para fora. FRA pelo novos fitados de...
A seguir, imposição do grelo: semelhante à anterior, com os novos fitados como padrinhos. FRA.
A imposição das nabiças e sementes (insígnias desconhecidas em Coimbra, datando dos anos 60 no Porto, por vezes chamadas "falsas insígnias") era feita depois, à margem da cerimónia.
Entre estas imposições havia também actuações de grupos musicais da
faculdade (Grupo de Folclore, Grupo de Fados, Tuna Feminina, Tuna
masculina). Devia haver também, mas no meu tempo era raro, "serrotes": paródias feitas pelos cartolados de um curso aos professores desse curso (tipicamente insistindo mais nos professores que não davam aulas ao último ano, por motivos óbvios).
Numa faculdade com 9 a 14 licenciaturas e 2000 a 3000 alunos, estamos a falar de uma cerimónia para várias horas, a que muito pouca gente assistiria de início ao fim.
Havia também fotografias de grupo, naturalmente. Há várias gerações de fotografias dos cartolados, ou novos fitados, ou novos grelados, do curso ..., junto à Fonte dos Leões.
Pode ver algumas dos anos 60 no
Álbum de Memórias da UP:http://sigarra.up.pt/up/web_base.gera_pagina?p_pagina=1001831.
Devo dizer algo sobre a queima do grelo, ou queima das fitas. Por vezes, mas nem sempre, a organização da cerimónia (Dep. Tradições Académicas da AE) lembrava-se de colocar um penico com fogo junto ao estrado, umas vezes para os novos fitados queimarem o seu grelo (muito simbolicamente - passavam apenas o grelo por cima das chamas a caminho da mesa), outras para os finalistas queimarem as suas fitas (simbolicamente, claro).
A confusão fitas/grelo e o facto de nem sempre o penico sequer estar lá mostra a importância com que este pormenor era encarado. Confesso que devo ter alguma "culpa" no desaparecimento definitivo (?) do penico por meados da década.
Repito que noutras faculdades a Imposição das Insígnias teria pormenores diferentes. Lembro-me de ouvir dizer que em Economia os novos fitados não levavam as suas pastas até aos padrinhos; em vez disso, dirigiam-se aos padrinhos que lhas entregavam, com as fitas soltas (os grelos antigos nem deviam aparecer). O facto de as Imposições das várias faculdades decorrerem em paralelo facilitaria o aparecimento de tradições divergentes.
Não tenho também dúvidas de que, mesmo na Faculdade de Ciências, os pormenores seriam diferentes antes dos anos 70 (a começar pelo facto de se fazer a Imposição de Insígnias noutras salas que não o Salão Nobre).
Quanto à história desta tradição:
A Imposição de Insígnias é o resultado de uma evolução da Entrega da Pasta da Escola Médico-Cirúrgica (depois Festa da Pasta nas várias faculdades da UP e Institutos extra-UP). Não tenho qualquer dúvida sobre isso.
O que eu não sei ao certo é quando a cartola e bengala começou a ser imposta ou quando se começou a fazer imposição das fitas e grelo a cada novo fitado ou grelado, em vez de mera passagem simbólica de uma pasta com fitas a um novo fitado e de uma pasta com grelo a um novo grelado (que era o que acontecia nos anos 30).
As pistas cronológicas que posso dar de momento são as seguintes:
- Em 1948 já havia cartolas, pelo menos em Medicina (mas haveria imposição ou entrega?); nesse ano em Engenharia houve entrega simbólica de uma pasta (com fitas) a um novo fitado e em Farmácia houve distribuição das pastas (uma pessoa a distribuir todas as pastas):
http://repositorio-tematico.up.pt/handle/10405/23441
Não vejo aí a ideia de imposição padrinho-afilhado; nem sequer a palavra "imposição".
- Passados 5 anos, em 1953, houve "entrega dos grelos, fitas e cartolas"
na FCUP, e já se usava a expressão "imposição das insígnias":
http://repositorio-tematico.up.pt/handle/10405/24250
Perguntou-me pela origem do costume das bengaladas na cartola.
Sinceramente, não sei quando começou. Não me admiraria se fosse dos anos 80.
Devo acrescentar que, além do padrinho, e depois de a cartola e bengala ter sido imposta, o cartolado vai recebendo bengaladas como cumprimento ao longo da Queima das Fitas (o que é bastante, se se lembrar de que a Imposição das Insígnias é logo no primeiro dia); no cortejo, passados dois dias, muitas cartolas estão já semi-desfeitas.
Perguntou-me também se antes de ser ter adoptado na UP a cartola e a bengala, os finalistas colocavam na cabeça outro tipo de chapéu que ainda não seria a cartola.
Eu diria que não. Há uma fotografia dos finalistas de Medicina de 1939, à futrica, com os chapéus (normalíssimos da época) todos ao contrário. Mas acho forçado ver aí um antecedente da cartola. E quanto a imposição, não me parece...
Três notas finais:
1 - Frequentemente, entre os praxistas, há discussões (verdadeiramente académicas) sobre se a cartola e bengala são insígnias... São impostas na Imposição de Insígnias; mas não são insígnias como as fitas e grelo...
2 - As semelhanças com as cerimónias de "graduation" (assisti a duas em Inglaterra) são inequívocas, particularmente pensando na participação das famílias. A principal diferença é o facto de funcionar por antecipação - o cartolado ainda não acabou o curso.
3 - Não sei quantos estudantes do Porto terão consciência de que na Queima das Fitas de Coimbra não existe Imposição de Insígnias...
Um abraço,
João Caramalho Domingues
O blogue solicitou ao Prof. Doutor João Caramalho Domingues um testemunho documentado sobre a cerimónia da Imposição de Insígnias (cartola e bengala, pasta com fitas e grelos). Esta cerimónia estudantil é única no cenário académico português. Com origem na Escola Médico-Cirúrgica do Porto (onde desde finais do século XIX os estudantes usavam pasta de luxo com fitas de seda em amarelo e vermelho), o costume seria retomado e aprofundado pela Universidade do Porto. A partir de ca. 1980 a imposição de insígnias foi apropriada pelos estudantes de quase todos os estabelecimentos de ensino superior públicos e privados, universitários e politécnicos, com sede na Região Norte.
Trata-se, para todos os efeitos, de uma replicação da cerimónia de formatura, realizada antes da conclusão oficial do curso, com a criativa e interessante peculiaridade de acoplar duas tradições autónomas e geograficamente distintas (a festa da pasta, herdada da Médico-Cirúrgica, a cartola e bengala levadas de Coimbra) e de juntar no acto festivo estudantes, famílias, professores do curso e representantes da associação de estudantes e/ou do conselho de veteranos (órgão regulador das tradições académicas).
Na Universidade de Coimbra a festa de Imposição de Insígnias dos estudantes novos grelados e novos fitados (completamente distinta da Imposição de Insígnias a doutores na sala dos actos grandes) acontece não no fim do ano escolar mas no início [no dia da latada].
Em Coimbra a Universidade não realiza formaturas desde 1910, imobilismo que causa a maior perplexidade nas universidades brasileiras. Na festa da Queima das Fitas, tradicionalmente no mês de Maio, os estudantes que concluem cursos desfilam no cortejo alegórico desde a década de 1930 com cartola e bengala de fantasia na cor dos respectivos cursos (excepto as dos veteranos que são cartolões pretos). Como adereços carnavalescos que são, ninguém os designa por insígnias. A cartola e bengala, usam-se desde a manhã do dia do cortejo alegórico até ao último dia da Queima das Fitas, podendo o portador andar com a pasta com as fitas assinadas, mas o que não pode usar é a capa de estudante.
A tradição de bengalar a cartola também era desconhecida em Coimbra (ou pelo menos não existia até à década de 1990). À luz da cultura local seria uma afronta e uma desonra alguém bater na cabeça de um quintanista fitado. Na Universidade do Porto, o costume de desferir bengaladas na cartola poderá constituir uma replicação da tradição dos festejos sanjoaninos (bater com os martelos e alhos porros na cabeça), daí a conotação positiva atribuída a este rito e aceitação generalizada que concita. Admite-se também que possa ter colhido alguma sorte de inspiração nos ritos de cavalaria (rito de investidura), em que um "padrinho" tocava com a espada no ombro do neófito. O que nunca se colocou na cabeça dos estudantes da UP foi o barrete octavado dos professores, praticamente idêntico ao espanhol, que já não se usa.
O subtítulo "pouco conhecida" poderá parecer contraditório. A imposição de insígnias é conhecidíssima na Universidade do Porto e nos estabelecimentos de ensino superior da Região Norte (Douro Litoral, Minho, Trás-os-Montes e Alto Douro). Há muitos infantários do Douro Litoral onde as directoras e educadoras promovem como festa de despedida das salas dos 5 anos uma replicação da Queima das Fitas da UP, com missa (benção de pastinhas colorinhas em cartão), imposição de cartola e bengala, bengaladas da cartola dadas pela directora do estabelecimento, entrega de diploma enrolado e preso com fitinha (rosa para meninos, azul para meninos) e FRA colectivo e interpretação colectiva do hino do infantário. Em alguns desses infantários as educadoras confeccionam umas capas pretas de licra que as crianças levam vestidas. A Imposição de Insígnias dos estudantes também se faz na Universidade do Minho, estabelecimento onde tem um impacto visual e simbólico arrasador face à singela diplomatura realizada em Setembro, sendo ali a cartola substituída por um tricórnio colorido.
