sábado, 22 de maio de 2021

Gravações de estudantes do Porto dos anos 1920 no Arquivo Sonoro Digital do Museu do Fado

Já há alguns anos (mais precisamente, em 2016) foi disponibilizado online um arquivo da maior importância para a memória académica do Porto (e, na verdade, para a memória de todo o país, particularmente na primeira metade do século XX): o Arquivo Sonoro Digital do Museu do Fado (Lisboa).
Este arquivo contém alguns milhares de gravações datadas da primeira metade do século XX; muito fado (em vários sentidos da palavra), mas não só.

O que nos interessa aqui é que entre as gravações disponíveis estão algumas de estudantes do Porto da década de 1920. Sobre os dois que serão mais relevantes, Carlos Leal e Amândio Marques, já apareceram neste blogue algumas entradas: Carlos Leal, «O Rouxinol do Ave», "Tempos da fadistação...", Carlos Leal - caricatura, Registos fonográficos de Carlos Leal e Amândio Marques, Fado de Despedida cantado por Carlos Leal (esta última a partir de hoje claramente obsoleta).
Apresento a seguir uma lista das gravações destes e de alguns outros estudantes do Porto dos anos 1920, que consegui identificar até agora no Arquivo Sonoro Digital.
Sobre as autorias das composições gravadas por Carlos Leal, socorri-me das informações de António Nunes e Anjos de Carvalho (nomeadamente na 2.ª versão de Registos fonográficos do estudante da Universidade do Porto, Carlos Leal) - embora num ou noutro caso eu seja um pouco mais céptico (por exemplo quanto ao qualificativo «popular»).


I - Carlos Leal (c)
acomp. Amândio Marques (g), Francisco Fernandes (g), Pais da Silva (v)

Gravações disponíveis em: Carlos Leal - Arquivo Sonoro Digital (atenção: os títulos e informações de «Canção das rendelheiras de Vila do Conde» e «Melâncolia» estão trocados)

Fado Alentejano
(Música: Armando Goes / Letra: 1.ª quadra de autor desconhecido (popular, séc. XIX); 2.ª quadra de João da Silva Tavares)

Fado da Descrença
(Música: Amândio Marques / Letra: Amândio Marques?)

Fado da Nostalgia
(Autor(es) desconhecido(s) - «popular»)

Um Fado
(Música: Albano de Noronha / Letra: autor(es) desconhecido(s), 1.ª quadra popular)

Fado de Despedida
(Música [com o título Fado do Mar]: D. José Pais de Almeida e Silva / Letra: autor(es) desconhecido(s))

Minha Mãe (Fado)
(Autor(es) desconhecido(s), 1.ª quadra popular)

Canção das Rendilheiras de Vila do Conde
(Música: Carlos Leal? / Letra: Artur da Cunha Araújo, isto segundo António Nunes e Anjos de Carvalho; a etiqueta do disco indica «popular»)
Para ouvir esta gravação, clicar em «Melâncolia» em Carlos Leal - Arquivo Sonoro Digital.

Melancolia
(Música [com o título O meu Fado]: Armando Goes / Letra: 1.ª quadra de Domingos Garcia Pulido, 2.ª quadra de José Marques da Cruz, segundo António Nunes e Anjos de Carvalho; a etiqueta do disco atribui a autoria [da música?] ao próprio Carlos Leal)
Para ouvir esta gravação, clicar em «Canção das rendelheiras de Vila do Conde» em Carlos Leal - Arquivo Sonoro Digital.

II - Amândio Marques (g)
acomp. Pais da Silva (v), Francisco Fernandes (g)
Gravações disponíveis em: Amândio Marques - Arquivo Sonoro Digital

Variações em ré menor
(Autor desconhecido - «popular»)

Fado em lá maior
(Autor desconhecido - «popular»)

Capricho
(Aires Pinto Ribeiro)

Fado em dó sustenido menor
(Aires Pinto Ribeiro)

III - Pais da Silva (v)
acomp. José Taveira (v) [excepto em Cantares Populares]
Gravações disponíveis em: Pais da Silva - Arquivo Sonoro Digital

Pas de Quatre
(Autor desconhecido - «popular»)

Padre Nuestro
(Enrique Delfino)

Amanhecendo
Tango (Pais da Silva)

Cantares Populares
(rapsódia; arr. de Pais da Silva?)

