quinta-feira, 13 de maio de 2010

Já lá vão mais de 50 anos!...

[Prof. Dr. António de Almeida Garrett, Porto Académico, n.º único de 1962, págs. 27-29.
Suprimi algumas passagens, que consistem na listagem de professores e colegas (do mesmo ano ou de anos próximos) do autor.]


Mais de meio século decorreu sobre a minha passagem pelos bancos da Escola Médica, daquela querida pequena casa, tão diferente da que encobriu com lavrado granito os seus muros singelos, que o que possa escrever a bem poucos poderá interessar. Só servirá para activar saudades dos alegres tempos da mocidade aos velhos de perto dos oitenta ou que já os ultrapassaram, e esses poucos são. Basta atentar em que do meu curso, de 1901-06, que era de cinquenta, só restam onze; e nos cursos vizinhos, foi semelhante a razia. Aos mais novos apenas poderá fazer lembrar médicos que conheceram ou que todavia conhecem, por ainda por aqui andarem, aguardando a eterna despedida. Tudo isto é bem pouco para justificar estas laudas, mas já que V. as quer, assim mesmo, aí vão, despretensiosamente, ao correr da pena.

Começarei pelo primeiro passo: o ingresso dos caloiros da Médica. Matulões dos últimos anos juntavam os neófitos à porta da Politécnica, frente à Cordoaria, e de ali os levavam em cortejo, num alarido de gaitas estridentes e álacres chalaças, até à entrada da Escola, para a simbólica adopção de discípulos de Esculápio. Escolhiam os mais graúdos para pegar na tosca padiola, destinada ao bobo da festa, ao penico e competente vassourinha, a peça essencial do cortejo. Naquele ano fui eu o padiolado, por determinação do grupo organizador, chefiado por um barbaças, o Teixeira Bastos, mais tarde colega na docência e queridíssimo amigo.

Principiava para nós, com entusiasmo e certa repugnância, o estudo da anatomia, que era preciso saber bem, pois no exame era profusa a chumbaria. Depois, as dificuldades iam abrandando, até ao acto final, o da consabida tareia da defesa da dissertação inaugural.

Ao tempo, o ensino era quase todo teórico, livresco, excepto na anatomia e nas clínicas. O regímen continuava o do Liceu: frequência obrigatória com marcação das faltas, lição designada para a aula seguinte, chamada dos alunos para exporem a matéria da lição, entremeada ou seguida pelos comentários dos professores. Na anatomia trabalhava-se a valer, no teatro anatómico, sob o vigilante olhar estrábico do velho Ferreira, o «rapa-caveiras»; como que estou a ver o quadro, com o mestre Viegas entrando imponente, de sobrecasa sobre o vistoso colete de fantasia, reluzente cartola, para investigar, de mesa em mesa, apontanto com a bengalinha a peça que estávamos dissecando: o que é isto? e isso? Nas clínicas, as aulas decorriam nas enfermarias, com a leitura dos relatórios feitos pelos alunos a quem os doentes foram distribuídos para estudo, e sequente prelecção do professor, comentando e acrescentando os relatórios; a parte teórica já vinha sabida das cadeiras de patologia, interna e externa, estudada pelos respectivos compêndios.

Tudo mudou quando veio a Faculdade, vieram assistentes, se desenvolveu o restrito ensino das ciências laboratoriais; a verdade, porém, é que, para o que então era a medicina, a preparação dos alunos inteiramente ombreava com a das outras escolas e mesmo com a das estrangeiras, em vários pontos, mormente o da anatomia, que já em 1885 (como apontou Ricardo Jorge) se ensinava no Porto como se não ensinava em Paris, trinta anos mais tarde.


Era notável a galeria dos mestres, que recordo com sentida veneração, todos desaparecidos, e quase todos há muito, da cena deste mundo.
[...]