Quando se escreve pouco conhecida referimo-nos ao resto do país.
Caro António,
Vou tentar responder às suas perguntas sobre a Imposição de Insígnias da Queima das Fitas do Porto, centrando-me no formato que tinha na minha Faculdade (Ciências) no meu tempo. As variações de faculdade para faculdade e ao longo dos tempos têm sido consideráveis.
Um pouco de contexto: A Queima das Fitas do Porto começava (e começa) às 0h00 do primeiro domingo de Maio (com uma Monumental Serenata). Umas horas depois, na manhã desse domingo, era (é) celebrada a Benção das Pastas.
Na tarde ainda desse domingo, em cada Faculdade, decorria (e decorre) a Imposição de Insígnias (antes da interrupção dos anos [19]70, a Imposição de Insígnias era numa segunda-feira).
No meu tempo (anos 90) a Imposição de Insígnias da Faculdade de Ciências acontecia no Salão Nobre da Faculdade (hoje conhecido como Salão Nobre da Reitoria e que já na altura era frequentemente usado como Salão Nobre da UP). Neste Salão há um estrado ligeiramente elevado (dois degraus) onde fica a mesa da "presidência" e, lateralmente, algumas filas de cadeiras. Na mesa sentavam-se inicialmente o Presidente do Conselho Directivo, o Dux Facultis e o Presidente e/ou o responsável pelo Dep. Tradições Académicas da Direcção da Associação de Estudantes (ou, em cada caso, um seu representante); nas cadeiras laterais [à direita e à esquerda da mesa da presidência] sentavam-se os professores que iam apadrinhar finalistas. Alguns breves discursos, alusivos à Queima das Fitas, ao finalizar dos cursos e às famílias dos estudantes - havia sempre alusões ao facto de esse dia ser também o Dia da Mãe. Na "plateia" sentavam-se muitos familiares dos finalistas (deve haver por esse país fora inúmeras fotografias e vídeos caseiros destas cerimónias) e colegas. Os finalistas propriamente concentravam-se no corredor junto à porta que dava acesso à zona do estrado (ou mais afastados se ainda faltava muito para serem chamados). Faziam-se as últimas assinaturas nas fitas.
Fazia-se então a imposição da cartola a cada finalista. A ordem era por curso (nos meus primeiros anos por ordem alfabética de curso; mais tarde o Conselho de Veteranos estabeleceu uma ordem baseada na antiguidade dos cursos) e por ordem alfabética dentro de cada curso. O finalista era chamado pelo nome, aproximava-se do estrado, em princípio de capa e batina e transportando a pasta com fitas largas (mas com excepções - havia quem não tivesse capa e batina e insistisse em participar, com resistência do Conselho de Veteranos), um caloiro (de capa e batina, claro!) retirava-lhe a capa e a pasta (recolhendo as fitas?), e o padrinho (em pé no estrado, já não no cadeiral) colocava a cartola na cabeça do finalista, dando-lhe uma a três ligeiras bengaladas na cartola. Aplausos e gritos de incentivo da assistência. No final de cada curso, um dos cartolados puxava um FRA pelos finalistas de...
Uma palavra sobre os padrinhos: sempre tive a ideia de que deviam ser professores. Cada finalista convidaria um professor para ser seu padrinho (claro que os professores mais populares tinham muitos afilhados); frequentemente estes "professores" eram na verdade assistentes. Mas havia excepções: por exemplo, eu cheguei a ser padrinho de uma colega e amiga minha (quando era assistente-estagiário mas noutra universidade, e não foi com certeza nessa qualidade que lhe pus a cartola; pelo menos era licenciado...; tenho ideia que noutras faculdades as excepções eram mais frequentes e mais "excepcionais" - um antigo dux veteranorum, que nunca se licenciou, foi pelo menos uma vez padrinho de cartola, numa faculdade que não a sua).
A seguir à imposição das cartolas vinha a imposição das fitas. Ainda por curso, mas já sem chamada pessoal: os novos fitados de cada curso (de capa e batina!), com a pasta com fitas largas recolhidas e com grelo, dirigiam-se em grupo à mesa, onde estavam os seus padrinhos - cartolados - que lhes retiravam o grelo da pasta (passando então para o pescoço) e tiravam as fitas para fora. FRA pelo novos fitados de...
A seguir, imposição do grelo: semelhante à anterior, com os novos fitados como padrinhos. FRA.
A imposição das nabiças e sementes (insígnias desconhecidas em Coimbra, datando dos anos 60 no Porto, por vezes chamadas "falsas insígnias") era feita depois, à margem da cerimónia.
Entre estas imposições havia também actuações de grupos musicais da
faculdade (Grupo de Folclore, Grupo de Fados, Tuna Feminina, Tuna
masculina). Devia haver também, mas no meu tempo era raro, "serrotes": paródias feitas pelos cartolados de um curso aos professores desse curso (tipicamente insistindo mais nos professores que não davam aulas ao último ano, por motivos óbvios).
Numa faculdade com 9 a 14 licenciaturas e 2000 a 3000 alunos, estamos a falar de uma cerimónia para várias horas, a que muito pouca gente assistiria de início ao fim.
Havia também fotografias de grupo, naturalmente. Há várias gerações de fotografias dos cartolados, ou novos fitados, ou novos grelados, do curso ..., junto à Fonte dos Leões.
Pode ver algumas dos anos 60 no
Álbum de Memórias da UP:http://sigarra.up.pt/up/web_base.gera_pagina?p_pagina=1001831.
Devo dizer algo sobre a queima do grelo, ou queima das fitas. Por vezes, mas nem sempre, a organização da cerimónia (Dep. Tradições Académicas da AE) lembrava-se de colocar um penico com fogo junto ao estrado, umas vezes para os novos fitados queimarem o seu grelo (muito simbolicamente - passavam apenas o grelo por cima das chamas a caminho da mesa), outras para os finalistas queimarem as suas fitas (simbolicamente, claro).
A confusão fitas/grelo e o facto de nem sempre o penico sequer estar lá mostra a importância com que este pormenor era encarado. Confesso que devo ter alguma "culpa" no desaparecimento definitivo (?) do penico por meados da década.
Repito que noutras faculdades a Imposição das Insígnias teria pormenores diferentes. Lembro-me de ouvir dizer que em Economia os novos fitados não levavam as suas pastas até aos padrinhos; em vez disso, dirigiam-se aos padrinhos que lhas entregavam, com as fitas soltas (os grelos antigos nem deviam aparecer). O facto de as Imposições das várias faculdades decorrerem em paralelo facilitaria o aparecimento de tradições divergentes.
Não tenho também dúvidas de que, mesmo na Faculdade de Ciências, os pormenores seriam diferentes antes dos anos 70 (a começar pelo facto de se fazer a Imposição de Insígnias noutras salas que não o Salão Nobre).
Quanto à história desta tradição:
A Imposição de Insígnias é o resultado de uma evolução da Entrega da Pasta da Escola Médico-Cirúrgica (depois Festa da Pasta nas várias faculdades da UP e Institutos extra-UP). Não tenho qualquer dúvida sobre isso.
O que eu não sei ao certo é quando a cartola e bengala começou a ser imposta ou quando se começou a fazer imposição das fitas e grelo a cada novo fitado ou grelado, em vez de mera passagem simbólica de uma pasta com fitas a um novo fitado e de uma pasta com grelo a um novo grelado (que era o que acontecia nos anos 30).
As pistas cronológicas que posso dar de momento são as seguintes:
- Em 1948 já havia cartolas, pelo menos em Medicina (mas haveria imposição ou entrega?); nesse ano em Engenharia houve entrega simbólica de uma pasta (com fitas) a um novo fitado e em Farmácia houve distribuição das pastas (uma pessoa a distribuir todas as pastas):
http://repositorio-tematico.up.pt/handle/10405/23441
Não vejo aí a ideia de imposição padrinho-afilhado; nem sequer a palavra "imposição".
- Passados 5 anos, em 1953, houve "entrega dos grelos, fitas e cartolas"
na FCUP, e já se usava a expressão "imposição das insígnias":
http://repositorio-tematico.up.pt/handle/10405/24250
Perguntou-me pela origem do costume das bengaladas na cartola.
Sinceramente, não sei quando começou. Não me admiraria se fosse dos anos 80.
Devo acrescentar que, além do padrinho, e depois de a cartola e bengala ter sido imposta, o cartolado vai recebendo bengaladas como cumprimento ao longo da Queima das Fitas (o que é bastante, se se lembrar de que a Imposição das Insígnias é logo no primeiro dia); no cortejo, passados dois dias, muitas cartolas estão já semi-desfeitas.
