sábado, 11 de maio de 2019

Programas da Queima das Fitas, dos anos 50 aos anos 70

[Esta é uma actualização substancial duma entrada antiga: "Alguns programas da Queima das Fitas, por volta dos anos 60".]

Vêem-se abaixo imagens de alguns programas da Queima das Fitas da Universidade do Porto entre os anos de 1953 e 1970. Com excepção do de 1956, que aparentemente tem só uma face, estes programas são folhas volantes com frente e verso: na frente pode ver-se um dos desenhos concorrentes no concurso do cartaz da Queima desse ano (2.º prémio? 3.º prémio?); no verso (aqui apresentado ao lado) o programa propriamente dito.
Os programas de 1958 e 1959 medem aproximadamente 8 por 12cm. Os de 1953 e 1961-1969 têm entre 10 e 11cm de largura e entre 13 e 15cm de altura.
A imagem do programa de 1956 foi retirada duma entrada do blogue Ephemera, de Pacheco Pereira; as dos programas de 1968 e 1970 foram retiradas duma página da responsabilidade da Universidade do Porto; as restantes são digitalizações de originais da minha colecção pessoal.















segunda-feira, 1 de maio de 2017

Cartazes da Queima, dos anos 50 aos anos 70

[Esta é uma actualização substancial duma entrada antiga: "Cartazes da Queima dos anos 60".]

Apresento abaixo cartazes da Queima das Fitas dos anos 50 e 60.
Agradeço a Alexandre Bernardo o empréstimo do cartaz de 1958 para digitalização e disponibilização aqui.
Os cartazes de 1957 e 1959 medem cerca de 90x60cm; o de 1960 mede 84x57cm; os de 1961 a 1963, 1965, 1966 e 1970, cerca de 100x70cm (com pequenas variações).










domingo, 8 de maio de 2016

Selos da Queima das Fitas

[Esta é uma actualização duma entrada antiga: "Vinhetas da Queima das Fitas". "Vinhetas" seria o termo mais correcto não se trata aqui de selos postais. Mas, tanto quanto sei, no meio académico sempre foram conhecidos como "selos" da Queima. De qualquer forma, o principal propósito desta actualização é acrescentar alguns selos que adquiri entretanto (embora eu tenha em tempos feito uma actualização silenciosa, acrescentando ligações a imagens de selos do Álbum de Memórias do Gabinete do Antigo Estudante da UP que não constavam da versão original da entrada do blogue). O selo de 1962 foi acrescentado em 29/04/2017.]

Antes da interrupção dos anos 70, em vez de autocolantes havia vinhetas, conhecidas como "selos", da Queima das Fitas.
Os desenhos destes selos, ao contrário do que aconteceria mais tarde com os autocolantes, eram normalmente diferente dos dos cartazes. Segundo me explicou em tempos Flávio Serzedello de Oliveira (1920?-2009, estudante da UP 1948-1974?), havia três prémios no concurso para cartaz da Queima das Fitas do Porto: o desenho classificado em primeiro lugar era adoptado para cartaz grande, o segundo para cartaz pequeno, e o terceiro para selo. No entanto, há excepções a esta regra: pelo menos os selos de 1958, 1960 e 1970 têm o mesmo desenho que os cartazes grandes.
Podem ver-se alguns cartazes grandes neste blogue em "Cartazes da Queima dos anos 60". Não tenho nenhuma imagem de cartazes pequenos, embora tenha memória de numa exposição em 1992 ter visto um, da Queima de 1969, cujo desenho era o que foi utilizado para o programa desse ano (e que pode ser visto em "Alguns programas da Queima das Fitas, por volta dos anos 60"); os desenhos utilizados nos programas de 1963, 1965 e 1966, não sendo os dos cartazes grandes nem os dos selos, provavelmente seriam também os dos cartazes pequenos.
Apresento abaixo imagens de selos da Queima das Fitas. As de 1955, 1956 e 1957 foram retiradas duma secção do Álbum de Memórias do Gabinete do Antigo Estudante da UP. As outras são digitalizações de originais da minha colecção pessoal.
O selo de 1958 mede 5,3x4cm; os de 1960 a 1968 medem aproximadamente 6x4,3cm (com pequenas variações); os de 1969, 1970 e 1971 cerca de 7x5,2cm.
















domingo, 2 de fevereiro de 2014

Uma "festa dos caloiros" em 1904


[O Alarme: diário republicano da tarde, Porto, 10/11/1904, pág. 2; disponível na Biblioteca Nacional Digital.]

A MOCIDADE
A Festa dos caloiros - Na Academia Politécnica - Cortejo - Uma charge - Coisas de espírito.

Enquanto se prepara a função

Por este começo de Outono, quando as grandes árvores da Cordoaria se desfolham e os primeiros frios começam de picar as carnes, a mocidade entra em bandadas para a escola. Uns voltam uma vez mais à antiga casa de ensino e outros fazem a sua entrada bisonha nos largos átrios e nas altas salas onde os lentes severos os consideram como massa de reprovação...
E desde longe os antigos estudantes, aqueles a quem o léxicon académico denominou "veteranos"[1], organizam a festa dos "caloiros".
A tradição coimbrã enxertou no Porto, um tanto mais humana, um pouco mais sem a bruta sanha do canelão da Lusa Atenas e com um tanto mais de intuito, de espírito e graça.
A procissão dos "caloiros" representa quase sempre uma "charge", é o comentário sadio da gargalhada fresca da mocidade à pústula do meio, à miséria moral ou intelectiva do agregado social.
Ontem ainda, os estudantes da Academia Politécnica vieram à rua, em procissão pícara e chistosa, que sendo cheia de risos era como acicate aferrado na lombada de "consagrados" e um protesto, burlesco embora, mas justo, a essa fúria de exibições peregrineiras que de há tempo se tem assoalhado por vales e montados destas leiras nacionais.