Quando andava no primeiro ano, estava no quinto um curso que deu brado, o último curso do Dr. Lebre, a quem prestaram memorável homenagem, o primeiro curso que se abalançou a dar uma récita de despedida, espectáculo que teve um êxito retumbante. Havia nele muitos valores de real mérito, de alguns dos quais me tornei amigo certo, anos depois, como foram Carteado Mena, Raúl Outeiro, Pacheco de Miranda, Manuel de Castro, José Gomes, Vitorino de Magalhães, César Machado, todos destacadas figuras do nosso meio médico; e ainda o primoroso espírito e cintilante literato que foi Campos Monteiro. Lembro-me do incorrígivel boémio João Pinto, cujas «partidas» ficaram famosas na história das garotices académicas. Lembro-me das irmãs Pratas, e do epigrama (seguramente da autoria de Campos Monteiro) que entre gargalhadas deu a volta à Escola:
Diz a Prata, a Guilhermina,
Que o Vitorino nasceu
De um osso sesamoideu
Que a mãe tinha na vagina...

É que Vitorino de Magalhães era muito baixo, o que não o impediu de vir a ser distinto médico militar. Pelo contrário havia no curso um agigantado, o Eduardo de Oliveira, que por isso tinha a alcunha de «Danton», e foi urologista considerado.

[...] Aarão de Lacerda [...] foi meu professor de Zoologia na Politécnica e [...] já em adiantada idade se fez aluno de Medicina. Por essa altura frequentavam a Escola três figuras invulgares, que despertavam a atenção da estudantada: o poeta Manuel Laranjeira, com a sua gaforina e completo desprezo pela indumentária, Manuel de Oliveira, que tinha fama de invulgar inteligência e vasta cultura, e o boémio Trinta, com grandes barbas e não menor pilhéria.

[...]

Suspendi, para recordar mestres e estudantes, o apontamento sobre a vida dos escolares da Médica nesses primeiros anos do século. Retomo o tema com breves notas, arrancadas às profundidades da memória.

Como sempre sucedeu e sucederá, em cada curso há um pouco de tudo: filhos de abastados e de mal remediados, cuidadosos e desmazelados, fragoeiros e pacatos, de gostos vários e várias preocupações; mas há geralmente uns quantos, de temperamento mais vivo, que exibem carácter destacante, a deixar especial lembrança. São eles os agitadores do conjunto, os promotores dos folguedos violadores da quotidiana rotina.

Já aludi à récitade despedida dos quintanistas de 1902, acontecimento famoso nos anais da academia. Foi à cena uma farsa em verso de Campos Monteiro, «Os Filhos de Minerva», com trechos musicais de Manuel Monterroso e Lima Elias, seguida por uma paródia à Ceia dos Cardeais, em que actuaram Armindo Chaves, Pacheco de Miranda e Raúl do Carmo Pacheco. E o espectáculo findou com Manuel Monterroso a desenhar em largos traços espirituosas caricaturas dos mestres. Festa de arte e graça, como tinha de ser a de um curso de escol.

Logo no ano seguinte outra récita de despedida, espécie de revista - Visita de Mestre -, encheu o Teatro de S. João, em risonha festa. A letra era de Damião Lourenço que foi distinto clínico em Caminha, e a música de Lobo das Neves e Henrique Teles, este, notável médico bracarense. Entraram na função alguns que do Porto eram ou que por cá ficaram: Costa Miranda, Manuel Bragança, Simões Pina, Manuel José Pereira, Pinto da Silva, João Vieira; e nos coristas figurou Aarão de Lacerda, o lente estudante.

Campos Monteiro já então mostrara aquela garra do escritor de raça, que veio a dar uma pujante obra em prosa e verso, que vai desde o terno lirismo à sátira mordaz. Na geração do meu tempo foi sem dúvida a maior figura literária, a de mais excelsas e polimorfas faculdades. Só João de Meira as possuía semelhantes, mas a morte, que precocemente o levou, só permitiu que deixasse amostras de um talento e cultura excepcionais, de variados matizes.