Perguntou-me também se antes de ser ter adoptado na UP a cartola e a bengala, os finalistas colocavam na cabeça outro tipo de chapéu que ainda não seria a cartola.
Eu diria que não. Há uma fotografia dos finalistas de Medicina de 1939, à futrica, com os chapéus (normalíssimos da época) todos ao contrário. Mas acho forçado ver aí um antecedente da cartola. E quanto a imposição, não me parece...
Três notas finais:
1 - Frequentemente, entre os praxistas, há discussões (verdadeiramente académicas) sobre se a cartola e bengala são insígnias... São impostas na Imposição de Insígnias; mas não são insígnias como as fitas e grelo...
2 - As semelhanças com as cerimónias de "graduation" (assisti a duas em Inglaterra) são inequívocas, particularmente pensando na participação das famílias. A principal diferença é o facto de funcionar por antecipação - o cartolado ainda não acabou o curso.
3 - Não sei quantos estudantes do Porto terão consciência de que na Queima das Fitas de Coimbra não existe Imposição de Insígnias...
Um abraço,
João Caramalho Domingues
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Fado de Despedida cantado por Carlos Leal

Apresento aqui um exemplo de um fado gravado por Carlos Leal (sobre este estudante do Liceu Rodrigues de Freitas e da Faculdade de Medicina do Porto dos anos 1920, cantor de fados de Coimbra, serenateiro e vocalista da Tuna Académica do Porto, ver os textos Registos fonográficos de Carlos Leal e Amândio Marques, "Tempos da fadistação..." e Carlos Leal, «O Rouxinol do Ave», neste blogue).
Esta não é a composição mais interessante das que foram gravadas por Carlos Leal, nem a que foi mais popular. Mas é um dos lados do único disco que possuo de Carlos Leal (tenho gravações em cassete de outros discos, que me foram cedidas há uns 15 anos, mas sem autorização para as tornar públicas).
Como se nota facilmente, faltam nesta gravação os últimos segundos. Além disso, como é natural numa gravação de um disco de 78rpm, sem tratamento posterior, há bastante ruído. Mas, ainda assim, é uma voz que nos chega dos anos 1920...
Sobre este fado, uma versão do Fado do Mar de D. José Pais de Almeida e Silva, ver o texto Registos fonográficos de Carlos Leal e Amândio Marques, de José Anjos de Carvalho e António Manuel Nunes.
A letra do original pode ser consultada no texto dos mesmos autores Relação do espólio fonográfico do cantor Almeida d'Eça.
Quanto à letra cantada por Carlos Leal, confesso que ouço as seguintes quadras, ligeiramente diferentes das entendidas pelo Coronel Anjos de Carvalho e António Nunes.
Uma despedida, no dia
em que se vai de verdade,
é choro duma alegria
que se transforma em saudade.
Que tristeza e tormento
sinto no meu coração!
Mocidade, és qual vento,
fugindo sem ter razão.
Agradecimentos: José Moças (Tradisom) e José Navia (Audiorestauración).
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Registos fonográficos de Carlos Leal e Amândio Marques
Por José Anjos de Carvalho e António Manuel Nunes
[versão ligeiramente revista de um texto publicado originalmente em Junho de 2006 no blogue Guitarra de Coimbra I, de Octávio Sérgio]
Uma Justificação
Uma interrogação sobre o “desconhecido” Carlos Leal, presente na memória descritiva da solfa de “Fado Alentejano” gravado pelo estudante da Fac. de Medicina da Universidade de Coimbra Armando Goes no ocaso da década de 1920, motivou um comentário esclarecedor do Dr. João Caramalho Domingues no Blogue Guitarra de Coimbra I de 20.12.2005, seguido de novas colaborações em 26.12.2005 [1, 2, 3] e 08.01.2006 [1, 2].
De Carlos Leal se navegou para o guitarrista Amândio Marques (1903-1987), cujo nome já havia sido aflorado por Armando Luís de Carvalho Homem em texto de 1999.
Os pedidos de ajuda estenderam-se à Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra no Porto (Dr. António Moniz Palme), à Casa da Beira Alta no Porto (Dra. Maria Fernanda Braga da Cruz), bem como aos arquivos da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Advogados.
Por sugestão da Dra. Maria Fernanda Braga da Cruz (inexcedível na abertura dos arquivos da Casa da Beira Alta) aguardámos entre Janeiro e Junho de 2006 uma hipótese de contacto com o filho do falecido guitarrista Amândio Marques, que acabaria por se revelar frustrada.
Gorada a primeira tentativa de contactos, optámos pela edição de uma primeira versão deste estudo no Blogue Guitarra de Coimbra I, postado em 28.6.2006, tecido e urdido apenas com os dados a que foi possível aceder.
O acesso ao grosso da obra fonográfica de Carlos Leal fica a dever-se à generosidade do Dr. João Caramalho Domingues, estudioso e coleccionador que em meados da década de 1990 obteve antigos documentos sonoros relativos ao Porto académico graças a contactos havidos com Paul Vernon. Tais contactos nasceram da necessidade de introduzir correcções nos textos que Paul Vernon autografou para as reedições Heritage/Tradisom. Infelizmente, nos traslados sonoros vindos de Londres em cassete, não houve oportunidade de anotar as autorias impressas nas etiquetas dos discos de 78 rpm gravados na década de 1920 e sem este elemento não nos é possível progredir com segurança numa matéria tão fugaz, considerada mais do domínio do património industrial e menos da arquivística sonora.
I – Notas Biográficas
Carlos Alberto Leal, filho de Alberto Hermano Fernandes Leal e de Laura do Patrocínio e Silva nasceu em Vila do Conde a 22 de Agosto de 1905. Fez os seus estudos secundários no Liceu Rodrigues de Freitas, da cidade do Porto. Matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, então instalada no Hospital de Santo António (propriedade da Santa Casa da Misericórdia) no ano lectivo de 1924-1925. Terminou o curso de Medicina em 4 de Novembro de 1933, conforme certidão apresentada à Ordem dos Médicos. Exerceu Medicina, com consultório na Rua Mouzinho da Silveira, n.º 72 – 2.º -Porto, tendo prestado colaboração à Faculdade de Medicina da UP, instituição onde trabalhou ao lado de um antigo colega de liceu, de curso e de serenatas, Luís Canto Moniz. Faleceu em 11 de Abril de 1960.
Filho de um cantor e músico, Carlos Leal foi solista de relevo em serenatas académicas do Liceu e da Universidade do Porto, com assídua colaboração nos organismos estudantis do seu tempo (Orfeão e Tuna), récitas e eventos musicais.
Era um tenor operático que conhecia e dominava o “estilo de Coimbra” mais em voga na década de 1920. Apresenta uma fonética cuidada que procura ir de encontro à “pronúncia de Coimbra” e, como cantor, supera sem favor os desempenhos de José Dias e António Batoque. Excluindo “Canção das Rendilheiras de Vila do Conde”, uma canção com refrão mais próximo dos reportórios de tuna, teatro e salão burguês, a obra gravada por Carlos Leal radica esmagadoramente em espécimes estróficos, ao tempo os mais trauteáveis e apreciados pelo grande público e os mais fáceis de improvisar numa serenata nocturna de cortejamento (não estavam associados a arranjos instrumentais individualizadores nem exigiam esforço técnico-criativo ao instrumentista).
As quadras cantadas, à semelhança do que se praticava em Coimbra e nos bailes populares provinciais de arraial e amanho do milho, são por vezes de fraca densidade semântico-literária. Algumas eram cantadas em diferentes melodias como a tétrica “A noite é negra” e “Passam-se noites inteiras” e as coplas vulgarizadas em “O Meu Fado” de Armando Goes (“Nunca chores junto à nora”), que dizem da morbidez soturna marcada pelos referentes estéticos em que reviam ultra-românticos e decadentistas.
Amândio Ferreira Marques nasceu em Mangualde no dia 3 de Julho de 1903. Fez os estudos secundários no Liceu Rodrigues de Freitas, da cidade do Porto, tendo sido colega, amigo e companheiro de serenatas de Carlos Leal, José Pais da Silva, bem como do jovem transmontano Jorge Alcino de Morais “Xabregas” que depois estudou Ciências e Matemática em Coimbra e se dedicou ao toque da guitarra.
Na segunda metade da década de vinte Amândio Marques frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, com formatura concluída em 21 de Julho de 1930, precisamente no mesmo ano do guitarrista Afonso de Sousa e do barítono Armando Goes. Inscreveu-se na Ordem dos Advogados em 24 de Julho de 1931. Tudo indica que realizou o estágio profissional no Porto, cidade onde teve banca de advogado até falecer em 1987. Distinguiu-se como sócio fundador e animador cultural da Casa da Beira Alta no Porto, instituição que guarda a sua ficha de sócio, um retrato e um busto em bronze.