IV - Ernesto Brandão (g)
acomp. José Taveira (v)
Gravações disponíveis em: Ernesto Brandão - Arquivo Sonoro Digital

Fado em sol maior
(Autor desconhecido - «popular»)

Fado em ré menor
(Autor desconhecido - «popular»)

V - Manuel R. Pereira Leite (g) e José Taveira (v)
Gravações disponíveis em: Manuel R. Pereira Leite, José Taveira - Arquivo Sonoro Digital (atenção: a primeira das duas gravações identificadas aí como «Fado Pinto Ribeiro (fá sustenido menor)» é na verdade «Fado Pinto Ribeiro (dó sustenido menor)», como se pode ler na etiqueta do disco)

Fado João de Deus (Variações) 1.ª parte
(João de Deus, filho - tema original)

Fado João de Deus (Variações) 2.ª parte
(João de Deus, filho - tema original)

Fado Pinto Ribeiro (dó sustenido menor)
(Aires Pinto Ribeiro)

Fado Magiolo
(Magiolo, Magiolly, Maggyoli, Maggiolli,...?)

Fado Pinto Ribeiro (fá sustenido menor)
(Aires Pinto Ribeiro)

Fandango Mirandês
(Manuel R. Pereira Leite)

VI - Manuel R. Pereira Leite (g)
acomp. Alves Rente (v)
Gravação disponível em: Manuel R. Pereira Leite - Arquivo Sonoro Digital

Chula do Douro
(Júlio Silva)

sábado, 11 de maio de 2019

Programas da Queima das Fitas, dos anos 50 aos anos 70

[Esta é uma actualização substancial duma entrada antiga: "Alguns programas da Queima das Fitas, por volta dos anos 60".]

Vêem-se abaixo imagens de alguns programas da Queima das Fitas da Universidade do Porto entre os anos de 1953 e 1970. Com excepção do de 1956, que aparentemente tem só uma face, estes programas são folhas volantes com frente e verso: na frente pode ver-se um dos desenhos concorrentes no concurso do cartaz da Queima desse ano (2.º prémio? 3.º prémio?); no verso (aqui apresentado ao lado) o programa propriamente dito. O de 1954 [acrescentado em 10/07/2021] tem formato de postal.
Os programas de 1958 e 1959 medem aproximadamente 8 por 12cm. Os de 1953, 1954 e 1961-1969 têm entre 10 e 11cm de largura e entre 13 e 15cm de altura.
A imagem do programa de 1956 foi retirada duma entrada do blogue Ephemera, de Pacheco Pereira; as dos programas de 1968 e 1970 foram retiradas duma página da responsabilidade da Universidade do Porto; as restantes são digitalizações de originais da minha colecção pessoal.

















segunda-feira, 1 de maio de 2017

Cartazes da Queima, dos anos 50 aos anos 70

[Esta é uma actualização substancial duma entrada antiga: "Cartazes da Queima dos anos 60".]

Apresento abaixo cartazes da Queima das Fitas dos anos 50 e 60.
Agradeço a Alexandre Bernardo o empréstimo do cartaz de 1958 para digitalização e disponibilização aqui.
Os cartazes de 1957 e 1959 medem cerca de 90x60cm; o de 1960 mede 84x57cm; os de 1961 a 1963, 1965, 1966 e 1970, cerca de 100x70cm (com pequenas variações).










domingo, 8 de maio de 2016

Selos da Queima das Fitas

[Esta é uma actualização duma entrada antiga: "Vinhetas da Queima das Fitas". "Vinhetas" seria o termo mais correcto não se trata aqui de selos postais. Mas, tanto quanto sei, no meio académico sempre foram conhecidos como "selos" da Queima. De qualquer forma, o principal propósito desta actualização é acrescentar alguns selos que adquiri entretanto (embora eu tenha em tempos feito uma actualização silenciosa, acrescentando ligações a imagens de selos do Álbum de Memórias do Gabinete do Antigo Estudante da UP que não constavam da versão original da entrada do blogue). O selo de 1962 foi acrescentado em 29/04/2017; o de 1959 foi acrescentado em 20/08/2021.]