*

Cá fora, no largo fronteiro à Academia, estende-se uma multidão impaciente.
Olha-se a portada do edifício, onde um fervilhar agitado de estudantes põe uma grande nota vivaz e álacre.
Afoitámo-nos ao ventre do vetusto estabelecimento, onde em tempos cabulámos[?] as horas duma mocidade desocupada. Num compartimento, guardado por sentinelas implacáveis, fazem-nos declinar a qualidade de bisbilhoteiros de letra redonda para nos consentirem a entrada.
Um tumultuoso mundo de rapazes cruza vozes, dá a última demão nas caracterizações, atira um vivo traço no lábio ao canto da testa, tornando cada máscara de caloiro em tabuleta de droguista.
No edifício, lá dentro, vestem-se opas e sobre as cabeças assentam mitras e tigelas de barro vermelho. Ensaiam-se os compassos sonorosos nas cornetas de barro e nos pífaros vulgares. É um charivari de feira com graça clownesca, a estrondosa e formidável chalaça dos lábios irreverentes dos rapazes.
Enfim a procissão organiza-se. Assoma às portas da Academia. E uma aclamação sobe da massa de curiosos, estruge um aplauso, uma como saudação alegre à mocidade que sabe rir como ninguém e zurzir as chagas a tagante duro e salubre.

O desfile

Rompe a ladaínha e o cortejo desfila. À frente, abrindo o préstito, um caloiro levantando no ar um estandarte de linhol branco, onde destaca uma cadeira, tendo pregado um dístico a amarelo com esta cifra: 8000 réis. E no assento a legenda: "Para quem quiser cá pôr o c.". Ao fundo do painel: "O martírio dos caloiros e dos outros".
É um comentário à extorsão de 8$000 réis por cada cadeira de trabalhos práticos, agora imposta aos alunos da Academia.
Vem seguidamente o estandarte azul, onde a caricatura do conhecido lente da 7.ª cadeira"[2] destaca entre fórmulas químicas e a frase "Olhe que já é!". Logo, em painel cor-de-rosa a caraça característica do professor de Química Orgânica[3] e este ritornello do sábio, que passa de geração a geração como herança típica das vetustas fórmulas de ensino: "Precipitam tais quais". Circulando a cabela do lente, onde avinca o traço dum artista, símbolos de corpos e fórmulas químicas. Outro estandarte mostra a deusa Flora, irada e ameaçadora, num gesto indignado...
É o "bronze" da Cordoaria que assim a fez tomar daquele assomo de raiva... Se o autor da cachopa, com seus ares de esperar o Manel que vem co'as vacas, aparecesse a jeito, não há dúvida que Flora entraria no Aljube, entre o clamor das folhas que a titulariam de homicida.

A Flora, monumento de António Teixeira Lopes (1866-1942), inaugurado em Agosto de 1904, em homenagem ao horticultor José Marques Loureiro (1830-1898). [Fonte: Arquivo Municipal do Porto]

É um andor que passa agora, todo enfeitado a nabos, e logo o pálio - uma coberta de chita espetada no alto de quatro estacas - sob o qual um rotundo estudante, empunhando um boneco, entoa a ladaínha.
Tudo isto, este conjunto bizarro, pintalgado pelas mirabolâncias de cor: o vermelho vinho das tigelas de barro, o azul e escarlate das opas.
O cortejo rodeia a Academia e passa em face à Escola Médica onde os estudantes o acolhem e prestam as honras de hospitalidade...
Mas vai longe a resenha e no número único, vendido a favor do "Comité Académico Operário", conta-se sucintamente esta monumental procissão.
E a ordem do cortejo eles mesmos o descrevem na folha espalhada a rodos, mercê de 30 réis por cabeça.
Diz assim o número único:

Cortejo

Às 12 horas do dia, anunciadas pelo toque da palhada à Municipal, começar-se-á a organizar o esplendoroso cortejo no templo da Academia. O préstito abre por dois soberbos mancebos armados a fingir arautos, vestidos sem carácter e acompanhados pela charanga do venerando Sabastião das Oficinas com ele próprio a dar à cabeça. Seguem-se as diversas irmandades com os respectivos estandartes e guiões pela ordem seguinte:
Confraria do Mano Zé, Confraria do Berthelot português, Congregação dos filhos de Flória e manos da dita, Confraria dos Femeanos, das Belas e das Artes que carregarão com uma palma de rolha com um letreiro "abraçando a Estátua", etc.
Encorporar-se-ão também todos os padres "libarais" e da Companhia... dos Vinhos em disponibilidade que ladearão os vistosos bispotes das seguintes dioceses: Cardeal-Bispo de Veneza, Reverendo Conde de Coronel Pacheco; Bispo da Ferraria, Reverendo Bento Queijo[4]; de Trás das Paredes, Reverendo Conde do Sem'o-dás; do Campo dos Degenerados, Reverendo Pés e Tanas; da "Pá da Lavra", o Infrutífero da Fonseca; da Rua do Chá o célebre e mais que reverendo Porto por Quatro; e o conhecido asneiroso da Tâmara[?], Reverendo Zé dos Soizas.
Toda esta bispalhada puxará à padiola onde vai a soberba coroa que será deposta no cume de Forno onde se encontra a miraculosa Santa Flória.
Na ocasião desta imponente cerimónia subirão ao ar inúmeros foguetes de lágrimas para enternecerem os assistentes e será entoado o majestoso hino da Virgem Flória, composto expressamente por um conhecido maestro de reconhecido valor como seja o Reverendo Seixoso. Finda a cerimónia da coroa será ouvida por todos os assistentes que não sejam como portas uma oração de sabença em português de lei e de assunto apropriado para todos compreenderem, mesmo os convidados oficiais e de representação social.

Na Cordoaria - A nabos e batatas

Da Escola Médica o cortejo endireita à Cordoaria. A multidão atropela-se, converge por todas as ruas para o local onde se ergue a estátua ao horticultor Loureiro.
A procissão enfrenta com o monumento.
Um estudante - o bispo da festa - trepa ao sólio onde se ergue a Flora, entoa a ladaínha, agita o hissope e, solene, toma duma colossal coroa de nabos e batatas e coloca-a no cocuruto da cabeça da fêmea do monumento.
Estrugem as palmas e um poderoso riso de milhares de bocas vibra no ar macio. Agora todos os acólitos dispõem nabos no monumento, em maneira e jeito que mal se sabe ao fim de minutos se se trata dum bronze comemorativo, se de barraca de hortaliceira.
A multidão ri sempre a cada nova partida dos moços. A polícia mesmo, cordata, mantém a ordem, evita que os curiosos pisem os alegretes, ela própria sorri também, como se compreendesse a hora de justiça que estava decorrendo.
Tudo se congregou: o céu cheio de luz, a terra viçosa e fresca das relvas vigorosas e a "ordem", recolhendo a selvajaria usada, enfronhou um jeito de civilização.
Um estudante diz a oração de sapiência, onde numa irreverência se acoima[?] de porta de forno o sítio onde, no calhau do monumento, assenta a efígie do horticultor comemorado.
Breve, que as horas escasseiam e o espaço falha:
A procissão recolheu à Academia e tudo findou.
Bela festa moça, pelo espírito, pela graça e pela obra de justiça cumprida.
Que haja enfim alguém para tesourar[?] as orelhas dos consagrados!

Rui de Neira          

Notas

Num dos estandartes lia-se "Magna peligrinatio[5] Floream"...
- O número único titulava-se "Imponente plingrinação à Virgem Flória" que se venera no Jardim da Cordoaria (em frente ao biscoito da Teixeira).
No apontado número único, entre a esfuziada álacre de "verve", de espírito moço rutilando nas mil facetas do riso, destaca o hino à Virgem Flora.
A letra é assim:

Porque é que tal Virgem se chama Flória
Sem que nós saibamos bem a sua história?

E porque de noite se conserva lá,
Quanto em tal sentido mil posturas  há?

Posto que ela seja de bronze a valer,
Em peça tornada possa vir a ser.

Ou grosso canhão de grande resistência,
Parece que pede uma esmola à Assistência.

Nós vimos, ó Virgem da Cordoaria,
Levantar-te o peito co'a nossa alegria.

Se fazes milagres de grande espavento,
Levanta essas mamas p'ra nosso contento.

Se aos bispos concedes favor's colossais,
Não esqueças os pobres, humildes pardais.

Nós somos caloiros. Mitrados também.
Que vimos pedir-vos as graças. Amén.



[1] Não se leia a palavra "veterano" com o significado actual. Provavelmente ainda se aplicaria a qualquer estudante que já não fosse caloiro ("doutor", dir-se-ia hoje). Em Coimbra, no início do século XIX, era veterano quem tivesse terminado o primeiro ano (com aprovação); e nos anos 60 do mesmo século, eram veteranos os alunos do 4.º e 5.º anos (Alberto Sousa Lamy, A Academia de Coimbra, 1537-1990, Lisboa: Rei dos Livros, 1990, p. 470).

[2] José Diogo Arroyo (1854-1925) era o lente proprietário da 7.ª cadeira (Química Inorgânica).

[3] António Joaquim Ferreira da Silva (1853-1923), químico muito conceituado, era lente proprietário da 8.ª cadeira (Química Orgânica e Analítica) desde 1880.

[4] Esta é a referência mais evidente: Bento Carqueja, na altura lente substituto da 16.ª cadeira (Economia Política. Legislação de minas, industrial e de obras públicas) e simultaneamente colaborador do jornal O Comércio do Porto (era sobrinho de um dos fundadores e viria a ser co-proprietário e director), que tinha a sua sede na Rua da Ferraria (actual Rua do Comércio do Porto). Os outros bispos/bispotes ("bispote" é um termo popular para penico) são também referências a professores da Academia Politécnica (ou talvez a outras personalidades da época).