Nos tempos do liceu e também enquanto estudante de Coimbra, Amândio Marques afirmou-se com executante de guitarra. Todavia o seu nome não consta dos anais da “Década de Oiro” da Canção de Coimbra. Em 1927 promoveu um encontro entre cultores de Canção de Coimbra activos no Porto e em Coimbra. Num “in memoriam” a Carlos Leal, publicado nos inícios da década de 1960 (Carlos Leal. O Rouxinol do Ave. Porto: Porto Académico, 1962, 44-46), Amândio Marques informa que esteve ligado a um grupo activo no Liceu Rodrigues de Freitas onde apareciam habitualmente Carlos Leal, Luís Canto Moniz, Josué da Silva e o próprio Amândio Marques. Em fase posterior, a formação viu-se enriquecida com os préstimos de candidatos a tocadores, poetas e cantores como Francisco Fernandes (g), Alberto de Serpa, Pereira Leite (g), Carlos Alberto de Carvalho, Alberto do Carmo Machado, o Sargento Cadete, António Abrantes e Jorge Alcino de Morais. Este ciclo artístico liceal deve ter ocorrido entre ca. 1922-1925.
Dos guitarristas mais conhecidos no Liceu do Porto na primeira metade da década de 1920, Amândio Marques cita expressamente Aires Pinto Ribeiro, Ernesto Brandão, Cícero de Azevedo, Manuel Pereira Leite e Amândio Marques. Como cantores brilhavam e disputavam as palmas Carlos Leal e José Taveira, seguindo-se-lhes Mário Delgado Viemonte, Cabral Borges e Carlos Alberto de Carvalho.
Amândio Marques é na actualidade um guitarrista totalmente esquecido, não obstante ter gravado discos com o cantor Carlos Leal, e ainda matrizes fonográficas de guitarradas de sua própria autoria. Não se sabe se desempenhou alguma influência artística nos meios académicos portuenses após 1930, nem há respostas para o “apagamento” da sua vida e obra em Coimbra. Tudo indica que nos anos de Coimbra Amândio Marques continuou a manter o seu “Trio de Guitarras e Viola”, fruto de deslocações periódicas à cidade do Porto.
Outro guitarrista com passagem liceal pelo Porto, chegado a Coimbra em 1925, foi Jorge Alcino de Morais “Xabregas”. Xabregas manteve os contactos com os antigos colegas de Liceu e em 1929 efectuou gravações com alguns dos instrumentistas referidos no artigo dado à estampa por Amândio Marques em 1962. As matrizes fonográficas da sessão Xabregas nunca chegaram a ser comercializadas e em declarações de 15.4.1989 este guitarrista não conseguiu especificar os nomes dos tocadores seus “amigos da Universidade do Porto” que lhe prestaram colaboração em estúdio.
Em termos de guitarra de acompanhamento, Amândio Marques revela-se um executante superior a Xabregas, claramente posicionado acima da mediocridade reinante na década de 1920. O acompanhamento de “Canção das Rendilheiras”, com as guitarras em segunda voz muito cantada, supera com manifesto sucesso o tradicional toque por acordes de tónica e dominante. O Trio de Guitarras e Viola presente nos diversos discos de Carlos Leal revela assimilações da técnica de Artur Paredes em termos de trabalho de harmonização. Ao tempo, a formação duas guitarras mais um violão de cordas de aço não era uma prática vulgar. Inferiores aos desempenhos do trio liderado por Amândio Marques nos discos de Carlos Leal, são os desempenhos rudimentaríssimos audíveis nos discos de José Paradela de Oliveira, José Dias, António Batoque, António Menano e Elísio de Matos. Estamos a falar de nomes habitualmente exaltados como Flávio Rodrigues (voz António Menano), Francisco da Silveira Morais (voz Paradela de Oliveira) ou mesmo Paulo de Sá (vozes José Dias e Elísio de Matos).
José Pais da Silva foi aluno da Universidade do Porto, executante de violão de cordas de aço e membro da Tuna Académica do Porto. Parece ser autor de alguns dos temas gravados em disco por Carlos Leal, embora não possamos especificar quais com inteira segurança.
Sobre Francisco Fernandes, executante de segunda guitarra nas gravações de Carlos Leal, não existem informações disponíveis. Pelo “in memoriam” que Amândio Marques dedicou a Carlos Leal, sabe-se que à entrada da década de 1960 Francisco Fernandes exercia Medicina em Moçambique.
O presente levantamento contém avultadas omissões e lacunas. Não foi possível aceder a qualquer dos discos onde Amândio Marques toca a solo as suas guitarradas, pelo que nos limitamos a um arrolamento sumário. No que a Carlos Leal respeita, também nos faltou o acesso às matrizes fonográficas. As cópias facultadas pelo Dr. João Caramalho Domingues permitem-nos confrontar as melodias com outras conhecidas e transcrever, com alguma fiabilidade, as letras cantadas. Sem os discos não é possível visualizar as etiquetas e através delas colher os dados relativos às identificações autorais.
II – Gravações de Amândio Marques
Nos finais da década de 1920, entre 1927 e 1929, Amândio Marques gravou na editora Parlophone quatro faixas sonoras. Contou com a colaboração de Francisco Fernandes (2ª guitarra) e de José Pais da Silva (violão de cordas de aço).
Não conhecemos estas guitarradas, nem tampouco lográmos aceder aos discos.
Disco de 78 rpm Parlophone, B 33.016
98000 - Fado em Ré Menor
98001 - Variações em Lá Maior
Disco de 78 rpm Parlophone, B 33.017
98005 - Fado em Dó Sustenido Menor
98009 - Capricho
De outros colegas de Carlos Leal/Amândio Marques activos no Porto académico na década de 1920, importa escalpelizar:
III – DISCOGRAFIA DE CARLOS LEAL
A vida é negra, tão negra
Disco Parlophone, B 33.300
98028 – FADO ALENTEJANO (Fechei a porta à desgraça)
98029 – FADO DA DESCRENÇA (Eu não creio por não crer)
Disco Parlophone, B 33.301
98030 – UM FADO (Passam-se noites inteiras)
98032 – FADO DA NOSTALGIA (A vida é negra, tão negra)
Disco Parlophone, B 33.302
980…– FADO VISÃO (…?...)
980… – UMA CANÇÃO (…?...)
Disco Parlophone, B 33.303
98020 – MINHA MÃE (Minha mãe é pobrezinha)
98021 – FADO DE DESPEDIDA (A despedida no dia)
Disco Parlophone, B 33.308
98022 – MELANCOLIA (A saudade faz lembrar)
98023 – CANÇÃO DAS RENDILHEIRAS DE VILA DO CONDE (Rendilheiras que teceis)
IV – LETRAS GRAVADAS POR CARLOS LEAL
FADO ALENTEJANO
Incipit: Fechei a porta à desgraça
Música: Armando do Carmo Goes (1906-1967)
Letra: 1.ª quadra popular (séc. XIX); 2.ª quadra de João da Silva Tavares (1893-1964)
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1920
I
Fechei a porta à desgraça,
Entrou-me pela janela;
Quem nasceu para a desgraça
(Ai2) Não pode fugir a ela!
II
Tanto a desgraça me alcança,
Que já me sinto cansado
Da vida que não se cansa
(Ai2) De me fazer desgraçado.
Informação complementar:
Composição musical estrófica. Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 3.º verso, canta-se o 2.º dístico e repete-se o 2.º dístico.
Espécime gravado por Carlos Leal entre 1928-1929, acompanhado pelo Trio de Guitarras e Viola, constituído por Amândio Marques/Francisco Fernandes (gg) e Pais da Silva (v) no 78 rpm Parlophone B, B 33.300. A autoria da música é de Armando Goes, que a gravou em Outubro de 1928, acompanhado à guitarra por Albano de Noronha e Afonso de Sousa (Disco His Master’s Voice, E.Q. 192).
A 1.ª quadra é popular e encontra-se em variadíssimos cancioneiros, tais como “Mil Trovas Populares Portuguesas” e em António Tomás Pires, Leite de Vasconcelos e outros. A 2.ª quadra é do poeta João Silva Tavares, e encontra-se no livro “Quem Canta”, editado em 1923.
Este disco de Carlos Leal encontrava-se ainda em catálogo e à venda em 1946.
Tema gravado por António Bernardino em 1966, acompanhado à guitarra por António Portugal e Manuel Borralho e, à viola, por Rui Pato (EP Fados de Coimbra, Alvorada AEP 60817); está disponível em long play (LP Coimbra, Alvorada ALV-04-19 e LP Aquila, AQU 02-49) e em compact disc (CD N.º 45/O Melhor dos Melhores, Movieplay, MM 37.045 e CD Nº 30/Clássicos da Renascença, Movieplay, MOV. 31.030).
Gravado também por Victor Silva, em 1986, do Grupo Académico Serenata, do Porto: LP “Fados de Coimbra”, Orfeu, LPP 44.
Com um outro título e uma outra letra, foi gravado por Raul Dinis, acompanhado à guitarra por Jorge Gomes e António Ralha e, à viola, por Manuel Dourado, intitulado Um Fado (Ó vida, que mais queres), letra da autoria do cantor (CD “Coimbra de Sempre”, Discossete, DDD CD 971000, de 1993).