Já que atrás citei um epigrama de Campos Monteiro, aqui fica outro de João de Meira. Um dos mais espertos rapazes do meu curso era Serafim de Barros, trasmontano de Alijó, alegre folião, noctívago jogador, estudando o mínimo possível para passar, o que obtinha facilmente e com regulares notas. À sua cabulice dedicou Meira esta engraçada quadra:
O Serafim está doente
De tanto e tanto estudar.
Com certeza vai a lente,
Vai a lente... de aumentar.

Outros, porém, embora então com menor saliência, escreviam também.
Desses especifico António Patrício, do curso a seguir ao meu, que ao sair da Escola publicou os discutidos versos do «Oceano» e veio a ser o favorito duma alada e trágica musa. Faziam roda, por vezes, os mais dados às coisas literárias, e Patrício era no grupo a voz dominante, com sua acerada verve. Vou nesta recordação juntar-lhe outra figura cujo nome ficou, Manuel Laranjeira, evocando uma sua resposta a tempo. Patrício, dândi e amaneirado, presumindo grandezas, voltado para Laranjeira, de jeitos inteiramente opostos: «Ontem comi faisão. Ó Laranjeira, V. já comeu faisão?». Ao que este logo retruca: «Eu, nem de pu...». Sicalítico, mas chistoso a mais não.

De resto, o amor pela leitura e pelas ideias gerais era moeda corrente. Vivia-se mais introspectivamente do que em tempos posteriores. Como todos sabem, uma série de factores, entre os quais avulta a progressiva expansão do automóvel, do cinema e dos desportos, foi modificando os hábitos de toda a gente; a vida tornou-se apressada e voltada mais para fora do que para dentro. Tínhamos poucas horas de escolaridade, havia vagar para o comércio espiritual da conversa e da leitura.

Isto vinha já do Liceu, em regra havia apenas duas aulas por dia, e raro se cursavam mais de três disciplinas, cujos exames se faziam no fim do ano. Por certo escandalizarei os pedagogos dizendo que os rapazes saíam com uma preparação melhor do que a de hoje, com a prolixidade desorientadora dos programas e diluição por vários anos. Estudava-se somente o básico, essencial, e este ficava-se sabendo com segurança. Com um ano de português e outro de francês, não havia estudante de curso superior que não soubesse redigir correctamente (hoje, em regra, que desgraça!) e não pudesse ler, sem grandes dificuldades, os romances que então andavam nas nossas mãos, tais os de Balzac, Flaubert, Zola, Daudet, etc. Estudavam-se duas disciplinas nos primeiros anos do Liceu, mas o que se aprendera ficara tão gravado que facilmente, na Politécnica, liam os compêndios franceses, de física, botânica e zoologia, e aprendiam a respectiva matéria, os que se haviam contentado com os escritores nacionais em voga, Camilo, Eça, Fialho, etc.

Entre as aulas que não eram seguidas, repassavam-se, ou passavam-se... as lições marcadas, sob as árvores da Cordoaria ou do Palácio de Cristal; os do meu curso muita vez jogando, no pequeno terreiro ladeante do Teatro Anatómico, uma curiosa variedade do «fito» que o António Lobo trouxera de Valpaços e ao qual demos o pouco decente nome de «pico».

À tarde, em regra depois do jantar que então era pelas cinco horas ou pouco mais, era uso geral a frequência de cafés, de casas que há muito desapareceram. Os mais concorridos eram o Central, que ficava ao lado da Farmácia Birra, onde hoje é parte do Imperial, e o Chaves que ficava na esquina das ruas de D. Pedro e do Laranjal, demolidas para dar lugar à Avenida dos Aliados. A grande maioria só de longe a longe saía do ramerrão diário, com recolha à casa familiar ou à «república», por volta das nove ou quando muito das dez, para ir ao teatro ou para ceata alegre num dos vários comedoiros de nocturno serviço, como os do João do Buraco ou do Faria dos Bigodes, para não falar no célebre Túnel, de freguesia mais endinheirada.