[5] No original está "peligrination" mas, a menos que o objectivo fosse misturar latim macarrónico com francês macarrónico, não faz sentido. Deve ser uma gralha (há muitas no texto original).

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Dois documentos sobre o uso da capa e batina no Porto em 1929 e 1930

Interrompo o longo silêncio neste blogue para dar a conhecer dois interessantes documentos sobre o uso da capa e batina na passagem dos anos 20 para os anos 30 que encontrei nos últimos meses.

Começo por uma fotografia retirada da revista brasileira Lusitania ("revista illustrada de approximação Luso-Brasileira e de propaganda de Portugal"), n.º 36, de 16 de Julho de 1930. A fotografia aparece inserida numa reportagem fotográfica, por José Mesquita, sobre uma iniciativa de caridade realizada no Porto, a "Venda da Flor". Aí vêem-se dois estudantes de capa e batina (clicar para ampliar a imagem, de forma a distinguir o estudante em segundo plano, com a capa no ombro direito). Na respectiva legenda lê-se "Maria Thereza, odorifero cravo dos jardins do Porto, “cravando” um pobre academico".

O que tem esta fotografia de fora do comum? Simplesmente, e não é pouco, a espontaneidade.
A esmagadora maioria das fotografias antigas em que aparecem estudantes do Porto de capa e batina são fotografias de pose: retratos tirados em estúdios fotográficos, fotos de curso ("os quintanistas de Medicina do ano x"), fotografias institucionais da tuna ou orfeão; na melhor das hipóteses, temos fotos tiradas durante alguma excursão ou digressão de um grupo académico. Por muito interessantes que sejam, as fotos de pose transmitem pouca informação sobre o uso quotidiano do traje académico.
Na foto apresentada aqui, pelo contrário, vemos dois estudantes surpreendidos em plena baixa, possivelmente a caminho ou à saída das aulas, usando o traje académico de forma descontraída. Capa ao ombro num caso, segura no antebraço no outro. O estudante em primeiro plano traz uma boina[1].

O segundo documento é uma verdadeira preciosidade.
Trata-se de um filme, preservado na Cinemateca Portuguesa, sobre uma excursão de alunos do Liceu Alexandre Herculano em 1929. (Clicar para abrir a página da Cinemateca com o filme; não consegui encaixar ["embed"] directamente o vídeo.)
Duas notas: o filme parece montado aleatoriamente, e não por ordem cronológica; um mapa com as localidades visitadas pode ser visto aos 9m34s.
De realçar a grande implantação da capa e batina no Liceu Alexandre Herculano nesta época.
Quanto aos pormenores no seu uso que fogem aos cânones praxísticos do séc. XXI, dariam panos para mangas...






[1] Embora possa ser surpreendente para alguns, não é inédito - conheço fotografias de uma excursão da Tuna em 1932 em que um dos elementos usa boina; e o antigo dux veteranorum Flávio Serzedello contou-me em conversa nos anos 90 que no seu tempo (anos 40 a 60) havia no Porto quem usasse boina com capa e batina - ao contrário do gorro, que não era usado.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Qvid Tvnae?
A Tuna Estudantil em Portugal

(Para comprar, ir a http://www.euedito.com/qvidtvnae.)

Foi recentemente publicado o livro Quid Tunae? - A Tuna Estudantil em Portugal, de Eduardo Coelho, Jean Pierre Silva, João Paulo Sousa e Ricardo Tavares, que se apresenta como "a primeira obra sobre tunas estudantis em Portugal". Esta primazia, tanto quanto sei, é justificada: existe (pelo menos) um livro sobre tunas populares; existem alguns livros sobre tunas estudantis específicas;  mas este é o primeiro livro em Portugal que aborda o fenómeno tuna estudantil de uma forma global.
O livro está estruturado em quatro partes.
Na primeira, os autores dedicam-se a desfazer dois tipos de mito: o de que as tunas "já vêm da Idade Média" e certas etimologias fantasiosas da palavra "tuna" (pelo caminho indicam qual, dentre as várias possíveis origens desta palavra, é a que lhes parece mais credível; e fazem também algo que a mim me parece muito mais interessante e relevante - mostram a grande alteração semântica que a palavra sofreu no século XIX, de "vida folgazã" para determinado tipo de grupo musical).
A segunda parte trata da origem e desenvolvimentos das estudiantinas e tunas em Espanha (com prolongamentos na América Latina e ainda noutras paragens, por vezes surpreendentes).
A terceira parte aborda as estudantinas e tunas em Portugal (e, brevemente, antigas colónias e Brasil) do final do séc. XIX até aos anos 60/70 do séc. XX. Trata-se das tunas "à antiga", de um imenso mundo de tunas populares e académicas (incluindo inúmeras liceais) que poderá surpreender muita gente.
A última parte é sobre a "segunda vaga" de tunas estudantis em Portugal, de 1982 a 1995. De facto é só aqui, neste período que começou há trinta anos, que a maior parte dos potenciais leitores encontrará as tunas tais quais as conhece.
Os quatro autores, trazendo larga experiência da sua participação em sete(!) tunas, não caem na armadilha de achar que a prática lhes dá autoridade em matérias históricas e/ou teóricas. Na verdade, nota-se que este livro resulta de vários anos de pesquisa documental e provavelmente de inúmeras discussões.
Na primeira leitura que fiz, aprendi já muita coisa. E conto aprender mais em futuras consultas e seguindo algumas pistas aqui lançadas.
Os autores não se coibem de apresentar as suas opiniões. E devo dizer que em muitos casos discordo dessas opiniões. Mas são opiniões fundamentadas - e é agradável poder discordar de opiniões fundamentadas (o mais frequente quando se trata de tradições académicas é ver-me confrontado com disparates gratuitos, contra os quais não se pode argumentar...).
Assim, o aparecimento deste livro é de saudar por várias razões: por ser a primeira obra em Portugal sobre as tunas estudantis; por serem raros os trabalhos sobre tradições académicas; e por serem ainda mais raros os trabalhos honestos sobre tradições académicas.
Não tem defeitos? Seria impossível não ter. A mim desiludiu-me um pouco a qualidade de reprodução das fotografias (e há imagens interessantíssimas), o que talvez seja uma consequência inevitável do processo de edição ("de autor"). Naqueles assuntos em que percebo alguma coisa, notei alguns erros factuais, mas poucos e geralmente pouco relevantes (por ex.: a Mini-Queima do Porto foi em 1978 e não em 1982). Há várias secções em que a escolha que fizeram do que incluir e do que excluir é discutível (mas aqui estamos mais uma vez no campo das opiniões).
Resumidamente: foi um prazer ler este livro, que é agora elemento de consulta indispensável sobre o seu tema. Todos aqueles que se interessam pelas tradições académicas (e especialmente por tunas, claro) devem ficar gratos aos autores, que estão de parabéns!