FADO DA DESCRENÇA
Incipit: Eu não creio por não crer
Música: autor não identificado
Letra: autor não identificado
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1920
I
Eu não creio por não crer,
Queria crer mas não consigo
E assim eu passo a descrer,
É para crer só contigo.
II
Podem descrente chamar
A quem pensa como eu…
Há estrelas a brilhar
Que não se vêem do céu.
Informação complementar:
Composição musical estrófica. Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 2.º e repete-se.
Gravado por volta de 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.0300, master 98029). Este disco de Carlos Leal encontrava-se ainda em catálogo e à venda em 1946. Desconhecemos se mais alguém teria gravado este fado.
UM FADO
Incipit: Passam-se noites inteiras
Música: autor não identificado
Letra: autor não identificado
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1920
I
Passam-se noites inteiras
Que me não posso deitar
E a lua já tem olheiras
De tanto me alumiar.
II
Já o luar, de mansinho,
No vento reza de dor,
Anda a pintar de branquinho
Na casa do meu amor.
Informação complementar:
Composição musical estrófica. Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 2.º e repete-se.
Gravado por volta de 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.0301, master 98030). Este disco de Carlos Leal encontrava-se ainda em catálogo e à venda em 1946.
Uma variante (Eu passo noites inteiras) da 1.ª quadra é cantada por Fernando Gomes Alves (EP Ofir, AM 4.068, 1966) no chamado Fado Antigo (Eu passo noites inteiras), cuja música é a do conhecido Fado Espanhol (Gosto de cantar o fado) gravado por António Menano. No 2.º verso da 2.ª quadra admitimos que a letra cantada por Carlos Leal não seja exactamente o que nos pareceu continuar a ouvir após múltiplas re-audições de estudo. Admitimos que este UM FADO possa ser o espécime que João Falcato diz ter ouvido Manuel Julião entoar na Sé Velha na Primavera/Verão de 1943 (Coimbra dos Doutores. Coimbra: Coimbra Editora, 1957, pág. 166).
Desconhecemos se mais alguém gravou este espécime.
FADO DA NOSTALGIA
Incipit: A vida é negra, tão negra
Música: autor não identificado
Letra: 1.ª quadra popular; 2.ª quadra de autor não identificado
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1930
I
A vida é negra, tão negra,
Como a noite nos pinhais
Mas é nas noites mais negras
(Ai2) Que as estrelas brilham mais.
II
Nesta vida de amargura,
Há tanta contradição…
Fumo negro sobe ao ar
(Ai2) Água pura cai no chão.
Informação complementar:
Composição musical estrófica. Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 2.º e repete-se.
Gravado por volta de 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.0301, master 98032). Este disco de Carlos Leal encontrava-se ainda em catálogo e à venda em 1946.
A 1.ª quadra (A vida é negra, tão negra) veio a ser incorporada em 1930 no Fado da Noite (A vida é negra, tão negra), música de Jorge de Morais (Xabregas), primeiramente gravado por Machado Soares em 1956 (EP Alvorada, MEP 60111).
Desconhecemos se mais alguém gravou este espécime.
FADO VISÃO
Música: autor não identificado
Letra: dados desconhecidos
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Informação complementar:
Apenas conhecemos a existência do respectivo disco, o disco Parlophone, B 33.302, que ainda se encontrava em catálogo e à venda em 1946.
UMA CANÇÃO
Música: autor não identificado
Letra: desconhecemos a letra e respectiva autoria
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Informação complementar:
Apenas conhecemos a existência do respectivo disco, o disco Parlophone, B 33.302, que ainda se encontrava em catálogo e à venda em 1946.
MINHA MÃE
Incipit: Minha mãe é pobrezinha
Música: indicada como “popular”
Letra: 1.ª quadra popular; 2.ª quadra de autor não identificado
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1920
I
Minha mãe é pobrezinha,
Não tem nada que me dar.
Dá-me beijos, coitadinha,
(Ai2) E depois põe-se a chorar!
II
Quem me dera minha mãe,
A santa que eu vi sofrer,
Dizem as santas no céu
(Ai2) Que morreu pra eu viver.
Informação complementar:
Composição musical estrófica. Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 2.º e repete-se.
Gravado por volta de 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.0303, master 98020). Este disco de Carlos Leal encontrava-se ainda em catálogo e à venda em 1946.
A 1.ª quadra ocorre também noutras melodias:
-Fado Triste (Minha mãe é pobrezinha), [na verdade Fado da Minha Mãe] gravado por António Menano, primeiro em Lisboa e depois em Berlim (discos Odeon, 136.822 e A 136.822 e LA 187.804), cuja música é de Alexandre Rezende;
-Fado Mondego (Minha mãe é pobrezinha), [na verdade Fado Espanhol] gravado pelo mezzo soprano D. Luísa Baharem, em finais de 1926 (disco Columbia, 1032-X, edição americana);
-D’Um Olhar (As meninas dos meus olhos), música de Alexandre de Rezende dedicada a António Menano, de que foi feita edição musical em 1915, mais conhecido por «As Meninas dos Meus Olhos», gravado por António Menano (discos Odeon, 136.821 e A 136.821). A referida quadra consta da edição musical impressa, mas não nas matrizes gravadas por António Menano.
Desconhecemos se mais alguém gravou este fado.
[FADO DE DESPEDIDA]
Título original: FADO DO MAR
Incipit: A despedida, no dia
Música: D. José Pais de Almeida e Silva (1899-1968)
Letra: autor não identificado
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1920
I
A despedida, no dia
Em que se faz de verdade,
É choro duma alegria
Que se transforma em saudade.
II
Que tristeza, que tormento
Sinto no meu coração!
Mocidade és qual o vento
Fugindo sem ter razão.
Informação complementar:
Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 2.º e repete-se.
Composição musical estrófica gravada por volta de 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.303, master 98021). Este disco de Carlos Leal encontrava-se ainda em catálogo e à venda em 1946.
A melodia é rigorosamente a mesma de FADO DO MAR (As ilusões que me perseguem), gravado em 1929 por Artur Almeida d’Eça, acompanhado por Albano de Noronha/Afonso de Sousa (gg) no disco de 78 rpm Polydor , P 42.127.
MELANCOLIA
Incipit: A saudade faz lembrar
Música: autor não identificado
Letra: 1.ª quadra de Domingos Garcia Pulido; 2.ª quadra de José Marques da Cruz
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1920
I
A saudade faz lembrar
A melopeia da nora,
Se a uns parece cantar,
Parece a outros que chora.
II
Nunca chores junto à nora
Que a corrente faz girar,
Quem chora ao pé de quem chora
Fica-se sempre a chorar.
Informação complementar:
Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 2.º e repete-se.
Composição musical estrófica gravada por volta de 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.0308, master 98022).
Ambas as quadras se cantam também, mas por ordem inversa, com o chamado Fado da Nora (Nunca chores junto à nora), de Armando Goes, cuja música é diferente.
Desconhecemos se mais alguém teria gravado este fado.
CANÇÃO DAS RENDILHEIRAS DE VILA DO CONDE
Incipit: Rendilheiras que teceis
Música: Carlos Alberto Leal
Letra: Artur Cunha Araújo
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: 1928
Rendilheiras que teceis
As finas rendas à mão,
Eu dou-vos, se vós quereis,
Pra almofada o coração.
Refrão
Ó vem à janela
Como a noite é bela,
Vem ver o luar;
Linda rendilheira
Deixa a travesseira,
Vem-me ouvir cantar.
Quem me dera, rendilheira,
Ser essa tua almofada
E passar a vida inteira
Em teu regaço, deitada.
Refrão
Ó vem à janela…etc.
Informação complementar:
Canção musical com refrão gravada entre 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.308, de 78 rpm).
Esta canção foi popularíssima em todo o Portugal, tendo conhecido assinalada difusão nos anos dourados da Emissora Nacional. Também foi popular em Coimbra na década de 1930, cidade onde era cantada por estudantes e populares.
Na década de 1960 foi gravada pelo tenor radiofónico Américo Silva, acompanhado à guitarra por Armandino Maia e António Parreira e, à viola, por J. M. de Carvalho e José Vilela (EP “Américo Silva canta Fados de Coimbra”, Estúdio, EEP 50.228, com a errada indicação de ser música de Ângelo Vieira Araújo).
Também foi gravada por João Queiroz sob o título Canção das Rendilheiras (EP “The Old Coimbra Fado III”, RCA Victor, TP-313 (ca. 1967), cantor que após fugaz passagem pelo grupo dos irmãos Plácidos se radicou em Lisboa; LP “Fados de Coimbra por João Queiroz”, RCA Camden, CL-40220, editado em 1981 e LP “Estrelas de Portugal”, RCA Victor LPV-7649, editado na Venezuela).
Nestes três discos figuram como autores os nomes de Manuel Tino e Hugo Rocha, supondo-se atribuição de letra de Manuel Tino e de música de Hugo Rocha. Num outro disco de João Queiroz figuram os nomes de Manuel Pino e Ugo Rocha (sic): LP “João Queiroz – Samaritana”, Interfase, IF 144, editado em 1987.