Antes da interrupção dos anos 70, em vez de autocolantes havia vinhetas, conhecidas como "selos", da Queima das Fitas.
Os desenhos destes selos, ao contrário do que aconteceria mais tarde com os autocolantes, eram normalmente diferente dos dos cartazes. Segundo me explicou em tempos Flávio Serzedello de Oliveira (1920?-2009, estudante da UP 1948-1974?), havia três prémios no concurso para cartaz da Queima das Fitas do Porto: o desenho classificado em primeiro lugar era adoptado para cartaz grande, o segundo para cartaz pequeno, e o terceiro para selo. No entanto, há excepções a esta regra: pelo menos os selos de 1958, 1960 e 1970 têm o mesmo desenho que os cartazes grandes.
Podem ver-se alguns cartazes grandes neste blogue em "Cartazes da Queima dos anos 60". Não tenho nenhuma imagem de cartazes pequenos, embora tenha memória de numa exposição em 1992 ter visto um, da Queima de 1969, cujo desenho era o que foi utilizado para o programa desse ano (e que pode ser visto em "Alguns programas da Queima das Fitas, por volta dos anos 60"); os desenhos utilizados nos programas de 1963, 1965 e 1966, não sendo os dos cartazes grandes nem os dos selos, provavelmente seriam também os dos cartazes pequenos.
Apresento abaixo imagens de selos da Queima das Fitas. As de 1955, 1956 e 1957 foram retiradas duma secção do Álbum de Memórias do Gabinete do Antigo Estudante da UP. As outras são digitalizações de originais da minha colecção pessoal.
Os selo de 1958 e 1959 medem cerca de 5,3x4cm; os de 1960 a 1968 medem aproximadamente 6x4,3cm (com pequenas variações); os de 1969, 1970 e 1971 cerca de 7x5,2cm.

















domingo, 2 de fevereiro de 2014

Uma "festa dos caloiros" em 1904


[O Alarme: diário republicano da tarde, Porto, 10/11/1904, pág. 2; disponível na Biblioteca Nacional Digital.]

A MOCIDADE
A Festa dos caloiros - Na Academia Politécnica - Cortejo - Uma charge - Coisas de espírito.

Enquanto se prepara a função

Por este começo de Outono, quando as grandes árvores da Cordoaria se desfolham e os primeiros frios começam de picar as carnes, a mocidade entra em bandadas para a escola. Uns voltam uma vez mais à antiga casa de ensino e outros fazem a sua entrada bisonha nos largos átrios e nas altas salas onde os lentes severos os consideram como massa de reprovação...
E desde longe os antigos estudantes, aqueles a quem o léxicon académico denominou "veteranos"[1], organizam a festa dos "caloiros".
A tradição coimbrã enxertou no Porto, um tanto mais humana, um pouco mais sem a bruta sanha do canelão da Lusa Atenas e com um tanto mais de intuito, de espírito e graça.
A procissão dos "caloiros" representa quase sempre uma "charge", é o comentário sadio da gargalhada fresca da mocidade à pústula do meio, à miséria moral ou intelectiva do agregado social.
Ontem ainda, os estudantes da Academia Politécnica vieram à rua, em procissão pícara e chistosa, que sendo cheia de risos era como acicate aferrado na lombada de "consagrados" e um protesto, burlesco embora, mas justo, a essa fúria de exibições peregrineiras que de há tempo se tem assoalhado por vales e montados destas leiras nacionais.