quarta-feira, 14 de março de 2012

Tradições Académicas Portuenses:
Breves notas, vividas, de uma "História" em criação
*

Armando Luís de Carvalho Homem

[Artigo publicado originalmente no Boletim da Universidade do Porto, n.º 9 (Junho de 1991), págs. 29-33 e republicado (com ligeiras alterações) no blogue Guitarra de Coimbra, de Octávio Sérgio, em 1 de Agosto de 2005.
A versão abaixo inclui o que foi introduzido em 2005 mas também o que foi então retirado - nomeadamente as fotografias que acompanhavam a publicação original.
Agradeço ao Prof. Doutor A. L. Carvalho Homem a autorização para esta terceira publicação.]



À memória do Doutor Luís Vasco Nogueira Prista († 2004),
lente de Farmácia, universitário à part entière


1. Dos Clérigos ao Carregal: um Estudo na Cidade

É uma praça. Como tantas outras. Quadrangular. Trapezoidal, digamos. E orientada, grosso modo, segundo os pontos cardeais. Nos vértices e num dos lados paralelos vêm convergir outras praças e diversos arruamentos; enquanto que outro dos lados é todo ele preenchido pela embocadura de mais uma rua, que vai estreitando, qual funil, para terminar num pequeno largo. Diversos nomes teve já a nossa praça: Largo do Carmo, Praça da Universidade, Praça Gomes Teixeira. Mas para o habitante médio da Cidade tem sido, e por certo será, «os Leões», nome advindo da brônzea fonte ornada de quatro regorgitantes espécimes da soberana espécie que lhe está ao centro.
Desloquemo-nos para a placa central da praça; contornemos a fonte pelo lado Leste e, voltando-lhe as costas, olhemos para Sul: à nossa frente, ‘monopolizando’ esse lado, está um maciço edifício onde alternam o cinzento da pedra, o branco da tinta e o verde dos portões. Para os mais idosos dos habitantes do Burgo, é, ainda hoje, «a Universidade». O qualificativo nunca teve total razão de ser. Berço de uma das mais antigas Escolas Superiores portuenses (a Academia Politécnica, na raiz da Faculdade de Ciências), jamais o edifício terá albergado a totalidade do Ensino desse nível, quer antes, quer depois de 1911. Não tendo nunca total razão de ser, não tendo hoje (salvo por ‘inércia’ terminológica) qualquer razão de ser, o qualificativo teve no entanto, e por muito tempo, suficiente razão de ser: albergando a Faculdade de Ciências, naquela Casa sediavam também a Reitoria e diversos Serviços Centrais (o que aconteceu até aos anos 70); e o Salão Nobre respectivo foi durante décadas a «sala dos actos» do Estudo Geral portuense.
Quanto ao mais, tudo se processava por ali perto: no largo ao fundo da referida rua em funil situava-se a Faculdade de Medicina (sucessora da Escola Médico-Cirúrgica), tendo ao lado um hospital, também Escolar. Dos Clérigos ao Carregal: num limitado espaço, duas das Escolas ‘fundadoras’, os Serviços Centrais, as sedes dos Organismos estudantis, cafés e restaurantes de frequência acentuadamente universitária, pensões, residências, casas alugando quartos... Tudo, ou quase tudo, nesse limitado espaço, acrescido de dois eixos que o prolongavam: por Cedofeita, até à Rua dos Bragas (sede, até 2001, da Faculdade de Engenharia); pelo Rosário / Boa Hora, até à Rua Aníbal Cunha (sede da Faculdade de Farmácia); pelo caminho ficando uns tantos lares e as sedes dos Serviços Sociais e Desportivos. E mesmo as Escolas de mais tardia fundação (e tomando os anos 70 como terminus ante quo) aí se iriam situar: Economia (1953; funcionou nas «águas-furtadas» da Faculdade de Ciências até ao Outono de 1974) e Letras (1962)[1].
Dos Clérigos ao Carregal (e prolongamentos)...: num limitado espaço todo um viver estudantil. Que a dado momento se terá plasmado em práticas bem próprias: o uso de um traje, o comemorar condigno do final do ano lectivo e do termo dos cursos, o preenchimento dos tempos livres (?) com determinadas actividades artísticas – mormente teatrais e musicais, sendo de salientar dentro destas últimas certas formas de música vocal-instrumental (tunas, orquestras de tangos), as danças e cantares regionais ou, finalmente, um determinado género, tipicamente estudantil, assente numa dada forma de cantar e num típico suporte instrumental: o «Fado de Coimbra». ‘Imitação’ dos comportamentos estudantis da mais antiga Universidade portuguesa? Um ‘purista’ afirmá-lo-ia sem hesitar. Mas tudo depende do que se entender por ‘imitação’. No fundo, será de surpreender que uma comunidade estudantil, vivendo numa Cidade não-universitária mas confinando-se espacialmente, ‘reproduzisse’ certas práticas? O mesmo não se ia passando em tantos Liceus da Província (mormente no Interior-Norte e Centro) e, mesmo no Porto, no mais ‘provinciano’ dos seus Liceus masculinos (o Alexandre Herculano)? Nada tem pois, quanto a mim, de menos ‘digno’ que o Porto tivesse a tradição que foi tendo[2], os Organismos que se foram criando (um Orfeão, uma Tuna, uma Orquestra Universitária de Tangos [estas duas mais tarde integradas no Orfeão], um Teatro Universitário [1948], mais tarde um Coral de Letras [1966]), que esses Organismos procurassem um público ‘médio’, no País ou fora dele: as «digressões» processavam-se aonde quer que houvesse «núcleos de Portugueses espalhados pelo Mundo» – África(s), Brasil, Estados Unidos, pontualmente Venezuela; na Europa ficavam-se pela vizinha Espanha: a ‘descoberta’ do Velho Continente viria bem mais tarde...[3]