As autorias fornecidas por João Queiroz não se nos asseveram fiáveis. Tanto poderão ter sido indicadas pelo cantor Loubet Bravo (que estaria familiarizado com o tema desde a sua juventude portuense), como por frequentadores das casas de fados de Lisboa onde o cantor se movimentava.
“Canção das Rendilheiras” é considerada uma espécie de hino de Vila do Conde. Foi adoptada como hino oficial do Rancho da Praça (http://www.rancho-da-praca.com/paginas/FotoRendilheira.html), agrupamento que efectuou sucessivas gravações do tema em 1960 (EP “É isto Vila do Conde”, Alvorada), 1964, 1966, 1976, 1977, 1992, em vinil, cassetes e cd (http://www.rancho-da-praca.com/paginas/musicas1_mp3.html).
Pesquisa e texto: José Anjos de Carvalho e António M. Nunes
Agradecimentos: Dr. João Caramalho Domingues e José Moças (Tradisom), Dra. Isabel Cambezes (Ordem dos Advogados), Ordem dos Médicos (Arquivo Central), Casa da Beira Alta no Porto, Rosa Soares (Ordem dos Médicos)
[versão ligeiramente revista de um texto publicado originalmente em Junho de 2006 no blogue Guitarra de Coimbra I, de Octávio Sérgio]
Uma Justificação
Uma interrogação sobre o “desconhecido” Carlos Leal, presente na memória descritiva da solfa de “Fado Alentejano” gravado pelo estudante da Fac. de Medicina da Universidade de Coimbra Armando Goes no ocaso da década de 1920, motivou um comentário esclarecedor do Dr. João Caramalho Domingues no Blogue Guitarra de Coimbra I de 20.12.2005, seguido de novas colaborações em 26.12.2005 [1, 2, 3] e 08.01.2006 [1, 2].
De Carlos Leal se navegou para o guitarrista Amândio Marques (1903-1987), cujo nome já havia sido aflorado por Armando Luís de Carvalho Homem em texto de 1999.
Os pedidos de ajuda estenderam-se à Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra no Porto (Dr. António Moniz Palme), à Casa da Beira Alta no Porto (Dra. Maria Fernanda Braga da Cruz), bem como aos arquivos da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Advogados.
Por sugestão da Dra. Maria Fernanda Braga da Cruz (inexcedível na abertura dos arquivos da Casa da Beira Alta) aguardámos entre Janeiro e Junho de 2006 uma hipótese de contacto com o filho do falecido guitarrista Amândio Marques, que acabaria por se revelar frustrada.
Gorada a primeira tentativa de contactos, optámos pela edição de uma primeira versão deste estudo no Blogue Guitarra de Coimbra I, postado em 28.6.2006, tecido e urdido apenas com os dados a que foi possível aceder.
O acesso ao grosso da obra fonográfica de Carlos Leal fica a dever-se à generosidade do Dr. João Caramalho Domingues, estudioso e coleccionador que em meados da década de 1990 obteve antigos documentos sonoros relativos ao Porto académico graças a contactos havidos com Paul Vernon. Tais contactos nasceram da necessidade de introduzir correcções nos textos que Paul Vernon autografou para as reedições Heritage/Tradisom. Infelizmente, nos traslados sonoros vindos de Londres em cassete, não houve oportunidade de anotar as autorias impressas nas etiquetas dos discos de 78 rpm gravados na década de 1920 e sem este elemento não nos é possível progredir com segurança numa matéria tão fugaz, considerada mais do domínio do património industrial e menos da arquivística sonora.
I – Notas Biográficas
Carlos Alberto Leal, filho de Alberto Hermano Fernandes Leal e de Laura do Patrocínio e Silva nasceu em Vila do Conde a 22 de Agosto de 1905. Fez os seus estudos secundários no Liceu Rodrigues de Freitas, da cidade do Porto. Matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, então instalada no Hospital de Santo António (propriedade da Santa Casa da Misericórdia) no ano lectivo de 1924-1925. Terminou o curso de Medicina em 4 de Novembro de 1933, conforme certidão apresentada à Ordem dos Médicos. Exerceu Medicina, com consultório na Rua Mouzinho da Silveira, n.º 72 – 2.º -Porto, tendo prestado colaboração à Faculdade de Medicina da UP, instituição onde trabalhou ao lado de um antigo colega de liceu, de curso e de serenatas, Luís Canto Moniz. Faleceu em 11 de Abril de 1960.
Filho de um cantor e músico, Carlos Leal foi solista de relevo em serenatas académicas do Liceu e da Universidade do Porto, com assídua colaboração nos organismos estudantis do seu tempo (Orfeão e Tuna), récitas e eventos musicais.
Era um tenor operático que conhecia e dominava o “estilo de Coimbra” mais em voga na década de 1920. Apresenta uma fonética cuidada que procura ir de encontro à “pronúncia de Coimbra” e, como cantor, supera sem favor os desempenhos de José Dias e António Batoque. Excluindo “Canção das Rendilheiras de Vila do Conde”, uma canção com refrão mais próximo dos reportórios de tuna, teatro e salão burguês, a obra gravada por Carlos Leal radica esmagadoramente em espécimes estróficos, ao tempo os mais trauteáveis e apreciados pelo grande público e os mais fáceis de improvisar numa serenata nocturna de cortejamento (não estavam associados a arranjos instrumentais individualizadores nem exigiam esforço técnico-criativo ao instrumentista).
As quadras cantadas, à semelhança do que se praticava em Coimbra e nos bailes populares provinciais de arraial e amanho do milho, são por vezes de fraca densidade semântico-literária. Algumas eram cantadas em diferentes melodias como a tétrica “A noite é negra” e “Passam-se noites inteiras” e as coplas vulgarizadas em “O Meu Fado” de Armando Goes (“Nunca chores junto à nora”), que dizem da morbidez soturna marcada pelos referentes estéticos em que reviam ultra-românticos e decadentistas.
Amândio Ferreira Marques nasceu em Mangualde no dia 3 de Julho de 1903. Fez os estudos secundários no Liceu Rodrigues de Freitas, da cidade do Porto, tendo sido colega, amigo e companheiro de serenatas de Carlos Leal, José Pais da Silva, bem como do jovem transmontano Jorge Alcino de Morais “Xabregas” que depois estudou Ciências e Matemática em Coimbra e se dedicou ao toque da guitarra.
Na segunda metade da década de vinte Amândio Marques frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, com formatura concluída em 21 de Julho de 1930, precisamente no mesmo ano do guitarrista Afonso de Sousa e do barítono Armando Goes. Inscreveu-se na Ordem dos Advogados em 24 de Julho de 1931. Tudo indica que realizou o estágio profissional no Porto, cidade onde teve banca de advogado até falecer em 1987. Distinguiu-se como sócio fundador e animador cultural da Casa da Beira Alta no Porto, instituição que guarda a sua ficha de sócio, um retrato e um busto em bronze.
Nos tempos do liceu e também enquanto estudante de Coimbra, Amândio Marques afirmou-se com executante de guitarra. Todavia o seu nome não consta dos anais da “Década de Oiro” da Canção de Coimbra. Em 1927 promoveu um encontro entre cultores de Canção de Coimbra activos no Porto e em Coimbra. Num “in memoriam” a Carlos Leal, publicado nos inícios da década de 1960 (Carlos Leal. O Rouxinol do Ave. Porto: Porto Académico, 1962, 44-46), Amândio Marques informa que esteve ligado a um grupo activo no Liceu Rodrigues de Freitas onde apareciam habitualmente Carlos Leal, Luís Canto Moniz, Josué da Silva e o próprio Amândio Marques. Em fase posterior, a formação viu-se enriquecida com os préstimos de candidatos a tocadores, poetas e cantores como Francisco Fernandes (g), Alberto de Serpa, Pereira Leite (g), Carlos Alberto de Carvalho, Alberto do Carmo Machado, o Sargento Cadete, António Abrantes e Jorge Alcino de Morais. Este ciclo artístico liceal deve ter ocorrido entre ca. 1922-1925.
Dos guitarristas mais conhecidos no Liceu do Porto na primeira metade da década de 1920, Amândio Marques cita expressamente Aires Pinto Ribeiro, Ernesto Brandão, Cícero de Azevedo, Manuel Pereira Leite e Amândio Marques. Como cantores brilhavam e disputavam as palmas Carlos Leal e José Taveira, seguindo-se-lhes Mário Delgado Viemonte, Cabral Borges e Carlos Alberto de Carvalho.
Amândio Marques é na actualidade um guitarrista totalmente esquecido, não obstante ter gravado discos com o cantor Carlos Leal, e ainda matrizes fonográficas de guitarradas de sua própria autoria. Não se sabe se desempenhou alguma influência artística nos meios académicos portuenses após 1930, nem há respostas para o “apagamento” da sua vida e obra em Coimbra. Tudo indica que nos anos de Coimbra Amândio Marques continuou a manter o seu “Trio de Guitarras e Viola”, fruto de deslocações periódicas à cidade do Porto.