Além das duas festanças de todos os anos, a da entrada dos caloiros e a da entrega da pasta ao findar do quinto ano, em que a feição agarotada tinha certo ar literário (sem o tumultuoso alarido que foi vulgar muito mais tarde), no carnaval do meu primeiro ano houve uma função de estrondo, em que entraram alunos de todos os cursos. Foi no Teatro Anatómico, adrede engalanado, para se desenrolar o funeral da «Vadiana», produto do «Dr. Qu'enterra», em cáustica flagelação do reclamo que um clínico portuense (Quintela) fazia de uma «Badiana Fosfatada de Sued», como curadora da tuberculose. Lembro-me de discursos de irresistível comicidade, e que foram tremendas as gargalhadas quanto entrou o supliciado na forma de um jumento branco; e também que no final uns pseudo-cegos cantaram o fado da autoria de Arnaldo Braga, intitulado «Grande e órrivel querime praticado por uma grande marvada», letra que se vendeu a pataco, sendo o produto destinado a tuberculosos pobres.

Nos começos de 1902 a Academia de Coimbra lançou uma greve de carácter político, a propósito de qualquer medida governamental de ordem financeira, greve que foi secundada pelos alunos da Politécnica, da Médica e do Instituto, mas em dois dias furada pela grande maioria dos alunos de medicina, o que deu azo a que a manifestação em breve terminasse. Era o tempo dos comícios republicanos, quadra de forte agitação política, em que participavam muitos dos meus contemporâneos; mas dentro da Escola essa agitação não penetrava, não porque não houvesse uma geral simpatia pelas aspirações de renovação nacional, mas porque a rapaziada interessava-se mais por arte, literatura e medicina do que pelas coisas da política, que pouco entravam nas nossas conversas.

Também não existia a brotoeja juvenil de pretensão a reformadores do ensino, a que modernamente se deu o nome de «reivindicações da classe», tendo chegado, há coisa de uns trinta anos, a organizar-se uma associação «profissional» dos estudantes de medicina. No meu tempo, essas questões eram para os mestres, que as discutiam entre si, e por vezes acesamente.

Nós tínhamos mais adequadas e realizáveis preocupações, e tínhamos, sobretudo, o espírito de uma franca camaradagem, que não consentia propagandas desunidoras. Por isso foram tão famosas as alegres festas que recordei, como o foi a garraiada do meu curso, de terceiranistas, na Praça de Touros em Matosinhos. Organizada pelo Mata, alentejano e aficionado, que morreu coronel-médico reformado, e pelo grande animador de todos nós que era o Arnaldo Braga e nela fez de bandarilheiro; outros do Porto entraram no elenco «artístico», portando-se frente aos cornúpetos com garbo e valentia, como fossem Jorge de Oliveira (cavaleiro), Feiteira (D. Tancredo), Joaquim Nóbrega (cabo de forcados) e este vosso criado (abegão).


Que mais hei-de dizer? Parece-me que o que destaviadamente fui lançando ao papel é mais que suficiente para avivar lembranças queridas aos cabelos nevados; e aos que ainda estão longe da velhice para mostrar a diferença entre aqueles tempos da minha mocidade e os que com o dobrar dos anos e a mudança nos costumes tão diversos se tornaram. E que diferença! Tão grande como a que vai dos fartos bigodes e do chapéu de coco às caras rapadas e cabeças ao léu.

Melhores tempos? Piores? Não sei. Para nós, os da geração que há mais de meio século passou pela Escola Médica, têm um comovedor encanto; avivam o resto da chama que nos abrasava, enchem-nos o coração de infinitas saudades.

ANTÓNIO DE ALMEIDA GARRETT

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