2. O Estudo Pela Cidade...

Mas um dia... já nem tudo vai estar entre os Clérigos e o Carregal. Uma população escolar que cresce, exigências científicas e pedagógicas que acrescem... O espaço universitário distende-se. E ainda que pelo caminho tenham ficado projectos de expansão na zona histórica (cadeia da Relação, mosteiro de S. Bento da Vitória...), o ‘crescimento’ verificar-se-ia alhures: com a construção do Estádio Universitário, logo prolongada pela instalação do Jardim Botânico na Casa Andresen (anos 40/50), esboça-se o pólo do Campo Alegre; e o da Asprela inaugurar-se-á em Junho de 1959 com o Hospital de S. João, nova sede da Faculdade de Medicina. E pela Cidade iriam também surgir novas residências...
E, depois, a comunidade estudantil dos anos 60 já não iria ser a mesma. Repare-se: o traje académico, na feição que adquirira no início do século XX (uma batina estudantil está próxima de uma sobrecasaca oitocentista), andava em paralelo com o uso quotidiano do «traje de passeio» (leia-se: fato e gravata). E o jovem comum propendia a afastar-se de tal vestuário. Consequência: as marcas exteriores de uma certa Tradição começam a sair do quotidiano e a só surgir em Abril/Maio, aquando da «Queima». Os próprios membros dos Organismos Artísticos tenderam então a envergar a capa e batina apenas aquando de apresentações públicas, qual ‘traje de cena’, como a casaca dos músicos «clássicos». E mesmo as actividades destes Organismos estavam em vias de deixar de dizer algo a boa parte da população estudantil, em tempos de declínio de interesse pela música coral, de ‘explosão’ do pop/rock ou de posse, cada vez mais frequente, de uma formação musical autêntica por estudantes universitários[4]. Por outro lado, o «Fado de Coimbra», num meio muito mais intérprete que criador[5], tendia a estagnar; quaisquer tentativas de fazer algo de diferente[6] – e falo por experiência própria – chocavam com a difícil receptividade do público, a começar pela própria ‘primeira fila’ que eram os Colegas de Organismo; sempre ‘caía melhor’ o «Passarinho da Ribeira»...
Finalmente, o ‘radicalizar’ de posições na viragem dos anos 60 para os 70 levou a esquerda estudantil à contestação global da Tradição, identificada com «conservadorismo / reaccionarismo / elitismo / marialvismo castrado»..., quando não com adesão ao regime político do tempo; contestação larvar a partir de 1968; contestação frontal a partir de 1971: em Abril deste último ano, e na sequência de acontecimentos que aguardam ainda o seu narrador, teria lugar, em clima extremamente tenso e com cumprimento de apenas uma parte do programa, a última «Queima das Fitas». Clima tenso, mas que logo se distendeu; aparentemente, afinal, as Tradições pouca falta faziam...; e quase todos os que em –71 as defenderam logo se desinteressaram[7]. E tudo pareceu terminar...