Outro guitarrista com passagem liceal pelo Porto, chegado a Coimbra em 1925, foi Jorge Alcino de Morais “Xabregas”. Xabregas manteve os contactos com os antigos colegas de Liceu e em 1929 efectuou gravações com alguns dos instrumentistas referidos no artigo dado à estampa por Amândio Marques em 1962. As matrizes fonográficas da sessão Xabregas nunca chegaram a ser comercializadas e em declarações de 15.4.1989 este guitarrista não conseguiu especificar os nomes dos tocadores seus “amigos da Universidade do Porto” que lhe prestaram colaboração em estúdio.
Em termos de guitarra de acompanhamento, Amândio Marques revela-se um executante superior a Xabregas, claramente posicionado acima da mediocridade reinante na década de 1920. O acompanhamento de “Canção das Rendilheiras”, com as guitarras em segunda voz muito cantada, supera com manifesto sucesso o tradicional toque por acordes de tónica e dominante. O Trio de Guitarras e Viola presente nos diversos discos de Carlos Leal revela assimilações da técnica de Artur Paredes em termos de trabalho de harmonização. Ao tempo, a formação duas guitarras mais um violão de cordas de aço não era uma prática vulgar. Inferiores aos desempenhos do trio liderado por Amândio Marques nos discos de Carlos Leal, são os desempenhos rudimentaríssimos audíveis nos discos de José Paradela de Oliveira, José Dias, António Batoque, António Menano e Elísio de Matos. Estamos a falar de nomes habitualmente exaltados como Flávio Rodrigues (voz António Menano), Francisco da Silveira Morais (voz Paradela de Oliveira) ou mesmo Paulo de Sá (vozes José Dias e Elísio de Matos).
José Pais da Silva foi aluno da Universidade do Porto, executante de violão de cordas de aço e membro da Tuna Académica do Porto. Parece ser autor de alguns dos temas gravados em disco por Carlos Leal, embora não possamos especificar quais com inteira segurança.
Sobre Francisco Fernandes, executante de segunda guitarra nas gravações de Carlos Leal, não existem informações disponíveis. Pelo “in memoriam” que Amândio Marques dedicou a Carlos Leal, sabe-se que à entrada da década de 1960 Francisco Fernandes exercia Medicina em Moçambique.
O presente levantamento contém avultadas omissões e lacunas. Não foi possível aceder a qualquer dos discos onde Amândio Marques toca a solo as suas guitarradas, pelo que nos limitamos a um arrolamento sumário. No que a Carlos Leal respeita, também nos faltou o acesso às matrizes fonográficas. As cópias facultadas pelo Dr. João Caramalho Domingues permitem-nos confrontar as melodias com outras conhecidas e transcrever, com alguma fiabilidade, as letras cantadas. Sem os discos não é possível visualizar as etiquetas e através delas colher os dados relativos às identificações autorais.
II – Gravações de Amândio Marques
Nos finais da década de 1920, entre 1927 e 1929, Amândio Marques gravou na editora Parlophone quatro faixas sonoras. Contou com a colaboração de Francisco Fernandes (2ª guitarra) e de José Pais da Silva (violão de cordas de aço).
Não conhecemos estas guitarradas, nem tampouco lográmos aceder aos discos.
Disco de 78 rpm Parlophone, B 33.016
98000 - Fado em Ré Menor
98001 - Variações em Lá Maior
Disco de 78 rpm Parlophone, B 33.017
98005 - Fado em Dó Sustenido Menor
98009 - Capricho
De outros colegas de Carlos Leal/Amândio Marques activos no Porto académico na década de 1920, importa escalpelizar:
- Ernesto BRANDÃO, guitarrista, com pelo menos um disco gravado ca. 1927-1929, acompanhado em violão por José TAVEIRA: (78 pm Parlophone, B 33.006) “Fado em Sol Maior” e “Fado em Ré Menor”;
- José PAIS DA SILVA e José TAVEIRA, com pelo menos dois discos gravados na Parlophone, ca. 1927-1929, contendo solos de dois violões: “Pas de Quatre” e “Padre Nuestro” (Parlophone, B 33.004); “Cantares Populares” e “Amanhecendo” (Parlophone, B 33.005).
III – DISCOGRAFIA DE CARLOS LEAL
A vida é negra, tão negra
Disco Parlophone, B 33.300
98028 – FADO ALENTEJANO (Fechei a porta à desgraça)
98029 – FADO DA DESCRENÇA (Eu não creio por não crer)
Disco Parlophone, B 33.301
98030 – UM FADO (Passam-se noites inteiras)
98032 – FADO DA NOSTALGIA (A vida é negra, tão negra)
Disco Parlophone, B 33.302
980…– FADO VISÃO (…?...)
980… – UMA CANÇÃO (…?...)
Disco Parlophone, B 33.303
98020 – MINHA MÃE (Minha mãe é pobrezinha)
98021 – FADO DE DESPEDIDA (A despedida no dia)
Disco Parlophone, B 33.308
98022 – MELANCOLIA (A saudade faz lembrar)
98023 – CANÇÃO DAS RENDILHEIRAS DE VILA DO CONDE (Rendilheiras que teceis)
IV – LETRAS GRAVADAS POR CARLOS LEAL
FADO ALENTEJANO
Incipit: Fechei a porta à desgraça
Música: Armando do Carmo Goes (1906-1967)
Letra: 1.ª quadra popular (séc. XIX); 2.ª quadra de João da Silva Tavares (1893-1964)
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1920
I
Fechei a porta à desgraça,
Entrou-me pela janela;
Quem nasceu para a desgraça
(Ai2) Não pode fugir a ela!
II
Tanto a desgraça me alcança,
Que já me sinto cansado
Da vida que não se cansa
(Ai2) De me fazer desgraçado.
Informação complementar:
Composição musical estrófica. Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 3.º verso, canta-se o 2.º dístico e repete-se o 2.º dístico.
Espécime gravado por Carlos Leal entre 1928-1929, acompanhado pelo Trio de Guitarras e Viola, constituído por Amândio Marques/Francisco Fernandes (gg) e Pais da Silva (v) no 78 rpm Parlophone B, B 33.300. A autoria da música é de Armando Goes, que a gravou em Outubro de 1928, acompanhado à guitarra por Albano de Noronha e Afonso de Sousa (Disco His Master’s Voice, E.Q. 192).
A 1.ª quadra é popular e encontra-se em variadíssimos cancioneiros, tais como “Mil Trovas Populares Portuguesas” e em António Tomás Pires, Leite de Vasconcelos e outros. A 2.ª quadra é do poeta João Silva Tavares, e encontra-se no livro “Quem Canta”, editado em 1923.
Este disco de Carlos Leal encontrava-se ainda em catálogo e à venda em 1946.
Tema gravado por António Bernardino em 1966, acompanhado à guitarra por António Portugal e Manuel Borralho e, à viola, por Rui Pato (EP Fados de Coimbra, Alvorada AEP 60817); está disponível em long play (LP Coimbra, Alvorada ALV-04-19 e LP Aquila, AQU 02-49) e em compact disc (CD N.º 45/O Melhor dos Melhores, Movieplay, MM 37.045 e CD Nº 30/Clássicos da Renascença, Movieplay, MOV. 31.030).
Gravado também por Victor Silva, em 1986, do Grupo Académico Serenata, do Porto: LP “Fados de Coimbra”, Orfeu, LPP 44.
Com um outro título e uma outra letra, foi gravado por Raul Dinis, acompanhado à guitarra por Jorge Gomes e António Ralha e, à viola, por Manuel Dourado, intitulado Um Fado (Ó vida, que mais queres), letra da autoria do cantor (CD “Coimbra de Sempre”, Discossete, DDD CD 971000, de 1993).
FADO DA DESCRENÇA
Incipit: Eu não creio por não crer
Música: autor não identificado
Letra: autor não identificado
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1920
I
Eu não creio por não crer,
Queria crer mas não consigo
E assim eu passo a descrer,
É para crer só contigo.
II
Podem descrente chamar
A quem pensa como eu…
Há estrelas a brilhar
Que não se vêem do céu.
Informação complementar:
Composição musical estrófica. Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 2.º e repete-se.
Gravado por volta de 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.0300, master 98029). Este disco de Carlos Leal encontrava-se ainda em catálogo e à venda em 1946. Desconhecemos se mais alguém teria gravado este fado.
UM FADO
Incipit: Passam-se noites inteiras
Música: autor não identificado
Letra: autor não identificado
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1920
I
Passam-se noites inteiras
Que me não posso deitar
E a lua já tem olheiras
De tanto me alumiar.
II
Já o luar, de mansinho,
No vento reza de dor,
Anda a pintar de branquinho
Na casa do meu amor.
Informação complementar:
Composição musical estrófica. Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 2.º e repete-se.
Gravado por volta de 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.0301, master 98030). Este disco de Carlos Leal encontrava-se ainda em catálogo e à venda em 1946.