*

Cá fora, no largo fronteiro à Academia, estende-se uma multidão impaciente.
Olha-se a portada do edifício, onde um fervilhar agitado de estudantes põe uma grande nota vivaz e álacre.
Afoitámo-nos ao ventre do vetusto estabelecimento, onde em tempos cabulámos[?] as horas duma mocidade desocupada. Num compartimento, guardado por sentinelas implacáveis, fazem-nos declinar a qualidade de bisbilhoteiros de letra redonda para nos consentirem a entrada.
Um tumultuoso mundo de rapazes cruza vozes, dá a última demão nas caracterizações, atira um vivo traço no lábio ao canto da testa, tornando cada máscara de caloiro em tabuleta de droguista.
No edifício, lá dentro, vestem-se opas e sobre as cabeças assentam mitras e tigelas de barro vermelho. Ensaiam-se os compassos sonorosos nas cornetas de barro e nos pífaros vulgares. É um charivari de feira com graça clownesca, a estrondosa e formidável chalaça dos lábios irreverentes dos rapazes.
Enfim a procissão organiza-se. Assoma às portas da Academia. E uma aclamação sobe da massa de curiosos, estruge um aplauso, uma como saudação alegre à mocidade que sabe rir como ninguém e zurzir as chagas a tagante duro e salubre.

O desfile

Rompe a ladaínha e o cortejo desfila. À frente, abrindo o préstito, um caloiro levantando no ar um estandarte de linhol branco, onde destaca uma cadeira, tendo pregado um dístico a amarelo com esta cifra: 8000 réis. E no assento a legenda: "Para quem quiser cá pôr o c.". Ao fundo do painel: "O martírio dos caloiros e dos outros".
É um comentário à extorsão de 8$000 réis por cada cadeira de trabalhos práticos, agora imposta aos alunos da Academia.
Vem seguidamente o estandarte azul, onde a caricatura do conhecido lente da 7.ª cadeira"[2] destaca entre fórmulas químicas e a frase "Olhe que já é!". Logo, em painel cor-de-rosa a caraça característica do professor de Química Orgânica[3] e este ritornello do sábio, que passa de geração a geração como herança típica das vetustas fórmulas de ensino: "Precipitam tais quais". Circulando a cabela do lente, onde avinca o traço dum artista, símbolos de corpos e fórmulas químicas. Outro estandarte mostra a deusa Flora, irada e ameaçadora, num gesto indignado...
É o "bronze" da Cordoaria que assim a fez tomar daquele assomo de raiva... Se o autor da cachopa, com seus ares de esperar o Manel que vem co'as vacas, aparecesse a jeito, não há dúvida que Flora entraria no Aljube, entre o clamor das folhas que a titulariam de homicida.

A Flora, monumento de António Teixeira Lopes (1866-1942), inaugurado em Agosto de 1904, em homenagem ao horticultor José Marques Loureiro (1830-1898). [Fonte: Arquivo Municipal do Porto]

É um andor que passa agora, todo enfeitado a nabos, e logo o pálio - uma coberta de chita espetada no alto de quatro estacas - sob o qual um rotundo estudante, empunhando um boneco, entoa a ladaínha.
Tudo isto, este conjunto bizarro, pintalgado pelas mirabolâncias de cor: o vermelho vinho das tigelas de barro, o azul e escarlate das opas.
O cortejo rodeia a Academia e passa em face à Escola Médica onde os estudantes o acolhem e prestam as honras de hospitalidade...
Mas vai longe a resenha e no número único, vendido a favor do "Comité Académico Operário", conta-se sucintamente esta monumental procissão.
E a ordem do cortejo eles mesmos o descrevem na folha espalhada a rodos, mercê de 30 réis por cabeça.
Diz assim o número único:

Cortejo

Às 12 horas do dia, anunciadas pelo toque da palhada à Municipal, começar-se-á a organizar o esplendoroso cortejo no templo da Academia. O préstito abre por dois soberbos mancebos armados a fingir arautos, vestidos sem carácter e acompanhados pela charanga do venerando Sabastião das Oficinas com ele próprio a dar à cabeça. Seguem-se as diversas irmandades com os respectivos estandartes e guiões pela ordem seguinte:
Confraria do Mano Zé, Confraria do Berthelot português, Congregação dos filhos de Flória e manos da dita, Confraria dos Femeanos, das Belas e das Artes que carregarão com uma palma de rolha com um letreiro "abraçando a Estátua", etc.
Encorporar-se-ão também todos os padres "libarais" e da Companhia... dos Vinhos em disponibilidade que ladearão os vistosos bispotes das seguintes dioceses: Cardeal-Bispo de Veneza, Reverendo Conde de Coronel Pacheco; Bispo da Ferraria, Reverendo Bento Queijo[4]; de Trás das Paredes, Reverendo Conde do Sem'o-dás; do Campo dos Degenerados, Reverendo Pés e Tanas; da "Pá da Lavra", o Infrutífero da Fonseca; da Rua do Chá o célebre e mais que reverendo Porto por Quatro; e o conhecido asneiroso da Tâmara[?], Reverendo Zé dos Soizas.
Toda esta bispalhada puxará à padiola onde vai a soberba coroa que será deposta no cume de Forno onde se encontra a miraculosa Santa Flória.
Na ocasião desta imponente cerimónia subirão ao ar inúmeros foguetes de lágrimas para enternecerem os assistentes e será entoado o majestoso hino da Virgem Flória, composto expressamente por um conhecido maestro de reconhecido valor como seja o Reverendo Seixoso. Finda a cerimónia da coroa será ouvida por todos os assistentes que não sejam como portas uma oração de sabença em português de lei e de assunto apropriado para todos compreenderem, mesmo os convidados oficiais e de representação social.

Na Cordoaria - A nabos e batatas

Da Escola Médica o cortejo endireita à Cordoaria. A multidão atropela-se, converge por todas as ruas para o local onde se ergue a estátua ao horticultor Loureiro.
A procissão enfrenta com o monumento.
Um estudante - o bispo da festa - trepa ao sólio onde se ergue a Flora, entoa a ladaínha, agita o hissope e, solene, toma duma colossal coroa de nabos e batatas e coloca-a no cocuruto da cabeça da fêmea do monumento.
Estrugem as palmas e um poderoso riso de milhares de bocas vibra no ar macio. Agora todos os acólitos dispõem nabos no monumento, em maneira e jeito que mal se sabe ao fim de minutos se se trata dum bronze comemorativo, se de barraca de hortaliceira.
A multidão ri sempre a cada nova partida dos moços. A polícia mesmo, cordata, mantém a ordem, evita que os curiosos pisem os alegretes, ela própria sorri também, como se compreendesse a hora de justiça que estava decorrendo.
Tudo se congregou: o céu cheio de luz, a terra viçosa e fresca das relvas vigorosas e a "ordem", recolhendo a selvajaria usada, enfronhou um jeito de civilização.
Um estudante diz a oração de sapiência, onde numa irreverência se acoima[?] de porta de forno o sítio onde, no calhau do monumento, assenta a efígie do horticultor comemorado.
Breve, que as horas escasseiam e o espaço falha:
A procissão recolheu à Academia e tudo findou.
Bela festa moça, pelo espírito, pela graça e pela obra de justiça cumprida.
Que haja enfim alguém para tesourar[?] as orelhas dos consagrados!

Rui de Neira          

Notas

Num dos estandartes lia-se "Magna peligrinatio[5] Floream"...
- O número único titulava-se "Imponente plingrinação à Virgem Flória" que se venera no Jardim da Cordoaria (em frente ao biscoito da Teixeira).
No apontado número único, entre a esfuziada álacre de "verve", de espírito moço rutilando nas mil facetas do riso, destaca o hino à Virgem Flora.
A letra é assim:

Porque é que tal Virgem se chama Flória
Sem que nós saibamos bem a sua história?

E porque de noite se conserva lá,
Quanto em tal sentido mil posturas  há?

Posto que ela seja de bronze a valer,
Em peça tornada possa vir a ser.

Ou grosso canhão de grande resistência,
Parece que pede uma esmola à Assistência.

Nós vimos, ó Virgem da Cordoaria,
Levantar-te o peito co'a nossa alegria.

Se fazes milagres de grande espavento,
Levanta essas mamas p'ra nosso contento.

Se aos bispos concedes favor's colossais,
Não esqueças os pobres, humildes pardais.

Nós somos caloiros. Mitrados também.
Que vimos pedir-vos as graças. Amén.