3. Um Estudo a cada Esquina da Cidade?

Assim, 1974 não vai representar nada em matéria de Tradições Académicas, desaparecidas, como se viu, cerca de 3 anos antes. A década de 70 é portanto, praticamente toda ela, de ‘vazio’ nesta matéria.
E é nos anos 70 que a Universidade do Porto se expande decisivamente, esboçando o facies actual: cresce a sua população, fundam-se Escolas e Serviços, projectam-se e constroem-se edifícios, tudo em torno dos três pólos já indicados. Ao mesmo tempo que ao Porto se estende a Universidade Católica, que na Cidade surge o Ensino Superior Privado e Cooperativo e que diversas outras Escolas se criam ou reconvertem, vindo a dar origem ao Ensino Superior Politécnico; e, também aqui, a iniciativa estatal se tem visto complementada pela privada e cooperativa. E todas as novas (ou transformadas) Escolas foram tendendo a aderir a práticas e festejos entretanto ressurgidos (mormente a «Queima das Fitas»), ‘federando-se’ a diversidade dos Estabelecimentos na reaparecida designação de «Academia do Porto».
Tal ressurgimento teve as suas primeiras manifestações na Primavera de 1977, quando o Orfeão Universitário e Associação dos Antigos Orfeonistas da UP comemoraram os seus 65.º e 10.º aniversários, respectivamente, com 2 Saraus, realizados no Rivoli e no Coliseu. Estas iniciativas foram pacíficas (o Orfeão só em 1976 não realizara o seu Sarau Anual no Rivoli). O mesmo se não dirá de algo ocorrido no ano seguinte: estudantes de algumas Faculdades lograram realizar uma «Semana Académica»; apesar de contestada, a iniciativa teve continuidade, logo em 1979 se recuperando a designação «Queima das Fitas». Ressurgimento este, portanto, em termos não propriamente pacíficos. No fundo, e por banda de sectores estudantis (e político-partidários) opostos, uma contestação à contestação de uns tantos anos antes... Nesses primeiros tempos, as restauradas Tradições estão assim longe de unir a população estudantil, bem pelo contrário[8].


E hoje [1991], mais de uma dúzia de anos decorrida?
Para alguém com a minha idade (40 anos), o meu percurso estudantil (Liceu Alexandre Herculano / Faculdade de Direito de Coimbra / Faculdade de Letras do Porto) e a minha vivência das tradições musicais a sensação é, não raro, de alguma perplexidade. Os anos de interrupção fizeram perder a memória de comportamentos, práticas, símbolos; ‘codificação’ não existia; a bibliografia era escassa e inencontrável; e a transmissão oral (perguntar ao pai, ao avô, ao irmão mais velho, a algum professor mais antigo...) não resolve tudo... Daí que alguém do meu tempo amiúde se veja confrontado com práticas, por assim dizer, ‘exóticas’: das ‘fantasias’ vestimentais, a peditórios na via pública para... viagens de finalistas (!!!!), até ao ‘ressuscitar’ do menos simpático dos aspectos da Tradição – o gozo aos caloiros (a «praxe» stricto sensu), coisa de ténue prática no Porto (salvo no Orfeão Universitário), que de qualquer modo desaparecera das Faculdades muito antes de 1971 e que hoje se exerce em termos não raro pouco dignificantes, chegando-se inclusivamente (coisa impensável há 30 ou 40 anos) a perturbar o funcionamento de aulas! Por outro lado, o número dos indivíduos e instituições abrangidos por este universo de comportamentos é hoje consideravelmente mais lato: onde tínhamos uma Universidade com umas tantas Faculdades temos hoje uma «Academia» com uma multidão de Escolas: estatais, privadas e concordatárias, universitárias e politécnicas. É corrente, nos mais díspares locais da Cidade, cruzar-me, em certas épocas do ano, com grupos de estudantes trajados a rigor, ostentando insígnias de cores inesperadas; de onde, a natural pergunta: – Que Escola ou Instituto por aqui se localizará ?!
Numa «Academia» com uma tal dimensão e dispersão serão ‘lógicas’ manifestações unitárias ‘monstras’, como um Cortejo mantido em dia de normal laboração, ou uma serenata «monumental» que já chegou a realizar-se na Avenida dos Aliados, precedida de ‘passagem’ de música rock (gravada), não sei se para ‘criar ambiente’?!
Um ‘veredicto’ final condenatório? Só que um criador cultural, e logo no âmbito das Ciências Humanas e ainda por cima historiador, tem que manter a serenidade das suas apreciações. Por isso finalizarei com duas sucintas notas, serenas:

a) Se uma população de milhares e milhares de estudantes – e mesmo descontando o factor ‘propaganda’, que leva as Escolas jovens a reproduzir práticas com uma longa tradição nas mais antigas – assume determinados comportamentos é porque eles lhe dizem algo. Não caiamos agora no simplismo do diagnóstico de «alienação» (de tantos milhares...) ou, nos tempos que correm, em elementares acusações de estratégias partidárias, conservadoras ou não.

b) Em certas semanas lectivas, alguém que é docente universitário há mais de 18 anos, que enquanto estudante viveu as Tradições e com mágoa assistiu ao seu desaparecimento, vê-se rodeado de alunos, finalistas, nomeadamente, que lhe pedem um autógrafo nas fitas, o apadrinhamento da imposição da cartola, lhe parodiam as aulas na «sessão de serrote», lhe solicitam a presença em múltiplos encontros de confraternização... Um tal docente, vivendo um ofício de árduo exercício num ambiente não raro propenso a tensões, não pode, nessas semanas, deixar de se sentir acrescidamente compensado, deixar de sentir... «uma terna consolação» (Eça de Queiroz).