Uma variante (Eu passo noites inteiras) da 1.ª quadra é cantada por Fernando Gomes Alves (EP Ofir, AM 4.068, 1966) no chamado Fado Antigo (Eu passo noites inteiras), cuja música é a do conhecido Fado Espanhol (Gosto de cantar o fado) gravado por António Menano. No 2.º verso da 2.ª quadra admitimos que a letra cantada por Carlos Leal não seja exactamente o que nos pareceu continuar a ouvir após múltiplas re-audições de estudo. Admitimos que este UM FADO possa ser o espécime que João Falcato diz ter ouvido Manuel Julião entoar na Sé Velha na Primavera/Verão de 1943 (Coimbra dos Doutores. Coimbra: Coimbra Editora, 1957, pág. 166).
Desconhecemos se mais alguém gravou este espécime.
FADO DA NOSTALGIA
Incipit: A vida é negra, tão negra
Música: autor não identificado
Letra: 1.ª quadra popular; 2.ª quadra de autor não identificado
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1930
I
A vida é negra, tão negra,
Como a noite nos pinhais
Mas é nas noites mais negras
(Ai2) Que as estrelas brilham mais.
II
Nesta vida de amargura,
Há tanta contradição…
Fumo negro sobe ao ar
(Ai2) Água pura cai no chão.
Informação complementar:
Composição musical estrófica. Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 2.º e repete-se.
Gravado por volta de 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.0301, master 98032). Este disco de Carlos Leal encontrava-se ainda em catálogo e à venda em 1946.
A 1.ª quadra (A vida é negra, tão negra) veio a ser incorporada em 1930 no Fado da Noite (A vida é negra, tão negra), música de Jorge de Morais (Xabregas), primeiramente gravado por Machado Soares em 1956 (EP Alvorada, MEP 60111).
Desconhecemos se mais alguém gravou este espécime.
FADO VISÃO
Música: autor não identificado
Letra: dados desconhecidos
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Informação complementar:
Apenas conhecemos a existência do respectivo disco, o disco Parlophone, B 33.302, que ainda se encontrava em catálogo e à venda em 1946.
UMA CANÇÃO
Música: autor não identificado
Letra: desconhecemos a letra e respectiva autoria
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Informação complementar:
Apenas conhecemos a existência do respectivo disco, o disco Parlophone, B 33.302, que ainda se encontrava em catálogo e à venda em 1946.
MINHA MÃE
Incipit: Minha mãe é pobrezinha
Música: indicada como “popular”
Letra: 1.ª quadra popular; 2.ª quadra de autor não identificado
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1920
I
Minha mãe é pobrezinha,
Não tem nada que me dar.
Dá-me beijos, coitadinha,
(Ai2) E depois põe-se a chorar!
II
Quem me dera minha mãe,
A santa que eu vi sofrer,
Dizem as santas no céu
(Ai2) Que morreu pra eu viver.
Informação complementar:
Composição musical estrófica. Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 2.º e repete-se.
Gravado por volta de 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.0303, master 98020). Este disco de Carlos Leal encontrava-se ainda em catálogo e à venda em 1946.
A 1.ª quadra ocorre também noutras melodias:
-Fado Triste (Minha mãe é pobrezinha), [na verdade Fado da Minha Mãe] gravado por António Menano, primeiro em Lisboa e depois em Berlim (discos Odeon, 136.822 e A 136.822 e LA 187.804), cuja música é de Alexandre Rezende;
-Fado Mondego (Minha mãe é pobrezinha), [na verdade Fado Espanhol] gravado pelo mezzo soprano D. Luísa Baharem, em finais de 1926 (disco Columbia, 1032-X, edição americana);
-D’Um Olhar (As meninas dos meus olhos), música de Alexandre de Rezende dedicada a António Menano, de que foi feita edição musical em 1915, mais conhecido por «As Meninas dos Meus Olhos», gravado por António Menano (discos Odeon, 136.821 e A 136.821). A referida quadra consta da edição musical impressa, mas não nas matrizes gravadas por António Menano.
Desconhecemos se mais alguém gravou este fado.
[FADO DE DESPEDIDA]
Título original: FADO DO MAR
Incipit: A despedida, no dia
Música: D. José Pais de Almeida e Silva (1899-1968)
Letra: autor não identificado
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1920
I
A despedida, no dia
Em que se faz de verdade,
É choro duma alegria
Que se transforma em saudade.
II
Que tristeza, que tormento
Sinto no meu coração!
Mocidade és qual o vento
Fugindo sem ter razão.
Informação complementar:
Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 2.º e repete-se.
Composição musical estrófica gravada por volta de 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.303, master 98021). Este disco de Carlos Leal encontrava-se ainda em catálogo e à venda em 1946.
A melodia é rigorosamente a mesma de FADO DO MAR (As ilusões que me perseguem), gravado em 1929 por Artur Almeida d’Eça, acompanhado por Albano de Noronha/Afonso de Sousa (gg) no disco de 78 rpm Polydor , P 42.127.
MELANCOLIA
Incipit: A saudade faz lembrar
Música: autor não identificado
Letra: 1.ª quadra de Domingos Garcia Pulido; 2.ª quadra de José Marques da Cruz
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: década de 1920
I
A saudade faz lembrar
A melopeia da nora,
Se a uns parece cantar,
Parece a outros que chora.
II
Nunca chores junto à nora
Que a corrente faz girar,
Quem chora ao pé de quem chora
Fica-se sempre a chorar.
Informação complementar:
Canta-se o 1.º dístico, repete-se, canta-se o 2.º e repete-se.
Composição musical estrófica gravada por volta de 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.0308, master 98022).
Ambas as quadras se cantam também, mas por ordem inversa, com o chamado Fado da Nora (Nunca chores junto à nora), de Armando Goes, cuja música é diferente.
Desconhecemos se mais alguém teria gravado este fado.
CANÇÃO DAS RENDILHEIRAS DE VILA DO CONDE
Incipit: Rendilheiras que teceis
Música: Carlos Alberto Leal
Letra: Artur Cunha Araújo
Edição musical: desconhecemos a sua existência
Data da composição: 1928
Rendilheiras que teceis
As finas rendas à mão,
Eu dou-vos, se vós quereis,
Pra almofada o coração.
Refrão
Ó vem à janela
Como a noite é bela,
Vem ver o luar;
Linda rendilheira
Deixa a travesseira,
Vem-me ouvir cantar.
Quem me dera, rendilheira,
Ser essa tua almofada
E passar a vida inteira
Em teu regaço, deitada.
Refrão
Ó vem à janela…etc.
Informação complementar:
Canção musical com refrão gravada entre 1928-1929 por Carlos Leal, acompanhado à guitarra por Amândio Marques e Francisco Fernandes e, no violão, por Pais da Silva (disco Parlophone, B 33.308, de 78 rpm).
Esta canção foi popularíssima em todo o Portugal, tendo conhecido assinalada difusão nos anos dourados da Emissora Nacional. Também foi popular em Coimbra na década de 1930, cidade onde era cantada por estudantes e populares.
Na década de 1960 foi gravada pelo tenor radiofónico Américo Silva, acompanhado à guitarra por Armandino Maia e António Parreira e, à viola, por J. M. de Carvalho e José Vilela (EP “Américo Silva canta Fados de Coimbra”, Estúdio, EEP 50.228, com a errada indicação de ser música de Ângelo Vieira Araújo).
Também foi gravada por João Queiroz sob o título Canção das Rendilheiras (EP “The Old Coimbra Fado III”, RCA Victor, TP-313 (ca. 1967), cantor que após fugaz passagem pelo grupo dos irmãos Plácidos se radicou em Lisboa; LP “Fados de Coimbra por João Queiroz”, RCA Camden, CL-40220, editado em 1981 e LP “Estrelas de Portugal”, RCA Victor LPV-7649, editado na Venezuela).
Nestes três discos figuram como autores os nomes de Manuel Tino e Hugo Rocha, supondo-se atribuição de letra de Manuel Tino e de música de Hugo Rocha. Num outro disco de João Queiroz figuram os nomes de Manuel Pino e Ugo Rocha (sic): LP “João Queiroz – Samaritana”, Interfase, IF 144, editado em 1987.
As autorias fornecidas por João Queiroz não se nos asseveram fiáveis. Tanto poderão ter sido indicadas pelo cantor Loubet Bravo (que estaria familiarizado com o tema desde a sua juventude portuense), como por frequentadores das casas de fados de Lisboa onde o cantor se movimentava.
“Canção das Rendilheiras” é considerada uma espécie de hino de Vila do Conde. Foi adoptada como hino oficial do Rancho da Praça (http://www.rancho-da-praca.com/paginas/FotoRendilheira.html), agrupamento que efectuou sucessivas gravações do tema em 1960 (EP “É isto Vila do Conde”, Alvorada), 1964, 1966, 1976, 1977, 1992, em vinil, cassetes e cd (http://www.rancho-da-praca.com/paginas/musicas1_mp3.html).
Pesquisa e texto: José Anjos de Carvalho e António M. Nunes
Agradecimentos: Dr. João Caramalho Domingues e José Moças (Tradisom), Dra. Isabel Cambezes (Ordem dos Advogados), Ordem dos Médicos (Arquivo Central), Casa da Beira Alta no Porto, Rosa Soares (Ordem dos Médicos)
Subscrever:
Mensagens (Atom)