[1] Não se leia a palavra "veterano" com o significado actual. Provavelmente ainda se aplicaria a qualquer estudante que já não fosse caloiro ("doutor", dir-se-ia hoje). Em Coimbra, no início do século XIX, era veterano quem tivesse terminado o primeiro ano (com aprovação); e nos anos 60 do mesmo século, eram veteranos os alunos do 4.º e 5.º anos (Alberto Sousa Lamy, A Academia de Coimbra, 1537-1990, Lisboa: Rei dos Livros, 1990, p. 470).

[2] José Diogo Arroyo (1854-1925) era o lente proprietário da 7.ª cadeira (Química Inorgânica).

[3] António Joaquim Ferreira da Silva (1853-1923), químico muito conceituado, era lente proprietário da 8.ª cadeira (Química Orgânica e Analítica) desde 1880.

[4] Esta é a referência mais evidente: Bento Carqueja, na altura lente substituto da 16.ª cadeira (Economia Política. Legislação de minas, industrial e de obras públicas) e simultaneamente colaborador do jornal O Comércio do Porto (era sobrinho de um dos fundadores e viria a ser co-proprietário e director), que tinha a sua sede na Rua da Ferraria (actual Rua do Comércio do Porto). Os outros bispos/bispotes ("bispote" é um termo popular para penico) são também referências a professores da Academia Politécnica (ou talvez a outras personalidades da época).

[5] No original está "peligrination" mas, a menos que o objectivo fosse misturar latim macarrónico com francês macarrónico, não faz sentido. Deve ser uma gralha (há muitas no texto original).

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Dois documentos sobre o uso da capa e batina no Porto em 1929 e 1930

Interrompo o longo silêncio neste blogue para dar a conhecer dois interessantes documentos sobre o uso da capa e batina na passagem dos anos 20 para os anos 30 que encontrei nos últimos meses.

Começo por uma fotografia retirada da revista brasileira Lusitania ("revista illustrada de approximação Luso-Brasileira e de propaganda de Portugal"), n.º 36, de 16 de Julho de 1930. A fotografia aparece inserida numa reportagem fotográfica, por José Mesquita, sobre uma iniciativa de caridade realizada no Porto, a "Venda da Flor". Aí vêem-se dois estudantes de capa e batina (clicar para ampliar a imagem, de forma a distinguir o estudante em segundo plano, com a capa no ombro direito). Na respectiva legenda lê-se "Maria Thereza, odorifero cravo dos jardins do Porto, “cravando” um pobre academico".

O que tem esta fotografia de fora do comum? Simplesmente, e não é pouco, a espontaneidade.
A esmagadora maioria das fotografias antigas em que aparecem estudantes do Porto de capa e batina são fotografias de pose: retratos tirados em estúdios fotográficos, fotos de curso ("os quintanistas de Medicina do ano x"), fotografias institucionais da tuna ou orfeão; na melhor das hipóteses, temos fotos tiradas durante alguma excursão ou digressão de um grupo académico. Por muito interessantes que sejam, as fotos de pose transmitem pouca informação sobre o uso quotidiano do traje académico.
Na foto apresentada aqui, pelo contrário, vemos dois estudantes surpreendidos em plena baixa, possivelmente a caminho ou à saída das aulas, usando o traje académico de forma descontraída. Capa ao ombro num caso, segura no antebraço no outro. O estudante em primeiro plano traz uma boina[1].

O segundo documento é uma verdadeira preciosidade.
Trata-se de um filme, preservado na Cinemateca Portuguesa, sobre uma excursão de alunos do Liceu Alexandre Herculano em 1929. (Clicar para abrir a página da Cinemateca com o filme; não consegui encaixar ["embed"] directamente o vídeo.)
Duas notas: o filme parece montado aleatoriamente, e não por ordem cronológica; um mapa com as localidades visitadas pode ser visto aos 9m34s.
De realçar a grande implantação da capa e batina no Liceu Alexandre Herculano nesta época.
Quanto aos pormenores no seu uso que fogem aos cânones praxísticos do séc. XXI, dariam panos para mangas...






