segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Fado de Despedida cantado por Carlos Leal


Apresento aqui um exemplo de um fado gravado por Carlos Leal (sobre este estudante do Liceu Rodrigues de Freitas e da Faculdade de Medicina do Porto dos anos 1920, cantor de fados de Coimbra, serenateiro e vocalista da Tuna Académica do Porto, ver os textos Registos fonográficos de Carlos Leal e Amândio Marques, "Tempos da fadistação..." e Carlos Leal, «O Rouxinol do Ave», neste blogue).

Esta não é a composição mais interessante das que foram gravadas por Carlos Leal, nem a que foi mais popular. Mas é um dos lados do único disco que possuo de Carlos Leal (tenho gravações em cassete de outros discos, que me foram cedidas há uns 15 anos, mas sem autorização para as tornar públicas).

Como se nota facilmente, faltam nesta gravação os últimos segundos. Além disso, como é natural numa gravação de um disco de 78rpm, sem tratamento posterior, há bastante ruído. Mas, ainda assim, é uma voz que nos chega dos anos 1920...



Sobre este fado, uma versão do Fado do Mar de D. José Pais de Almeida e Silva, ver o texto Registos fonográficos de Carlos Leal e Amândio Marques, de José Anjos de Carvalho e António Manuel Nunes.
A letra do original pode ser consultada no texto dos mesmos autores Relação do espólio fonográfico do cantor Almeida d'Eça.

Quanto à letra cantada por Carlos Leal, confesso que ouço as seguintes quadras, ligeiramente diferentes das entendidas pelo Coronel Anjos de Carvalho e António Nunes.

Uma despedida, no dia
em que se vai de verdade,
é choro duma alegria
que se transforma em saudade.

Que tristeza e tormento
sinto no meu coração!
Mocidade, és qual vento,
fugindo sem ter razão.


Agradecimentos: José Moças (Tradisom) e José Navia (Audiorestauración).

3 comentários:

  1. Ora viva, caro João:

    relativamente à letra transcrita:

    o primeiro verso da primeira quadra não deverá ser "Uma despedida, no dia", já que não respeita o heptassílabo:

    "U/ma des/pe/di/da / no / di/(a)" - tem 8 sílabas métricas.

    Só vejo duas soluções para transformar "U/ma" num monossílabo:

    1. "U'a"... De facto, o que se ouve em 0:12 é qualquer coisa como "uá..." - e das duas vezes, o que faz supor que não é defeito de gravação. Nem mesmo nas variantes dialectais da zona ribeirinha do Ave (Riba d'Ave, Guimarães, Sto. Tirso, etc.) se diz "ua", mas "un-a" - Carlos Leal é "o Rouxinol do Ave", mas de Vila do Conde, onde não se verifica essa variante dialectal, nem mesmo a nível popular

    2. a segunda hipótese é a aférese do "u", ficando "'ma"; porém, não deve ser o caso, já que se ouve "uá..."

    Não descortino que palavra(s) seja(m), mas não me parece que seja "Uma". Poderia ser "Co'a" (com a)? Assim ouvir-se-ia "Cu-á"? Não faz sentido, na medida em que ficaria "Co'a despedida (...) é choro duma alegria".

    Só pelo critério da métrica, não deve ser "uma", mas também não vejo o que possa ser.


    Quanto ao primeiro verso da segunda quadra parece-me ser

    "Que tristeza e que tormento"

    Confesso que em primeira audição o 2.º "que"
    não era tão perceptível. Mas, se colocares o reprodutor em 2:23, é nítido que diz "que tormento".

    Como o cantor abre o "a" de "tristeza", à maneira coimbrã, acaba por soar "que tris-têzá_i... que tormentó" - sendo que o "que" (átono) fica um tudo-nada "sepultado" pelo "i".

    Em termos de métrica, tanto pode ser

    "Que tris/te/za /e /tor/men/(to)"

    como

    "Que /tris/te/za_e/ que/ tor/men/(to)"

    dá igualmente 7 sílabas métricas, sendo que na segunda versão se dá a sinalefa em "za_e".

    Aquele abraço!

    Eduardo

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  2. Viva, caríssimo!
    Obrigado pela tua contribuição.
    Compreendo as tuas objecções, mas:

    1. Sim, o que ouço não é precisamente "Uma"; mas o "U" soa-me suficientemente nasalado para me parecer "Umha" (usando a ortografia galega reintegracionista) ou "un-a" como escreveste - gostava de conseguir pôr aqui um til no u; sim, o Carlos Leal não pronunciaria assim, mas suspeito que, estando a métrica errada, ele fez o que pôde...

    2. Voltei a ouvir várias vezes, e continua a parecer-me, na 1.ª vez (2:00) "tristeza e tormento"; e, na 2.ª (2:20) "tristezai e tormento". Não sei qual o termo técnico, mas soa-me que no prolongamento do "a" final de "tristeza", por influência do "e", mete a semivogal (não será uma sinalefa, pois o "e" continua a ser pronunciado autonomamente); _não_ ouço o "k".

    Mas é claro que posso estar errado!

    Grande abraço!

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  3. Viva, João:

    não me parece que haja erro na métrica do primeiro verso...

    Se o fado fosse contemporâneo, poria as minhas dúvidas. Houve porventura qualquer coisa que se perdeu a este nível. Não sei se uma desabituação generalizada se falta de sensibilidade para a métrica - se uma mistura de ambas -, mas a verdade é que há por aí muito verso coxo.

    Dada a época em que o fado foi composto, mesmo que o autor falhasse ali uma sílaba, quer-me parecer que seria prontamente assinalada e corrigida ou pelo cantor ou por outro elemento do grupo. Posso estar redondamente enganado, claro, mas não me parece que seja erro na composição.

    Continuo, contudo, a não descortinar que palavra possa ser.

    Quanto ao 1.º verso da 2.ª quadra, parece-me nítido ser "Que tristeza e que tormento". E é(-me) especialmente nítido no "bis" - cerca de 2:22.

    Sob reserva, naturalmente, de distorção do disco, provocado por algum "k-trrrrr" ali pelo meio.

    Aquele abraço e um bom Ano Novo!

    Eduardo

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