Porto, Primavera de 1991






* As observações que este artigo consubstanciou integravam-se na preparação de um volume – Universidade do Porto (1911-1991): História, Estórias – a coordenar pelo autor e a publicar em 1992, no âmbito das actividades do Projecto ALMA MATER (coord. Luís V. N. Prista) e da FUNDAÇÃO GOMES TEIXEIRA (coord. do Vice-Reitor Eduardo Oliveira Fernandes). Nos meses finais de 1991, estes dois Mestres (que em mim depositaram inesquecível confiança) desvincularam-se dos cargos e funções que exerciam; de onde, a não-concretização do projecto. De qualquer modo, reitero agora os agradecimentos então feitos pelas colaborações que recebi: Reitoria, Fundação Gomes Teixeira, Órgãos Directivos das diferentes Escolas, Serviços e Organismos da UP, Dr.ª (hoje Prof.ª Doutora) Amélia Polónia da Silva (Fac. Letras) e Dr.ª (hoje Prof.ª Doutora) Amélia Ricon Ferraz (Fac. Medicina).

[1] A este respeito não deixa de chocar a localização ‘excêntrica’, na Quinta Amarela (a caminho do então suburbano Carvalhido), da Faculdade de Letras em parte do seu primeiro tempo de vida (1919 ss.). ‘Excentricidade(s)’ (que outras houve...) sempre impeditiva(s) de uma perfeita integração da Escola na UP; e à(s) qual(is) não será estranho o seu fim (1928-1931), sem glória nem grandeza.

[2] Deixo de lado toda e qualquer explanação ‘erudita’ sobre a cronologia de tais Tradições: com isso se não compadecem os limites de espaço, o tempo breve que tive para redigir este texto e o carácter mais vivencial do que histórico-sociológico que lhe quis imprimir. Direi, no entanto, que as raízes são remotas, anteriores, até, à criação da Universidade. Como renuncio a qualquer abordagem das (problemáticas) especificidades da Tradição portuense: não raro esse tipo de preocupação redunda num nada saudável ‘bairrismo’; salientarei apenas, e a esse propósito, a maior precocidade na adaptação do traje académico ao uso por estudantes do sexo feminino; porque, com efeito, os Organismos portuenses foram mistos mais cedo; salientarei também uma ‘originalidade’ portuense que consistia no uso frequente da pasta com fitas ou grelo sem o traje académico; e salientarei ainda que, encravada numa grande Cidade, a população estudantil nem sempre terá sido vista do melhor grado fora dos limites da sua micro-«cidade universitária»: de longa data, por exemplo, os portuenses ‘vernacularmente’ se queixavam dos engarrafamentos de trânsito provocados pelo Cortejo da «Queima das Fitas», isto nos anos 50, bem antes de outras formas de contestação.

[3] Com efeito, só no final dos anos 70 os Organismos musicais começariam, com certa regularidade, a deslocar-se a países europeus, já para actuar junto de comunidades de emigrantes (e aqui havia apenas o precedente do Orfeão, França/1967), já para participar em Festivais de Coros ou de Folclore (e aqui o papel de pioneiro cabe ao Coral de Letras, Escócia/1970 e Itália/1971).

[4] Uma ‘saída para a crise’ terá então estado na melhoria do reportório e da preparação vocal dos coros universitários, agora crescentemente voltados para a polifonia religiosa, para J. S. Bach ou para a música popular com harmonizações de Fernando Lopes-Graça, isto num processo iniciado ca. 1967 por Günther Arglebe no Orfeão e por José Luís Borges Coelho no Coral de Letras e prosseguido mais tarde por Mário Mateus (1973 ss.) no primeiro destes Organismos.

[5] E se alguns guitarristas e cantores de ‘Velha Escola’ ainda procuravam seguir a lição de Artur Paredes / Edmundo Bettencourt, a grande maioria ficava-se pelo mais ‘cinzento’ repertório coimbrão dos anos 40/50; no máximo da modernidade, chegar-se-ia ao conteúdo do álbum Coimbra Quintet, gravado em Madrid para a PHILIPS em 1957, por Luiz Goes / António Portugal / Jorge Godinho / Manuel Pepe / Levy Baptista.

[6] V.g. incluir no reportório temas do ‘último’ Luiz Goes (discografia 1967 ss.), de José Miguel Baptista, de José Manuel dos Santos ou de António Bernardino, e isto para já não falar das «trovas» de M. Alegre / Portugal / Adriano, as quais mantinham o suporte da guitarra, contrariamente às «baladas» de José Afonso; ou peças de Carlos Paredes (que "heresia"!...) ou Jorge Tuna.

[7] Só o Orfeão manteve, e por mais algum tempo, o uso da capa e batina; ainda que em 1972 ou –73 usar o traje na rua pudesse comportar a audição de alguns ‘piropos’ não muito agradáveis...

[8] Na Faculdade de Letras, em 1978 e 1979, o apoio ou não-apoio à "Semana Académica" / "Queima das Fitas" chegou a ser objecto de acesa discussão na Assembleia de Representantes.