[1] Embora possa ser surpreendente para alguns, não é inédito - conheço fotografias de uma excursão da Tuna em 1932 em que um dos elementos usa boina; e o antigo dux veteranorum Flávio Serzedello contou-me em conversa nos anos 90 que no seu tempo (anos 40 a 60) havia no Porto quem usasse boina com capa e batina - ao contrário do gorro, que não era usado.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Qvid Tvnae?
A Tuna Estudantil em Portugal

(Para comprar, ir a http://www.euedito.com/qvidtvnae.)

Foi recentemente publicado o livro Quid Tunae? - A Tuna Estudantil em Portugal, de Eduardo Coelho, Jean Pierre Silva, João Paulo Sousa e Ricardo Tavares, que se apresenta como "a primeira obra sobre tunas estudantis em Portugal". Esta primazia, tanto quanto sei, é justificada: existe (pelo menos) um livro sobre tunas populares; existem alguns livros sobre tunas estudantis específicas;  mas este é o primeiro livro em Portugal que aborda o fenómeno tuna estudantil de uma forma global.
O livro está estruturado em quatro partes.
Na primeira, os autores dedicam-se a desfazer dois tipos de mito: o de que as tunas "já vêm da Idade Média" e certas etimologias fantasiosas da palavra "tuna" (pelo caminho indicam qual, dentre as várias possíveis origens desta palavra, é a que lhes parece mais credível; e fazem também algo que a mim me parece muito mais interessante e relevante - mostram a grande alteração semântica que a palavra sofreu no século XIX, de "vida folgazã" para determinado tipo de grupo musical).
A segunda parte trata da origem e desenvolvimentos das estudiantinas e tunas em Espanha (com prolongamentos na América Latina e ainda noutras paragens, por vezes surpreendentes).
A terceira parte aborda as estudantinas e tunas em Portugal (e, brevemente, antigas colónias e Brasil) do final do séc. XIX até aos anos 60/70 do séc. XX. Trata-se das tunas "à antiga", de um imenso mundo de tunas populares e académicas (incluindo inúmeras liceais) que poderá surpreender muita gente.
A última parte é sobre a "segunda vaga" de tunas estudantis em Portugal, de 1982 a 1995. De facto é só aqui, neste período que começou há trinta anos, que a maior parte dos potenciais leitores encontrará as tunas tais quais as conhece.
Os quatro autores, trazendo larga experiência da sua participação em sete(!) tunas, não caem na armadilha de achar que a prática lhes dá autoridade em matérias históricas e/ou teóricas. Na verdade, nota-se que este livro resulta de vários anos de pesquisa documental e provavelmente de inúmeras discussões.
Na primeira leitura que fiz, aprendi já muita coisa. E conto aprender mais em futuras consultas e seguindo algumas pistas aqui lançadas.
Os autores não se coibem de apresentar as suas opiniões. E devo dizer que em muitos casos discordo dessas opiniões. Mas são opiniões fundamentadas - e é agradável poder discordar de opiniões fundamentadas (o mais frequente quando se trata de tradições académicas é ver-me confrontado com disparates gratuitos, contra os quais não se pode argumentar...).
Assim, o aparecimento deste livro é de saudar por várias razões: por ser a primeira obra em Portugal sobre as tunas estudantis; por serem raros os trabalhos sobre tradições académicas; e por serem ainda mais raros os trabalhos honestos sobre tradições académicas.
Não tem defeitos? Seria impossível não ter. A mim desiludiu-me um pouco a qualidade de reprodução das fotografias (e há imagens interessantíssimas), o que talvez seja uma consequência inevitável do processo de edição ("de autor"). Naqueles assuntos em que percebo alguma coisa, notei alguns erros factuais, mas poucos e geralmente pouco relevantes (por ex.: a Mini-Queima do Porto foi em 1978 e não em 1982). Há várias secções em que a escolha que fizeram do que incluir e do que excluir é discutível (mas aqui estamos mais uma vez no campo das opiniões).
Resumidamente: foi um prazer ler este livro, que é agora elemento de consulta indispensável sobre o seu tema. Todos aqueles que se interessam pelas tradições académicas (e especialmente por tunas, claro) devem ficar gratos aos autores, que estão de parabéns!